Três águias e duas rosas

5 jun

Durante muito tempo, tentei lapidar meu gosto musical para melhor me adaptar às festinhas de meus 18 anos, na Universidade de São Paulo. Quando cheguei a esta cidade, onde nascem flores de concreto, tive a impressão de que, em 1998, o som dos anos 1980 era, novamente, o embalo preferencial para todo tipo de convescote adolescente. Pode ser, por outro lado, que o filtro sonoro de nosso querido amigo Alex tenha me marcado fortemente. Para um fulano que passara quase toda a vida em Ribeirão Preto e Taubaté, “Smiths”, “Joy Division”, “The Clash”, “The Cure” e assemelhados eram uma bela porrada no nariz. Nunca tinha ouvido essas coisas e tive, inicialmente, uma grande repugnância pela crueza, aspereza e melancolia presentes nessa vertente musical. Ainda era fã incondicional das melodias mais suaves e dos solos intermináveis do “The Doors”  – vale dizer que ainda sou fã, mas, agora, condicional (seja lá o que isso signifique).

Creio que, para me diferenciar e, também, resgatar coisas que escutava desde a infância, ao lado de meu pai, voltei ao samba. Pude, com isso, nas noites alcoólicas intermináveis, em casas de amigos, constituir uma personalidade musical. Vejam, isso não é nada demais, tá? Não quero que achem que estou a fazer um grande relato etnográfico. “Personalidade musical”, aqui, tem sentido bastante específico: quando eu chegava perto do som e me preparava para colocar um disco, as pessoas pensavam algo como “putz, vai colocar aquela choradeira do Nelson Cavaquinho…” Isso foi muito bom, pois passei a escutar músicas das quais gostava, junto aos amigos, responder trívias sobre samba, em rodas de bêbados, e fazer algumas boas descobertas. O Alex do punk era, vejam só, um sujeito que também entendia muito de samba.

Escrevo este texto para citar uma avaliação minha sobre as distinções entre o samba produzido pelos compositores das duas maiores escolas de samba do Brasil: a Portela e a Estação Primeira de Mangueira. Como todo carioca, tive que escolher uma escola de samba, para torcer, logo após a escolha de um time de futebol. Minha mudança para cidade de São Paulo, após meu nascimento, criou uma situação muito estranha: um menino ao mesmo tempo palmeirense e portelense. Não me lembro como escolhi a escola. Quanto ao Palmeiras, foi decisiva uma camisetinha de goleiro, que ganhei de uma vizinha italiana bem gorda, ainda em meus tempos de morador da “Quarta Parada”, na Zona Leste da capital.

Retomando, sou portelense. Isso me fez buscar a produção musical de vários grandes expoentes do samba da escola azul e branca: Candeia, Paulinho da Viola e Zé Keti, para mim, são os maiores. Sem querer cometer injustiças, também cito Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio, dos quais gosto muito. Quanto à Mangueira, de tantos compositores magníficos, dois merecem estátuas e avenidas em todas as cidades do Brasil: Cartola e Nelson Cavaquinho. Devo mencionar, também, o maior intérprete do samba de todos os tempos, Jamelão. Isso posto, sem procrastinar, a grande revelação deste texto é a seguinte: embora portelense, sempre preferi o samba da Mangueira!

Os três portelenses citados têm uma série de características em seus sambas que, de certa forma, os aproxima. Candeia buscou resgatar elementos estéticos e sociais daquilo que considerava o “verdadeiro samba”. Nessa iniciativa, fundou uma escola de samba, “Quilombo”, que não deveria desfilar. Era ponto de agitação cultural e política, roda permanente de samba e não se prestaria à tarefa menor de disputar campeonatos. O samba de Candeia, cheio de ritmo e energia, tratava de crítica social, atacava o racismo e mostrava cenas do cotidiano do samba (suas rodas, seus porres, seus personagens). Paulinho da Viola era, muitas vezes, mais cronista que crítico. O cotidiano do samba está todo em suas músicas. Muito lirismo, muitas memórias e a exaltação à Portela também estão sempre presentes. Zé Keti também buscou nas sofridas condições de vida do povo cujas raízes se misturam às do samba, inspiração para seus trabalhos. “Acender as Velas” e “Opinião” são os melhores exemplos. Acho que os elementos políticos de sua produção tiveram vida mais longa que os de Candeia: posso estar sendo herético, mas acho que Zé Keti fala para público mais amplo, ao passo que Candeia restringe o alcance de sua mensagem com alguns arroubos panfletários.

Cartola e Nelson Cavaquinho são compositores que compreenderam, nos limites da capacidade humana, os sentimentos de dor, perda, rejeição e desamor. Aqui e ali, leio sobre as canções de “amor” desses dois sambistas. Canção de amor, para mim, é outra coisa. Algo como “Perfeito Amor”, de Élton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Cartola e Nelson, não por acaso, dois fenômenos alcoólicos, sempre caminharam em sentido oposto. Tentaram compreender as consequências da falta de afeto, do desprezo do mundo, dos preconceitos que se convertem em falta de afago e cafuné. Ao dourado de Paulinho, respondem com uma cor cinza que tem gosto de chumbo. A aspereza de suas letras é suavizada pela riqueza melódica e a sobriedade de cada harmonia. O que, aliás, causa um efeito interessante. Não se pode confundir a dor-de-cotovelo presente em cada uma de suas músicas com afetações sentimentalóides. Não há gorduras emocionais em suas composições. Os muitos sofrimentos amorosos são traduzidos em sambas, sem nenhum maneirismo que apele às lágrimas fáceis de quem os ouve.

Tempos atrás, quando era um militante de esquerda muito mais dedicado e, também, tapado, defenderia o estilo dos três portelenses citados, por razões ideológicas. A arte existe para informar, revoltar, revolucionar. Muitas mudanças de opinião depois, acho que a arte – ou o samba, para não parecer arrogante – ajuda o homem na compreensão de si mesmo e, então, num segundo movimento, pode ajudá-lo a revolucionar o que quer que seja. Na crítica social, Candeia, Paulinho e Zé Keti foram muito mais dedicados. Mas acho que, para compreensão das misérias do homem, Cartola e Nelson Cavaquinho são imbatíveis.

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Um pouco de samba, para animar! Abaixo, Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro:

Tunico.

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2 Respostas to “Três águias e duas rosas”

  1. Anônimo 05/06/2010 às 22:35 #

    Se puder ser anônimo (por vergonha da sinceridade um pouco melosa – e gordurosa – de meu elogio), gostaria de dizer que seu texto é uma delícia. É como sentir um bom perfume suave, comer uma truta com amêndoas, um macarrão aos quatro queijos… ou até uma feijoada, às vezes.
    Queijos!
    🙂

  2. Alex 06/06/2010 às 23:17 #

    tinha escrito um comentário comprido e bonito. Mas deu pau e fodeu tudo. Repito depois.
    beijos

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