Autobiografia precoce: Um homem quebrado

6 out

Nem feio, nem bonito.

Desempregado. Desperdiçando sistematicamente tantas oportunidades quanto aparecerem. Alguma inteligência, na parte superior do mediano, mas que não tem se concretizado. Sem uma práxis cotidiana de transformação, parasitário. Aterrorizado com a idéia de oito horas diárias sob uma luz branca numa baia realizando nada mencionável.

Gordo, não obeso, dentes que já estiveram em melhor estado, corpo também. Fumante, pálido, mal vestido.

Triste, tristonho, pelo recente fracasso num processo cuja culpa única e exclusiva foi dele mesmo e, ao mesmo tempo, com a perda de uma paixão que achou que poderia ser “a” paixão.

Embora convicto de que o universo não faz sentido e que deus é um reconforto criado para horas difíceis, baseia sua visão de mundo e sua ação no mundo num sentido artificialmente construído – e consequentemente precário – de que a forma mais digna de se atravessar essa curta passagem pelo terreno da matéria animada é a luta pela transformação social.

Sem posses materiais relevantes, sem casa, sem carro, sem boas roupas, sem um tostão no bolso. Não é dono, nem por herança nem por trabalho, de nenhum meio de produção.

Sem posses culturais relevantes, sem um poema belo escrito, sem um livro publicado, sem um grande título acadêmico.

Sem grandes posses afetivas, sem ser o centro ativo de um grupo de amigos, sem um grande amor.

Possui como único patrimônio amealhado alguns bons amigos, cada vez menos presentes, e um amor infinito pela família, maior do que só o sangue daria.

Sem gabar-se ou comiserar-se em demasia, às vezes lamentando-se, mas não muito, por ter nascido nesse momento já histórico, mas incrivelmente primitivo, da humanidade que foi o fim do século XX, e por estar vivendo no começo do século XXI com suas epistemologias incipientes, ontologias cruéis e ideologias asquerosas.

A multiplicidade de sentidos do real contemporâneo não lhe parece uma confusão porque jamais lhe pareceu uma ordem. Observa as categorias explicativas das quais gosta – não necessariamente de acreditar, mas mais de utilizar – não naufragando por si, mas sim sendo torpedeadas cotidianamente por golpes inclementes de relativismo e desesperança.

Sujeito oculto ou inexistente da história. Até o momento.

Considera o universo um lugar interessante, embora admita que não possui nenhum padrão comparativo.  A existência lhe parece ser a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido.

Possui as qualidades raras de saber dar a razão a um debatedor quando este a possui, e de saber a importância relativa das coisas e as tratar dessa forma.

Alguns ídolos, alguns adversários, nenhum inimigo materializado em uma pessoa, mas um conflito com um inimigo mordaz materializado em um sistema.

Ainda assim esperançoso e, dentro das possibilidades, feliz.

Humano, demasiado humano.

Guilherme Flynn Paciornik. Outubro 2010.

*Título baseado no livro “Autobiografia Precoce” de Eugênio Evtuchenko, frase final tirada do título de “Humano, demasiado humano. Um livro para espíritos livres”, obra de Friedrich Nietzsche.

Voltando com um pouco de literatura autocomiserante ao blog.

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11 Respostas to “Autobiografia precoce: Um homem quebrado”

  1. Pedro Ekman 06/10/2010 às 18:14 #

    O bom disso tudo é que é mais barato que terapia. E agora pelo menos você já pode contabilizar um bom texto publicado.
    abs

    • Guilherme Flynn 06/10/2010 às 18:25 #

      Ei?! E o da Fifa e do Dunga?

      • Smeg 06/10/2010 às 22:22 #

        Eu acho que conta também, mas esse tá melhor.

      • Rui Ferraz 08/10/2010 às 12:03 #

        Não é porque o Socrates gostou que era bom. De qualquer forma esse foi muito bom, até para a minha limitada compreensão das coisas, grande abraço!

        Rui

      • Guilherme Flynn 10/10/2010 às 13:02 #

        Ô Rui, seja bem-vindo por aqui. Grandessíssimo Abraço.

  2. blogs oswald 06/10/2010 às 18:57 #

    Belo texto, Guila, lembrou um pouco o “Auto-retrato aos 56 anos”, do velho Graça, saca? Texto sequíssimo, sem flor na lapela. Gostei de ver.

    Adriano.

    • Guilherme Flynn 06/10/2010 às 20:24 #

      Lembra o Graça?? Coisa de amigo, assim fico até sem graça (infame!).
      Valeu

  3. Silvio D. Paciornik 07/10/2010 às 9:36 #

    Precoce demais para o meu gosto. Mas ser precoce é da tua natureza (sou testemunha ocular disso). Só tem uma coisa: você não aprendeu a escrever comigo (esse texto está bem escrito demais). Também te amo.

  4. Tonico 07/10/2010 às 17:09 #

    Guilherme,

    Você me pediu para ler, revisar, corrigir… Não fiz nada disso. Ignorei até este momento. Pode parecer desculpa fácil, de amigo relapso. Juro que não. O texto é maravilhoso. A melhor coisa que você já escreveu. Graças a Deus, não tentei mexer em uma única vírgula. Até suas frases loooongaaaaas – que eu tanto critico – ficaram ótimas aqui.

    Beijo.

  5. André Ciappina de alguma forma Paciornik 20/10/2010 às 0:53 #

    Bom, agora tenho algo inteligente para ler, de todo seu blog comecei loge nesse texto, acertei em cheio…Fiquei imaginando a possibilidade de escrever algo parecido, mas ficaria tão fútil que assustaria muita gente…
    Meus parabéns…

    Abraços

  6. pbelasco 31/10/2010 às 1:09 #

    Eu fiz um retrato mental do Norman Bates até o 6o parágrafo.
    Depois pensei na Dercy Gonçalves.
    Definitivamente, a explicação das citações em notas de rodapé ao final me projetou um holograma desta mítica figura. Sem sombra de dúvida.

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