São-paulinos e Corintianos

25 mar

Faz pouco tempo um amigo, Dmitri, me acusou de ter me divertido mais com o time dele do que com o meu nos últimos dois anos, como é sábio dar razão ao interlocutor quando este a tem, não discordei.

Refletindo sobre a questão e observando a não-delicada rede de relações e provocações entre corintianos e são-paulinos (e corintianas e são-paulinas, dito esteja) compilei abaixo os principais argumentos, reações e pensamentos – mesmo secretos e não admitidos – que apreendi nessas relações entre torcedores(as) de ambos os times:

Um jeito de irritar um são-paulino é dizer que o grande clássico paulista é o Corinthians contra o Palmeiras, o Derby Paulista.

Um jeito de irritar um corintiano é dizer (infelizmente de uma forma um tanto homofóbica) que quem gosta de torcida e de ver macho sem camisa devia ir é numa sauna, porque quem gosta de futebol vai ao Morumbi ver o tricolor.

Corintianos: Inveja de um estádio para chamar de seu.

São-paulinos: Certa inveja do tamanho e da presença de estádio da torcida do Coríntia.

Corintianos: Inveja das festas e alegrias são paulinas nas comemorações de seus três títulos da Libertadores e de seus três títulos mundiais.

São-paulinos: Inveja profunda da relação com time que os corintianos têm na derrota, de reafirmá-lo.

Corintianos: Inveja da qualidade do futebol que o São Paulo apresenta mais comumente, e que o Coríntia só apresenta uma vez por década.

São-paulinos: Certeza secreta, não confessada nem para o pai em seu leito de morte, de que – na arquibancada – é mais gostoso ver jogo no Pacaembu do que no Morumbi.

Corintianos: Raiva da pedância e da fleuma novo rico, ambos falsos, que o são-paulino médio ostenta, e de sua defesa do estádio do Morumbi em oposição à avenida marginal sem número, onde fica a Fazendinha.

São-paulinos: Ódio da demagogia corintiana de se auto-intitular “O” povo, “OS” verdadeiros brasileiros, “O” Brasil real, posição encontrada com um frequência de cem por cento no caso dos corintianos progressistas.

Corintianos: inveja secreta da diretoria são-paulina que, apesar de em essência não ser diferente das demais cartolagens, produz a aparência de deixar a casa minimamente em ordem.

São-paulinos: Desconfiança profunda, quase certeza, de que o Brasileiro de 2005 só foi para o Coríntia porque uma das máfias com as quais os cartolas corintianos costumam se associar literalmente comprou todo mundo.

Corintianos: Um prazer de relembrar sempre que possível que faz quase quatro anos que o São Paulo não ganha do Coríntia, e de, depois de cada clássico recente no qual o São Paulo, mais uma vez, perde para o Coríntia, perguntar: – CPF na nota?

São-paulinos: Prazer inenarrável de brincar dizendo que este ano o Carnaval caiu em março e o Coríntia em fevereiro, ou de dizer que o Coríntia caiu antes até do Mubarak.

Corintianos: Tem a certeza de que um são-paulino não consegue entender o que é a paixão corintiana, o que é gostar de um time como ele gostam do Coríntia, o que lhes dá ao mesmo tempo uma pena dos são-paulinos por não entender essa paixão e uma raiva de si mesmos por não conseguir explicá-la de forma alguma através de palavras.

São-paulinos: Uma relação meio doentia de torcer contra o Corinthians independente do adversário, e de obter um prazer considerável com isso.

Percebi que teria de rever minha posição e minha satisfação ao ver o Corinthians se dar mal, após a eliminação do mesmo da Libertadores de 2010, ocasião na qual um vizinho próximo, após o jogo, gania de tempos e tempos, dentro de seu próprio quarto : -Vai Curíntia!

Ao longo da noite este mesmo torcedor acordava de meia em meia hora e chorosamente repetia seu bordão: – Vai Curíntia! Ao invés de sentir empatia e pena, sentimentos normalmente mais condizentes com o sofrimento humano, eu me regozijava internamente com estes balidos.

Um exemplo da psique da questão: Se o Boca goleasse o São Paulo por 7 a 0 numa final de Libertadores e no ano seguinte o mesmo Boca pegasse o Curíntia na final, os tricolores torceriam fervorosamente pelo time argentino (com exceção de alguns que torceriam para um meteorito atingir o estádio).

Corintianos: Uma certeza secreta de que o Coríntia, e suas mazelas, é muito mais importante para os são-paulinos do que o São-Paulo é para os corintianos, de que eles se importam muito menos com o time dos outros do que os outros se importam com o Coríntia.

São-paulinos; Uma inveja grande por seu time nunca ter tido nada parecido com a democracia corintiana.

Corintianos: Não admitem que gostariam de ter o mito Rogério Ceni no seu time.

Ambos: Têm uma admiração profunda pela qualidade do futebol do Santos. E gostariam de ter o Ganso em seus times.

Ambos: Sentem certa falta secreta do Palmeiras como oponente de verdade, pois nos últimos tempos esse time, com seus oito volantes em campo, lembra mais uma equipe de rúgbi do que de futebol.

Ambos: Odeiam a CBF e as mazelas pelas quais esta faz o futebol brasileiro passar.

A única certeza e conclusão definitiva que se pode afirmar cientificamente e de acordo com os métodos mais acurados de análise já inventados, é que seria bem menos divertido morar em São Paulo não fosse essa rivalidade.

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Dedico esse textinho a meu amigo Dmitri Cerboncini, que tanta alegria me deu com seus pitis por causa de qualquer provocação sobre o Corintia.

Esse é um texto aberto, sugestões pertinentes (e o critério sou eu, hehe, esse texto não é uma democracia) serão anexadas ao texto.

A grafia Coríntia foi escolhida porque, cá entre nós, ninguém fala Corinthians, e porque a grafia Curíntia, devido à analogia com a forma popular de se referir a uma parte do corpo humano, pode soar ofensiva.

Guilherme – Março de 2011.

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9 Respostas para “São-paulinos e Corintianos”

  1. Daniel Bianchi 25/03/2011 às 16:37 #

    Grande texto, Guilherme. Duas coisas: Essa história de “novo rico” é uma bobagem própria de quem não conhece história. Afinal, o Tricolor sempre foi rico, grande e vencedor. Basta pensar o velho campeonato paulista (que se hoje não vale nada, até a década de 1980 era BEM mais importante que a Libertadores). Já na década de 1940, conquistamos 05 títulos desse campeonato. Na de 1970, três títulos, e na de 1980 cinco títulos.

    Daniel. (Obs. O Pacaembu é mais interessante em jogos de quarta à noite, contra times do interior. Mas o Morumbi é imbatível quando se trata de clássicos,jogos nos finais de semana e, claro, Libertadores da América)

  2. Adriano 25/03/2011 às 17:25 #

    Adorei o texto, Guila.

  3. Eduardo Valdoski 25/03/2011 às 18:53 #

    A CBF segue trabalhando pro Coríntia, desta feita foi Mano Menezes (ex-tecnico de quem???), ao desfalcar o mais querido, do talentoso Lucas, que a pratica tem mostrado ser mais que uma promessa e, principalmente indispensavel para as vitorias tricolores.

  4. Dmítri 26/03/2011 às 14:24 #

    Eis aí uma “homenagem” insuspeita. Interessante presente de grego vindo de são-paulino – futebolisticamente, não poderia ter sido diferente…

    E vou ser sincero: só mesmo um são-paulino pra ter a lucidez necessária de estabelecer uma comparação realista dessas.

    Não tem como ambos os lados não se enxergarem aí – apesar do fanatismo de gente como o Daniel, fanatismo quase corinthiano, que insiste em brigar com a história para moldá-la ao seu bel-prazer, tornando-a “bonita”, sendo que, para o azar de vocês, ela definitivamente não é (pode ter passado a ser, dependendo do ponto de vista, depois de conquistas mil).

