Colaboracionismo

7 mai

O melhor tratamento para lucidez é a lobotomia.

Mais cedo ou mais tarde, eles vão lhe pegar. Tenha certeza disso. E a parte mais triste é que farão isso com sua colaboração direta.

Algum tempo atrás, após mais uma daquelas reuniões estapafúrdias do PSOL – em que se discute a conquista do universo pela manhã e a melhor maneira de derrotar trotskistas no período da tarde – fui tomar um café com um amigo. Neste caso, amigo é pouco. Além do afeto que sinto pela pessoa em questão, há o fato de tratar-se de uma das duas pessoas, sobre a face do planeta, que respeito intelectualmente. Pessoa viva, de carne e osso, ao meu alcance. O Marx, o Weber e o Durkheim, portanto, não contam. Enfim, um grande amigo, um grande cérebro e uma capacidade de análise crítica muito acima da média. Café vai, café vem e um debate sem fim sobre a tal da revolução, que teima em não chegar. O problema é a militância estéril? A dificuldade de diálogo com as massas? A inesgotável capacidade de autorreforma do capitalismo? Muito trabalho alienado combinado com muito fetiche da mercadoria? Tudo isso junto? Lá pelas tantas, com uma contribuição da antropologia, chegamos à conclusão de que falta criarmos uma “hermenêutica socialista”. Ou uma hermenêutica do socialismo ou, ainda, uma hermenêutica da militância socialista. Nesse contexto, hermenêutica remete à antropologia interpretativa do amável antropólogo norte-americano Clifford Geertz e seu conceito de descrição densa. Arredondando horrores, Geertz achava que o trabalho de campo deveria ser pautado pela construção de descrições contextualizadas da cultura alheia. Enxergar a cultura do aborígene como um texto que não podemos/devemos/conseguimos ler de forma direta. Desse modo, nos apoiamos sobre os ombros nativos e ficamos ali lendo, de rabo-de-olho, o que sua cultura escreve. Tal exercício é difícil na medida em que culturas são complexos articulados de símbolos que comportam múltiplos significados. Mas, simplificando tudo e voltando ao café com o amigo, a ideia era a de que, para além da análise das grandes estruturas de dominação, precisamos entender como as pessoas lidam com o modo de produção capitalista em seu cotidiano. Sentem-se exploradas? Por que diabos um pobre da periferia profunda, sua vítima preferencial, insiste em votar no Maluf? Por que um nano-fazendeiro, acossado por grileiros, acha o MST uma aberração? Por que boa parte de nossa classe média, de forma tão primitiva, abomina o senhor Lula da Silva – não por questões de orientação política ou econômica, mas, ainda, pelo fato de ele não ter um diploma? Naquele café de tarde inteira, chegamos à conclusão de que um pouco de etnografia faria bem à militância pelo socialismo. Ajudaria na compreensão dessas situações tão confusas à primeira vista.

Lembrei dessas questões, não sei exatamente porque, em virtude do texto logo abaixo, de autoria de meu bom amigo Guilherme. O carnaval é um daqueles temas caros aos antropólogos. O Roberto DaMatta acha que o festejo permite enxergar com maior acuidade as relações de poder presentes em nossa sociedade – justamente pelas inversões de papéis que o momento permite. Aquele exemplo clássico do sujeito que, ao sair para comprar o pão pela manhã, em uma terça-feira gorda, vê o patrão caído na calçada, em coma alcoólico, vestido de mulher e com um estandarte ao lado de sua mão direita em que se lê: “bloco das princesas 2012, as melhores bundas peludas do Rio”. Na quarta-feira de cinzas, é bem provável que o sujeito olhe seu patrão de forma diferente e até relativize seu sacro-poder como mandatário do escritório. Outros tantos avaliam a situação de modo diferente. No carnaval a polícia está toda na rua e se o festejo, em si, desafia a ordem do modo de produção – afinal, são cinco dias de absoluta putaria –, suas implicações estruturais não são significativas. Alguém acha que poderíamos invadir a prefeitura do Rio de Janeiro sob a alegação de que “ah, é carnaval amigo! Vamos jogar a escrivaninha do Eduardo Paes pela janela?” Creio que não. Talvez a combinação das duas análises leve a um resultado mais produtivo. O carnaval permite, de fato, um desvio de olhar. Poderia ser diferente. Poderia. A pergunta que faço é: algum dia vamos substituir o futuro do pretérito pelo futuro do presente? O sujeito que viu o patrão na calçada alguma vez pensou em chegar ao escritório, na quarta de cinzas, e dizer: “então, chefia, eu vi que o senhor é cachaceiro como eu, não é nenhum ungido de Deus para nos humilhar e agora a gente vai montar uma comissão gestora no escritório, democraticamente eleita e com mandato revogável”? Essas coisas não acontecem.

Agora, como diria Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Por que não acontecem? Não sei ao certo. O projeto de hermenêutica da militância socialista, que tracei com o amigo, não foi adiante. Talvez as pessoas não entendam que estamos presos a uma monotonia sem fim cujo único objetivo é a reprodução individual de nossa força de trabalho. Talvez estejam muito satisfeitas com sua cota de consumo. Talvez não enxerguem as formas sutis de dominação que se estabelecem em nosso cotidiano, que vão desde a catraca do ônibus, passando pela cobrança pelo consumo de água, até à imposição social para o consumo do Big Brother Brasil, vulgo BBB. Pode ser que ninguém entenda o que é trabalho alienado ou fetiche da mercadoria. E pode ser, também, que todos enxerguem o nosso modo de vida como o melhor possível – nesse ponto, algum engraçadinho, no fundo da sala, arremata: “se esse tal de comunismo é tão bom, por que lá na Rússia o resultado foi uma merda?” Aqui e ali, alguns “marginais” questionam a justiça e o equilíbrio desse estado de coisas. Posso garantir que os massacrados do Pinheirinho, os sem-terra que comem fumaça preta na beira da estrada e o menininho negro que foi expulso de um restaurante paulistano por um garçom racista têm, todos eles, algo a dizer. Mas também é fato que, até aqui, nossa sociedade não foi capaz ou não quis ou simplesmente não tentou se articular em torno de um projeto verdadeiramente emancipador. Falo do Brasil, mas os exemplos pelo mundo são inúmeros. Desde o caso norte-americano, com seu modelo de capitalismo-estado-de-natureza, até a experiência chinesa de capitalismo adornado com foices e martelos de ouro maciço. A humanidade caminha para uma imensa latrina de barbárie e, de um modo geral, ninguém dá muita pelota para as aberrações cotidianas do capitalismo. Nesse sentido, temos o exemplo neo-neocolonial europeu: “tentamos as Américas, a Índia, as ilhas do Pacífico e a África, agora vamos à Grécia”. A internet derruba governos das arábias e, em lugar de ditadores anacrônicos, teremos maravilhosas democracias liberais capitalistas – isso, lógico, se os militares entregarem o poder no Egito ou a charia, em versão hardcore, não for implementada na “nova” Líbia.

