Nossa Seleção

7 jun

E este é o princípio de tudo isso: a seleção é nossa, de todos e de cada um dos brasileiros que nela se reconhecem, ou, ao menos, deveria ser, De quem é a seleção brasileira hoje?

Que nós, que somos brasileiros e gostamos de futebol, nos sentimos representados por ela não há dúvidas, Temos um orgulho tremendo de saber jogar e de muitas vezes ganhar nesta brincadeira tão bela chamada futebol.

Se Maquiavel afirmava ser melhor ser temido do que amado, esta é uma escolha que nossa seleção não precisa fazer. Ela é temida e amada. Temida pelos oponentes em campo e amada por qualquer um que goste de futebol. Na Europa, África, Ásia e Oriente Médio usar uma camiseta da canarinho não indica  mais sequer que você é brasileiro, apenas que gosta de futebol, tantas são as pessoas encontradas envergando uma.

É fato também que sofremos por ela, que esperamos quatro anos por cada copa e que desejamos que, quanto esta chegar, os melhores sejam levados e que o time apresente um futebol bonito e ofensivo, perdendo ou ganhando, de preferência ganhando. Sofremos com o gol do Ghiggia, com os pênaltis perdidos pelo Sócrates e pelo Zico, com o gol do Henry, com os do Zidane. A seleção enfim nos representa pelo mundo afora, e nos causa alegrias, grandes alegrias, êxtases, sustos, tristezas e misérias. Agora, quem representa a seleção?

Pessoas fazendo milhões de dólares explorando uma concessão não clara e aparentemente irrevogável de usar os talentos superiores no jogo de pé na bola, que as pessoas nascidas em nosso país aparentam ter. O pior de tudo é que esses dirigentes odeiam futebol, ou aparentam odiar, pois contratam, sem prestar contas a absolutamente ninguém, cada tipo que faria melhor papel treinando o time da Lazio do que a seleção de um país conhecido justamente por jogar bem é bonito o ludopédio.

Dunga, Lazaroni, Parreira e Zagallo estavam apenas sendo Dunga, Lazaroni, Parreira, Zagalo, não são e não saberiam ser de outra forma É contraproducente, para não dizer ilógico, esperar deles qualquer outra coisa. A verdadeira questão é outra: quem está no poder de escolher justamente estes indivíduos entre tantos outros?

Nunca é demais lembrar que, em 1994, quando o meio de campo que jogou mesmo foi Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho, talvez o pior e mais defensivo meio de campo brasileiro de todos os tempos, quem de fato fez a diferença e nos trouxe o caneco, foi um baixinho que o técnico não queria convocar, e que o convocou somente porque houve o perigo sério de pela primeira vez não irmos para a Copa. O tal baixinho era um gênio do futebol! Foi este mesmo treinador que conseguiu a proeza de, pela primeira vez na história das classificatórias para a Copa do Mundo, o Brasil perder para a Bolívia, por dois a zero.

O técnico atual conseguiu ficar conhecido por inaugurar, como jogador, uma era de futebol feio e defensivo, por enviar passes que os colegas teriam mais facilidade de dominar se estivessem utilizando colete a prova de balas e, eventualmente, baterias antiaéreas. Jamais tendo treinado sequer o Madureira, fez sua estréia como técnico profissional treinando justamente a seleção que é a maior campeã de todos os tempos.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF, antes CBD, é eleita pelas federações estaduais de futebol, que por sua vez também não possuem os atributos de serem consideradas entidades transparentes e democráticas. O atual presidente da CBF está no cargo há mais de quinze anos, no sítio de internet da entidade, (aliás é um sítio .com, comercial, e não .org, de entidade sem fins lucrativos) não se encontram as contas da entidade, não há dados claros sobre suas eleições e, mais indicativo de seu atual caráter, conta com a faixa superior indicando diversos sítios do grupo de comunicação Globo, como O Globo em geral e o da parte de esportes do mesmo.

Essa mistura que cerceia a CBF e diversas outras entidades, entre ser, para fins de análise, pública na representação do País perante sua população e as populações dos demais países, e de ser eminentemente privada na sua falta de transparência e nos seus meios de obtenção de fundos e de fazer negócios, faz com que a seleção brasileira possua um caráter duplo. Nós sofremos e nos sentimos representados por ela, e é exatamente por nós sofrermos e nos sentirmos representados por ela que ela adquire todo seu entrelaçamento com a imagem do País, e é exatamente por ela se entrelaçar com a imagem do País e de seu futebol que ela é tão vendável e lucrativa. Porém e, como dizia Plínio Marcos, sempre tem um porém, essa é uma rua de mão única: nada ocorre no sentido inverso pois nós, singelos torcedores, que somos os que no fundo atribuem a legitimidade que a seleção brasileira possui, não temos absolutamente nenhuma ingerência efetiva em seus rumos e suas escolhas. O seu caráter duplo é de ser pública na representação e privada na gestão e obtenção de lucros. Ainda em tempo: quanto ganha o presidente da CBF?

Se como propõe Saramago, temos o direito e o dever de pensar numa democracia que vá além desta, temos de criar novas formas trazer efetivamente para o público o que dele extrai sua legitimidade, de pensar em mecanismos de trazer para o público as decisões sobre nosso futebol, que nos representa. Em primeiro lugar eleições diretas para a presidência e conselho da CBF, que se tornará uma autarquia pública, por que não?

