“Quereres”

21 nov

 

Favela de Paraisópolis e prédios de luxo, no Morumbi. A segregação se dá através do muro do condomínio de luxo. E a gente a-d-o-r-a falar mal da cerca que separa México e Estados Unidos! FOTO: Tuca Vieira.

 

Parei de beber. No próximo mês de março, minha despedida do álcool completará 3 anos. Tonico fez sua última apresentação etílica de gala no carnaval de 2008. Foram 700 ml de cachaça por noite. E acho que esse número preciso, “setecentos”, se justifica perfeitamente: nesse ano, passei a festa de Exu em Paraty e, nessa aprazível cidade, são vendidas garrafas long-neck cheias de cana. Como eu consumia exatamente duas ampolinhas por noite, são 700 ml, na risca.

Todo santo dia, sinto muitas saudades do álcool. Eu era uma pessoa mais divertida, corajosa, alegre… Minha personalidade era mais exuberante. Sentia-me à vontade para xingar a mãe de um amigo, na mesa do bar. Quando tomava um fora de uma moça – daqueles fedidos – podia encontrar desprendimento e inconsequência suficientes para sair gritando no meio da rua, chutar a porta de uma loja chique, bater boca com um mendigo e tentar enfiar a cabeça de um amigo no espelho do banheiro. As grandes anedotas de minha vida vieram de momentos de extrema bebedeira. Como aquela vez em que passeei pelo Hospital das Clínicas com os dedos entrelaçados aos de um amigo, jurando se tratar da namorada que possuía à época.

A ausência do álcool me provoca uma série de sentimentos contraditórios. Hoje possuo muito maior acuidade para analisar quem sou. Qualidades, defeitos, potenciais, incapacidades, limitações (reais e imaginárias), etc. Tornei-me pessoa muito mais “civilizada”, gentil mesmo. Aquele sujeito que grunhia para os amigos, nos tempos de faculdade, ficou para trás. Estou reeducando minha personalidade para aprender a ser duro sem deixar de lado as boas maneiras. Aprendendo a reclamar sem gritar, transformando os pequenos ódios do cotidiano em gentilezas.

Infelizmente, esse projeto civilizatório pessoal esbarra em limites claros. Limites dados pelo mundo real. Estamos no Brasil, não na Noruega. Aspereza, agressividade e violência (verbal e física) são elementos importantes de nosso cotidiano. Nossas conversas podem descambar com facilidade para um murro no nariz ou um xingamento contra a avó esclerosada do colega ao lado. Em nossa sociedade, o jogo de corpo é tolerado e, por vezes, estimulado. Isso tudo pode soar regressivo, conservador, reacionário, para quem lê. Mas é um fato de nosso dia-a-dia. Está no comportamento do proprietário de uma mega-power-SUV que pára sobre a faixa de pedestres, no sujeito que dá uma garrafada em outro numa boate, na briga de torcidas organizadas, no deputado que enfia a mão em outro deputado, na briga do CDHU que termina em facada e por aí vai.

Ao lado dessa agressividade que permeia nosso tecido social, temos a “fofice” classe média dos “quereres”, dos desejos, sentimentos, vontades, representações, símbolos, da polifonia, polissemia, máscaras sociais, do volks-qualquer-coisa na obra de um autor alemão qualquer. Esse descolamento entre a mentalidade ursina-carinhosa de nossas classes médias educadas, instruídas e fofas e o tal do “mundo real” me causa engulhos. Ora, mas o que é o tal “mundo real”? Ele existe? Isso não é muita reificação? Respondo que é esse tipo de pergunta escabrosa, de tão ignorante, que separa a massa amorfa intelectualizada do cotidiano dos indivíduos. Em minha humilde opinião maniqueísta, as realidades das hordas de consumidores de crack, do condomínio que vive sob o Minhocão, das intermináveis favelas, dos Comandos de Amigos da Capital, das travestis tratadas como leprosas, todos elas, estão se lixando para os “quereres” e os desejos e as polissemias.

