Socialismo no horizonte. Não no retrovisor.

29 set

Não, não concordo com a campanha imunda de desconstrução da candidatura de Dilma Rousseff, promovida pela grande mídia.

Isso posto, devo dizer que vejo com certo espanto comentários vindos das fileiras petistas acerca da participação de Plínio de Arruda Sampaio nos debates entre candidatos à presidência da república. Afirmam que, ao criticar o governo Lula e a candidata Dilma, Plínio ajuda a direita (o PSDB de Serra e o PV de Marina) a realizar o seu trabalho sujo, de ataques reacionários.

Avaliação injusta. A burguesia brasileira possui comportamento primitivo extremo, a ponto de não saber o que é melhor para si mesma. Apega-se a um símbolo mofado, o Lula barbudo e socialista de 1989, para vomitar discurso reacionário. O Partido dos Trabalhadores e Lula honram, para além de qualquer dúvida, todos os compromissos assumidos com o grande capital. Os juros permanecem elevados, a reforma agrária não foi feita, nossa carga tributária continua cruelmente regressiva, o Sistema Único de Saúde não é prestigiado como deveria e pouco se avançou, inclusive, em pautas injustamente qualificadas de “laterais” – como a regulamentação da união civil homoafetiva e a descriminalização da interrupção da gravidez.

Ora, é inegável que tivemos avanços. Quem tem fome, tem pressa. Perdoem-me a frase feita, mas, disso, não há dúvida. Os programas de distribuição de renda patrocinados pelo governo contribuíram para mitigar quadros de extrema pobreza, nos bolsões mais miseráveis do país. Além disso, numa abordagem estritamente liberal, o estímulo ao consumo, com o protagonismo das tais classes C, D e E, é um motor virtuoso para o crescimento do Brasil. Mais consumo, mais produção, mais empregos, aumento da massa salarial e melhora da qualidade de vida. Isso foi obtido no governo Lula, sem dúvida – ainda que numa escala limitada. A miséria ainda persiste, as favelas estão aí, o desafio do saneamento básico não foi vencido. Trata-se, enfim, do meio de caminho no processo civilizatório de nosso capitalismo. Não tenho dúvida de que mais um mandato do Partido dos Trabalhadores no governo federal fará algum bem ao país.

Os sucessivos escândalos de corrupção devem ser postos em seu devido lugar. Houve um equívoco fundamental do PT quando este resolveu se escorar exclusivamente na bandeira da “ética na política”, colocando de lado seus ideais de esquerda e as necessárias reformas estruturais. Perdoem-me a expressão mas, muitas vezes, governar é “enfiar a mão na merda”. Não, não defendo a corrupção. Acredito no seu combate incansável. Mas tal combate deve ser realizado juntamente de um projeto mais amplo de reforma social, rumo ao socialismo. A onda vermelha, que levou Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo nas eleições municipais do ano 2000, tinha pouco de vermelha – e socialista – e muito de branca – a pureza do militante paladino da moralidade pública. Governar curvado ao capitalismo, em especial neste nosso modelo ainda pouco civilizado, é sujeitar-se ao risco cotidiano das ofertas de corrupção. As regras do jogo impõem e o PT, seja através de militantes isolados, seja através de sua cúpula, decidiu jogar de acordo com as regras. O fisiologismo, o rebaixamento programático, a partilha de cargos, a compra de apoios e o “presidencialismo de coalização” (Paciornik, S. D.) contribuíram, decisivamente, para que o PT abraçasse a mesmice do jogo político-eleitoral – inclusive no tocante à corrupção.

Todos esses fatos vêm de longa data e não são exclusivos do PT. O governo Fernando Henrique Cardoso também teve um longo rosário de casos de corrupção. Contou, porém, com a conivência de Geraldo Brindeiro – “engavetador-geral da União” –, com uma Polícia Federal pouco atuante e, o mais importante, a docilidade da mídia. As famílias Frias, Civita, Mesquita e Marinho não demonstraram, para com o “príncipe da sociologia”, a mesma disposição investigativa que possuem para com o “sapo barbudo”. Escândalo por escândalo, outros fatos me impressionam ainda mais. O “Partido da ‘Social-Democracia’ Brasileira”, por exemplo, foi protagonista do maior projeto de desmonte do estado brasileiro em todos os tempos. E o “Partido da Frente Liberal (vulgo Democratas)” possui quadros que fizeram parte da Aliança Renovadora Nacional – partido de suporte à ditadura militar. Essa última crítica, aliás, é até amena: procure pelas propostas de Ricardo Salles (25.200) na internet. Veja o que a “nova” direita promete, na figura desse candidato à Assembléia Legislativa de São Paulo. Você vai descobrir que alguns integrantes da ARENA talvez até tivessem certo traquejo democrático…

Voltando ao ponto: as ataques a Plínio de Arruda Sampaio e ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) são absolutamente injustos. Não fazemos o trabalho sujo da direita. Estamos interessados, antes, no trabalho que cabe à esquerda socialista: criticar a falta de avanços estruturais e reformas verdadeiramente transformadoras nesses 8 anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Não vamos à televisão criticar o fortalecimento da Petrobrás, a defesa de Cuba, a gestão de José Gomes Temporão no Ministério da Saúde (ainda que seja passível de críticas) ou o Plano Nacional de Direitos Humanos.

Quando criticamos os escândalos palacianos, cobramos coerência de um partido que construiu bandeiras de luta em torno da ética na política. Além disso, nossas cobranças e críticas, referenciadas em nosso programa de atuação política, dizem respeito a uma série de ideais e projetos muito caros à esquerda socialista brasileira:

  • A realização de uma reforma agrária radical,
  • O investimento de 10% do PIB em educação (sempre pública),
  • Distribuição de renda que não se restrinja às muitas bolsas distribuídas pelo governo federal,
  • O estabelecimento de um sistema tributário fortemente progressivo, com taxação de grandes fortunas,
  • Grandes investimentos em ciência e tecnologia – para que superemos, de vez, o pacto colonial,
  • O combate à especulação imobiliária, com a adoção de IPTU fortemente progressivo,
  • Auditoria da dívida pública,
  • Fortes investimentos no Sistema Único de Saúde,
  • Investimentos massivos em saneamento básico,
  • Regulamentação da união civil homoafetiva,
  • Descriminalização do aborto,
  • Fim da perseguição aos movimentos sociais,
  • E por aí vai.

Defendemos um conjunto de reformas radicais. Essas reformas são o primeiro passo para que, pela via democrática, com ampla participação popular, possamos iniciar uma trajetória decisiva rumo ao socialismo. Isso deve ficar muito claro: o PSOL tem a construção do socialismo como meta. Não se trata de bandeira fora de moda nem de ideal relegado a um “passado de luta”. Quando criticamos a administração Lula e o Partido dos Trabalhadores, o fazemos porque não acreditamos na bandeira de um capitalismo de ar mais respirável. O capitalismo lavra na desigualdade, na concentração de renda, na exclusão, no preconceito, na destruição do meio-ambiente e, de forma geral, no medo. Um maior acesso a bens de consumo, embora desejável, não significa um único passo rumo ao socialismo.

Por essas e por outras, eu voto assim:

  • Presidente: Plínio de Arruda Sampaio, PSOL, 50;
  • Governador: Paulo Búfalo, PSOL, 50;
  • Senador: Marcelo Henrique, PSOL, 500;
  • Deputado Federal: Ivan Valente, PSOL, 5050;
  • Deputado Estadual: Eduardo Amaral, PSOL, 50740.

Tunico.
P.S.: Como puderam notar, eu não falo da candidatura Marina Silva. Sempre que penso nessa coisa de Partido Verde, me lembro de uma propaganda ótima, de uma instituição de caridade. Um mendigo, puxando uma carrocinha, parava numa calçada e começava a vestir uma fantasia de cachorro. Fantasia vestida, começava a pedir esmolas. E terminava com o locutor dizendo: “porque ajudar os animaizinhos é mais fácil, né?” Como eu acho muito óbvio que fica difícil preservar um jacarandá quando não se tem disposição de ajudar um menino de rua, vou me abster de considerar a existência política da Marina.

A defesa efetiva do meio-ambiente é pauta cara ao socialismo, não um elemento para “agregar valor à marca”. Defendemos as florestas tropicais, os mananciais, o cerrado, a caatinga e todas aquelas outras coisas “chatas” que vêm junto com eles: as populações locais.

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30 Respostas to “Socialismo no horizonte. Não no retrovisor.”

  1. Bárbara Lopes 30/09/2010 às 11:13 #

    Oi, Tonico
    Eu concordo que existem muitas críticas a serem feitas ao governo Lula. A principal delas, para mim e para pessoas que estão ou passaram pelo governo, foi ter subestimado sua força política e ter feito menos do que poderia. Mas fez muita coisa. Por isso, me entristece ver o PSOL dizer que NÃO EXISTE DIFERENÇA entre Lula e FHC. Daí fica parecendo que diminuir a pobreza e a miséria, como o governo Lula fez, não é importante. Perdão pela obviedade, mas é. É importante inclusive para a luta pelo socialismo.

    • Guilherme Flynn 30/09/2010 às 14:35 #

      Babi,
      Acho que o Tunico quis dizer exatamente o contrário, que sabe que o PT é bem melhor que o PSDB, mas que ainda assim considera insuficiente a gestão do PT no que diz respeito a retomada do socialismo no horizonte de eventos. Amplexos

      • Bárbara Lopes 30/09/2010 às 15:48 #

        Sim, meu comentário quis ressaltar dois pontos:
        1. tem uma diferença entre o discurso do PSOL e do Tonico (e o seu).
        2. tirar uma parte do povo da miséria não é suficiente como socialismo, mas é um passo. É melhor lutar quando tem menos gente (de preferência, ninguém) passando fome.

        E vocês precisam escrever mais 🙂

  2. Tunico 30/09/2010 às 15:21 #

    Babi,

    Eu sou do PSOL e quis dizer, como o Guilherme já pontou, que há muitas e relevantes diferenças entre PT/Lula e PSDB/FHC.
    O PT abraçou a causa da inclusão pelo consumo e deixou de lado a bandeira socialista. Acho fundamental que, numa democracia liberal capitalista, as pessoas tenham acesso a bens de consumo. Nisso, os 8 anos de Lula foram a melhor coisa que poderia ter ocorrido ao Brasil. A questão é: eu acredito no socialismo, me considero um militante do socialismo e acho que a desigualdade e a exploração são inerentes a todo tipo de capitalismo. Desse modo, não posso defender a gestão PT/Lula. Voto e milito, portanto, no PSOL.
    Agora, se alguém quiser pedir meu conselho, por estar na dúvida entre Dilma e Serra, farei todo meu esforço para que escolha a primeira opção. Acho uma idiotia sem tamanho dizer que PT e PSDB são a mesma coisa.

    • Bárbara Lopes 30/09/2010 às 15:58 #

      Não tava tentando te deslegitimar como PSOL, só estava me referindo à imagem projetada na campanha, à candidatura Plínio, à face pública do partido.

  3. Alex Vega 30/09/2010 às 16:39 #

    Tunico y Guilherme,
    concordo com tudo o que a Babi disse acima. E principalmente que a maneira como você expõe a posição do PSOL não a mesma como ela é colocada por outro militantes. E é mesmo diferente do que o Plínio diz em debates. Não concordo em absoluto com a crítica (fácil e falsa) que essas críticas audam a direita. Mas não acho que são justas nem com a trajetória do Plínio (que tenho certeza sabe e entende o que aconteceu no país nos útlimos 8 anos) nem com a do PT.
    De mais, você conseguiu colocar em texto o que bem poderia ser o que realmente pensa o militante do PSOL, mas acho que não é, infelizmente. Acho que você e o Guilherme tem uma posição e uma autocrítica muito mais aguda e honesta do que é ser do PSOL.
    beijos.

  4. Alex Vega 30/09/2010 às 17:04 #

    Péraí!
    O seu Silvio tem um nome do meio?
    D?

