Novas Impessoalidades

3 jun

Sinceramente, nunca fui um sujeito muito dedicado à sociologia do trabalho. Ao que parece, as desavenças entre antropólogos e sociólogos aumentam muito quando chegamos ao campo de estudo das relações de trabalho, cadeias produtivas, reestruturações diversas… Eu, que não sou de brigar, nunca me envolvi, de forma mais detida, nessas discussões. O pessoal da sociologia estuda a linha de montagem, eu estudo o impacto das novas tecnologias no “imaginário da sociedade” e ficamos todos bem felizes.

Pois bem, você percebe que o sujeito vai escrever alguma coisa sem nenhum rigor metodológico quando ele começa dizendo: “olha, pessoal, isto é só um ensaio, viu? Umas ideias que estou a arremessar no ventilador”. Aí acabou-se.  A figura está livre para falar qualquer atrocidade que lhe vier à mente. Caso um leitor mais rigoroso reclame, o autor dirá: “mas eu avisei que era um ensaio!” Creio ser evidente que este é o momento em que digo que isto é um ensaio, com umas ideias e outras coisas que juntei em minha cabeça.

Trabalhei, durante algum tempo, em uma ONG que mantinha fortes laços com entidades sindicais. O próprio coordenador da organização é um militante com grande história na esquerda brasileira. Contribuiu, inclusive, na fundação e construção da maior central sindical de nosso país. O período que passei nessa instituição forçou-me a buscar certos temas que, como disse no primeiro parágrafo, não são do interesse imediato de um antropólogo (ainda mais eu, que havia acabado de defender um mestrado sobre intolerância religiosa no Brasil). Fordismo, toyotismo, reestruturação produtiva, trabalho organizado em equipes e cumprimento de metas, redes de informação… Isso tudo era bem pouco compreensível para mim. Embora entenda bem mais sobre esses assuntos, ainda hoje teria dificuldades para sustentar uma conversa de bar, sobre os mesmos, por mais que uns 20 minutos.

Resolvi escrever este texto, mesmo com todas essas limitações, para falar de algo que percebi esta semana. Durante muito tempo, ouvi sobre a alienação dos trabalhadores na linha de montagem fordista. O operário, com sua chave indeterminada, apertando uma porca após a outra, interminavelmente. Sem uma noção precisa do que está a fabricar, sem participar do planejamento da produção e sem diálogo com seus gerentes e diretores. Em muitíssimos casos, sem acesso ao produto quando este chega à prateleira do mercado. O fetiche da mercadoria e a alienação, em estado de graça, pairando sobre a cabeça de cada operário na gigantesca linha de montagem. Além disso, já que estou no senso comum e nas imagens óbvias, também podemos pensar na massa de trabalhadores entrando e saindo da fábrica. Do potencial político explosivo dessa grande aglomeração. Na solidariedade entre operários e no poder da organização sindical: milhares de pessoas, entrando e saindo da fábrica, todos os dias, submetidas ao mesmo processo de exploração, alienação e fetichização na linha de montagem.

O desmonte do fordismo está a ocorrer. A linha de montagem, ao menos aquela de Charles Chaplin, parece, cada vez mais, ficar no passado. As pequenas plantas de produção, a automação industrial, o crescimento avassalador do setor de serviços… Esta parece ser a nova configuração de nosso modo de produção, o capitalismo. Muito se fala do trabalhador com iniciativa, que “veste a camisa da empresa”, disposto a liderar, correr riscos, ficar mais tempo no trabalho e tornar-se parte ativa do processo de produção. Um trabalhador com maior autonomia? Conversa para boi dormir, uma verdadeira bobagem disseminada por grandes corporações. A alienação e o fetiche continuam lá, impávidos.

Antropólogo que sou, penso em termos mais “afetivos” para essa transformação. O trabalhador do fordismo não se identificava naquilo que produzia. Também acho que, atualmente, se há identificação, ela é muito frágil. O metalúrgico da montadora se identifica com o carro que produz? Talvez se sinta mais próximo da ideia final do produto. Mas continua completamente dissociado de seu projeto, da reflexão que levou àquela determinada mercadoria. Deixamos o taylorismo mais tacanho para trás, isso é verdade. Mas o trabalhador autônomo e reflexivo não irá brotar, jamais, dos centros de adestramento de mão-de-obra mantidos pelo “Sistema S”. Quero dizer, com tudo isso, que há uma transformação cosmética na relação última do trabalhador com a mercadoria, entre o fordismo e essa “coisa” que temos hoje: trabalhador que aperta três porcas ao invés de uma e que ganha uma camiseta da empresa não é trabalhador menos alienado no processo produtivo.