Agora que já passei pelo meu habitual catastrofismo, gostaria de chegar à motivação básica deste texto. Aquilo que produziu o “clique”. Pessoal, qual o nosso papel nisso tudo? Nós, militantes de verdade ou mentirinha, intelectuais idem, pessoas críticas, de boa formação e que acreditam não compactuar com esse grande amontoado de absurdos? Bem, nós fazemos parte disso, de um modo ou de outro. Há aqueles que fazem a crítica bem-comportada, nos bancos da biblioteca. Pode ser agressiva no último, mas fica lá, quietinha, na biblioteca. Também há boa quantidade de militantes que se contentam exclusivamente com a militância. Os bons objetivos transformadores são postos de lado e o sujeito passa a se sentir perfeitamente confortável no quentinho da burocracia do partido/movimento/grupamento político. Dito isso, gostaria de problematizar a questão um pouco mais, citando uma frase que não é minha (mas cujo autor desconheço): “antes o cinismo que a hipocrisia”. Nossa produção intelectual rasteira pode contribuir para formação de um desavisado que leia uma tese qualquer na biblioteca. O militante burocrata pode, eventualmente, colaborar para alguma conquista pontual da sociedade. Eu ainda acho que eleger um sujeito como o Chico Alencar é algo relevante. Assim sendo, como autor de uma dissertação de mestrado e ex-distribuidor de panfletos, acho que me sinto contemplado como cínico.

Entretanto, este texto é dedicado ao enorme contingente de inocentes úteis que povoa nossa sociedade em geral e nossos círculos de amigos em particular. Aqueles todos que são obrigados a fazer o que fazem. E, de obrigação em obrigação, terminam diretores de multinacionais, consultores de empresas gigantescas, assessores de tudo quanto é gente que não presta, executivos de empreendimentos diversos, operadores da bolsa de valores e por aí vai. Pessoas que ganham mais de vinte mil reais por mês – ou que estão nesse caminho – e que sentem muita saudade dos tempos de faculdade. Gente que lembra com carinho da militância juvenil e das noites em bares imundos. Que sente muita pena do amigo que não teve sucesso na vida, que ganha pouco e tem dificuldades para comprar um par de sapatos. Indivíduos que se sentem muito mal por terem abraçado o projeto – mas que não abrem mão, de modo algum, das benesses que ele proporciona e que jamais vão arrumar um emprego para o colega fodido. Exemplos de pessoas assim, temos aos montes. O Genoíno, aquele radical do paleolítico petista, virou babá da classe média que queria um partido de esquerda mais fofinho. O Palocci, que comandava ocupações de terra em Ribeirão Preto, tornou-se “consultor” de alguma coisa que ninguém sabe o que é. O João Gordo é palhaço televisivo. O Ferreira Gullar desenvolveu alguma patologia sociológica grave. E há uma lista interminável de colegas de vida toda que estão em bons empregos, jurando que continuam críticos de tudo e todos. Ganham muito bem e se prestam a serviços plenos de imundície.

Dizem que o poder endireita a esquerda. Depende da esquerda. A grande esquerda endireita com o poder, aos pequenos esquerdistas, um iPad basta.

Não escrevo para apontar o dedo a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo. Pois minha raiva vem do fato de que meu projeto pessoal de boa remuneração ainda não foi alcançado. Eu também desejo adentrar a longa marcha da humanidade rumo ao nada. Um deserto gigantesco, pontuado por um oásis/quinhão de consumo. Uma vez ao ano, a marcha para, todos enchem seus corpos de álcool e, ensandecidos, perguntam: “por que marchamos?” A pergunta é, sempre, o prenúncio da retomada do percurso.

Conheço uma moça que passou por uma fase pessoal turbulenta. Dificuldades e tristezas da vida. O fato pitoresco é que tal fase complicada foi marcada pelo ato de furtar livros. Nunca vendeu o produto de suas ações. Pelo contrário: lia tudo e, certa vez, me presenteou com um exemplar de autor que, à época, eu precisava ler. Em suma: não furtava para entesourar, mas para consumir os textos presentes nos livros. E nunca achou que estivesse cometendo qualquer barbaridade. Afinal, eram livros. Num dia de azar, foi pega. Daí em diante, eu comecei a dizer que era um absurdo a pessoa achar que alguém se comoveria com um flagrante numa livraria bonita voltada ao público endinheirado. Que o melhor seria organizar um movimento pelo acesso aos livros, informar as pessoas, criar consciência crítica, etc. Mandamos a moça ao psicólogo. Hoje, passados alguns anos, quero dizer a ela que estava certa. Completamente. Seu gesto foi de uma sobriedade tão plena, que o único resultado razoável seria o flagrante. Vejam: vivemos em um planeta em que vendem água, comida e livros. Água, comida e livros. Você precisa de dinheiro para comprar esses três itens, que são os mais elementares para composição da dignidade humana. O último até mais que os dois primeiros. É verdade que, sem água ou comida, você vai morrer bem rápido. Mas também é verdade que só os livros vão lhe explicar porque chegamos ao desastre ético de vender água e comida. Então, numa sociedade em que os livros são postos à venda, em que a matéria fundamental para o combate à alienação precisa ser adquirida à custa de muita alienação, a única atitude razoável é o furto. E ela furtou. Passou a ser a doida irresponsável da turma. Eu contribuí decisivamente com isso e tive meu momento “inocente útil”. Todos temos, aliás: quando nos orgulhamos de trabalhar bastante; quando procuramos ofender os colegas dizendo que acordamos cedo todos os dias; quando deixamos de corar diante do salário gordo; quando aceitamos, após umas oito sessões de terapia, que “o mundo é assim mesmo”. Achamos o Cartola e o Nelson fantásticos. Mas, caso fossemos seus vizinhos, naqueles momentos de solidão ética, não deixaríamos de pensar bem alto: “mas esse vagabundo não para de beber?”