Já que estamos falando de mudar de forma drástica as estruturas de ação e representação do futebol brasileiro, por que não sonhar ainda além – uma vez que começamos é difícil parar: por que não fazer eleições diretas para o técnico da seleção? Imaginem só… você vai até o órgão público mais perto de sua casa com o RG ou CPF  e pode escolher não entre Dunga, Parreira ou Zagallo, mas entre Dorival Jr, Felipão, Candinho, Luxemburgo, ou qualquer um que se dispuser a concorrer. Pela primeira vez em nossa ludopédica história, se a vitória ou tragédia vier na Copa, seremos nós mesmos os responsáveis diretos por ela.

Já que estamos sonhando, por que não eleger os 23 convocados também. Alguns mais bairristas votariam na própria escalação de seus times, mas esse efeito seria facilmente apagado pela grande maioria que, dotada de algum bom senso, saberia que mesmo que você torça pelo Flamengo, por exemplo, não significa que você tenha de sugerir o zagueiro David para ir para a copa do mundo

Por fim, agora já beirando o delírio, se os meios eletrônicos ampliam as possibilidades humanas, devem ampliar também as da democracia, por que não durante amistosos, a princípio como teste, não se alterar o time também ouvindo a torcida brasileira através de votação eletrônica em tempo real?

O problema atual do futebol do Brasil não é nem nunca foi o Dunga. É de quem possibilitou que ele esteja lá. Ou ainda em poesia:

O Dunga é esconsolável consolatrix consoadíssimo
mas a CBF car(o,a) colega esta não consola nunca de núncaras*.

Ou consola?

*Drummond, desculpa não, perdão.

Guilherme 07 de Junho

Anúncios

7 Respostas to “Nossa Seleção”

  1. belasco 07/06/2010 às 22:31 #

    Meus caros, essa seleção 2.0 de vocês está um pouco mais longe do que o VT na arbitragem.
    Futebol é negócio, não é política. Foi pol[itica em 70, mas duvi-de-o-dó que torne a ser ainda neste século.

    Ósculos.

  2. Bruno Padron (Porpetta) 08/06/2010 às 1:40 #

    Caríssimos,

    Escrevi recentemente sobre a derrota de 82, após ler sobre a Democracia Corinthiana, e revisitar histórias da época que tangenciavam futebol, política e negócios.
    Esta derrota foi significativa para alterar o próprio entendimento, não só dos dirigentes, mas também dos torcedores sobre a importância da vitória em si.
    O fracasso afeta a autoestima do torcedor e o bolso dos dirigentes.
    A vitória em 94, do jeito que foi, jogou a pá de cal sobre as cabeças dos entusiastas do futebol bem jogado.
    Se um dia veremos novamente a seleção jogando como a gente quer, não sei. Mas com certeza este refinamento não será a tônica do futebol no mundo, e nada mais apropriado para os dirigentes manterem tudo como está.
    Sobre as eleições diretas para tudo no futebol, sinto informar mas há uma determinação da FIFA que proíbe sequer ingerência estatal nas confederações. O Peru quase foi punido recentemente por sofrer intervenção do governo. O mau exemplo, mais uma vez, parte de cima.
    Outra coisa, de fato, o David não dá!!!

    Abraços,
    Bruno Padron (Porpetta)

    Obs: Ludopédio é ótimo…

  3. Vega 08/06/2010 às 10:20 #

    Guilherme y Tunico,
    Como disse o Pedro, negócio é negócio e política é política. E vice versa, claro. E hoje em dia os negócios definem a política muito mais do que o contrário. Sendo assim, seria mais fácil a gente gente organizar um bolão nacional para comprar o patrocínio da CBF pra botar técnicos e jogadores que gostem mais de futebol do que de ganhar, mas não façam qustão de separar um do outro.
    Enfim, não posso deixar de não entender como um São Paulino ainda nutre esperanças de representação popular no futebol. Ops, eu disse isso alto?

  4. Smeg 09/06/2010 às 11:06 #

    Guilherme,

    Você não é o único a pensar assim. Veja o link abaixo.

    http://www.tnr.com/blog/world-cup/75350/anyone-brazil

    “The sneaky reality is that this Brazilian football team—highly accomplished though they may be—are boring. They’re like a German car, which is fine if you’re looking for a German car but not if you’re searching for football worthy of the praise that’s lavished on Brazil.

    Then again, with Dunga as manager none of this should be a surprise. I remember the 2007 Copa America in which Brazil were mostly drably, grindingly efficient while Argentina sparkled all the way to the final before being crushed, physically and mentally, by Brazil’s power, resilience and, yes, efficiency.”

  5. caio carmacho 11/06/2010 às 20:21 #

    cartola fc neles!

    hauiahiuahuia…

    • Tonico 21/06/2010 às 0:10 #

      Vê se aparece mais por aqui, Caião!

      Abraço,
      Tonico.

  6. denisolivera 17/06/2010 às 22:42 #

    Já ouviu falar do projeto do César Sampaio, o “Meu Time De Futebol”? (www.mtdf.com.br)

    Segue a descrição: “Bem-vindo à maior revolução do futebol brasileiro. Os membros do MTDF irão comandar um clube de futebol real no Brasil! Você vai tomar todas as decisões do time e verá isso em campo. Os membros terão voz ativa e decisiva, vão escolher a escalação do elenco, definir a formação tática e até o destino dos investimentos do clube. É a inovação mais democrática do futebol!”

    Tem coragem?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: