Contra a antropologia Pollyanna

24 jun

E a Vai-Vai, a “Saudosa Maloca”, o barracão que no morro é bangalô, Geraldo Filme, o samba da Barra Funda, da Casa Verde? A afetividade é possível também na grande pobreza.

As palavras acima foram escritas pela leitora “Yano Mamma”, em comentário ao meu texto “Vila das Ameixas”. Nele, resolvi falar da impessoalidade de nossas metrópoles, com destaque para caminhada de São Paulo rumo a um futuro como “cidade Blade Runner”. Achei a crítica pouco razoável pois, antes de tratar da ausência de afetividade em situações de grande pobreza em cenário urbano, quis tratar, de forma mais geral, da ausência de vínculos entre pessoas e caixotes empresariais de aço e vidro. O sujeito não se identifica com a favela, certo. Porém, no plano simbólico, fico ainda mais impressionado com bairros urbanizados, em que há água, luz e esgoto e os mostrengos da arquitetura corporativa ficam a intimidar aqueles que ousam passar por suas calçadas. O capitão da indústria morreu e foi substituído pelo “vice-presidente de novas mídias corporativas”. O Edifício Itália definha e, em seu lugar, no imaginário do paulistano, as torres “Center Business New World” ganham importância.

Mas por que voltar a esse tema? Por duas razões. Em primeiro lugar, sinto certo desconforto, como antropólogo, diante dessa situação. Recordo-me de uma definição do trabalho dos intelectuais, que ouvi quando ainda estava no curso de graduação em Ciências Sociais: “ocupam-se da reflexão desinteressada do mundo”. Não me lembro quem citou, qual autor escreveu e, para ser sincero, nem sei se essa memória é muito confiável… Antes de parar de beber, eu bebi muito, sabem? De repente, isso é coisa de algum neurônio com sequelas da cachaça. Acho, porém, que tal definição faz certo sentido quando pensamos na antropologia. Armados com todo tipo de relativismo, deslumbramento e fé nas estruturas elementares de alguma coisa, vamos a campo dispostos a encontrar magníficas formas de sociabilidade. Quer elas existam entre moradores de um lixão, praticantes do futebol de várzea, devotos de uma determinada religião ou frequentadores de certo clube noturno. O que chama a atenção, entretanto, é o fato de, muitas vezes, acharmos que tais práticas culturais e usos simbólicos do espaço urbano se desenvolvam no limbo. Sim, claro, há todo esforço de descrição e contextualização. Mas peço que mostrem um antropólogo a falar sobre capitalismo, cadeias produtivas, exploração, concentração de capital, má distribuição de renda… Esse deveria ser o contexto amplo, fundamental em toda etnografia. Ao que parece, porém, o esforço estruturalista – capitaneado por esse grande tótem chamado Lévi-Strauss -, foi muito eficaz, ao asfixiar o debate político na antropologia, através da estética. De que me vale o sistema de parentesco, aliança e reciprocidade, que me explica tudo, se a necessária verve crítica, diante desse tudo desolador, está ausente?

Uma no cravo, outra na ferradura: é fundamental fazer a crítica da crítica. Sempre defendi o esforço dos antropólogos em entender as micro-relações, as pequenas afetividades, a construção artesanal dos símbolos e o entendimento do mundo, também, pela interação cotidiana entre pessoas e grupos culturais. Lembro-me de, certa feita, ter realizado uma defesa assaz romântica de minhas etnografias dos tempos de graduação e mestrado. A um amigo bastante marxista, expliquei que achava – e acho – relevante entender as práticas culturais de todos. Mas, ainda mais importante, é entender as práticas daqueles que são excluídos. Que não aparecem na Globo nem na Record e que fazemos questão de ignorar: nas ruas, estádios, terreiros, clubes noturnos e paradas. Acho que o antropólogo se dispõe a ver aquilo que ninguém dá muita atenção e, por conta disso, enxerga o humano onde os outros vêem apenas um sujeito esquisito, de turbante branco na cabeça, ou um amontoado de andrajos de odor duvidoso.

Entre a metrópole impessoal, as pequenas afetividades e os dilemas da antropologia, temos o segundo motivo para escrita deste texto. Esta semana, recebi um e-mail muitíssimo grosseiro, por parte do “Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico”, o famoso CNPq. Diziam que o meu currículo eletrônico, presente na base de dados Lattes, poderia ser apagado. Motivo: divergências entre as informações fornecidas ao CNPq e aquelas constantes em meu cadastro de pessoa física, junto à Receita Federal. Pois bem, lá fui eu, rumo ao Ministério da Fazenda, na avenida Prestes Maia 733. O dia estava cinza, gelado e caía uma chuva fina muito fria. Passei pelo Vale do Anhangabaú, Praça do Correio e caminhei pela Prestes Maia, já nos arredores do bairro da Luz. O lugar é horroroso: sujo, mal-cuidado, enfumaçado, mal-cheiroso, perigoso e, em cada quarteirão, há uma enfiada de prédios a louvar o que há de pior na arquitetura e na conservação de fachadas. Ainda bem que estava do lado certo da calçada – o ímpar. Pois, em certos trechos, é impossível atravessar a Prestes Maia. Uma avenida bem larga, cercada por viadutos, passagens subterrâneas, muretas, mais viadutos e o diabo. Nesse cenário tenebroso, enquanto atravessava uma rua, vi uma mãe coreana, com um carrinho de bebê e seu filhinho. Menino gordinho, simpático e amarelo (não, não é uma questão de preconceito: apenas tive a impressão de que a criança não tomava sol há meses). Eu sorri para o pequeno coreano, que me olhou indiferente, e recebi um sorriso de sua mãe. Aí pensei naquele lugar horrível para se passear com uma criança e fiquei imaginando onde esse moleque haverá de brincar, quando puder chutar uma bola. Provavelmente, uma bola virtual, no sofá de sua casa.