    • Guilherme Flynn 01/10/2010 às 9:27 #

      Davi
      Existe também um nome em íidisch que davam as crianças polonesas no interior do Paraná, mas esse é difícil de ser reproduzido com o alfabeto romano.

      • Silvio D. Paciornik 01/10/2010 às 14:51 #

        Ups!

  5. Antonio Vieira 30/09/2010 às 17:22 #

    É incoerência, sou petista, vou votar na Dilma mas, concordo plenamente com o Tunico em sua argumentação.
    Quando elegemos o Lula, para seu primeiro mandato, esperávamos muito dele. Pois ele criou grande expectativa em nós, que sonhávamos com grandes mudanças. E o que vimos? Um governo que, embora tenha tirado grande fração da população da miséria, continuou proporcionando às eleites ganhos absurdos. Os bancos, mesmo na era do FHC, nunca lucraram tanto. A gangue ruralista continua dando calote na dívida do setor com os bancos públicos. Não vejo no PT legitimidade na defesa dos ideais solicitas pelo contrário, vejo a negação! A politica atual que, de um lado tira mizeráveis da angústia de não ter o que comer ou vestir, joga outros milhares na miséria da fome e do vício no craque. Dessa forma, para eu não ser totalmente incoerente, vou votar, como já mencionei, na Dilma. Como estou em MG, para governador vou votar no candidato do PSOL, para senador no Pimentel do PT e para o 2o. senador e deputados, federal e estadual, vou votar nos canditados do PSOL.

    • Tonico 30/09/2010 às 17:26 #

      Meu pai-pai!

      =)

    • Silvio D. Paciornik 01/10/2010 às 15:28 #

      Tem alguns aspectos do governo Lula que, parece-me, não foram abordados nem pelo texto do Tunico nem pelas respostas (de seu pai, seus amigos, tudo gente da casa como eu).
      1) O uso do poder do Estado para promover a ainda incompleta distribuição de riqueza (nunca poderia imaginar que resultados tão expressivos pudessem ser alcançados em tão pouco tempo).
      Até o governo anterior pregava-se a virtude do Estado mínimo e parece agora evidente que o grau de cidadania obtida por um povo é proporcional ao tamanho do Estado. Na contramão dos liberalismos e neoliberalismos, sou fortemente favorável a um Estado poderoso desde que democraticamente controlado, é claro (tive de fazer a ressalva para não ser tachado de Stalinista). Acho que o Lula entendeu isso, o que não é para desprezar. O desmanche das empresas estatais (Telebrás e Eletrobrás) representou um, talvez irrecuperável, atraso no desenvolvimento tecnológico nesses setores (alguém aí já ouviu falar da Cepel ou do CPQd? – o Cenpes ainda existe porque não conseguiram privatizar a Petrobrás). A intervenção do Estado na economia (lato senso) deixou de ser vergonhoso.

      2) A afirmação internacional.
      O papel que o Brasil passou a desempenhar em nivel planetário, enfrentando governos poderosos, aliando-se aos mais fracos (acho o perdão das dívidas de alguns desses países uma das grandes realizações do governo Lula) se não é totalmente original (até o FHC – argh – chegar o Brasil não era signatário nem dos acordos de patentes nem do tratado de não proliferação de armas nucleares) nunca antes se deu em termos tão intensos e de forma tão independente. E abrindo alguns novos negócios que ninguém é de ferro, pois não?

      3) PACs e que tais.
      Aqui entre nós, vocês não acham fantástica a revitalização da indústria naval?

      4) Sem os resultados positivos desse governo, será que o Neymar teria ficado no Brasil fortalecendo aquele grande time de futebol?

  6. Renato Godoy 30/09/2010 às 19:25 #

    Parabéns, Tunico, belo texto. Apesar de concordar com a avaliação que alguns fizeram aqui que esta parece uma posição mais sua do que do Psol e do próprio Plínio. Este, aliás, tem escorregado em muitas armadilhas fáceis colocadas pela direita. Disse algumas coisas indefensáveis – ainda mais para ele, jurista – como “se tem muita investigação no governo é porque tem muita roubalheira”. Outra crítica é a maneira como o partido abraçou o Ficha Limpa que é um monstrengo que ninguém ainda sabe o que vai ser e que já faz alguns estragos políticos, como é o caso do vice do Paulo Búfalo – condenado de maneira injusta e claramente ideológica, ao meu ver.
    De resto, sensacional a “desconsideração” da candidatura Marina.
    Um abraço,
    Renato

  7. blogs oswald 30/09/2010 às 20:38 #

    Tunico, que puta post! Tenho quase a mesmíssima visão que você da política do Lula e do papel do PT no Brasil atualmente, mas – confesso – tenho pouca esperança de que a esquerda consiga avançar de outro modo. Podem me acusar de resignado por isso, mas acho que o PT é o melhor possível para as conjunturas políticas do Brasil. Se a mídia já não engole essa esquerda que está mais para social-democracia,que dirá uma esquerda de verdade? Voto e defendo o PT, não por achar que é o melhor modelo de justiça social e de mentalidade política para o Brasil, mas por entender que é o modo mais viável de chegarmos a um país menos desigual. Sabe como me sinto? Como o anarquista dos anos 20 que se viu obrigado a juntar-se ao PC estrategicamente sabendo que com isso alcançaria apenas parte de seus objetivos. Aquela lista que você fez, arrolando o que seria fundamental para uma mudança “de verdade” no Brasil, imagino que talvez um dia possa até ser alcançada. O PT foi para o poder e assimilou uma série de práticas dos poderosos, reproduz (não só, produz também) muito do que eu detesto em termos de concepção política: é um governo que tem muito de prestador de serviço. Mas, Tonico, o que vejo hoje como viável é construir no Brasil algo perto de um estado de bem-estar social e, isso, sem a assimilação de certos expedientes que, via de regra, furam nossos pactos com a utopia de uma política verdadeiramente revolucionária, é impossível. E faz também pensar se algum outro partido – PSOL, por exemplo, que é o único em quem eu apostaria – conseguiria viabilizar alguns projetos sociais e progressistas de modo mais eficaz e, digamos assim, mais conformes a um ideário propriamente socialista. Desconfio que não, e essa desconfiança hoje pra mim é tudo. Há quem diga que a Dilma está mais à esquerda que o Lula, que pode radicalizar um pouco mais – o quanto pode radicalizar se quisermos mais tempo de possibilidades de reforma? O que pode fazer de ousado que não ameace esse clima de relativa tranquilidade com o exterior e as classes abastadas? Essas perguntas não param nunca de rodar em minha cabeça. Estou pensando com carinho no voto para o Ivan Valente, em quem já votei na outra vez, porque quero mais gente vermelha brigando lá em cima. Mas não boto fé, sinto muito, que o PSOL conseguiria tornar seus planos ousados algo exequível num país como o nosso, que ainda espera pela construção de um estado de bem-estar social. Mas gosto de saber que amigos como você estão brigando pela via da esquerda, quando uma outra banda, infelizmente, tem se desiludido por completo ou dado francas guinadas à direita. Uma tristeza.
    Beijo.

