Sobre a importância do beijo gay no programa do PSOL na TV

24 ago

Uma imagem, valendo ou não mil palavras, é uma afirmação, um discurso, uma escolha, e acredito que o diretor da propaganda eleitoral do PSOL foi muito feliz ao escolher a imagem de dois homens se beijando como parte da construção de seu discurso.

Colocar, finalmente, na televisão aberta no Brasil uma imagem como essa é parte importante no processo de construção de uma sociedade menos violenta em relação à orientação sexual. Parte importante no questionamento dos porquês das grandes concessionárias de mídias de massa não discutirem essa questão ou veicularem cenas desse tipo.

A qualidade e a quantidade da discussão sobre as opressões no Brasil são muito influenciadas pelo tipo de comportamento e regulamentação das mídias de massa, especialmente rádio e televisão, que, através do simples silêncio do congresso sobre a regulamentação do artigo 221 da Constituição federal de 1988 (que regulamenta tipos, finalidades e regionalização de conteúdo), podem continuar se portando como se a concessão pública fosse de fato uma posse, e seu uso inquestionável e absolutamente livre para veicular conteúdo exclusivamente de acordo com seus próprios valores e com objetivos de maximização do lucro.

O tipo de mídia que floresceu em nosso país, associado ao tipo de grupos políticos e classe empresarial que temos, ajuda a esconder – ao não debater, ao não tomar em questão – não somente essa opressão, mas um grande conjunto de opressões, mesmo quando há evidência mais do que concreta da importância que esses fatos têm na vida das pessoas. Por exemplo, ao contrário do que Ali Kamel defende, o Brasil é racista sim, e isso já foi mais que provado empiricamente, como, por exemplo, entre outras tantas demonstrações, nas pesquisas que mostram diferenças de salário por raça para pessoas com a mesma formação para o exercício da mesma função. Essa diferença de remuneração se reafirma também por gênero, sendo o da mulher negra o pior salário possível para um posto qualquer de trabalho.

Vamos exercitar um pouco a empatia e nos imaginar na situação na qual grande parte dos homossexuais se encontra, na qual são repreendidos pela mínima demonstração de afeto em locais públicos – coação psíquica – isso para não falar dos inúmeros casos de coação efetivamente física, e da grande quantidade de pessoas assassinadas exclusivamente por amar de um jeito diferente. Imagine por um momento, como a ficção já fez em algumas obras, uma sociedade dominada por um pensamento no qual o normal é ser gay, uma sociedade homonormativa, e que se comportasse em relação à diferença de orientação sexual da mesma forma como a nossa sociedade se comporta.

Nessa imagem mental a quantidade de constrangimentos, geralmente invisíveis ou objeto de pouca reflexão, que passam a existir para o leitor que, como eu, é hétero, é absurdamente grande. Você não poderia sequer andar de mão dada com a pessoa de quem gosta na grande maioria das ruas de sua cidade, em muitas cidades inclusive em rua alguma. Você não poderia dar um simples beijo num parque em um domingo de sol à tarde. Você teria que limitar suas demonstrações de afeto a uma quantidade pequena de lugares privados, muitas vezes separados dos lugares que grande parte dos seus amigos e família freqüenta. Você não poderia dispor de suas posses acumuladas e benefícios adquiridos ao longo da vida em função da pessoa amada. Todas suas demonstrações cotidianas de afeto seriam restringidas ou temerosas, e em alguns casos inclusive colocariam sua vida em risco. Você gostaria de viver assim? Apoiar a veiculação da cena é ajudar a retirar um número grande de pessoas dessa condição.

A violência simbólica e física é tão grande que sequer temos uma forma efetiva de saber quantas pessoas de fato são homossexuais em nossa sociedade, mas temos motivos fortes e demonstrações públicas que nos levam a pensar que esse número não está na casa dos milhões, mas das dezenas de milhões, esse é um dado importante para se pensar, embora as argumentações fossem as mesmas se estivéssemos falando de apenas quinze pessoas.