Concluindo, você vai tomar parte nisso tudo. Vai fazer muito bem pensar que foi contra sua vontade, que nada poderia ser feito e que você não vai cair na afetação adolescente de achar que pode viver da venda de poemas na Rua Augusta. O salário elevado na empresa malvada não vai passar de um efeito colateral assaz desagradável da vida em uma sociedade injusta – e o seu cérebro vai desenvolver o prazer masoquista da repetição infinita de um mantra que diz que você está nessa merda até o pescoço, mas é crítico do sistema. Aliás, uma palavra aos adolescentes. Muito se fala da depressão difusa e da rebeldia sem causa que acomete todos que passam por esse estágio da vida. Na verdade, os adolescentes se assemelham muito aos porcos de abatedouro. Estes, quando percebem o fim inescapável, ficam terrivelmente agitados e gritam de forma assustadora. O adolescente, quando percebe no que está prestes a entrar, começa a espernear e gritar. O porco, caso seus gritos comovessem o verdugo, fugiria para bem longe do abatedouro. O adolescente grita para, tempos depois, dizer que, felizmente, superou aquelas crises bestas da juventude.

E vamos marchar, todos juntos, até o próximo carnaval.

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Tonico.

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O Carnaval

22 fev

Cordão do Boitatá

O carnaval é vivido, muito bem vivido, mas não consigo, depois que ele passa, não pensar no quanto a vida toda não podia ser vivida mais assim. Como voltar às vestes quase mortuárias que uma sociedade do trabalho européia impôs a um país tropical como o Brasil? Como voltar ao não poder conhecer e beijar uma pessoa pela primeira vez em qualquer lugar da cidade e em qualquer hora do dia? Como voltar ao não falar com quem é desconhecido no cotidiano? Como voltar a rotina de trocar um tanto de trabalho por um pouco de dinheiro e com sorte um pouco de prestígio? Como voltar a qualquer situação na qual a música, a dança e o humor não ocupem a maior parte do dia?

O carnaval não é muitas coisas, o carnaval não é a panacéia, tampouco é uma catarse que legitima por alívio as mazelas e opressões do resto do ano. O carnaval não anula – nem temporariamente – as classes, o carnaval não anula o racismo, o carnaval certamente não anula o machismo. O carnaval não é o samba, o carnaval não é o axé, o carnaval não é o frevo, o carnaval não são as fantasias, o carnaval não é a pegação, o carnaval não é um lugar, o carnaval definitivamente não é os desfiles de escolas de samba.

O carnaval não é o que as televisões mostram, pois por gênese e evolução a televisão no Brasil não consegue fazer outra coisa que não reafirmar o poder, seja ao falar trânsito matinal ou da expansão do universo, a transmissão do carnaval está inclusa nesse vício de ser da mídia brasileira. O carnaval não é a festa da carne, o carnaval não é o feriado, o carnaval não é a cerveja nem a cachaça, o carnaval não é a música. O carnaval não tem dois lados, o carnaval não tem três lados, o carnaval não tem sequer uma infinidade de lados, tampouco é fractal, o carnaval não é descritível de forma cartesiana, mas nem por isso ele não deixa de trazer algumas certezas.

O carnaval é a promessa que as relações entre as pessoas podem ser diferentes.

É o brincar com os desconhecidos ao redor; é a senhora negra e humilde sozinha na mesa ao lado com uma porção de frango a passarinho que nome aqui já não tem mais, que para por um momento para nos explicar porque os jurados não vão entender as três camadas de significado que ela vê no desfile da Unidos da Tijuca; é o sujeito com forte sotaque do sul que olha minha fantasia e brinca “- Exagerou!”; é o olhar triste da menina que diz sem palavras que quer me beijar, mas não pode no momento. É beber um pouco de confete a cada gole e não achar ruim. É a fantasia coletiva combinada com os chegados. É o humor transbordando largamente sobre as cinzas do cotidiano. É um hoje se livrando das eternas promessas, deveres e desafios que o amanhã sempre traz, é o se ver livre do tempo pela duração de um pouquinho do mesmo. O carnaval são todas as pracinhas centrais de todas as cidades do Brasil se iluminado com risos e cores, e as cores dos risos iluminam mais e são mais belas que as das fantasias.

De muitas outras maneiras o carnaval é uma daquelas coisas para as quais a linguagem humana ainda não se encontra evoluída o suficiente para colocar em estruturas de palavras, talvez nunca esteja. O carnaval é também todas aquelas entrelinhas que não se deve esmagar com palavras*

O carnaval também é – e devemos fazer com que deixe de ser – o senhor idoso catando latinhas; a menina, uma criança mesmo, vendendo balas e tiarinhas piscantes; todos os trogloditas que arrancam beijos a força; aqueles representantes que o usam para se promover; aquelas poucas marcas de bebida que impõem seu oligopólio. O carnaval são as mãos em sangue dos músicos tocando por amor, mas também as mãos em sangue de músicos tocando por pouquíssimos rendimentos. O carnaval é isso tudo apenas devido aos tempos burros, brutos e primitivos nos quais vivemos, nada disso está inscrito em sua alma. Sim, o carnaval tem alma, mais que alma o carnaval tem almas, e elas se parecem com a descoberta do corpo como fonte de prazer, com a primeira feita em que se sente uma paixão, com o rir até chorar com os amigos, e com a sensação de se ver um filho brincar com um brinquedo pela primeira vez.

Odeio, e defendo que devam ser odiadas, as frases do tipo “- Se você não fez isso você não viveu.”, ou ainda “- Se você não foi a tal lugar você não sabe o que é tal coisa.” – uma pessoa pode ser feliz sem nunca ter saído de Brasiléia, no Acre, assim como pode ter viajado o mundo todo e ser infeliz – mas apesar disso sugiro a todas as pessoas que puderem e quiserem um dia brincar o cordão do Boitatá na Praça XV no Rio. Belo, belo, beleza, parte da beleza que lutamos para trazer para o cotidiano de cada ser humano no mundo pode ser encontrada lá. É um de meus pequenos exemplos para a beleza que outros encontram cada um no lugar que esteve, e o carnaval é um sábio e generoso doador de beleza nas suas mais diversas formas.

O carnaval para mim este ano no Boitatá foi o chorar mais que de alegria, foi o chorar de beleza , pura resposta ao cordão tocando Villa-Lobos no aquece, mas foi também o chorar de tristeza ao perceber que perdia para sempre um grande amor. Até a dor mais aguda da alma o carnaval toca e confere uma beleza grave, uma beleza dolorida, que continua bela, mas é sempre dor. Encontrar e perder amores é parte constituinte e inextricável do carnaval.

