Nossa Seleção – Postado de novo

25 jul

Muito felizes e honrados com a citação, por parte do craque Sócrates, de um texto de nosso blog em sua coluna. Decidimos, Tunico e Guilherme, postar novamente na íntegra o texto citado.

Lá vai:

E este é o princípio de tudo isso: a seleção é nossa, de todos e de cada um dos brasileiros que nela se reconhecem, ou, ao menos, deveria ser, De quem é a seleção brasileira hoje?

Que nós, que somos brasileiros e gostamos de futebol, nos sentimos representados por ela não há dúvidas, Temos um orgulho tremendo de saber jogar e de muitas vezes ganhar nesta brincadeira tão bela chamada futebol.

Se Maquiavel afirmava ser melhor ser temido do que amado, esta é uma escolha que nossa seleção não precisa fazer. Ela é temida e amada. Temida pelos oponentes em campo e amada por qualquer um que goste de futebol. Na Europa, África, Ásia e Oriente Médio usar uma camiseta da canarinho não indica mais sequer que você é brasileiro, apenas que gosta de futebol, tantas são as pessoas encontradas envergando uma.

É fato também que sofremos por ela, que esperamos quatro anos por cada copa e que desejamos que, quanto esta chegar, os melhores sejam levados e que o time apresente um futebol bonito e ofensivo, perdendo ou ganhando, de preferência ganhando. Sofremos com o gol do Ghiggia, com os pênaltis perdidos pelo Sócrates e pelo Zico, com o gol do Henry, com os do Zidane. A seleção enfim nos representa pelo mundo afora, e nos causa alegrias, grandes alegrias, êxtases, sustos, tristezas e misérias. Agora, quem representa a seleção?

Pessoas fazendo milhões de dólares explorando uma concessão não clara e aparentemente irrevogável de usar os talentos superiores no jogo de pé na bola, que as pessoas nascidas em nosso país aparentam ter. O pior de tudo é que esses dirigentes odeiam futebol, ou aparentam odiar, pois contratam, sem prestar contas a absolutamente ninguém, cada tipo que faria melhor papel treinando o time da Lazio do que a seleção de um país conhecido justamente por jogar bem e bonito o ludopédio.

Dunga, Lazaroni, Parreira e Zagallo estavam apenas sendo Dunga, Lazaroni, Parreira, Zagalo, não são e não saberiam ser de outra forma É contraproducente, para não dizer ilógico, esperar deles qualquer outra coisa. A verdadeira questão é outra: quem está no poder de escolher justamente estes indivíduos entre tantos outros?

Nunca é demais lembrar que, em 1994, quando o meio de campo que jogou mesmo foi Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho, talvez o pior e mais defensivo meio de campo brasileiro de todos os tempos, quem de fato fez a diferença e nos trouxe o caneco, foi um baixinho que o técnico não queria convocar, e que o convocou somente porque houve o perigo sério de pela primeira vez não irmos para a Copa. O tal baixinho era um gênio do futebol! Foi este mesmo treinador que conseguiu a proeza de, pela primeira vez na história das classificatórias para a Copa do Mundo, o Brasil perder para a Bolívia, por dois a zero.

O técnico atual conseguiu ficar conhecido por inaugurar, como jogador, uma era de futebol feio e defensivo, por enviar passes que os colegas teriam mais facilidade de dominar se estivessem utilizando colete a prova de balas e, eventualmente, baterias antiaéreas. Jamais tendo treinado sequer o Madureira, fez sua estréia como técnico profissional treinando justamente a seleção que é a maior campeã de todos os tempos.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF, antes CBD, é eleita pelas federações estaduais de futebol, que por sua vez também não possuem os atributos de serem consideradas entidades transparentes e democráticas. O atual presidente da CBF está no cargo há mais de quinze anos, no sítio de internet da entidade, (aliás é um sítio .com, comercial, e não .org, de entidade sem fins lucrativos) não se encontram as contas da entidade, não há dados claros sobre suas eleições e, mais indicativo de seu atual caráter, conta com a faixa superior indicando diversos sítios do grupo de comunicação Globo, como O Globo em geral e o da parte de esportes do mesmo.

Essa mistura que cerceia a CBF e diversas outras entidades, entre ser, para fins de análise, pública na representação do País perante sua população e as populações dos demais países, e de ser eminentemente privada na sua falta de transparência e nos seus meios de obtenção de fundos e de fazer negócios, faz com que a seleção brasileira possua um caráter duplo. Nós sofremos e nos sentimos representados por ela, e é exatamente por nós sofrermos e nos sentirmos representados por ela que ela adquire todo seu entrelaçamento com a imagem do País, e é exatamente por ela se entrelaçar com a imagem do País e de seu futebol que ela é tão vendável e lucrativa. Porém e, como dizia Plínio Marcos, sempre tem um porém, essa é uma rua de mão única: nada ocorre no sentido inverso pois nós, singelos torcedores, que somos os que no fundo atribuem a legitimidade que a seleção brasileira possui, não temos absolutamente nenhuma ingerência efetiva em seus rumos e suas escolhas. O seu caráter duplo é de ser pública na representação e privada na gestão e obtenção de lucros. Ainda em tempo: quanto ganha o presidente da CBF?

Se como propõe Saramago, temos o direito e o dever de pensar numa democracia que vá além desta, temos de criar novas formas trazer efetivamente para o público o que dele extrai sua legitimidade, de pensar em mecanismos de trazer para o público as decisões sobre nosso futebol, que nos representa. Em primeiro lugar eleições diretas para a presidência e conselho da CBF, que se tornará uma autarquia pública, por que não?

Já que estamos falando de mudar de forma drástica as estruturas de ação e representação do futebol brasileiro, por que não sonhar ainda além – uma vez que começamos é difícil parar: por que não fazer eleições diretas para o técnico da seleção? Imaginem só… você vai até o órgão público mais perto de sua casa com o RG ou CPF e pode escolher não entre Dunga, Parreira ou Zagallo, mas entre Dorival Jr, Felipão, Candinho, Luxemburgo, ou qualquer um que se dispuser a concorrer. Pela primeira vez em nossa ludopédica história, se a vitória ou tragédia vier na Copa, seremos nós mesmos os responsáveis diretos por ela.

Já que estamos sonhando, por que não eleger os 23 convocados também. Alguns mais bairristas votariam na própria escalação de seus times, mas esse efeito seria facilmente apagado pela grande maioria que, dotada de algum bom senso, saberia que mesmo que você torça pelo Flamengo, por exemplo, não significa que você tenha de sugerir o zagueiro David para ir para a copa do mundo

Por fim, agora já beirando o delírio, se os meios eletrônicos ampliam as possibilidades humanas, devem ampliar também as da democracia, por que não durante amistosos, a princípio como teste, não se alterar o time também ouvindo a torcida brasileira através de votação eletrônica em tempo real?

O problema atual do futebol do Brasil não é nem nunca foi o Dunga. É de quem possibilitou que ele esteja lá. Ou ainda em poesia:

O Dunga é esconsolável consolatrix consoadíssimo
mas a CBF car(o,a) colega esta não consola nunca de núncaras*.

Ou consola?

*Drummond, desculpa não, perdão.

Guilherme Flynn Paciornik 07 de Junho

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