  8. Flávio 01/10/2010 às 0:56 #

    Não sei exatamente o papel da grande mídia na desconstrução da campanha de Dilma. Mas acho que a ausência de um programa no site da própria candidata não é culpa da mídia… Ele está “em um momento importante, de participação e debate” a 3 dias da eleição.

    Marina e PV à direita do PT? Gostaria muito que você considerasse a existência dessa candidata e desse partido. Que pena!

    • Tonico 01/10/2010 às 12:13 #

      Flávio,

      Moro em um apartamento em que temos a assinatura do “Estado de São Paulo”. Os meus coleguinhas de habitação, por motivos políticos e/ou profissionais também acompanham, diariamente, a “Folha de São Paulo” e os portais de notícias. Também acompanho o noticiário televisivo diariamente. Desse modo, coletivamente, foi possível acompanhar atentamente a cobertura política desta eleição aqui nesta nossa moradia/aparelho político.
      Ainda antes de responder, gostaria de destacar que não sou procurador da campanha Dilma Rousseff – nem procurador, nem eleitor, nem coisa nenhuma.

      Veja: a leitura dos jornais e o acompanhamento do noticiário revelam que há sim um desejo deliberado de prejudicar a candidatura petista. Esse movimento de estraçalhamento fica evidente quando há um acúmulo interminável de manchetes e matérias tendenciosas contra uma determinada candidata. Quando há cobertura desequilibrada dos fatos que dizem respeito às campanhas eleitorais. Quando se nota a produção em série de todo tipo de factóide político.

      O “Estado de São Paulo” declara voto a José Serra 7 dias antes das eleições. O jornal não é serrista desde o início da campanha? Sua cobertura não é serrista? E anuncia o voto 7 dias antes das eleições? Houve cobertura isenta nos outros 20 dias que antecederam o período mais quente da eleição?

      José Serra orienta o voto do ministro Gilmar Mendes, do STF, em uma causa que interessa diretamente ao PT e ao PSDB. Note: um candidato à presidência orienta o voto de um ministro do STF. A Globo ignorou solenemente o fato em seus telejornais. É como se não tivesse ocorrido.

      Por fim, um dos elementos mais asquerosos no processo de desconstrução é o ataque ao presidente Lula e, por extensão, à candidata Dilma, no que diz respeito à liberdade de imprensa no Brasil. Neste país, goza-se da mais absoluta e completa liberdade de expressão (à direita). A Globo pode dizer a bobagem que quiser, em horário nobre, e não é responsabilizada, em momento algum, por isso. E aí acusam o Lula e a turma do PT de serem anti-democráticos e contra a liberdade de expressão. Ora, é risível.

      [Vou pular as críticas quase fascistas ao bolsa-família e outras questões desse tipo, pois acho que isso já foi, ainda que indiretamente, abordado em meu texto.]

      Quanto ao PV e à Marina, vou continuar me abstendo de comentários. Ex-militante do PT, de gestão subserviente no Ministério do Meio-Ambiente, misturada com ex-quadros do PSDB, amiga do Gabeira que virou amigo do César Maia no Rio de Janeiro, com vice da Natura, num partido que costumava ser linha auxiliar do PSDB em São Paulo, que se apóia em discurso vazio da tal “sustentabilidade” (aquele conceito que agrega valor à marca), evangélica (e que, sim, deixa-se influenciar, politicamente, pela opção religiosa)… Não, não é sério. Daqui 4 anos, se ela tentar de novo, eu comento.

      Por fim, gostaria de dizer que sou um militante socialista, voto no Plínio de Arruda Sampaio (50) e no PSOL (50) em tudo o mais. E ficaria mais feliz se me xingassem dizendo que sou um comunista ateu dos infernos, que atenta contra a propriedade, a moralidade e a cor da bandeira do Brasil (sim, ela vai ser vermelha!). Esse debate Dilma-Serra-Marina já chegou no limite do rebaixamento. Eu esperava que todo mundo fosse se irritar com a parte em que eu defendo o aborto, a união homoafetiva, a auditoria da dívida pública… Essa sim, era a parte mais importante do texto.

      Vou escrever um texto ainda mais radical, da próxima vez.

      • Flávio 02/10/2010 às 0:29 #

        Tonico,

        O que quis ressaltar é que é muito mais fácil desconstruir o que sequer está construído. O programa da Dilma é a bênção do Lula. Aí estão todos os seus ovos – na continuidade. Mais fácil mirar em uma única cesta. Mas em time que está ganhando (ainda assim) não se mexe e pra que se arriscar a escrever um programa? Os pobres estão com ela; os grandes empresários estão com ela. Populismo e desenvolvimento econômico. O programa vai continuar em etapa importante de construção e a campanha da Dilma vai continuar sendo a de que “Lula tá com ela, eu também tô” e que agora temos uma mãe para o Brasil.

