Quem não quer um Gran Torino?

7 jun

No último sábado, assisti ao filme “Gran Torino”. Trata-se de mais um exemplo da primorosa capacidade de Clint Eastwood como diretor. Outros bons exemplos que tive o prazer de conferir foram “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby) e “Cartas de Iwo Jima” (Letters from Iwo Jima). Esses três filmes, esteticamente, são um deleite para olhos, ouvidos e mente. Os diálogos, sem desperdício de palavras, mostram um diretor que privilegia a busca rigorosa pela objetividade. Não há espaço para o sentimentalismo piegas e os personagens duros e ásperos têm espaço garantido. Sempre é possível argumentar que Eastwood está a interpretar a si mesmo em todos os filmes dos quais participa. Também notei a presença de sua personalidade em uma meia dúzia de esforçados japoneses preocupados com a invasão do exército norte-americano em Iwo Jima. Não acho que seja uma boa crítica. Esteja interpretando a si mesmo ou não, o sujeito é sempre impecável. E, convenhamos, há muitos atores que nunca conseguirão construir uma boa interpretação de si mesmos.

Mas algo chamou minha atenção no texto de “Gran Torino” – algo que me fez repensar os outros filmes do outrora pistoleiro solitário. Há um grande apego pelas imagens de uma certa tradição. Homens austéros, a valorização da palavra dada, as relações de vizinhança, o cumprimento do dever, a educação ou reeducação de jovens perdidos. Parece que Eastwood gosta de burilar a imagem de uma América perdida. Talvez de um mundo perdido. Isso provoca um efeito importante em seus filmes: se a estética é sempre atraente, há que se questionar, de forma mais profunda, as narrativas. Acho que são filmes datados. A boxeadora de sobrenome irlandês e bons princípios – fidelidade e honra – não existe há muito tempo. Don King deu fim a esse tipo de personagem do mundo do boxe nos idos dos anos 1980. O “vovô” que habita o bairro tomado por imigrantes também é figura de museu. Atualmente, ele seria um republicano raivoso ou integrante do Tea Party, já teria vendido seu Gran Torino, cor hortelã, por um bom preço e, muito provavelmente, estaria tomando sol no sul da Flórida, junto de outros aposentados. No caso dos japoneses, a imagem que se cristaliza do exército imperial de Hirohito é uma beleza: à exceção de alguns gatos pingados de péssimo caráter e de certos excessos do regime, a imagem forte é a da dignidade do soldado japonês. Por extensão, a dignidade do Japão na Segunda Guerra Mundial. Recomendo ao leitor que faça uma rápida pesquisa sobre as atrocidades do exército japonês para com o exército e a população civil da China. Essas imagens do “bom guerreiro japonês” não se sustentam.

Talvez Clint Eastwood seja um retratista do modo de vida dos anos 1950. Está a construir relatos das relações perdidas de boa vizinhança. O leiteiro que passava todas as manhãs, o pequeno Jimmy a entregar o jornal, o jardineiro negro que é tratado de forma paternalista pelos moradores da Rua Carter e por aí vai. Momentos dos 1950 em uma estética renovada. Isso é bem possível. Quentin Tarantino resgatou a estrutura do western spaghetti e criou pequenas jóias, como os volumes 1 e 2 de “Kill Bill” e “Bastardos Inglórios” (Inglorious Basterds). Como ele não avisou ninguém sobre isso, nem todos repararam. Pode ser que eu não tenha percebido qual a proposta de Eastwood e esteja fiando um rosário de bobagens.

Acho que essa análise é necessária, porém, pois começa a me causar certa náusea esse apelo ao passado das grandes e boas tradições, do homem bom. Ora, o passado não era tão bom assim – eles linxavam negros lá pelas bandas do Mississippi – e, se havia algo de realmente bacana por lá, já se perdeu, nos dias de hoje. A relação de vizinhança, boa ou má, está esgarçada. A comunicação, cada vez mais fragmentada e superficial. Nesse sentido, algumas cenas de “Gran Torino” são emblemáticas. Você não pega seu jovem vizinho oriental, leva até o pequeno escritório de construção de seu amigo irlandês e consegue um primeiro emprego para o rapazinho. Este, na verdade, cadastra um currículo em alguma empresa de agenciamento de mão-de-obra na internet e, depois, vai trabalhar na linha de produção de alguma empresa de eletrônicos ou como operador de telemarketing ou como moto-boy. A empresa de construção do irlandês foi comprada por alguma grande incorporadora nos anos 1970. E o rapaz não vai dizer nem bom dia para o vizinho de coração gigante e cara feia interpretado pelo nosso bom e velho amigo Clint. Não sei se você se recorda, mas, alguns linhas acima, eu expliquei que ele está morando no sul da Flórida. A outra cena que chama a atenção é a da barbearia mantida por um descendente de italianos na casa dos 50 anos. Esse é o símbolo máximo do saudosismo: a velha barbearia do bairro. Amigo, essa também não existe mais. Ou porque está muito decadente para ser digna de ocupar a memória afetiva da “velha barbearia” ou porque foi comprada e virou uma loja de alguma marca de roupas. Na melhor das hipóteses, nunca será a barbearia de um sujeito de 50 anos. Será a cena triste de um cortador de cabelos de uns 85 anos que não se aposenta por pura teimosia.

Não quero parecer hipócrita. Acharia ótimo poder ir atrás do velho caminhão de sorvete em alguma rua ensolarada de uma cidadezinha indefinida dos Estados Unidos. Voltar para casa, todo lambuzado de baunilha e encontrar meu pai, na sala, fumando um cachimbo, lendo o jornal e escutando um disco do Nat King Cole. Minha mãe estaria preparando o jantar, umas cinco da tarde e, depois, todos juntos, assistiríamos a um programa de comédia, na CBS. O mundo ideal de Clint Eastwood é esse. Aparece sempre em seus filmes (ao menos os que vi). E esse “lugar da tradição” é, de fato, muito sedutor. Ainda mais quando retratado nos anos 2000. Fica aquela impressão de que os bons tempos voltaram.

Mas não, não voltaram. E isso joga uma bela camada de poeira e mofo em seus filmes. Os tempos são outros, os desafios também. Acho que a arte existe, antes de mais nada, para o deleite estético. Agora, também concordo com Antônio Cândido quando este diz que a análise de uma obra literária deve levar em conta “texto e contexto, numa unidade dialeticamente íntegra”. Então, concluo dizendo, sem tanta unidade, mas levando em conta texto e contexto, que Clint Eastwood é formalmente perfeito. Mas, dentro da fôrma, há uma certa dose de velharias e clichês passadistas.

Tunico.

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