Mainardi, esse profeta

18 nov

Pesquisas

Nós, eleitores de José Serra, não temos tempo para responder às pesquisas, pois estamos sempre muito ocupados trabalhando para sustentar os eleitores de Dilma Rousseff, que vivem à custa do Estado brasileiro. Mas no dia 3 de outubro vamos às urnas.

SANDRO FERREIRA – sandroferreira94@hotmail.com – Ponta Grossa (PR)

Mensagem publicada na sessão de Cartas da edição eletrônica do jornal “O Estado de São Paulo” em 22/08/2010.

 

 

No início de 2007, defendi minha dissertação de mestrado. Na verdade, nem precisei defender muita coisa, pois a banca de arguição foi muitíssimo gentil. Falemos desse meu trabalho. Meu objeto de estudo foi o conjunto de relações que se estabelece entre a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e as religiões afro-brasileiras (com destaque à umbanda). Tentei demonstrar que a primeira não se restringe ao discurso de demonização das segundas. Há uma infinidade de trocas simbólicas e intensa produção de discursos para justificar tais trocas. O pastor diz que a IURD utiliza sal grosso no ritual de descarrego pois esse elemento está muito presente no imaginário dos brasileiros. Então, para facilitar o entendimento do ritual de descarrego, joguemos sal grosso na cabeça dos fiéis. O pai-de-santo, quando questionado sobre as razões que levariam um exu a aparecer no templo, tomando o corpo de um fiel, afirma, placidamente: “ah, isso aí é exu que gosta de aparecer! Eles vão até lá para fazer farra! Exu é um bicho exibido…”

Embora fascinante para um antropólogo, tal processo não se desenvolve no limbo. Ainda que as trocas simbólicas sejam muito interessantes, há o contexto da demonização. Representantes de muitas* igrejas evangélicas, com amplo acesso aos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, jornais, livros e revistas) conclamam todos os indivíduos do planeta – com ênfase naqueles cujas vidas não estão lá muito bem – a comparecer aos seus templos para que possam se livrar de maldições diversas. Grande parte destas com origem no campo religioso afro-brasileiro.

Na última década, com o recrudescimento desse proselitismo evangélico agressivo e uma maior organização das religiões afro, começaram a surgir algumas iniciativas de reação ao discurso demonizador. Aqui, amigo leitor, citando Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Essa parcela mais “aguerrida” do campo evangélico encontrou uma técnica perfeita de esquiva a toda e qualquer crítica. Acompanhemos, ponto a ponto:

1. Nosso discurso é pautado pela verdade, sempre. Nosso trabalho de evangelização tem como referência, a Bíblia. A palavra de Deus revelada através de profetas e de seu próprio filho, Jesus Cristo. Ora, se Deus Pai e Deus Filho nos dizem que o demônio está presente em todo sentimento religioso que não o cristão, quem somos nós para negar?

2. Jesus foi perseguido por trazer à Terra a palavra renovada de Deus. Ele era a encarnação da verdade e tinha a missão de divulgar a mensagem divina. Mais que persegui-lo, fomos insolentes a ponto de crucificar o filho de Deus,

3. Agora, nós, evangélicos autênticos*, divulgamos a palavra de Deus e suas vontades, de acordo com o texto sagrado, a Bílbia. Nos guiamos pelos ensinamentos de Jesus. Ora, se Jesus foi perseguido e a palavra de Deus, negada, porque os infiéis deixariam de nos perseguir? A crítica e a discordância reforçam, portanto, o manto de verdade que recobre nossa prática evangélica,

4. Denunciamos a ação do diabo, através da verdade. Os inimigos da verdade, representantes do diabo, nos atacam. Como Jesus, há 2000 anos, somos vítimas.