    Vocês vêm da elite quatrocentona mais nojenta do Brasil. Isso é fato. Mas como consolo, se não dá para apagar essa mácula – mácula para são-paulinos progressistas – hoje em dia vocês possuem, justamente por causa dos títulos, uma torcida gigantesca, composta por pobres, ricos etc.

    E quem se orgulha tanto por possuir tantos títulos não necessita de história “bonita”. Deixem isso pra gente!

    No mais, a manutenção da símbologia vinculada aos clubes, como o de novo ou velho-rico, pobre, ladrão, maloqueiro, fascista etc. é o que dá liga ao jogo.

    Acabando com os estereótipos, fundados ou não na
    realidade, acabaremos com o futebol. Óbvio que preconceito tem limites, mas a vida politicamente-correta pra mim, pelo menos, é um saco…

    Da minha parte, reafirmando ou confirmando o estereótipo ou a realidade de bom corinthiano xiita, confesso que não consigo enxergar muito bem o “outro” quando o que está em jogo é o futebol.

    Muitos de nós somos de fato “loucos”, quase autistas pelo Corinthians.

    Pra falar a verdade, nem gosto muito de futebol; gosto mesmo é de Corinthians.

    Abraços alvinegros lisonjeados na esperança de alcançar a freguesia eterna!

  5. Lucas Cassab 27/03/2011 às 1:48 #

    1 Antes de nos criticar, tente nos superar.
    2 Time com mais titulo roubado que o sao paulo, nao existe no futebol brasileiro. 1986? 1977? 2007? dificil. Ate errar contagem de penalti a favor do sao paulo jah teve.
    3 Nao tem torcida
    4 Daniel fala de paulista epoca importante, engracado, quem eh o campeao do seculo paulista?? e nao foi por causa da decada de 1990
    5 O dia que vcs ganharem uma final de brasileiro da gente, ai quem sabe, nao pedimos mais o cpf. Como nao existe por enquanto final, ainda vai durar mt tempo esse pedido…kkk

  6. Guilherme Flynn 27/03/2011 às 14:51 #

    Como podem ver acima, há uma diferença de elegância nos comentários de acordo com o time para o qual cada indivíduo torce.
    A reação até o momento é a seguinte:
    São-paulinos: gostaram.
    corintianos: Dois tipos 1) “como pode um são-paulino se manifestar sobre o curíntia?”; 2)Razoável o texto, para um são-paulino.
    Santistas e palmeirenses: Texto? que texto?

  7. Baltazar 28/03/2011 às 21:20 #

    Muito bom o texto, principalmente com a forma romântica que fala do corinthia (acho o h importante). Gostei inclusive da parte que você fala que desejamos, de verdade, que o Palmeiras deixe de ser café com leite.
    Mas uma pergunta, porque sempre que um são paulino fala de futebol ele se importa mais com o corinthia de que com o seu próprio time?
    Abraços

  8. Alessandra Terribili 29/03/2011 às 13:09 #

    Querido, só duas observações: eu, particularmente, não tenho inveja nenhuma, ao contrário, da relação dos corinthianos com seu time em momentos de vacas magras. Vide o que houve após a eliminação da Libertadores (adorei o “caíram antes do Murabak”! rs). Outra coisa: dizer que ambos odeiam a CBF é uma inverdade. Vide acontecimentos recentes, que comprovam outra vez uma relação que não está somente nos tempos recentes.

  9. Alex 10/04/2011 às 23:01 #

    Guilherme, com toda a sinceridade que nossa amizade proporciona, vaticino (sem chance de contra argumentações), é um texto bem sampaulino. Com todos os ônus e, vá lá, deve ter algum bônus.
    Dmítri, ótimo texto. Uma lucidez que corinthiano em geral não consegue nem com anos de meditação.
    abraços a todos.
    Quem quiser CPF na nota diz o número.

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