        “Tudo isso” que você disse da Marina e do PV não faz com que eles estejam à direita do PT, a meu ver… Os dois partidos estão, claro, à direita do PSOL, mas, entre si, não tão distantes. Afinal, como você mesmo disse, a Marina é ex-militante do PT e não faz muito tempo que saiu desse partido. Eu, particularmente, não acho o discurso da sustentabilidade vazio e prefiro ao da continuidade. E o programa da Marina, estando inteiro, é bem mais cheio que o da Dilma… 🙂

        Vou esperar o próximo texto, mais radical. Prometo xingar você de comunista ateu dos infernos. Mas só se ele for muito bom mesmo. 🙂

      • Fábio 04/10/2010 às 22:20 #

        Tonico, desculpe se não te conheço, se não faço parte de sua família ou se não compartilho de suas opiniões.
        Me considero um anarquista desde que compreendi que nenhuma das opções do atual sistema tem potencial de mudança. Mas seu texto e os comentários postados até aqui me causaram uma curiosa reflexão.
        Seu desprezo em relação à Marina Silva é infantil e inconsequente. A candidata do PV não só tem propostas, coisa óbvia não verificada em candidaturas de maior expressão, como mostrou um forte poder político ao agregar ao seu lado diferentes públicos e povos. Não me parece profundo de sua parte entender a sustentabilidade como um dizcurso vazio e “verde”, literalmente. O tema agrega o povo, sua melhor condição de vida e suas alternativas, que devem ser geradas pelo próprio povo. Marina Silva pode não ser uma estadista, como certamente Plinio Arruda também não o é, mas, ao menos, tem um projeto de pais que vai além de a sustentabilidade, mas está fundamentada nas suas crenças, e é defensável, além de permitir que seja perseguido, diferente do que seu partido defende em rede nacional.
        Por sinal, minhas segundas desculpas, pelo erro de rotulá-lo como parte de um partido. Embora seja esta sua vontade explícita, seus colegas já lhe informaram e por isso apenas peço desculpas pelo rótulo indevido, suas idéias são tão relacionadas ao PSOL quanto as idéias do Lula de 69 são ligadas àquelas do Presidente Lula.
        um abraço

    • Tonico 02/10/2010 às 20:00 #

      Flávio,

      O discurso da sustentabilidade me parece vazio por conta de um fato simples: o modo de produção capitalista é insustentável.
      O que é crescimento econômico? É a aceleração da espiral de consumo. Você produz mais, vende mais, emprega maior número de pessoas, aumenta o acesso dessas pessoas ao mercado e ao consumo e, com isso, faz com que a muito famosa “roda da economia” gire de forma mais acelerada. Podemos falar de “desenvolvimento” econômico e social quando, junto desse movimento de aceleração e crescimento da economia, temos distribuição de renda, avanços sociais, melhora da qualidade de vida da população como um todo e um uso mais inteligente de nossas reservas de recursos naturais. Crescendo ou desenvolvendo, o mecanismo fundamental do modelo permanece inalterado: mais produção, maior circulação de produtos e serviços, maior acesso ao consumo. De modo muito grosseiro, esse é funcionamento da economia capitalista.

      O que é, então, a sustentabilidade? Da forma como a entendo, propõe o seguinte:

      1.O uso consciente, cuidadoso e planejado de nossas reservas de recursos naturais,
      2.O respeito às populações locais que dividem espaço com tais recursos,
      3.A prioridade a um conjunto de produtos e serviços que serão produzidos, consumidos e, eventualmente, descartados, com o menor impacto possível ao meio-ambiente.