Que a IURD utilize tal mecanismo argumentativo de retorção, não me espanta. Na verdade, fico assustado com minha ingenuidade. Não havia notado como essa prática está disseminada em nossa sociedade. A imprensa nos fornece um exemplo bastante interessante. Ela nos traz a verdade, todos os dias. O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, a revista Veja… São todos portadores da verdade. Não de uma opinião, não de um ponto de vista, não de uma análise, possibilidade ou relativismo qualquer que o valha. Esses veículos de comunicação carregam consigo a verdade e aqueles que os atacam, inimigos da verdade, mentirosos compulsivos e ladinos, apenas reforçam, através de seus ardis e vilanias, a veracidade da verdade verdadeira presente nas páginas sinceras dessas empresas.

Essa verdade tem seus profetas e muitos se dispõem a substituir Isaías, Jeremias e Ezequiel. Diogo Mainardi, Celso Ming, Carlos Alberto Sardenberg e Arnaldo Jabor são alguns exemplos. Temos também um belo conjunto de tribos “eleitas”: os Civita, os Marinho, os Mesquita e os Frias. Todos defensores estridentes da verdade. Contra esta, o diabo forjou a mentira da regulação, o engodo do controle social e o supremo pecado do pluralismo. Neste reino bárbaro de inverdades e perdições de todo tipo, deuses, profetas e tribos são vítimas cotidianas desse tipo de blasfêmia. O que reforça a verdade de suas palavras. Aqui e ali, defensores do Bezerro de Ouro, levantam-se. Muitos deles já foram defensores da verdade. Infelizmente, perderam-se no caminho. Outro dia, ouvi dizer que o Centro de Mídia Independente e o Brasil de Fato realizam rituais satanistas – não sei se chegam ao ponto de sacrificar bodes e galinhas pretas.

A defesa da verdade chega, finalmente, aos indivíduos. Cada um com a sua verdade suprema. Num mundo guiado pelo turbo-capitalismo, nada mais adequado que um turbo-individualismo. O debate de idéias, a análise de divergências e a construção de consensos soam como elementos de seitas exóticas. No reino da flexibilidade produtiva, a busca da vitória individual, do sucesso financeiro, da carreira bem construída, do patrimônio consolidado, do cotovelaço no concorrente e da rasteira no vizinho são práticas correntes na construção das verdades individuais. Estas não concorrem com a grande verdade. São suas manifestações individuais. Todo aquele que distribui livremente sua limonada, ao invés de vendê-la, atenta contra a verdade.

Cuidado, Deus está olhando.

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Nota:

* Que fique claro e bem registrado: o campo evangélico é bastante diverso. Nem toda denominação evangélica demoniza as religiões afro-brasileiras ou possui práticas agressivas de proselitismo. Há grande variedade de práticas religiosas nesse campo: desde as mais conservadoras até outras bem progressistas. No entanto, acredito que é correto afirmar que a maior parte do campo religioso evangélico ainda possui discurso bastante agressivo para com o campo religioso afro-brasileiro.

Observação:

– Não sou a nêmesis da IURD. Toda grande religião organizada tem seus problemas. Os católicos, por exemplo, devem estar morrendo de vergonha depois do papelão eleitoral do Bento XVI. Entretanto, quanto às relações entre a IURD e o campo religioso afro-brasileiro, acho que a primeira não pode reclamar de meus comentários. Não enquanto o livro “Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios?”, de autoria de Edir Macedo, continuar a ser editado. Trata-se da demonização das religiões afro à enésima potência.

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P.S.:

– Algumas pessoas comentaram que o meu último texto parece ser uma declaração de que cheguei ao fundo do poço. Pode ser. Mas você também poderia perguntar: se o Tonico tem tanto medo de todo mundo, será que ele realmente simpatiza comigo? Como eu não sou muito fã da verdade, posso bem ser um covarde cínico.

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3 Respostas to “Mainardi, esse profeta”

  1. Guilherme Flynn 18/11/2010 às 12:54 #

    Gostei, simples assim.
    Problematizo no buteco.

  2. Exu Caveira 19/11/2010 às 3:12 #

    Seus caminhos serão abertos a partir de hoje.

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