A palavra “melhor” é sempre carregada do que é pessoal para quem a fala, é uma das palavras que mais se enrosca com a empáfia e a pedância nos desvãos do cotidiano, mas o carnaval acha um uso certeiro e absoluto para ela, o carnaval do Brasil é o melhor do mundo.

Como não ficar obstinadamente a pensar em como fazer com que o dia-a-dia seja um pouco mais como o carnaval? Como não ponderar sobre em qual tipo de sociedade isso, entre tantas outras coisas, seria possível e em como fazer para se chegar lá? Respostas há várias, e todas são coisa outra que não o que está posto.

Viva o carnaval, vivamos o carnaval!

 

* Essa frase é de Clarice.

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Da utilidade da antropologia

30 set

Os leitores do Cumachama devem saber que minha formação acadêmica foi orientada para antropologia. Neste Departamento da Universidade de São Paulo, vinculado ao curso de Ciências Sociais, fiz meu mestrado. Este tratava de intolerância religiosa no Brasil e das trocas simbólicas que se estabelecem entre Umbanda e Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, durante três anos, vivi entre templos e terreiros; pastores e pais-de-santo; descarregos. De forma ampla, além das agruras do campo, a experiência de tornar-me antropólogo foi, por diversas vezes, áspera. Entre a incapacidade de explicar aos meus parentes o que fazia, profissionalmente, da minha vida, e a impossibilidade de fornecer uma resposta direta aos amigos ultra-esquerdistas sobre a “utilidade disso para revolução”, muitos foram os dissabores.

Além das dificuldades de explicações a terceiros, foi particularmente penoso o processo de justificativa dessa escolha acadêmica a mim mesmo. Afinal, se a antropologia é uma ciência (?) fundada na compreensão da diferença, da cultura do outro e do modo de vida alheio, como intervir? Qual sua capacidade de atuação prática nas misérias do mundo? Volto ao meu mestrado. Por mais que tenha me esforçado para criticar a atuação perversa da IURD e seus representantes na demonização dos cultos afro-brasileiros, fui obrigado a ceder diante de certas limitações próprias ao exercício antropológico. O entendimento da cultura e das representações do outro enseja um grande esforço de contextualização e de valorização do que, em princípio, parece estapafúrdio. O antropólogo que deseja compreender manifestações fascistas, por exemplo, se dispõe a um exercício de convivência e entendimento dos valores de determinados grupos fascistas que é tanto mais doloroso quanto maior for sua discordância para com esses tais valores. Ainda pior: quanto maior a discordância, mais rico pode ser o resultado da análise. Não se trata, obviamente, de justificar um sistema de práticas e pensamentos que lavra no ódio. Tampouco de elaborar uma etnografia que termine com algo como “respeitem o sagrado direito fascista de espancar ciganos e gays”. O exercício de entendimento, porém, traz suas limitações práticas ao – neste caso, necessário – ativismo. Fica difícil entrevistar uma pessoa enquanto você a esmurra.

Pois bem, para que serve a antropologia? Para o exercício de divertimento de uma consciência que toma contato com uma cultura que, inicialmente, parecia exótica e incompreensível? Serve para catalogar índios, populações africanas, aborígenes diversos, punks, skinheads e feministas? Tenho feito essas perguntas a mim mesmo, cotidianamente. Agora que adentrei o mercado de trabalho de forma definitiva e tenho minhas 40 horas semanais de labuta, nada consome mais meus devaneios que a constituição de um plano prático e facilmente executável de “destruição do modo de produção capitalista”. Deste e de seu projeto totalitário, já tenho compreensão mais que suficiente. Exploração do homem pelo homem, vidas vazias consumidas pelo trabalho alienado, fetiche da mercadoria em doses cavalares e, o mais triste, pessoas que abraçam seus princípios com todo ardor, dedicando o melhor de suas habilidades na aquisição de algumas toneladas de um tipo peculiar de papel pintado, que dá acesso a tabletinhos de felicidade que começam com “i” – iPad, iPhone… Para essa coisa monstruosa que adquiriu vida própria e envolve a tudo, já não cabe mais muita compreensão. Cabe, antes, a formulação de um programa consistente de aniquilação. Até porque esse espírito já tem, para conosco, um programa de idêntico objetivo, muito bem montado e em pleno processo de implementação.

Refletindo sobre tudo isso e sobre minha formação acadêmica, refletindo sobre o esforço que fiz para entender umas três linhas de Lévi-Strauss, senti que havia retornado à mesa de um bar, com algum colega meu resmungando sobre a inutilidade da antropologia para o grande projeto de emancipação da humanidade. Antropologia e socialismo? Conta outra, Antonio.

No entanto, aproveitando a tal sabedoria chinesa (que nos é muito útil quando temos a combinação de uma semana ruim com a preguiça de realizar uma análise sociológica minimamente honesta), algo de útil há de sair das desventuras cotidianas. Uma série de fatos me fez ver que há um conceito fundamental da antropologia que é de utilidade inequívoca. Aliás, o tamanho de sua utilidade só é comparável à dificuldade de defini-lo de forma razoável. Trata-se da ideia de alteridade. Que seria isso? Fazendo um exercício antropológico pelo método confuso, vejamos, antes, o que não é isso. Alteridade não é transmutar-se no outro. Não é parar de comer carne porque viveu com um grupo de vegetarianos. Não é torcer pelo Corinthians porque passou uma semana na sede da Gaviões da Fiel. Alteridade também não se resume ao para-choque de caminhão do “não faça aos outros o que não deseja que façam consigo”. Não é, portanto, o exercício de tornar-se um bom moço porque conviveu com muita gente diferente. Alteridade é a complexa experiência de conviver com o outro, tatear seus valores, lidar com a diferença e seus atritos e sair dessa experiência transformado de algum modo. De preferência, pronto a oferecer um relato do que ocorreu. Trata-se de engajar-se em uma estrutura cultural e social que não é aquela com a qual tem a familiaridade do cotidiano, tentar colocar-se no lugar do outro, representar o papel do outro, chegar o mais perto possível do outro sem nele converter-se. E, dessa experiência, formular uma leitura dos valores alheios enquanto, ao mesmo tempo, lança luz sobre seus próprios valores.