A desigualdade social no Brasil possui efeitos mais sutis que aqueles demonstrados pela relação de vizinhança entre os prédios luxuosos e a favela em Paraisópolis (zona sul de São Paulo, capital). No topo da pirâmide, há o comportamento da civilidade cínica miguxa. Dos bons modos à mesa, das viagens interiores profundas, daquele luxo de um mau gosto terrível e da erudição de galinheiro. Esse comportamento civilizado entre iguais subjaz à violência absurda e cotidiana demonstrada, pela simples segregação espacial, para com seus vizinhos. A violência do sujeito que toma seu uísque contemplando, da sacada de casa, a miséria da favela abaixo. Ou a agressividade do fulano que acha muito razoável furar um sinal vermelho pelo simples fato de estar dirigindo um Jaguar.

Na base da pirâmide, por outro lado, temos um belo conjunto de violências diárias. A discussão com o vizinho que termina em pancada, a revista da PM, o traficante que decide mandar, a surra do pai no filho… O mundo não é fofo: lembra mais um muro chapiscado.

Pode ficar a impressão de que defendo, como meta de nosso processo civilizatório, que retornemos à guerra de todos contra todos. Ou, de modo muito fascista, que a melhor maneira de resolução de todo e qualquer conflito, é o ato de chutar a boca de um colega, quando este estiver caído. Podem concluir, ainda, que sou um daqueles idiotas que acham que a miséria é linda. Que a favela é a última palavra em manifestação cultural. Que passar fome é divertido e que morar no Jardim Ângela é cult. Não, não acho nada disso razoável e acho que seriam conclusões típicas dessa classe média que ora critico. Este texto, na verdade, trata menos de processo civilizatório e muito mais sobre compreensão e entendimento. Eu sou capaz de compreender a violência das relações que se passam em ambientes de opressão ostensiva. O conflito entre quem não possui coisa nenhuma. A loucura do consumidor de crack e dos moleques de rua que se estapeiam por uma lata de cola de sapateiro. Mas me é absolutamente incompreensível o misto de formação acadêmica, cinismo e agressão dissimulada que atravessa nossa classe média. Esta que é incapaz de compreender como é cruel e violenta toda vez que um de seus representantes termina um doutorado sobre as possíveis relações entre o pensamento kantiano e o uso de roupas de plástico em raves no interior de São Paulo. Que fique claro: não me refiro às colocações grotescas dessa mesma classe média, via internet, sobre o voto dos nordestinos, nas últimas eleições presidenciais. O grotesco a que me refiro é muito mais disfarçado. A violência oculta no discurso que perdeu qualquer contato com o mundo real. A violência da espiral interminável de alienação voluntária. Como se vivessem na Noruega – onde, creio, falar de desejos e “quereres” já é atitude bem suportada por um estado de bem-estar social bastante avançado.

No que me diz respeito, preciso encontrar um modo de sobreviver sem o álcool. Mantendo a aspereza que me fazia menos cínico quando bêbado.

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7 Respostas to ““Quereres””

  1. Alex 25/11/2010 às 16:19 #

    Tunico,
    muito bom o texto. Vou até pegar um golinho do Fundador ali pra sentar na janela e pensar melhor sobre o que li. Talvez até pegue uns livros pra conferir umas citações

  2. Alex 25/11/2010 às 16:30 #

    Tá, vai, agora sério. Tá tudo muito bom, mas não acha que tem nada no meio? Ou a gente é bunda mole que estuda semiótica de rave e acha que todo bairro é um construto ou a gente não entende porra nenhuma e tamos aí na guerra de classes sem saber o que é classe?
    Só pra lembrar que, pra escrever esse texto, tem que ter gente que tá no meio do caminho. Nem só de sofismos onanistas vive a academia. Nem o dia a dia é só mundo real, com os muleques te assaltando na Teodoro. Talvez o Russel, citado pelo Guilherme, tenha mais a ver com a disputa entre mundo real e violência por omissão da classe média. Mais vale universidades que também tenham bundas moles (como quase toda a graduação – e pós – que passou por nosso olhos quando estivemos lá) do que nada. O nada, no caso, sendo a raiva incontida contra a suposta elite e outros congêneres. Enfim, não dá mais pra gente fingir que mijar no café dos professores vai solucionar alguma coisa. Só é muito divertido. Mas ser contra o conhecimento porque muita gente trata ele como uma BMW tampouco faz cócegas nessa vida real que a gente critica.