      Noves-fora o fato da “sustentabilidade” ser utilizada como selo, um “ISO qualquer coisa” para potencializar a venda de determinados produtos ou melhorar a imagem de algumas empresas, há outros elementos que me incomodam no uso desse conceito-simulacro. O modo de produção capitalista se apoia na produção massificada, no acesso mais amplo possível ao consumo e na exploração da mão-de-obra – enfim, na extração de mais-valia. O combate ao desperdício, à depredação desenfreada do meio-ambiente e o uso consciente e planejado do meio-ambiente me parecem, portanto, um item da pauta de “civilização” do capitalismo. Nisso, vale a colocação anterior que realizei, dizendo que me interessa mais a ruptura do modelo que a sua correção. Correção que será sempre insuficiente, na medida em que persiste a exploração do homem pelo homem.
      Não sei se fica evidente, mas há uma perversidade na tal sustentabilidade que parece ficar à margem de todo discurso verde: o ser humano não é mais parte do meio-ambiente. O maior protagonista dos processos históricos do planeta é excluído e se exclui da ideia de sustentabilidade. Falamos do produto, do plástico biodegradável, do manejo das florestas, mas não falamos do ser humano, seja em sentido amplo, seja no sentido das populações locais. Pode parecer o discurso simples do socialista tacanho: mas a árvore do Parque Trianon é um bem absoluto, enquanto o miserável que mora sob o Minhocão e tem dieta à base de crack é tema de discussão policial, assistencial, de direitos humanos, higienista, o que for. Mas ele não é, em momento algum, um igual, um bem absoluto, algo pelo que valha a pena lutar. O humano perdeu protagonismo. Talvez se o PV fosse o PH (Partido da Humanidade), minha birra fosse menor.
      Passemos às questões mais práticas. Não vi, da parte de Marina Silva, o necessário ataque ao agro-negócio. Este, atualmente, é um dos principais motores da depredação ambiental, em sentido amplo, em nosso país. Às margens da rodovia Anhangüera, de São Paulo a Franca, há um gigantesco deserto verde formado por canaviais, laranjais, plantações de soja e um tanto de café. A plantation e o “pacto colonial” voltaram. Exportamos insumos básicos, importamos computadores. Esse modelo de produção agrícola sacrifica o solo, concentra terra, faz largo uso de agrotóxicos, concentra renda, estrangula o pequeno produtor e a agricultura familiar. O que nos leva a um segundo ponto interessante. Em meu texto, vendo a questão da reforma agrária como uma pauta revolucionária, rumo ao socialismo. Isso é uma inverdade. As grandes potências capitalistas, em seus processos de civilização econômica e social, promoveram, em algum momento, reformas agrárias mais ou menos radicais, com a valorização do pequeno produtor. Melhor seria se eu defendesse a coletivização das terras no campo e a produção comunal – mas acho que aí seria muito até para o PCO. Vivemos, portanto, uma realidade estapafúrdia no campo, de modernização conservadora. Temos grandes tratores, grandes plantações, ganhos de produtividade… Mas no essencial, persiste o arcaísmo: imensas plantações de commodities que serão exportadas. A candidata da sustentabilidade não abordou tais questões. Isso sem incluir nesta discussão o uso da terra como mero depósito de poder simbólico e político (o que restou de coronelismo no Nordeste, com suas plantações de grama) ou item de especulação fundiária (esse pessoal que, através da grilagem, possui uns terrenos na Amazônia do tamanho da Bélgica).
      A ausência de ataques ao agro-negócio ou a defesa firme de uma reforma agrária radical, me fazem questionar a bandeira da sustentabilidade e seus principais defensores no horário eleitoral. Para além dessas questões, também me incomoda a classe média paulistana encarnada por Soninha Francine, que fala das benesses das ciclovias e não atenta, em momento algum, para os problemas relativos ao transporte coletivo. Tivéssemos uma discussão séria sobre a expansão do Metrô ou sobre o uso de combustíveis menos poluentes em nossa frota de ônibus e já seria um avanço. Mas não, não temos.
      Quanto ao populismo lulista, há duas questões. O “pai” e a “mãe” dos pobres são duas questões que me incomodam. Reforçam estereótipos e não contribuem para o avanço de nossa cultura democrática – na medida em que transformam o debate político em tema relativo ao afeto. Essa manipulação do imaginário coletivo, embora divertidíssima para um antropólogo, não contribui em nada para construção do socialismo – e me considero militante do socialismo. Preferia o Lula chato, agressivo, resmungão, que enfiava o dedo na ferida. Agora: por quê populista? Nesse ponto, discordo radicalmente. Quando um banqueiro vota pensando na taxa de juros ou o empresário define um apoio pensando na linha de investimento do BNDES, está defendendo seus interesses. Quando um nordestino vota pensando no Bolsa-Família, está sendo comprado. Acho essa análise injusta e preconceituosa. O Bolsa-Família é item fundamental no processo de inclusão pelo consumo. Ativa o comércio local, garante maior autonomia ao seu beneficiário (que pega o dinheiro e faz o que quiser dele) e ajuda a distribuir renda. Não vejo problemas nisso e, mais uma vez, de um ponto de vista estritamente liberal, é sensacional. O senador Eduardo Suplicy, um dos promotores da “Renda Básica de Cidadania” defende projeto até mais radical: um maior valor de auxílio e uma expansão do número de beneficiários. Uma política pública que pode vir a garantir o “de-comer” para a maior parte da população não me parece populista. É, antes, parte fundamental de uma rede de proteção social. Essa análise do peixe e de ensinar a pescar me parece um argumento mofado escorado no entusiasmo pequeno-burguês do self-made man. O que há de criticável no “Bolsa-Família” e demais projetos de proteção social do governo Lula reside em sua fragilidade institucional: eles são amparados por uma complicada trama de decretos, medidas provisórias e outros artifícios de improviso institucional. Estão ensaiando o envio ao Congresso Nacional da Consolidação das Leis Sociais (CLS). Nome inspirado na CLT, é de análise complexa: acho uma manipulação questionável do imaginário coletivo mas, por outro lado, garante a necessária segurança jurídica e institucional da citada rede de proteção social. E aí, fera, depois que isso for aprovado, um grande abraço para direita verde (PV), amarela e azul. Será difícil também para nós, do PSOL, convencer o povo a abraçar um projeto muito mais ousado, rumo ao socialismo.

      • Flávio 02/10/2010 às 23:53 #

        Tonico,

        É evidente que o PV não rompe com o modelo capitalista e, nesse sentido, se trata, de fato, da “civilização do capitalismo”. O PT, no entanto, também não rompeu nem irá romper o modelo capitalista e o que tem feito é correr atrás desse capitalismo menos selvagem. Mesmo assim, isso não faz com que você o desconsidere. Só quem propõe um rompimento é mesmo o PSOL.

        “Podemos falar de “desenvolvimento” econômico e social quando, junto desse movimento de aceleração e crescimento da economia, temos distribuição de renda, avanços sociais, melhora da qualidade de vida da população como um todo e um uso mais inteligente de nossas reservas de recursos naturais.” – Isso é o alvo do PT, tanto quando é do PV. Aliás, até do PSDB, no discurso. Ninguém vai defender a exploração sem limites do trabalho e dos recursos naturais, mais concentração de renda, regressão social e menos qualidade de vida; a disputa entre Dilma, Serra e Marina é em torno de quem pode chegar lá mais rápido e qual o caminho mais eficiente.

        Continuo não concordando com a leitura dos verdes como não preocupados com a questão social. Um dos pontos considerados cruciais para atingir a sustentabilidade é a educação (não das árvores, não), que é ainda mais crucial, a meu ver, para o desenvolvimento social. É pelo homem que se quer chegar à sustentabilidade e não poderia ser diferente. Quanto à posição verde ser uma das posições que buscam civilizar o capitalismo, já disse o que penso: concordo; só não o é a posição do PSOL.

        Você diz que o homem parece ser visto como separado do meio ambiente pelo discurso da sustentabilidade. Pois nós sempre quisemos estar à parte do meio ambiente, nos definimos e vimos dessa forma e achamos isso lindo: seres de cultura, não de natureza; animais especiais pela sua capacidade única (dentre outras) de controlar, dominar, reproduzir a natureza. [Nós até xingamos com a natureza: “animal”, “anta”, “vaca”, “veado”, “porco”, “besta”. Desculpe, não deu pra não falar isso… :)] Vejo o discurso da sustentabilidade, ao contrário, muito mais como uma reinserção do homem na natureza. É preciso lembrar que se busca a sustentabilidade por causa da crença de que o ser humano pode deixar de existir se ela não for alcançada; pela crença cada vez maior de que o homem faz parte, sim, do meio ambiente. Foi ele que o destruiu e é por (por meio e para) ele que se pode salvá-lo.

