Vila das Ameixas

14 jun

Na última sexta-feira, 11 de junho, jantei com meu bom amigo Guilherme. Uma maravilha de refeição: eu pedi um Big Mac com Chicken McNuggets, um suco de laranja, um Cheddar McMelt e uma tortinha de banana (eles ao menos poderiam colocar esses nomes em português…). Aquela delícia que deve ser o terror de todos os nutricionistas do planeta. Já posso imaginar minhas artérias gritando: “cooooáááguuuulooooo!”

Futuras enfermidades cardiovasculares à parte, até chegarmos ao paraíso dos arcos dourados, fizemos um belo passeio pelo Itaim Bibi. O Guilherme mora por lá há quase 30 anos e, durante o trajeto, ficou a me explicar algumas transformações na paisagem do bairro. “Ali era uma casa”. “Esse prédio é novo”. “Olha só, aquelas construções ali serão prédios de escritórios”. Lá pelas tantas, enquanto ele enfrentava seu Quarteirão com Queijo, soltou uma muito boa: “estamos caminhando para uma cidade Blade Runner”. Uma referência aos cenários do filme “Blade Runner, o Caçador de Andróides” de Ridley Scott (1982). Para quem não se lembra, a Los Angeles de 2019 é uma megalópole formada por prédios gigantescos, atmosfera enfumaçada, tons de cinza e preto e uma certa sujeira difusa. Quanto a este último item, explico: não há montanhas de lixo nas esquinas, como em São Paulo (procure Kassab na wikipédia), mas tudo parece sujo, mal cuidado, feio e decadente.

São Paulo é uma “cidade Blade Runner”? Não sei ao certo a resposta. De chofre, diria que ainda não. Lembro-me de uma entrevista, sobre o filme, em que Harrison Ford, ator principal, comentava as discussões que manteve com Ridley Scott, durante as filmagens, sobre o roteiro. O ator falava da necessidade de maior identificação do público com os personagens. Estruturalmente, queria aproveitar essa questão. A pergunta é a seguinte: qual a identificação do paulistano com a cidade de São Paulo? Ele se sente feliz? Essa é a cidade que gostaria de ter?

Faço tais perguntas pelo seguinte: historicamente, a cidade de São Paulo – e o Brasil como um todo – cresceu a partir de um modelo excludente, autoritário, anti-democrático e concentrador. Não há mecanismos para ouvir, de forma eficiente, os anseios dos munícipes. Também não se vê disposição para distribuir o desenvolvimento e a produção de valor entre os diferentes bairros e regiões da cidade. Nós, moradores do centro expandido, somos muito mal acostumados. Eu não sou exceção. No entanto, seja por minha escolha de formação (sou antropólogo), seja por questões profissionais (os muitos bicos do desemprego), pude tomar contato, aqui e ali, com essa cidade da exclusão. Paraisópolis, Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Jardim Ângela e Real Parque foram alguns locais que pude visitar e, em alguns casos, fazer amigos. Considerando a quantidade de pessoas que vivem nesses locais, podemos dizer, sem risco de errar, que a verdadeira São Paulo é uma imensa favela, com ares congoleses. Esse amontoado de moradias insalubres cerca nosso “centro expandido”, uma cidadela formada por enormes edifícios que se convertem em caixas fortes de aço e vidro. Há “naves espaciais” na Avenida Luís Carlos Berrini e na Marginal do Rio Pinheiros, caixotes pelo Itaim Bibi, torres residenciais em Moema. Todos cercados por milícias privadas, catracas, cercas elétricas, muros, fossos, jacarés, besteiros, canhões, magos, políticas públicas, iniciativas privadas com dinheiro público, brasões empresariais e todo tipo de sortilégio destinado a manter afastada a turba.

As pessoas não se identificam com seus bairros miseráveis e desejam viver em local melhor. Muitas vezes, atuam nos limites de suas forças políticas para melhorar o espaço em que vivem. Mas como fazer o poder público ouvir? Tarefa difícil, quase impossível. Há pouco, falei de Kassab. Sua prefeitura trouxe de volta o higienismo, nos anos 2000, com bancos anti-mendigos, na região central da cidade (um pedacinho da guerra civil ao seu alcance). Quanto ao governo estadual, há que se perguntar: como dialogar com quem tem horror a pobre? Não me admira que as pessoas queiram mudar para locais melhores e que a organização popular pareça constantemente asfixiada. Basta ver o tratamento dispensado aos movimentos de moradia e de sem-teto. No Brasil, atuar contra a absurda acumulação patrimonial é o mesmo que ganhar um selo, ISO alguma coisa, de baderneiro-fora-da-lei. E ainda que se consiga, ao longo dos anos, transformar um local muito feio em bairro agradável, sempre temos a atuação extremamente eficaz do capitalismo. Gentrificação. Conceito relativamente simples que explica a desgraça habitacional de todas as metrópoles. Funciona assim:

  • Sujeito vai morar em bairro muito pobre, sem infraestrutura alguma. Falta água, luz, esgoto, transporte, hospital, escola, etc,
  • Sujeito e seus amigos criam uma associação de bairro. Organizam-se. Queimam pneus, brigam com a subprefeitura, falam com jornais, elegem um vereador,
  • Ao longo dos anos, o bairro fica mais simpático. Mais verde, hospitais, escolas, linhas de ônibus e maior oferta de serviços,
  • A Folha publica um artigo intitulado “Vila das Ameixas, o novo paraíso da Zona Sul”. O bairro torna-se alvo de especulação imobiliária. O custo de vida começa a aumentar. O preço do pão, na padaria da esquina, dispara. Famílias mais abastadas, alegando que “a Vila Mariana é uma loucura, queremos tranquilidade!”, começam a se mudar para os novíssimos prédios do bairro,
  • As famílias historicamente identificadas com a Vila das Ameixas começam a ser expulsas para locais mais afastados. Sem água, luz, esgoto, transporte público… Enfim, tudo de novo.