Retomando a proposta inicial, senti vontade de escrever este texto por conta de um conglomerado de clichês, depositado no fundo de minha memória, que foi ativado esta semana. Sempre gostei daquela passagem, nos filmes da “Sessão da Tarde”, em que o pobre desempregado entra numa empresa qualquer, faz algumas estripulias, diz que é o homem certo para a vaga de trabalho que nem existe, chora um pouquinho e acaba contratado. Entre um olhar incrédulo e outro, o desempregado chama a atenção do capitalista, um capitão da indústria preocupado com a produção e o progresso. Não obstante minha notável capacidade de auto-sabotagem, há tempos venho procurando um trabalho. Daqueles de 40 horas semanais, carteira assinada e plano de saúde. Não consigo de jeito nenhum. Não vou culpar o capitalismo por isso. Qualquer um que assistisse uma de minhas entrevistas de trabalho colocaria a mão sobre o rosto, naquele famoso gesto de “vergonha alheia”. Agora, para além dessas questões, nada me causa maior desespero que os métodos de recrutamento atualmente utilizados. Você manda 200 mil e-mails com seu currículo e preenche 3.255 formulários eletrônicos e ninguém, veja, ninguém, lhe responde coisa alguma. Criaram um grande ralo, o “buraco negro do RH”, que suga todos esses dados. Não sei se simplesmente deletam os currículos, repassam para CIA ou os utilizam para composição de poemas dadaístas, o fato é que não os usam para contratações. E fica aquela impressão de que você produziu um documento com suas informações pessoais e o lançou no éter do espaço sideral. Pode ser que, daqui uns 6 séculos, uma nova civilização encontre seu currículo, em alguma ruína empoeirada. Não há mais onde entregar um currículo pessoalmente. O progressista capitão da indústria morreu. O segurança da fábrica ou da empresa não vai deixar que você faça estripulia alguma. Pode desistir, amigo: suas qualidades pessoais e seu desprendimento não vão ajudá-lo.

Essa “coisa” com a qual lidamos, depois do fordismo, parece ser mais ranzinza e pouco simpática com clichês. A virtualização do diálogo parece não ajudar nesse processo todo. O que quero dizer com tudo isso? Não sei ao certo. Voltando ao “afeto” dos antropólogos, apenas me incomoda tentar arrumar trabalho trocando mensagens com o vazio eletrônico. Parece mais uma impessoalidade, daquelas que o capitalismo cria de tempos em tempos.

[Enquanto escrevia este texto, lembrei de várias passagens de A corrosão do caráter – consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo, de Richard Sennett. Editora Record, 2004 (primeira edição). Recomendo a leitura e dou os devidos créditos ao autor, pela inspiração.]

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Pessoal, meu texto anterior, “Crônicas (Dores)”, levantou a suspeita de que talvez eu seja um caso clássico de sujeito que está caminhando para direita e, no processo, começa a ter “horror a pobre”. Não é nada disso. Apenas quis mostrar que, seja você um eleitor do Maluf, ou um socialista dos mais sinceros, é muito difícil não sentir medo e raiva após um assalto. Embora simpatize muito com ideias cristãs, acho que leva um tempinho até passar o terror da situação e oferecer a outra face.

Isso jamais irá invalidar a certeza de que todas as pessoas que me assaltaram passam, cotidianamente, por momentos muito piores de humilhação e desprezo.

Tunico.

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2 Respostas to “Novas Impessoalidades”

  1. Renato 04/06/2010 às 15:11 #

    Legal… Vou até colocar nos meus ‘favoritos’

  2. Flávio 05/06/2010 às 22:20 #

    “(…) todas as pessoas que me assaltaram passam, cotidianamente, por momentos muito piores de humilhação e desprezo.”

    Com certeza, não tão cotidianamente os banqueiros e os políticos.

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