        É realmente lastimável que a Marina não trate seriamente da reforma agrária. E mais lastimável ainda que o PT não tenha começado a fazê-la, nos últimos oito anos. E que decepção indizível que só o Serra fale de metrô “aos montes, pelo Brasil toooodo”…! :S

        Quando um banqueiro está defendendo seus interesses, estamos falando de lucros de 400% ao ano. Quando alguém vota pelo bolsa-família, estamos falando de passar fome ou não. Essa é a diferença. Qual é realmente o grau de opção de cada um deles? De todo modo, o bolsa-família é fundamental, sim. Nem posso discordar. E é claro que quero que ele continue a existir. O populismo está em tentar associar o bolsa-família à bondade e generosidade de quem está no poder. Ao pai ou à mãe. Não acho o argumento do peixe e ensinar a pescar ultrapassado. Agora, ele não serve, em hipótese alguma, para querer acabar com o bolsa-família, até mesmo porque o governo Lula investiu muito em ensino, afinal. Só o que se deve fazer com o bolsa-família é aperfeiçoar e fortalecer. Acontece que todos se comprometem com isso. E aí? Eu não acredito no Serra. Na Marina, acredito.

    • Tonico 03/10/2010 às 3:09 #

      Flávio,

      Acho que chegamos a um ponto de difícil avanço em nossa discussão. Pois, pelo que podemos compreender de seu texto, estamos, de fato, falando de coisas diferentes e defendendo pontos de vista diferentes. Como já disse, me interessa muito mais a ruptura com o modelo de produção capitalista que as tentativas de civilizá-lo. O capital, animal indócil, me parece pouco afeito ao uso de coleira.

      A educação é caminho para sustentabilidade? Pode ser caminho para um mundo mais sustentável, com maior respeito ao meio-ambiente e uso inteligente de nossas reservas naturais. Para um melhor diálogo com as populações que dividem espaço com tais reservas. Sim, pode ser algo pontualmente positivo. E porque pontualmente? Por ser um desses itens que, de tempos em tempos, aparecem para promover a auto-reforma do modo de produção capitalista. A preservação da Amazônia, o uso de embalagens biodegradáveis, o aumento do número de ciclovias, o uso de energia solar, de energia heólica, enfim, uma relação mais saudável com o meio-ambiente, em qualquer nível, não atenta, de forma alguma, contra o axioma mais fundamental do modo de produção capitalista: a exploração do homem pelo homem.

      Vejo a depredação do meio-ambiente como atitude lógica e razoável daqueles que pouco se importam com o humano que vive ao lado. E, pior, não me parece que a preservação do meio-ambiente promova, em sentido inverso, necessariamente, a preservação do humano. Ainda que eduquemos a todos e preservemos a (quase) tudo, poderemos conviver com a exploração capitalista: ela existe na Suécia, na Norurega e na Dinamarca, por exemplo. Esse absurdo ético, do homem explorando o homem, me parece o ponto-chave da questão.

      As temáticas transversais dos muitos discursos ecológicos não miram esse ponto. À exceção dos madeireiros, do Maluf e de todos nós, que consumimos loucamente, todos são favoráveis à preservação da floresta tropical, a despoluição do Tietê e, porque não?, de uma educação de qualidade para todos. Isso não nos impede de trabalhar duro, 40 horas por semana, e ter nossa sagrada extração de mais-valia garantida. Uma melhor relação com a natureza, nossa reinserção nesse conceito, não garante, mais uma vez, que rompamos com o ciclo de exploração que nos envolve a todos. Sem contar que estaremos atuando, sempre, na filigrana de uma verdadeira ideia de sustentabilidade enquanto vivermos numa sociedade que tem no consumo seu motor de crescimento/desenvolvimento. O novo computador, a nova televisão, o carro novo, o novo, sempre ele. A espiral da produção e do consumo é elemento fundamental da reprodução do capital. E aí, mais uma vez, recaio numa frase feita: é socialismo ou barbárie. Ainda que seja a barbárie em câmera lenta, com a exploração que promove o deleite interminável do consumo e reforça a necessidade de sermos mais explorados, para que possamos mais consumir.

      A associação do Bolsa-Família à generosidade de quem está no poder é uma leitura daqueles que votam no PT ou é nossa leitura sobre aqueles que votam no PT? Mais uma vez, essa nossa leitura parece um pouco arrogante. Pois acredito que não há rigorosamente nada de errado no fato do eleitor identificar um determinado programa ou política social ao promotor dessa política. Mais que generosidade, trata-se de uma escolha: investirei no segmento “X” da população. O segmento “X”, sentindo-se beneficiado por aquela política, passa a votar em seus representantes. Sim, fico incomodado com a personalização e a afetividade desenfreadas na política. Não me apetece que sejam as políticas públicas do Lula ou da Dilma. Mas aí, trata-se, antes, da ausência de vinculação desse conjunto de políticas a um determinado partido ou ideário político mais denso. Fosse o Bolsa-Família visto como uma iniciativa do PT, e as pessoas nela votassem por acreditarem num governo progressista à esquerda, perfeito. De todo modo, não acho que se trate de chantagem político-eleitoral, nem de “generosidade”. Trata-se do povo votando numa figura que promoveu uma política que o beneficiou. O problema é exclusivo da ordem do uso desenfreado do carisma na política e da falta de consolidação institucional desses programas (que a aprovação da Consolidação das Leis Sociais virá a solucionar, caso ocorra).

      Por fim, Flávio, continuarei a desconsiderar o PV enquanto este se abstiver das discussões fundamentais acerca da reforma agrária e do potencial apocalíptico do agro-negócio. Numa plataforma que leva tão a sério as questões ambientais e de sustentabilidade, esses itens são fundamentais, inescapáveis. E a Marina, o Gabeira, o Fábio Feldmann e todo o pessoal do PV não citaram tais questões em um único momento do processo eleitoral. Você levaria a sério um partido socialista que não falasse de socialismo? Então porque levar a sério um Partido Verde que não trata das questões mais fundamentais acerca da sustentabilidade aqui no Brasil?

