Jamelão e outros heróis

20 jun

Talvez seja um pouco de presunção de minha parte, mas acredito que sempre tive heróis um pouco diferentes daqueles admirados pela maior parte das pessoas. Não fui – nem sou – fã de Ayrton Senna, nunca quis ser astronauta e jamais sonhei com a ideia de ser um grande jogador profissional de futebol. Quando criança, admirava os cobradores de ônibus: pega dinheiro, dá troco, informa itinerário, ajuda o motorista… Achava fantástico. Lembro-me de alguns particularmente simpáticos, sempre a dizer “bom dia” e reclamar, com o adolescente sentado, um banco para a anciã cansada. Cobrador-herói ou, fosse eu um morador do bairro de Laranjeiras, trocador-herói.

Excetuando esse caso, a maior parte de meus heróis está vinculada a uma instituição chamada Escola de Samba. Esse nome sempre me chamou a atenção. Afinal, há umas três dúzias de sambas a afirmar que samba não se aprende na escola. Já vi velhos passistas ensinando os segredos do requebro a meninos muito novinhos; instrumentistas dedicados, a explicar como uma cuíca ronca; e compositores experientes explicando a Paulinhos como deixar um verso mais bonito. Mas, bem, escola não é mesmo. Não tem sala de aula, processo formal de ensino, ninguém entra na série X e progride até a série Y. Antes, é espaço de construção e difusão cultural coletivas, culto à ancestralidade, formação musical e elaboração estética – escola de samba é teatro, cenografia, roteiro, enredo, enquadramento… Pensando bem, uma Escola de Samba deve ser instituição muito mais rica e complexa que um simples colégio ou faculdade.

Dito isso, a maior parte de meus heróis veio dessa instituição. Gostaria de falar um pouco sobre eles. Meus preferidos são os “puxadores” de samba-enredo. Ou intérpretes, de acordo com Jamelão, que foi o maior de todos eles. “Puxador gosta de fumo e de ‘puxar’ carro”, repetiu inúmeras vezes. Esses tais intérpretes-puxadores conseguem cantar durante uma hora e meia a mesma música, sem desafinar uma única nota. Organizam o coral dos foliões a desfilar, buscam o melhor entrosamento com o cavaquinho e a bateria e vão colando “cacos” em suas interpretações (cacos são os famosos “tá bonito”, “vamos lá, minha escola”, “arrebenta bateria” e quetais). Também são os responsáveis pelo momento mais emocionante de um desfile: o canto do samba de exaltação, para aquecer escola e bateria, momentos antes do início do desfile. Esses meus heróis, muitas vezes, possuem histórias muito bonitas de identificação com determinadas agremiações. Jamelão foi intérprete da Estação Primeira de Mangueira entre 1952 e 2006 (aos 93 anos!). Neguinho da Beija-Flor é crooner da escola que lhe empresta o pseudônimo desde 1976. Muitos outros ficaram famosos: Silvinho da Portela, Dominguinhos do Estácio, Paulinho Mocidade, Quinho, Aroldo Melodia e tantos outros mais.

Também acho sensacional o “Mestre de Bateria”. Normalmente, figuras de pouca instrução e, até onde sei, que nunca pisaram numa faculdade de música – morra de inveja, Juilliard School. Mas as maravilhas que produzem! A sofisticação rítmica é absurda: surdo de primeira, de segunda, de terceira; alas de tamborins; cuícas sempre à frente; caixas no meio; agogôs em profusão, dando sensualidade à batida… Uma ciência das mais complexas. Tanto mais difícil quanto maior a inventividade do mestre: são inúmeras as possibilidades de “paradinhas”, modificações no andamento da batida, baterias mais “pesadas” (com mais surdos), outras com mais suíngue, as cadenciadas, as apressadas… Em todas elas, há um mestre que coordena sua apresentação: homem versado em todos os instrumentos, ás da afinação e que consegue dar personalidade e originalidade ao som de mais de 300 ritmistas – aqui, que a OSESP morra de inveja. Mestre André, da Mocidade Independente de Padre Miguel, inventor da paradinha, foi o maior de todos. Na Portela, tivemos o sambista Mestre Marçal à frente da “Tabajara do Samba”.

O casal formado por Mestre-Sala e Porta-Bandeira carrega, simbólica e praticamente, a maior responsabilidade do desfile. No plano simbólico, conduzem e protegem o pavilhão e as cores da escola. Quanto ao título em disputa, o casal é responsável direto por 40 pontos colocados em jogo (quatro jurados avaliam seu desempenho, com notas que vão de 7,0 a 10). A Porta-Bandeira não pode deixar que a bandeira se enrole, deve dançar com leveza e se deixar cortejar por seu parceiro. Este, o Mestre-Sala, deve dançar o ritual da corte e proteger a bandeira contra possíveis inimigos. O leque ou bastão que carrega é alegoria a uma arma. São ecos de um passado distante, em que blocos se enfrentavam nas ruas e roubar o estandarte de agremiação rival era um dos objetivos do (acalorado e tenso) folguedo. Para quem não sabe, nesses tempos (década de 1930), a Porta-Bandeira era, na verdade, um homem. Músculos para proteger o maior patrimônio da escola. Caso fosse possível driblar rivalidades de contornos quase bílblicos, o maior casal de todos os tempos seria formado pelo Mestre-Sala Delegado, de Mangueira, e por Vilma da Portela, carinhosamente chamada de “O Cisne”.

Esse é meu batalhão de heróis, as pessoas que mais admiro, aquelas que gostaria muito de imitar. Artisticamente, conheço poucos exemplos que os superem. Além disso, há que se considerar as muitas outras possibilidades de heróis que o mundo do samba ainda nos dá. Carnavalescos, como Joãosinho Trinta (“quem gosta de pobreza é sociólogo, pobre gosta de luxo!”); passistas, como Pinah (que quase põe doido o Príncipe Charles); destaques, como o Xangô do Salgueiro; e muitos outros. Os compositores, então, formam uma lista interminável: Paulinho da Viola, Zé Kéti, Noca da Portela, Carlos Cachaça, Cartola, Nelson Sargento, Candeia, Paulo da Portela e por aí vai. Esses heróis merecem um texto só para eles.

Cobradores de ônibus e integrantes de escolas de samba. Talvez eu tenha, mesmo, heróis pouco comuns. Tudo bem. Nunca disse a você, caro leitor, que sou um exemplo de normalidade e moralidade, certo? Que bom. Para terminar, gostaria apenas de creditar a ideia do título a um outro herói. Este, no entanto, compartilho com muitas outras pessoas. Graciliano Ramos, autor de “Alexandre e outros heróis”, o mais militante e menos panfletário de todos os escritores brasileiros. Leiam o livro, recomendo entusiasticamente.

É isso aí, meu povo.

Tonico.

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Uma resposta to “Jamelão e outros heróis”

  1. Alex 21/06/2010 às 16:46 #

    Cobrador de ônibus?
    Puxa, por essa não esperava, Tonico. Especialmente por que para mim eles eram quase como policiais, tentando evitar a todo custo que eu usufruisse (???) de transporte público gratuito.

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