Certo. E por que, exatamente, isso é útil? A mim parece útil porque a alteridade, num exercício bem realizado, clarifica as possibilidades de diálogo entre diferentes. Torna possível o entendimento do outro, de suas dores e alegrias, daquilo que lhe é importante, das possibilidades de comunicação produtiva em lugar da troca de ofensas, pedradas e tiros. Acho, enfim, que é o necessário exercício para o estabelecimento de bases de convívio mais fraternas entre distintas culturas e instituições sociais. Outro dia, enquanto assistia a um documentário sobre o ex-presidente João Goulart, ouvi do narrador uma frase que era mais ou menos assim: “a visita de Jango à China não tinha nenhuma relação com ideais comunistas, tratava-se, antes, de uma iniciativa de fraternidade entre os povos”. Acho que essa colocação resume bem toda a ideia do texto. Meu desejo primeiro, hoje, é o de aniquilar, de forma definitiva, o capitalismo. Mas, neste particular “momento antropólogo” – que bem poderia ser um momento “antropologia de ursinho carinhoso”, desejo um pouco mais de fraternidade e convivência digna.

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Acho que muitos de meus amigos ultra-esquerdistas não vão compreender nada do que foi dito neste texto. Isso é perfeitamente compreensível. Eles estavam fazendo a revolução socialista enquanto eu estava na aula ou na biblioteca.

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O Videoteipe é burro

8 mai

E não só ele, o áudio que o acompanha também. Nelson Rodrigues, com completa razão, afirmava que o videotape era burro, mas por outros motivos, mais sábios e profundos. E se no que nos diz respeito o videoteipe não é burro, ao menos se pode  afirmar com muita tranqüilidade que o videoteipe na transmissão de televisão de futebol brasileira está muito burro.

É apenas senso comum, já difundido e assimilado, que nenhum sistema de inteligência ou segurança pode ser mais inteligente que o mais burro de seus operadores. Do mesmo modo nenhum sistema de transmissão de jogos de futebol pode ser mais inteligente do que o diretor de imagens designado para o jogo, do que a equipe de cobertura ou do que as diretrizes da emissora que o transmite.

Nas transmissões de jogos de hoje, a seleção de imagens que serão passadas novamente, seja imediatamente, seja no intervalo, se baseia numa visão ranheta do futebol, no qual a violência, independentemente de onde ocorra, prevalece sobre a arte sempre que esta se realizar longe do gol adversário. Sinal dos tempos talvez. O que sei é que já vi mais vezes a pancadaria gerada pro aquela brincadeira do Edilson do que uma matada de bola do Romário, num passe de 40 metros, tirando o zagueiro já na matada (Por que dominar uma bola virou “matá-la”?), também andei procurando uma jogada do Zidane no qual ele mata a bola de costas para o lado do ataque, ainda no ar vira, dá uma petecada na bola e sai jogando pro lado certo antes de tornar ao chão, não acho,  é mais fácil até encontrar para rever a violência do que belas jogadas.

Chutes a gol bisonhos, que tem até divertidas narrações específicas, e faltas violentas são repetidos ad nauseam, enquanto matadas de bola que beiram o primor e dribles que poderiam estar expostos em qualquer bienal se encaminham, resignados, para o ostracismo (uma pequena cidade em Minas Gerais). Quanto mais violenta uma falta, mais vezes esta será repetida. Talvez seja um repetição do mesmo raciocínio que leva a televisão a passar tantas vezes “Rambo” e tão poucas “O Carteiro e o Poeta”, talvez tenha um pouco do sangue que tinge os jornais enquanto as boas notícias são aninhadas no miolo dos cadernos, e com chamada discreta, talvez não tenha nada a ver. Vivemos mesmo em um mundo no qual a violência vende mais do que a arte?

Outra moda das transmissões de TV é filmar o técnico a cada sete minutos e passar cinco segundos da imagem dele esbravejando ou parado. Acabam afirmando, mesmo que subliminarmente, que se ele está gritando, então está ajudando o time, se ele está parado, então é apático. Exceção feita aos casos no qual o jogo já está ganho para alguma equipe. Além de não acrescentar dados ao telespectador, essa prática de filmar o técnico traz julgamentos errôneos sobre a competência do técnico cuja eficácia a simples menção do nome Feola* já desmente.

Quanto ao impedimento, o mesmo excesso se repete, se o lance foi óbvio, uma repetição bastaria, já se o bandeirinha errou num lance incrivelmente difícil, o time prejudicado foi “garfado”, e lá vai o lance repetido doze vezes (duas seriam mais do que suficientes), por fim, se o erro foi crasso, fica fácil de ver e uma repetição também daria conta do recado. A única solução humana para os erros em lances extremamente difíceis de impedimento seria contratar para bandeirinha somente pessoas estrábicas, e com o estrabismo divergente – a única condição humana através do qual é perfeitamente possível observar o passe e a linha de impedimento ao mesmo tempo.

Outro momento sensacional de nossas transmissões é quando a imagem, o jogo que está passando na tela e a análise tem tantas semelhanças quanto uma mitocôndria e a convenção de Genebra, ou seja, nenhuma. Sempre que o time supostamente mais fraco está ganhando ou arrancando um empate absolutamente improvável é demérito do time maior, jamais qualidade da equipe que cumpre o papel da zebra. Mesmo que as imagens mostrem exatamente o contrário, que a equipe grande está jogando um jogo normal e que o time pequeno esteja arrasando, se superando. Isso quando a equipe de transmissão não se propõe a fazer uma análise do sentido geral do jogo aos quatro minutos do primeiro tempo:

Cenas que gostaríamos de ouvir:

- E aí João, dá para afirmar que o Ibitira está mais consistente?

­Momento no qual a única análise decente seria:

- Não dá para saber José, o jogo acabou de começar.

Outra mania consolidada nas transmissões de futebol é dar emoção através da narração a um jogo que pelas imagens que vemos não a tem. Se o jogo está chato, está chato, não deveria ser um pecado apontar isso na transmissão.

No capítulo ranhetice, que é todo um mundo de visão sobre o futebol como uma coisa séria, há um único comentarista na Bandeirantes que é tão ranheta que faz todo mundo voltar para a Globo, que é justamente de onde estava se fugindo. Outra invenção moderna é o comentarista ranheta de arbitragem, o que é completamente diferente do jeito mesmo que involuntariamente divertidão , com o qual Mário Viana, por exemplo, comentava.  A regra é clara, mas os lances não, como a primeira só pode ser aplicada sobre os segundos, a frase fica absolutamente sem sentido ao invés de ficar com o sentido absoluto que pretendia.

Cenas que gostaríamos de ouvir:

-E aí Peçanha, o árbitro foi bem?

-Não sei Bigode, estava olhando os jogadores.

