Crônicas (dores)

1 jun

Tempos atrás, fui almoçar em um pequeno restaurante, muito antigo e simples, localizado na Rua do Boticário (uma travessa entre a Avenida Ipiranga e o Largo do Paissandú). A comida de lá é sensacional. O único lugar, no planeta inteirinho, em que preparam um arroz com feijão melhor que o de minha avó materna. A paisagem do local, no entanto, é horrorosa. Ainda que o socialismo total e irrestrito entre em vigor no Brasil hoje, essa parte do centro de São Paulo, nas proximidades da Praça da República, vai precisar de uns 50 anos para se tornar um local agradável ao convívio. Sempre que ando por lá, tenho sentimentos confusos, entre a revolta e o asco. Não entendia direito essa sensação. Mas, outro dia, em um documentário, vi a definição perfeita dessa situação, na fala de um morador de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro. Era aproximadamente isso:

“Veja, não tenho problema algum com toda essa diversidade, essa ‘fauna urbana’. Acho até muito interessante. Também entendo que a miséria e a violência são problemas sociais complexos, que dependem de soluções políticas. Creio ser equivocada a idéia de tratar morador de rua e menor abandonado como problema de polícia. Não é nada disso.

Agora, me incomoda. É um fato. Porque é demais. Demais. É muita droga, é muito moleque na rua, muita gente na calçada, muito batedor de carteira, muita violência, é muito, muito mesmo. Entende? Fica difícil de respirar. E aí é uma merda. Porque você nunca vai dizer isso para ninguém. As pessoas podem pensar que eu faço parte dessa classe média burra que quer morar trancada em condomínios com cerca elétrica. Não é o meu caso. Só que eu não aguento mais. Voto na esquerda, faço greve, reclamo do governo, participo até das reuniões do meu prédio. Mas eu não aguento mais”.

Em 2008, fui assaltado três vezes. Descendo a Rua Teodoro Sampaio, na esquina com a Rua Oscar Freire, um moleque levou tudo que eu tinha.  Três reais e cinquenta centavos e o meu isqueiro. Na esquina de baixo, Teodoro com Capote Valente, outro moleque tentou me assaltar. Tive que explicar que o concorrente da esquina de cima havia levado tudo. Noutra ocasião, saindo do trabalho, por volta de umas 21:30, levaram meu celular, na esquina da Avenida Vieira de Carvalho com a Praça da República. Por fim, na entrada da estação Anhangabaú do Metrô, levaram minha carteira. Dois rapazes. Os seguranças conseguiram agarrar os dois. Isso foi um inferno: tive que ficar numa delegacia, até as 3 da manhã, para mandar dois fodidos para prisão.

Ora, eu voto na esquerda, quero mudar o mundo, acredito no socialismo, já fiz minhas greves e sempre orientei meus estudos, na antropologia, para algo que tivesse alguma relevância cultural. Mas, quando eu lembro dessas situações todas, sinto uma vontade danada de, voltando ao passado, encher de porrada esses idiotas que me assaltaram. Imagino todos com seus andrajos, misérias e sofrimentos, desassistidos de qualquer atenção do Estado ou da sociedade civil e, enquanto penso nas injunções políticas que levaram a essa situação, imagino como seria bom ter, em minhas mãos, um belo pedaço de pau, nessas ocasiões em que fui assaltado. Sangue e dentes voando.

Concluído o preâmbulo – uma maneira de dizer que, neste instante, acho que Gandhi foi apenas um sujeito ruim de briga -, gostaria de voltar ao restaurante da Rua do Boticário, de propriedade de dois senhores muito simpáticos, seu Luís e seu João. Em um dia qualquer de 2008, entre um assalto e outro, caminhava para o estabelecimento comercial, já pensando em meu pedido de sempre – arroz, feijão, filé de frango e salada. Boticário, rua pequena e mal cuidada, estreita, daquelas que não proporcionam nenhuma rota de fuga. O rapaz, a própria definição de um andrajoso, veio em minha direção. Olhei para trás e vi uma menina, com aspecto sombrio, completamente esfarrapada, com os olhos também em minha direção. Enquanto pensava algo como “me fodi de novo”, a menina apertou o passo. Contornou meu corpo, envolveu seu parceiro de andrajos com um abraço amoroso e disse:

“Onde é que você tava, Xandão?”

“Fiquei uns dias na Luz, meu amor…”

“Tá… Some mais não. Vamo pegá uma sopa lá na Sé. Os padre tão dando o almoço”.

Ainda acho que deveríamos ter o direito de matar quem nos dá um susto desses.

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Caro leitor, até que façamos uma reunião sobre isso, eu e Guilherme, o visual do blog vai mudar bastante. Não se assustem!

Tunico.

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Uma resposta to “Crônicas (dores)”

  1. Valterlei Borges 02/06/2010 às 15:23 #

    Comida igual, só mesmo na feirinha de Paraty: arroz, feijão e carne seca com abóbora…

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