As caixas de Antonio

16 nov

A impressão que tenho é a seguinte: ao longo de minha vida, tratei de me enfiar em caixas cada vez menores. Quando criança, vivia em uma caixa de papelão daquelas que servem para acomodar geladeiras. Hoje, sinto-me preso em uma caixinha do tamanho de um cubo mágico. Mal consigo mexer os dedos.

Eu tenho medo, medo de tudo. Acho que serei agredido de forma bárbara. Uma discussão banal sobre futebol resultará em meu completo espancamento. Tenho medo dos desconhecidos. Dos meus amigos, das minhas amigas e dos meus parentes. Acho que todos, absolutamente todos, aproveitarão a primeira oportunidade – ou o primeiro pretexto – para me esmurrar. Aqueles murros espetaculares, típicos de filmes cheios de porrada. Meu nariz vai se estraçalhar e vai jorrar sangue para todos os lados. Também tenho medo de assaltos, medo dos desconhecidos na rua, medo dos bandidos e muito medo da polícia. Sempre carreguei comigo a certeza de que terminaria meus dias preso. Por um crime que não cometi. Mas também carrego a certeza de que minhas culpas neuróticas conseguirão produzir evidências irrefutáveis, em minha consciência, de que sou culpado. Culpado, de forma inapelável, daquilo que não cometi. Tenho medo das minhas declarações de imposto de renda. Nunca soneguei um centavo de coisa alguma. Mas tenho certeza, mais uma vez absoluta, de que restará provado que sou culpado da sonegação dos centavos que não soneguei. Tenho medo de todas as mulheres, esse conceito que anda por nossas ruas e que nunca consegui compreender muito bem de que trata e como funciona. Verdadeiro pavor do asilo em que irei morar, num momento qualquer em que a idade ou meu cérebro virão a me incapacitar de vez. Medo de voltar a beber e de nunca mais beber. Quando chego à rua, espero pelo desastre que irá ocorrer e, quando retorno à minha casa, sinto-me frustrado pelo fato do desastre não haver ocorrido. Tenho medo de meus amigos. Acho que vou apanhar de uns, ser desprezado por outros e ridicularizado pelos terceiros. Medo da esquizofrenia, da malária, da filariose, do mal de chagas, da esquistossomose, da cisticercose, de diversos tipos de câncer, de todas aquelas doenças sexualmente transmissíveis que podemos adquirir caso não joguemos nosso parceiro em água fervente antes do sexo.

Eles irão me encontrar. Cedo ou tarde. E, quando esse momento chegar, vai ser horrível. Dolorido. Vão quebrar meus ossos e me submeter a torturas horrendas. Tudo isso vai ficar impresso na minha memória e, caso o desastre, a polícia, os amigos ou os inimigos não façam sua parte, o hospício o fará.

O avião vai cair, o barco afundar, o carro bater, o ônibus capotar. A comida vai estar estragada. A entrevista de emprego será um desastre. A entrevista de emprego não vai acontecer. O emprego não acontecerá. Nada acontecerá. Porque a caixa é pequena. A próxima será menor. E ainda terei outras, todas menores que as anteriores. E essas caixas vão diminuir infinitas vezes. Desafiando todos os conceitos da Física. Esta me ensinou a ter medo da nanotecnologia e das ondas de rádio e do meu celular. Todos eles serão responsáveis pelo meu câncer. Quando entrar no hospital, para tratá-lo, serei preso. Por que? Não sei. Não sei porque o avião vai cair e não sei porque ônibus capotam. Só sei que tem alguma coisa quebrada na minha cabeça. Essa coisa atrapalha tudo. Ela me convenceu, ainda muito pequeno, de que as caixas são nossas amigas. São confortáveis, nos abrigam em momentos difíceis. Não sei de onde veio essa bobagem. Odeio caixas e acho que nem deveríamos reciclá-las. Devemos enviar as caixas todas para Júpiter.

O problema, Antonio, é que você sempre arruma um jeito de ficar confortável em suas caixas. Não importa quão diminutas sejam. Você tem um dom, rapaz. E ele ainda vai acabar com você. Uma pena. Seria mais divertido ver você morrer afogado em álcool.

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2 Respostas to “As caixas de Antonio”

  1. Guilherme Flynn 18/11/2010 às 12:51 #

    Vem pra caixa você também!
    Nosso pequeno Hobbes!(já leste os trechos sobre as fobias do pensador? Faziam as tuas parecerem um bailinho de fim de tarde numa cidadezinha na Suécia).Sinto muito por frustrar cotidianamente tua secreta expectativa de ser espancado por um amigo. Um dia essa expectativa será preenchida!
    Depois do ‘Autobiografia’ e deste ‘As caixas’ poderíamos tentar que alguma empresa de medicamentos anti-psicóticos financiasse o Cuma.
    Podíamos também fazer um pequeno texto sobre como a autocomiseração é, cotidianamente, desvalorizada por contrariar a ética do “empreendedorismo” e de vários ismos do capital-idem.
    Aquele abraço (mas sem violência)
    Guilherme

  2. Joseph K. 19/11/2010 às 3:10 #

    Eu também tenho medo…

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