No universo ranheta bom é ser “guerreiro”, “lutador”, tem que levar o jogo a sério, tem que levar o adversário a sério. Nesse lugar triste, o universo ranheta, é justo dar um pontapé num jogador que está “abusando” de “jogadas de efeito”, como dribles bonitos debaixo das pernas, chapéus e dos toques de calcanhar. Um neurocirurgião tem de ser sério, um jogador de futebol tem de jogar futebol, e isto não tem nada a ver com ser sério. Quando você sinceramente começa a achar que vinte e dois marmanjos de shortinho tentando chutar uma bola num retângulo é uma coisa séria, está na hora de você parar e repensar uma série de coisas.

No universo ranheta, concentração é lei.

Ao contrário de outros profissionais bem remunerados, para os quais o que vale é o que realiza no seu horário de trabalho, no universo ranheta o que um jogador faz nas suas horas de lazer deve ser discutido e muito. O critério para um ranheta nunca é apenas o campo. Êta lugar ranzinza.

Há também um outro capítulo a parte na transmissão televisiva atual, que é o das platitudes, também conhecidas como banalidades, obviedades, senso comum, comentários sem originalidade. Só a transmissão das finais dos estaduais daria para encher um livro com falas como “jogar em casa é uma vantagem”, ou, para um time que acabou de ter um jogador expulso ou tomar o terceiro gol, “-Agora ficou mais difícil para o Pirapora!”,  ou quando está zero a zero, “O jogo está indefinido”, isso entre toda uma coleção de “Quem não faz toma”, “tem que ocupar o meio de campo”, “um gol agora é importante” etc, são vazios que preenchem lacunas. Nesse capítulo, a cena que mais gostaríamos de ouvir é:

- Um gol agora muda a história do jogo, Janir!

-Dããã Célio.

Enfim, assistir essas transmissões é um grande desafio para os ouvidos, para a inteligência e para a alma. Será que teremos que esperar o advento de um mundo mais justo para ver futebol com algum bom humor, inteligência e arte? Não, não precisamos, Milton Leite está aí para provar que é possível, mesmos nestes tempos, transmitir futebol como a bela e divertida brincadeira que é.

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*  Vicente Italo Feola – técnico do Brasil em 1958 e 1966, era acusado pela mídia de dormir no banco de reservas.

Este texto é dedicado a meu amigo Porpetta, que sofre de flamenguismo agudo.

Guilherme Flynn – Maio de 2011

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Uma Virada Cultural

17 abr

Não há Virada, há viradas, e tantos são os percursos possíveis que formam um número finito, mas potencialmente ilimitado de vivências. Curtir a virada passa por entender que você vai fazer a sua e tirar da cabeça a bitolação de tudo que se está perdendo, do que se está deixando de ver.

É quase um exercício se libertar de todas as formas de pensamento que socam na nossa cabeça, de “custo de oportunidade”, de “taxa de aproveitamento” e de outros maquinismos do tipo. Da sensação de perda por não ver, por exemplo, o show da Rita Lee ou da Orkestra Rumpilezz, para dar uma boa e necessária dormida num dos cinemas que ficam abertos passando filmes ou na casa de algum conhecido que more pelo centro. Fiz uma virada pacata e basicamente musical, embora tenha trombado e apreciado uma dezena de espetáculos de artistas pelas ruas. Pileque leve e pegação nula. Fui tranqüilo, ver, ouvir e dançar. Ainda assim a Virada nunca é só boa de se ver e ouvir, a virada também é muito boa de se pensar e sentir.

Na Virada gosto de andar pelo meio da rua, só pelo meio da rua, retomando o direito roubado pelos sujos e barulhentos automóveis.

É divertido ver o constante abrir e fechar de programações/mapas, pessoas, além das de fora, paulistanas mesmo, meio que se tentando se localizar no centro, vendo o mapa para pensar o caminho da Praça Dom José Gaspar para a Estação Júlio Prestes, ou da Libero Badaró para o Arouche. Sejam bem vindos! Este é nosso centro, o centro de nossa cidade, eu também aprendi um tanto tarde a me deslocar pelas suas ruas e, para ser bem honesto, mesmo tendo morado por quase três anos no centro, ainda me perco um pouco lá pros lados da feirinha dos bolivianos.

No pleno domingão lindo de sol gostei de ver o belo prédio Eiffel, projeto do Niemeyer, cumprindo a função de caixa de som que sempre pareceu e repercutindo num eco oco o batuque do encontro de baterias (que dizem ser a maior bateria do mundo). Aliás, bem ali, um pouco depois da esquina da Praça da República com Rua do Arouche para quem caminha no sentido da Marquês de Itu, há um pedacinho da calçada, um mirante urbano desconhecido e despercebido, no qual se tem em vista ao mesmo tempo o Edifício Eiffel, o Edifício Itália e uma pontinha do Copan. Meu mirante secreto mesmo que exposto e mil vezes caminhado todos os dias por milhares de pessoas tão atarefadas que muitas vezes se esquecem até de olhar para o céu.

O que me apaixona e maravilha na Virada Cultural não é nem tanto, o colorido, as pessoas, a revogação ainda que precária, temporária e um tanto falsa do espaço das classes, do racismo e homofobia, e toda aquela discussão que fica entre documento da UNESCO e propaganda da Benetton. Não é isso, é a alegria, é o estar bem, é São Paulo que deixa de ser o monstro cinza e incrivelmente irritante dos congestionamentos e passa a ser a São Paulo das pessoas, são as pessoas na cidade, as pessoas pela cidade, o centro, o centro de São Paulo e sua beleza que se aprende a ver.

Listo abaixo apenas algumas bandas e alguns dos momentos que saboreei nesta virada.

Para além das multidões que dormiram nos gramados da República me chamou a atenção um indivíduo que achou por bem, com sua calça jeans e camisa pólo, dormir na calçada da Rua Aurora entre a São João e a Vieira de Carvalho. Não foi aquela dormidinha elegante, aninhada como um gato num cesta de roupas, era uma posição pouco graciosa, perpendicular ao meio fio. Pois bem, ao ir ao show do Skatalites lá estava o sujeito na posição mencionada, e um detalhe chamou particularmente minha atenção: trajava apenas uma meia, a do pé esquerdo. Esqueci mediatamente a cena e jamais teria pensado de novo nela se não fosse pelo seguinte detalhe: Ao voltar do show do Skatalites, algo como duas horas depois, encontro exatamente o mesmo sujeito, exatamente na mesma posição, mas sem a meia no pé esquerdo! Que país curioso, quem será o indivíduo que teve a pachorra de roubar apenas um pé de meia, o pé restante?