    • Tonico 25/11/2010 às 22:56 #

      Alex,

      Eu acho que devemos ter mais e melhor oferta de ensino superior, devemos ter a liberdade de pesquisar tudo, defender ardorosamente a democracia e a liberdade de expressão. Sempre. Acho, sem cinismo nem hipocrisia, que qualquer cientista deve ter o direito inatacável de pesquisar o que lhe der na telha.

      Por outro lado, recordo-me de uma ação muito interessante dos Tupamaros, durante a ditadura no Uruguai. Eles invadiram uma boate muito chique de Montevidéu, colocaram todos os clientes – que eram muito endinheirados – para fora e, finalmente, dinamitaram o local, colocando tudo abaixo. Em um muro próximo à boate destruída, picharam: “Ou dançam todos ou não dança ninguém”.

      Fico incomodado com tanta gente longe da universidade pública, com tanta desigualdade social, com a grande violência urbana e por aí vai. E o grande desinteresse dos integrantes da universidade pública, no Brasil, por essas questões. Outro dia fui à Sociais e – supremo absurdo – senti falta daquele bando de militantes chatos de tendências esquerdistas malucas. Esse pessoal sumiu e, em seu lugar, entrou um outro que parece saído do Shopping Iguatemi. A política caricata foi substituída por política nenhuma.

      Como de hábito, eu bato na antropologia porque acho que, muitas vezes, somos líderes desse desinteresse pelas questões políticas que nos circundam.

      Concluindo, quero dizer, mais uma vez: é fundamental que tenhamos algo no meio. A pesquisa deve ser livre, sempre. E acho, sinceramente, que tudo pode ser interessante. Até revista de mulher pelada. Mas acho, também, que esse desinteresse sobre a desigualdade é uma atitude política. A política do desinteresse voluntário e oportunista daqueles que se beneficiam das atuais características de nosso sistema público de ensino e pesquisa.

  3. Guilherme Flynn 26/11/2010 às 10:49 #

    O Rabino certa vez ouviu os litigantes Alex e Tunico.
    Primeiro ouviu o Alex e após meditar sobre a questão disse a este:
    – Você tem razão!
    E o Alex foi contente para casa.
    Depois ouviu o Tunico e após refletir sobre a questão sentenciou:
    – Você tem razão!
    E o tunico também foi para casa contente.
    Após ambos terem ido, o auxiliar do Rabino, que tinha ouvido tudo aproximou-se e exclamou:
    – Mais rabino, eles estavam discutindo, não podem ambos ter razão!
    Após considerar um segundo mais, o rabino disse a seu assistente:
    Você também tem razão!

  4. Alex 26/11/2010 às 11:54 #

    Guilherme. acho que você tem razão!

  5. Alex 26/11/2010 às 11:55 #

    Tunico,
    pega o Guilherme e passa lá em casa pra gente tomar um chá e discutir a questão.
    E onde diabos os Tupamaros arranjaram dinamite? Ou temos todos o direito de explodir boates ou ninguém tem.

  6. Silvio D. Paciornik 26/11/2010 às 14:01 #

    Quanto ao direito de o cientista pesquisar o que lhe der na telha eu digo: não com o meu dinheiro! Linha de pesquisa em universidade pública (ou privada com financiamento público) só com plebiscito. Conheço um monte de cientista e não acho que qualquer um deles tenha o discernimento necessário para decidir o que pesquisar. Não sei se vocês já viram uma tirinha do Henfil com a Graúna e o bode Francisco Orelhana em que a Graúna está em cima de uma pedra pronta para alçar voo (maldita reforma ortográfica). O bode fala qualquer coisa assim: “Está provado cientificamente pela ciência que graúnas não podem voar”. No quadrinho seguinte a Graúna dá uma de D.D. e “passa” uma nota para o bode. No próximo quadrinho aparece o Bode na frente da pedra onde se encontra a Graúna acenando com aquelas bandeirinhas usadas nos aeroportos para ajudar os aviões a taxear! E a Graúna comenta: “Cientista e diskjockey comigo é no jabaculê”.
    Uma vez no Instituto de Física da USP alguém (terá sido eu?) pregou essa tirinha no quadro de avisos do Depto de Física Nuclear. Isso foi de manhã. De tarde não estava mais.

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