Os publicitários e os lixeiros

10 out

Imaginem que em certo momento, como que por mágica e sem motivo algum, desaparecessem do mundo todos os publicitários que não estivessem vinculados a trabalhos de publicização de políticas públicas, e que, ainda por cima, ninguém se dispusesse de forma alguma a assumir essa função regiamente remunerada. Quais seriam as conseqüências?

Podemos imaginar várias consequências com efeitos diversos. A primeira seria que, conforme o tempo passasse, as pessoas teriam que passar a escolher os produtos que consomem com base em características como qualidade e preço, as únicas formas possíveis remanescentes de diferenciação entre os produtos ofertados.

Uma segunda consequência necessária seria que o dinheiro gasto com publicidade dificilmente iria ficar parado, ele seria gasto com alguma outra coisa, como com mais pesquisa de produtos ou de mercado, ou então teria que ser eliminado da composição do preço, tendo como resultado a queda no preço dos produtos. Ficaria muito mais difícil formar oligopólios exclusivamente em função da verba e capacidade massiva de divulgação, restando para essa formação oligopólica apenas o velho e sempre utilizado recurso do dumping (queda artificial dos preços com vistas a consolidar um produto no mercado ou a quebrar a concorrência).

Uma terceira consequência seria a modificação profunda da forma de se captar recursos e de se veicular conteúdos nas mídias de massa como televisão, rádio e jornais. Perderíamos a oportunidade de poder ir ao banheiro a cada cinco minutos, e de gastar um terço do tempo que assistimos tevê vendo comerciais. Quanto aos jornais, caso não simplesmente reduzissem seu tamanho em cerca de um terço, poupando assim alguns milhões de árvores por ano, teriam que optar por alguma outra forma de completar o espaço vago, talvez com mais conteúdo, que poderia ser obtido tanto veiculando a opinião do outro lado envolvido em cada uma das questões publicadas – visto que grande parte das questões publicadas tem opiniões envolvidas que, por falta de espaço, nem sempre são consultadas -, como com questões que pouco aparecem nas páginas dos jornais atualmente, como a comparação internacional sobre legislação de veiculação publicitária e de controles sociais de mídia, questões que nada têm a ver com censura. Talvez a resposta dos jornais fosse inversa, e para não ficar com espaço vazio acelerassem ainda mais o processo de editorialização do conteúdo do jornal, aumentando em algumas linhas a avaliação valorativa própria não apenas das manchetes e parte das matérias, mas simplesmente de todas as matérias.

Outras consequências fatalmente viriam, como sobre o terceiro setor, que teria de apresentar dados concretos do realizado em relação ao dinheiro com o qual se trabalhou, ao invés de apresentar pela grande mídia imagens chocantes – sejam de micos-leão, sejam de pessoas com deficiências, sejam de crianças – ou ao menos dados extremamente convincentes sobre uma localidade trabalhada.

O que acontece é que em nossa sociedade, que tem como um dos modos centrais de organização de sentido a acumulação de dinheiro, a remuneração nada tem a ver com a necessidade social efetiva do trabalho realizado, apenas com a oferta de profissionais qualificados, quantidade de dinheiro envolvida, responsabilidade das decisões e papel na circulação e acumulação de mais dinheiro. Se paga muito por coisas de pouca relevância do ponto de vista dos cidadãos e pouco por coisas sem as quais somos praticamente incapazes de viver bem. Mantendo nessa inversão da lógica do uso pela lógica da troca populações enormes em situação de pobreza ou extrema pobreza.

Caso se considere uma das metas da existência humana a busca  da superação das necessidades humanas pelas possibilidades humanas, é fundamental mostrar o quanto esse sistema como um todo – a melhor forma de distribuição de recursos já encontrada, dizem alguns – permanece incrivelmente irracional e primitivo.

Faltou, é claro, discutir a outra categoria profissional citada no título. Aquela categoria profissional que o âncora Boris Casoy – cuja saída do espaço de mídia de massas também teria consequências interessantes, embora infinitamente menores e relevantes– qualificou como a função mais baixa da escala social. Quanto a esses um exercício semelhante ao realizado acima sequer precisa ser descrito, basta uma linha que vai abaixo.

Experimentem ficar duas semanas sem os lixeiros.

Guilherme Flynn Paciornik –  Outubro 2010

*Nada tenho contra os publicitários, tenho bons amigos entre eles, que inclusive se divertiram muito com esse texto. Apenas considero a profissão um bom exemplo da lógica perversa do sistema.

 

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2 Respostas to “Os publicitários e os lixeiros”

  1. Pedro 12/10/2010 às 18:11 #

    Don’t hate de game, hate the player.
    Toda sua lógica me faz sentido, só não esqueça que as coisas são como são pq assim queremos. A publicidade, como instrumento de “mercadologia” é fundamental. Mas sempre pode ser usada como cada um bem entender. E é aí que entra uma podre maravilha chamada ser-humano.

    • Guilherme Flynn 15/10/2010 às 11:19 #

      Sei não… em minha opinião o jogo constrói os jogadores, ou seja, o ser humano não é, o ser humano está (para falar isso em inglês são necessárias mais palavras, pois os caras só tem um verbo para ambos os sentidos). Ou ainda: não há uma essência humana, o atual ser humano é uma construção do jogo atual e dos jogos anteriores. Odiar o jogo é odiar a forma de construção de seres humanos atual (individualista, competitiva, etc)
      Considero também que as coisas não estão assim porque queremos, somos vítimas do atual estado de coisas e devemos construir um melhor. Uma frase, que considero profunda, resume a relação seres humanos-estado das coisas: “Os homens fazem história, mas não a fazem como querem – Karl Marx”
      Abraços desse mala que lhe escreve.

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