Beatles 24 horas

Fã que sou, não podia deixar de dar uma passada por lá, vi um pedaço do Rubber Soul, meu favorito – nem lembro mais porque – e o Revolver, os caras executaram muitíssimo bem as músicas, com paixão e bom humor. Durante o show inventei sem querer uma bebida estranha que era caldo de cana, caju e uísque. A diversão da galera era discutir qual era o combustível secreto por trás da banda para agüentar todo esse tempo. Voltando da São Bento passei lá às três da tarde de domingo e os caras estavam tocando ainda, na hora era o Past Masters Vol. 1.

Curioso como associo cada álbum dos Beatles com alguma pessoa, o Please com meu pai, pois era o único LP de rock que eu me lembro que conseguiu furar o duro bloqueio de samba e música clássica e galgar um lugar na prateleira; o Magical Mistery Tour com meu irmão que confeccionou na mão uma capa artística e lisérgica para sua cópia pirata; o Revolver era o favorito de uma certa Júlia que conheci faz anos; o White Album com meu amigo Lemmi, que certa vez pôs por engano a chatíssima Revolution 9 na jukebox da FunHouse e tomou uma tremenda vaia da galera.

Toni Tornado

Uma passada rápida no show, valeu por ter encontrado o Fábio Senne, amigo que eu não via faz muitos anos e por ouvir a música “Primavera” do Cassiano e Silvio Rochael (Trago essa rosa… para lhe dar…. trago essa rosa… para lhe dar….meu amooooor).

Orquestra Voadora

Foi a primeira vez que tocaram em Sampa, e mandaram bem, mandaram bem praca! Encararam um público que não os conhecia, num palco que não tinha a ver, respiraram fundo e sopraram seus metais e ressoaram seus tambores.

O povo, e a maioria da frente era de cariocas ou de paulistas que realizam a migração anual para os blocos de rua do Carnaval do Rio, provocou a banda gritando “-Desce! Desce!”, e a Orquestra Voadora, que tinha lá suas razões de estar brava por ser colocada num palco depois de Marina Lima, Elymar Santos e Banda Mel- ou seja meio deslocada- , comprou a provocação, desceu ao chão e tocou mais meia hora para os bravos que resistiram até as seis e meia da manhã. Girei com eles pelo chão em círculos frenéticos, não concêntricos e fiquei orgulhoso de, nesse horário e nesse estado, conseguir dar aquela célebre dançada entre o ska e o ritmo balcânico, levantando os joelhos bem alto em pulos empolgados.

DJ Dolores y Orquestra Santa Massa

Peguei esse show com os que sobraram da Orquestra Voadora, Vitinho e Gustavo, os nomes são reais, mas as pessoas – e quem os conhece sabe do que estou falando – parecem fictícias. Se depois das cinco simplesmente desisti de tentar entender o que essas pessoas estavam falando, nessa altura o português deles lembrava algo como um sânscrito com sotaque aramaico. Encontrei também neste show o Márcio que, como ele mesmo diria, estava mais louco que o cabeleireiro do Coringa.

Puta show. O vocalista do Eddie toca junto, o Dj Dolores dispensa apresentações e a orquestra como um todo pode ser caracterizada por uma série de adjetivos enfáticos positivos. Vá você descrever a maravilha de uma rabeca tocada no jeito. Tentei umas cinco onomatopéias que simulassem o som da rabeca, não deu certo. É melhor ouvir aqui.

Skatalites

Por fim, o começo. O Skatalites, junto com o Ethiopians, foram as bandas que o Alex me apresentou e que fizeram que eu me apaixonasse pelo ska. O clima estava bom, a lua apareceu, cheia e bela, por entre as nuvens. Uma névoa estranha e risonha cobriu a São João, que por um dia virou uma coffee shop holandesa a céu aberto. Os cigarros legais estavam mais raros que os naturais, várias pessoas se aproximavam e, ao ver que eu estava fumando um velho e careta filtro vermelho, recuavam enojadas. Latin Goes Ska é música maravilhosa que gruda na cabeça que nem o PMDB gruda em quem estiver no governo, e que eles tocaram com maestria. Já Guns of Navarone é uma música que escuto há dez anos, que assobio no banheiro, que cantarolo vindo do ponto de ônibus para casa, que coloquei no começo de todas as festinhas nas quais toquei. Quando começaram a tocar essa música eu, meu irmão, o povo na sacada, todo o público que estava na São João, simplesmente deliramos. Foi muito bom!

Enfim, pela significação, pelo clima, pela lua, showzasso.

A Virada Cultural como um todo é um presente, um reencontro dos paulistanos e de quem quiser com São Paulo, e a arte, música e todas as demais artes presentes, é a arte.

A única falta mesmo, a única imperfeição dessa virada, foi que faltou Cíntia.

Guilherme Flynn Paciornik – 17 de Abril de 2011

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O espaço abaixo, dos comentários, é uma janela para interação, as vivências de cada um na Virada, as viradas são mais que bem vindas, são desejadas. Solte o verbo! (a imagem, e o som não sei se dá nos comentários, mas damos um jeito).

Para quem não conhece, a Virada Cultural, é uma evento cultural que acontece em São Paulo uma vez por ano, concentrada no centro da cidade mas também com eventos espalhados. Tem uma programação absurdamente vasta e boa, e é um momento feliz das pessoas com a cidade.

Teste – Verdadeiro ou Falso

14 abr

Assinale entre os parênteses ao lado de cada sentença se esta é verdadeira, (V), ou falsa (F). Escreva as respostas com sangue ou óleo (não precisam ser seus). Entregue em patas. Em caso de dúvidas, procure formas de resolvê-las. Duração do teste – 90 anos.

1.  A espécie humana é capaz de coexistir com as demais espécies e com o planeta em longo prazo.  (   )

2.  Toda verdade cresceu assassinando outra verdade em potencial.  (   )

3.  A razão é um conceito defeituoso destinado ao oblívio.  (   )

4.  É possível aprender sobre o Ser com as culturas indígenas.  (   )

5.  No mundo ideal o conflito não existe.  (   )

6.  O trabalho dignifica.  (   )

7.  Cogito ergo sum.  (   )

8.  A ciência funciona como uma religião.  (   )

9.  Algumas formas de teorização atrapalham a luta política.  (   )

10.  É preciso escolher entre fazer dinheiro e fazer sentido.  (   )

11.  “There is special providence in the fall of a sparrow”.  (   )

12.  Deus existe.  (   )

13.  O tipo de comunicação que as redes sociais tendem a estabelecer é inautêntica.  (   )

14.  O sentido é uma definição contingencial.  (   )

15.  O universo é uma defecção de um multiverso.  (   )

16.  A humanidade está rumando para outra forma de funcionamento.  (   )

17.  O sujeito histórico não é um dado, é uma construção.  (   )

18.  Nietzsche está certo.  (   )

19.  Qualquer sentença tem pressupostos lógicos, epistemológicos e ontológicos.  (   )

20.  É possível conciliar autodeterminação dos povos com Direitos Humanos.  (   )

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P.S  Aos chegados: Não se assustem muito não, estou só experimentando umas idéias de fundo. É preciso muita confusão para gerar certezas precárias.