Viver numa cidade Blade Runner é viver em desterro em seu próprio bairro. Cercado por uma arquitetura de especulação imobiliária que não dialoga com a população e inibe a criação de qualquer vínculo afetivo entre cidade e cidadãos. O Edifício Copan é cartão postal de São Paulo, os prédios de Higienópolis são conhecidos pelo nome de quem os projetou, as casinhas do Belém pertencem às mesmas famílias há décadas e o Ipiranga continua um bairro popular. Nesses casos, a identificação e a afetividade estão bem marcadas. Não se pode esperar o mesmo do ser humano completamente desamparado que se vê obrigado a morar num barraco de uma favela de nome exótico. Também não há afetividade possível com o caixote de aço e vidro que, gigante e assustador, diz: “não queremos, não nos interessa, azar o seu”.

Esses processos estão em andamento. O bairro da Aclimação, onde passei parte de minha infância, foi destruído pela especulação imobiliária. Por lá, atualmente, só espigões. O modelo continua concentrador e autoritário. Os movimentos populares de moradia, continuam a ser caçados. As caixas fortes avançam. Enfim, já temos a estrutura da cidade Blade Runner. Ainda não somos. No entanto, com mais um tanto de terror tecnológico, a ambientação correta e uns governos tucanos e democratas, chegaremos lá.

Que porcaria.

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“- Pai, quem mora naquela casa?

– A Dona Flávia, filho. Foi ela que fez seu bolo de aniversário.

– E naquela ali, pai?

– O Seu Osvaldo, que conserta bicicletas.

– E naquele prédio grandão da esquina?

– Ah, filho, aí papai não faz a menor ideia.”

Tunico.

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P.S.: A imagem presente no início deste texto pertence ao filme “Blade Runner, o Caçador de Andróides” de Ridley Scott (1982). O filme foi produzido pelo estúdio “The Ladd Company” e distribuído pela “Warner Bros”. Essa imagem foi retirada do blog “Bibliostructures” (http://editionsballard.wordpress.com/).

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8 Respostas to “Vila das Ameixas”

  1. Flávio 14/06/2010 às 18:40 #

    Procurei Kassab na Wikipédia, de curiosidade. Achei uma frase tão inspiradora (de alguma coisa) que quase perdi o fôlego! Segue:

    “Se mantidas as cassações e ultrapassadas todas as etapas de recursos, quem poderia assumir a Prefeitura de São Paulo seria o presidente da Câmara, Antonio Carlos Rodrigues, que também enfrenta processo por improbidade administrativa. Se Rodrigues também tivesse o mandato cassado, pela Lei Orgânica Municipal, quem poderia assumir o Executivo seria o vice-presidente, o vereador Dalton Silvano, mas ele também foi cassado em 2008 e recorre.”

    • Guilherme & Tunico 15/06/2010 às 11:41 #

      Flávio! Reparei que tem acompanhado o “Cumachama”. Para nós, é uma grande honra. Continue comentando, viu? Ainda não somos muito assíduos nas respostas, mas vamos melhorar.

      Tunico.

  2. Smeg 14/06/2010 às 18:45 #

    Vou repetir o que Anthony Bourdain disse quando visitou São Paulo. “São Paulo é como se Nova Iorque tivesse vomitado em Los Angeles.”

  3. Alex 14/06/2010 às 18:45 #

    Tunico,
    veja que coisa, de repente a gente olha e vê que o bairro tá melhorando, que dá pra gostar de morar lá, e aí sim, nós fomos surpreendidos novamente!
    Mas, e aí? Fazemos o que? A Vila Romana, onde a Jô trabalha (e eu trabalhava) já está a meio caminho de se fuder. Na próxima renovação de contrato eu vou me fuder. E isso que estamos falando de gente que ainda pode se virar.
    Mas, vendo bem, é essa “gente que consegue se virar” que faz a maior parte das coisas que levam a mídia, artes e tralalás a gerar pontos de identificação com a cidade. Quer dizer, quem leva o aspecto de “legal morarno centro” ao centro? O Guilherme, por exemplo, que resolveu morar lá.
    Enfim, este é um espaço muito pequeno e preciso bater meu ponto, mas o que quero dizer é que, ainda bem que temos estes pontos de identificação com a cidade para que gostemos dela a ponto de querer melhorá-la o suficiente para que o pessoal do Consulado Nordestino ali no Lgo da Memória também possa se identificar com essa cidade. Enfim, ocupar, da melhor maneira possível, e pelo maior tempo possível locais onde falte gente.
    Em suma, vamos almoçar no centro no sábado que vem? Marajá tá bom?
    beijos

  4. Alex 14/06/2010 às 18:47 #

    Smeg, isso foi um elogio, não?

  5. Yano Mamma 21/06/2010 às 0:25 #

    E a Vai-Vai, a “Saudosa Maloca”, o barracão que no morro é bangalô, Geraldo Filme, o samba da Barra Funda, da Casa Verde? A afetividade é possível também na grande pobreza.

  6. Adriano 21/06/2010 às 21:59 #

    Tonico,

    Tesão de texto!

    Parabéns!

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