Então, Yano Mamma, a questão é a seguinte: pode haver afetividade na pobreza e ainda há afetividade em meio à crescente impessoalidade de nossa metrópole. As pessoas formam grupos culturais, redes de sociabilidade e trocam sentimentos e impressões mesmo em cenário tão adverso. Acho isso fantástico. Mas, sendo coerente às minhas críticas a essa “antropologia de ursinho carinhoso”, é fundamental fazer uma reflexão crítica. Décadas de crescimento excludente, autoritário e higienista serviram para formar uma cidade hostil a seus habitantes. Os miseráveis, as caixas-fortes e a feiúra urbana não resultam do acaso: resultam, antes, de nosso turbo-capitalismo, que é formado por relações sociais para lá de cruéis, e que vive encastelado em seu centro expandido, torcendo para que os moradores do Jardim Ângela fiquem por lá mesmo.

Já é tempo de repolitizar a antropologia.

Tonico.

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8 Respostas to “Contra a antropologia Pollyanna”

  1. Alex 24/06/2010 às 16:46 #

    Tonico,
    muito bem escrito. Que bom que você ainda tem paciência para responder sentado e ponderadamente a Mammas desse tipo. Fosse outro (eu, claro) teria mandado a moça estudar e dar mais e se possível dar um pulo ali na Barra Funda depois da meia noite para sentir uma quadrilha de ritmistas do bairro lhe empalar pelos quatro pontos cardeais para depois perguntar de novo pra ela como se dá a afetividade na pobreza. Mas, enfim, muito bom o texto. E voltando ao assunto, talvez fosse bom relembrar um pouco das idéias da M. Strathern sobre como se dão as relações em escalas diferentes. Quer dizer, segundo a sra Strathern a política está lá, assim como diversos outros (olha o Foucault aí minha gente) discursos. Mas esses discursos tem um influência diferente conforme nos aproximamos ou nos distanciamos de um dado sujeito (analiticamente falando). Enfim, passear pelas ruas talvez seja a segunda melhor coisa que um antropólogo possa fazer (a primeira é ler, sem dúvida, sempre e sem medo de quebrar a cara) por que isso nos faz dar de cara com diversas fases, esferas, discursos ou o que quer que chamemos da vida social (e tem vida sem social? Depois do Guilherme ler o Tarde, ele responde). Política? Só não vê quem não quer.

    • Tonico 24/06/2010 às 16:53 #

      Alex e leitores,

      Aqui neste blog, não censuramos nada, nadinha mesmo. Mas acho bom dizer que certos comentários de meu bom amigo Alex são comentários só dele mesmo, viu? Então, por favor, não errem os nomes, quando iniciarem os processos judiciais.

      Abraços,
      Tonico.

      • Alex 24/06/2010 às 16:58 #

        Pô Tunico,
        valeu pela parte que me toca…
        vou te mandar as fotos tiradas na área de serviço do Seu Sílvio para rediscutirmos responsabilidades sobre opiniões manifestadas.
        Mas, falando sobre isso, o blgo mal começou e já viramos uma Caros Amigos de pequeno porte? Um bando de confrades reclamando de quem está de fora?
        hã… não era pra iniciara a autocrítica?
        beijos

      • Tonico 24/06/2010 às 17:00 #

        Alex e leitores,

        Amo todos vocês.

        Tonico.

  2. Alex 24/06/2010 às 17:15 #

    Errai a mão ao comentar sobre os ritmistas? Será que deveria ter citado o Pierucci em 98 quando disse:”Vai na Pça da República quinta-feira à meia noite e depois vem de dizer se o homem é bom”. Claro, naquele dia isso podia também significar que ele estava falando de sociologia.
    Enfim, nos vemos no sábado, né? E era mesmo o Seu Sênior que eu vi hoje no metrô?
    beijões.

    • Gui 24/06/2010 às 17:57 #

      Alex, só vou ler o Tarde depois que acabar Finnegans Wake no original, ou seja lá para 2022.
      Alex, acho que não se deve ofender uma leitora nossa assim, ela pode ser a única!
      Alex,com os quatro pontos cardeais de quatro cardeais prontos se faz uma festa no seminário.
      Alex, e tenho dito.

  3. áurea 24/06/2010 às 20:33 #

    olá antônio, guilherme e leitores!
    agradeço muitíssimo o convite para a leitura do blog, os escritos estão bem interessantes! tá bom de ler!
    não li todas as postagens, mas queria comentar que as menções sobre a estética tem chamado a atenção (aparece também no texto sobre o filme gran torino), principalmente por causa da ênfase em separar estética de política/politização. evidentemente que esta separação persiste, de certa forma, no “social” … mas não seria possível pensar “isto e aquilo” e não somente ou…. será que interpretei mal?
    ah, e que sinistro esse lance do cnpq, hein, credo….
    abraços!

  4. blogs oswald 23/07/2010 às 0:36 #

    Gostei muito. Adoro suas descrições do centro de São Paulo, esse labirinto do abandono em que a gente por alguma razão ainda insiste em viver.
    Concordo com a Áurea (se é que entendi bem as considerações dela) quanto ao emprego do termo estética. Mas isso você já sabe que eu penso: detesto pensar que estética funcione como sinônimo de cosmética – uma pqna paranoia romântica q eu tenho. E sempre junto neste raciocínio aquele outro: vivemos num mundo em que “Sublime” virou nome de papel higiênico. Por aí já se vê…
    Estou lendo com gosto o blog, viu?
    E esta crítica à antropologia deslumbrada é fundamental em tempos em que o respeito à diferença facilmente se confunde como reverência à desgraça.
    Abço.
    Adriano

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