São-paulinos e Corintianos

25 mar

Faz pouco tempo um amigo, Dmitri, me acusou de ter me divertido mais com o time dele do que com o meu nos últimos dois anos, como é sábio dar razão ao interlocutor quando este a tem, não discordei.

Refletindo sobre a questão e observando a não-delicada rede de relações e provocações entre corintianos e são-paulinos (e corintianas e são-paulinas, dito esteja) compilei abaixo os principais argumentos, reações e pensamentos – mesmo secretos e não admitidos – que apreendi nessas relações entre torcedores(as) de ambos os times:

Um jeito de irritar um são-paulino é dizer que o grande clássico paulista é o Corinthians contra o Palmeiras, o Derby Paulista.

Um jeito de irritar um corintiano é dizer (infelizmente de uma forma um tanto homofóbica) que quem gosta de torcida e de ver macho sem camisa devia ir é numa sauna, porque quem gosta de futebol vai ao Morumbi ver o tricolor.

Corintianos: Inveja de um estádio para chamar de seu.

São-paulinos: Certa inveja do tamanho e da presença de estádio da torcida do Coríntia.

Corintianos: Inveja das festas e alegrias são paulinas nas comemorações de seus três títulos da Libertadores e de seus três títulos mundiais.

São-paulinos: Inveja profunda da relação com time que os corintianos têm na derrota, de reafirmá-lo.

Corintianos: Inveja da qualidade do futebol que o São Paulo apresenta mais comumente, e que o Coríntia só apresenta uma vez por década.

São-paulinos: Certeza secreta, não confessada nem para o pai em seu leito de morte, de que – na arquibancada – é mais gostoso ver jogo no Pacaembu do que no Morumbi.

Corintianos: Raiva da pedância e da fleuma novo rico, ambos falsos, que o são-paulino médio ostenta, e de sua defesa do estádio do Morumbi em oposição à avenida marginal sem número, onde fica a Fazendinha.

São-paulinos: Ódio da demagogia corintiana de se auto-intitular “O” povo, “OS” verdadeiros brasileiros, “O” Brasil real, posição encontrada com um frequência de cem por cento no caso dos corintianos progressistas.

Corintianos: inveja secreta da diretoria são-paulina que, apesar de em essência não ser diferente das demais cartolagens, produz a aparência de deixar a casa minimamente em ordem.

São-paulinos: Desconfiança profunda, quase certeza, de que o Brasileiro de 2005 só foi para o Coríntia porque uma das máfias com as quais os cartolas corintianos costumam se associar literalmente comprou todo mundo.

Corintianos: Um prazer de relembrar sempre que possível que faz quase quatro anos que o São Paulo não ganha do Coríntia, e de, depois de cada clássico recente no qual o São Paulo, mais uma vez, perde para o Coríntia, perguntar: – CPF na nota?

São-paulinos: Prazer inenarrável de brincar dizendo que este ano o Carnaval caiu em março e o Coríntia em fevereiro, ou de dizer que o Coríntia caiu antes até do Mubarak.

Corintianos: Tem a certeza de que um são-paulino não consegue entender o que é a paixão corintiana, o que é gostar de um time como ele gostam do Coríntia, o que lhes dá ao mesmo tempo uma pena dos são-paulinos por não entender essa paixão e uma raiva de si mesmos por não conseguir explicá-la de forma alguma através de palavras.

São-paulinos: Uma relação meio doentia de torcer contra o Corinthians independente do adversário, e de obter um prazer considerável com isso.

Percebi que teria de rever minha posição e minha satisfação ao ver o Corinthians se dar mal, após a eliminação do mesmo da Libertadores de 2010, ocasião na qual um vizinho próximo, após o jogo, gania de tempos e tempos, dentro de seu próprio quarto : -Vai Curíntia!

Ao longo da noite este mesmo torcedor acordava de meia em meia hora e chorosamente repetia seu bordão: – Vai Curíntia! Ao invés de sentir empatia e pena, sentimentos normalmente mais condizentes com o sofrimento humano, eu me regozijava internamente com estes balidos.

Um exemplo da psique da questão: Se o Boca goleasse o São Paulo por 7 a 0 numa final de Libertadores e no ano seguinte o mesmo Boca pegasse o Curíntia na final, os tricolores torceriam fervorosamente pelo time argentino (com exceção de alguns que torceriam para um meteorito atingir o estádio).

Corintianos: Uma certeza secreta de que o Coríntia, e suas mazelas, é muito mais importante para os são-paulinos do que o São-Paulo é para os corintianos, de que eles se importam muito menos com o time dos outros do que os outros se importam com o Coríntia.

São-paulinos; Uma inveja grande por seu time nunca ter tido nada parecido com a democracia corintiana.

Corintianos: Não admitem que gostariam de ter o mito Rogério Ceni no seu time.

Ambos: Têm uma admiração profunda pela qualidade do futebol do Santos. E gostariam de ter o Ganso em seus times.

Ambos: Sentem certa falta secreta do Palmeiras como oponente de verdade, pois nos últimos tempos esse time, com seus oito volantes em campo, lembra mais uma equipe de rúgbi do que de futebol.

Ambos: Odeiam a CBF e as mazelas pelas quais esta faz o futebol brasileiro passar.

A única certeza e conclusão definitiva que se pode afirmar cientificamente e de acordo com os métodos mais acurados de análise já inventados, é que seria bem menos divertido morar em São Paulo não fosse essa rivalidade.

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Dedico esse textinho a meu amigo Dmitri Cerboncini, que tanta alegria me deu com seus pitis por causa de qualquer provocação sobre o Corintia.

Esse é um texto aberto, sugestões pertinentes (e o critério sou eu, hehe, esse texto não é uma democracia) serão anexadas ao texto.

A grafia Coríntia foi escolhida porque, cá entre nós, ninguém fala Corinthians, e porque a grafia Curíntia, devido à analogia com a forma popular de se referir a uma parte do corpo humano, pode soar ofensiva.

Guilherme – Março de 2011.

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