      Assim, se é para escolher uma proposta de civilização do capitalismo, fico com a… Aliás, melhor ainda: não fico nem com o PV, nem com o PT. Prefiro tentar romper com o modelo e dar um passo, ainda que pequeno, rumo ao socialismo. Por ora, faço isso votando no PSOL e naquele senhor de idade avançada que adora bagunçar os debates.

      A promotoria encerra, espera o próximo post e propõe que, depois dele, a conversa continue no café. Fechou?

      • Flávio 03/10/2010 às 15:45 #

        É, Tonico, estamos falando de coisas diferentes.

        Por exemplo, eu considero “uso desenfreado do carisma na política” e associação dos direitos conquistados a uma pessoa (ou duas) populismo (bem diferente mesmo de compra de voto, chantagem político-eleitoral ou coronelismo). Mas isso não é a pior coisa do mundo nem característica exclusiva do Lula ou da Dilma. Bem melhor populismo com bolsa-família do que sem bolsa-família, afinal.

        Adoraria continuar a conversa no café. Fechado.

  9. Guilherme Flynn 01/10/2010 às 9:33 #

    Tunico,
    Seu Silvio pediu para fazer uma correção. “Presidencialismo de coalizão” foi uma frase do José Aníbal para explicar a forma de governo do FHC, meu pai mandou para o Zé Simão mensagem dizendo o seguinte “‘presidencialismo de coalizão’, tucanaram o fisiologismo!”, e o Zé Simão publicou na coluna dele na Folha. A frase portanto é de Zé Aníbal, esse baluarte da análise política de qualidade.

  10. Prezados,

    penso que está havendo uma avaliação errada das opoisções não partidárias contra Lula.

    Uma vez que Lula domina folgadamente sindicatos e movimento estudantil, tendo também retirado todas as forças de uma oposição à esquerda, ele é muito melhor para a burguesia do que qualquer tucano — FHC ou mesmo Serra.

    Por esta razão, na prática, não há grande oposição a Lula por parte da burguesia: por exemplo, a família Marinho (representada pela matriarca Lily) recebeu Dilma em reunião, os Safras votam em Marta etc.

    O que há é uma classe média educada enfurecida com o fato de que Lula é muito menos estudado que eles.

    Penso que assim se deve ler a crítica a Lula presente nos jornais e revistas.

    Os publishers desses jornais mantêm as críticas apenas para vender mais para a classe média enraivecida e para, talvez, ter mais o que negociar em relação ao governo na hora de pegar seus empréstimos subsidiados no BNDES.

    Obrigado,
    Penfield

  11. Adolfo 01/10/2010 às 23:28 #

    Caro Antônio,

    Não há como discordar da sua análise, que enxerga a história e a política como um processo, que não cede aos caprichos do voluntarismo. Em relação aos comentários ao seu texto, foi dito que Lula poderia ter feito um governo mais a esquerda. Lembro que o Chico de Oliveira apostava na mobilização popular como alavanca e esteio dessa toada. Porém, fico pensando se realmente o apoio popular dado a Lula em 2002 sustentaria as transformações estruturais de cunho socialista. O que tu achas?

    Abraço

  12. Smeg 02/10/2010 às 18:30 #

    Uma coisa que me incomodou nesta na campanha do Psol foi em relação ao discurso do calote da dívida (auditoria é um eufemismo para calote). Ora, depois que o governo Lula internalizou a dívida, falar em calote ficou muito mais difícil. E calote na dívida é sabotar o capitalismo, sem necessariamente caminhar para nenhum lado. Sarney fez isso com resultados desastrosos, o mesmo aconteceu com a Argentina. Hugo Chavez paga a dívida deles em dia, e não é menos de esquerda por isso. Para mim o discurso seria muito mais eficiente, claro e elaborado se o fosse de que o PSOL não tem compromisso com o lucro dos banqueiros e que não está disposto a pagar bolsa-banqueiro na forma de spreads criminosos, um juro exorbitante para financiar operações de carry trade* e o famigerado swap-reverso que sangrou bilhões dos cofres públicos.

    E cá para nós, num pais onde a população tem orgulho de pagar suas dívidas em dia, falar em calote é pra lá de complicado.

    *carry trade é uma operação onde você pega dinheiro emprestado em um país com juros bem baixo, como o Japão, e investe na dívida de um pais com juros altos. É ganhar dinheiro sem precisar ter dinheiro algum. Quando o Governo mantém juros altos, sem nenhum tipo de restrição para estrangeiros, inclusive com incentivos na forma de isenção de impostos, o que ele está fazendo é doando dinheiro para os ricos, ou seja, é uma bolsa-banqueiro.

    Beijocas,
    Smeg

    • Tonico 02/10/2010 às 18:44 #

      Acho que foi a melhor explicação que já ouvi sobre a bolsa-banqueiro, Smeg! Esse comentário qualificou muito a discussão. Valeu!

      • Smeg 02/10/2010 às 19:22 #

        Valeu, Tonico. Agora é aguardar tomar uma surra do Bubble por ter cometido atrocidades com essas minhas divagações sobre economia.

  13. Michelle Ferreti 13/10/2010 às 11:28 #

    Tunico,

    Concordo com muitas das críticas que você faz ao governo Lula, mas considerando o momento político que vivemos, faço minhas as palavras de Aldir Blanc sobre o segundo turno:

    “Pilatos não pode mais lavar as mãos com sabonete verde. Lamentável que Marina e o PSOL estejam ‘pensando’. Os que morrem de fome, de pancada, os que foram torturados e mortos, esses não tiveram esse confortável tempo para optar. A reação, desde a Comuna de Paris, desde os Espartaquistas, sempre matou mais rápido, enquanto gente do “bem” pensava…

    Votem em Dilma – ou regridam às privatizações selvagens, à perda da Petrobras, ao comando do latifúndio, dos ruralistas, dos banqueiros, de todas as forças retrógradas do país, incluindo os torturadores”.

    • Guilherme Flynn 13/10/2010 às 12:39 #

      Michelle
      Não se preocupe, sabemos da diferença entre os projetos em disputa.
      Sairá até um texto sobre a questão.
      Amplexo,
      Guilherme

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