É curioso refletir sobre o que se permite e o que se proíbe num dado momento histórico, e sobre o que isso tem de arbitrário e de estúpido mesmo. Um cartaz de um ex-militar americano que foi expulso do exército por ser homossexual traz uma boa reflexão sobre essa questão. O cartaz dizia: “Ganhei medalhas por matar vários homens, e fui punido por amar um”.

Houve críticas até de representantes dos Democratas – Antigo PFL e talvez o maior herdeiro político de todas as violências efetivas realizadas pela Ditadura – de que a cena foi fortuita, não programática. Ora bolas! A cena foi programática em todo e qualquer sentido que se atribua a essa palavra, principalmente no sentido de ser parte constituinte do programa do partido o combate às opressões, e por fazer parte da concepção de socialismo defendida por esse partido em seu programa um mundo sem discriminação em função de gênero, orientação social, raça e origem, entre outras. Se um partido político defende em seu programa uma sociedade de fato livre de opressões, mostrar isso através de imagens nada mais é do que uma afirmação de seu programa.

A discussão sobre a forma e o momento de se afirmar esse trecho do programa é uma questão interna do partido na qual não me envolvo aqui, mas comento apenas que, se de fato essa é uma parte importante do programa, se de fato se quer transformar o programa em letra viva, e se, ainda por cima, se quer se diferenciar do conjunto do espectro político que pasteuriza suas afirmações de forma a não ofender em qualquer momento o senso comum – por mais divergente com o programa que este seja –, se tudo isso é verdade, então a campanha de televisão é um ótimo momento para colocar essa questão. Os que defendem o programa em áreas menos receptivas a essas pautas, como o campo, o movimento sindical, e as áreas com forte presença da igreja, devem estar preparados para realizar essa defesa.

Se considerarmos que o amor é uma característica fundamental do viver bem, e que sua livre expressão deve ser um direito de todos os seres humanos, então aquela breve cena, de menos de um segundo, da campanha de televisão do PSOL teve uma importância grande na afirmação pública de uma humanidade mais bela e livre.

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6 Respostas to “Sobre a importância do beijo gay no programa do PSOL na TV”

  1. Smeg 25/08/2010 às 22:36 #

    Excelente texto,

    em falar em preconceito, viu esse video?

  2. Viviane Campezate Diniz 26/08/2010 às 0:53 #

    Caro Guilherme

    vc me autorizaria postar em meu blog http://psolnaluta.blogspot.com/ seu texto sobre o beijo gay na campanha de Plinio do PSOL, prometo citar o autor e fonte.

    Abraços e parabéns pelo texto.

    Viviane

    • Guilherme Flynn 26/08/2010 às 5:44 #

      Claro companheira! Fico honrado. Utilize a vontade.
      Abraços e Obrigado

      • Viviane Campezate Diniz 26/08/2010 às 14:15 #

        muita generosidade, obrigado de coração e sempre que quiser divulgar um texto meu blog e minha pessoa está a sua disposição.

        beijos no coração

        Vivi

  3. Gu 26/08/2010 às 8:05 #

    Oi Gui! O seu texto está ótimo!! Achei a iniciativa do PSOL super ousada e concordo plenamente contigo que a exibição do vídeo é uma demonstração explícita do conteúdo programático do PSOL. Expor de forma natural o beijo de dois jovens demonstra claramente o compromisso do partido com um projeto de sociedade que respeita as diferenças e um dos direitos humanos mais básico: o de amar. Achei a iniciativa super importante, principalmente por trazer às claras a questão do direito de casais LGBT de optarem pelo casamento civil (que ao contrário do que os conservadores afirmam, é a única forma de casamento reconhecida pelo Estado brasileiro, em virtude do seu caráter laico) e não apenas por um instituto legal de segunda classe, como união civil e parceria civil. É chegada a hora de publicizar este debate! Além disso, a iniciativa do PSOL deixa claro o compromisso do partido com o direito à livre orientação sexual, rompendo assim com o ranço de parte da esquerda que ainda vê a homossexualidade como uma “degeneração da sociedade burguesa” ou “uma questão secundária, frente aos reais problemas da sociedade”.

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