WikiLeaks: O reverso do panóptico de Foucault?

15 dez

 

Hail to the Chief!

As possibilidades abertas pelas novas tecnologias das informações e comunicações (internet, celular entre outras) para a transformação social constituem todo um universo cuja superfície apenas começamos a arranhar (1). Toda a comoção, discussão e ação geradas pelos vazamentos realizados pela WikiLeaks são apenas um exemplo de um tipo de transformação que já está em curso.

O panóptico de Foucault é na verdade uma releitura mais ampla e teórica do concreto panóptico de Bentham, um mecanismo imaginado e projetado por este jurista inglês do século XVIII, no qual em uma prisão, escola ou hospício, uma torre central observa um círculo de celas bem iluminadas dispostas abaixo e ao redor dessa torre, de forma que os detentos/pacientes/estudantes não tenham como saber em que momento estão sendo observados, e se autocensurarem o tempo todo, evitando comportamentos proibidos e agindo todo de forma considerada apropriada. Para Foucault esse panóptico é uma metáfora geral da dinâmica do poder na sociedade disciplinar (a nossa), a auto-regulação opressiva seria a base desse poder.

O que alguns teóricos da relação entre internet e política estão propondo é se não haveria um começo de inversão dessa metáfora, se as TICs não poderiam potencialmente invertê-la permitindo que a sociedade civil e seus diversos movimentos passassem a também observar as elites. A primeira versão encontrada dessa idéia de possibilidade de inversão do mecanismo do panóptico vem de James Snider, comentado posteriormente por Bruce Bimber e Kelly Garrett (2).

Já Umberto Eco, em texto recente sobre os vazamentos do WikiLeaks, analisou o fato comparando-o com uma mutação do mecanismo do Big Brother, que “acontece agora, que mesmo as catacumbas dos segredos do poder não escapam ao controle de um pirata informático, a relação de controle deixa de ser unidirecional e torna-se circular.” de fato, agora não apenas “-The Big Brother is watching you!”, mas também ”- You are watching the Big Brothers!”

Idéia central é que as empresas e os governos podem passar a se comportar como se estivessem sendo observados, independentemente de essa observação estar sendo efetivamente realizada ou não. O todo-olhar se desloca do poder central, que sempre o exerceu, para incontáveis anônimos, e esta mudança pode reconfigurar em parte o próprio poder.

Além de reafirmar o que já é uma máxima, que nenhum sistema de segurança pode ser mais inteligente do que o mais estúpido de seus operadores, a internet pode ter a capacidade de transformar essa máxima no sentido de que nenhum governo, empresa ou instituição de qualquer tipo pode ser mais corrupta ou mais sigilosa do que o mais ético de seus operadores. Surge aqui, e para ficar, a figura dos whistleblowers -“ tocadores de apito”- que “apitam” ao ver algo errado ou que avaliam que deveria ser de conhecimento público na empresa, governo ou organização na qual trabalha, aliando-se a sites que se dispõem a tornar esse tipo de informação pública . Mudanças na segurança utilizada na transmissão original seja inquebrável, do tipo PGP (3), não acabam de forma alguma com a possibilidade pois o vazamento está nos operadores e não no sistema. Basta um funcionário com acesso que esteja muito descontente, que avalie que eticamente é fundamental dar publicidade aos conteúdos dos documentos ou que enseje obter lucro ou posições através do vazamento. Para efeitos práticos os três casos propiciam o mesmo resultado.

O importante a se destacar sobre o processo que ganhou notoriedade com toda esta discussão sobre o WikiLeaks, é que este não se deterá em qualquer hipótese de veredicto que colocarem sobre a cabeça de Julian Assange. Independentemente da importância de Assange, que defenderemos por princípio – seja este considerado um libertário revolucionário ou uma espécie de versão moderna de um liberal do século XIX- há todo um processo de transformação da relação das pessoas com os poderes estabelecidos que continuará. Nesse sentido tanto faz que se faça uma hagiografia de Assange à semelhança do bom nazareno que certa vez anunciou “- O que hoje é segredo um dia será gritado dos telhados”, ou que o considerem um pirata horrível que coloca em risco a segurança não só dos EUA mas do mundo como um todo.

A chave analítica extremamente personalista da imprensa é insuficiente para compreender este processo, sabemos que Assange é um militante, importante, da liberdade de acesso ao conhecimento e informação, porém sabemos também que tal e qual ele existem milhares de outros prontos para assumirem as mesmas práticas de ampla divulgação de segredos estatais e empresariais. A continuidade do processo está por hora assegurada.

Grande parte do conteúdo recentemente divulgado de atividades desenvolvidas pelo corpo diplomático estadunidense era amplamente esperado e imaginado, o que acontece é que entre a suspeição e a confirmação (os estadunidenses não negaram serem os produtores de tais documentos) vai uma distância que muita vez impede a concretização da ação política contrária. O que se destaca nos telegramas e e-mails dos americanos, mais do que o tipo geral de informação transmitida, é o tipo de informação específica sobre líderes e a forma dos detalhes e do fraseamento.  Não é que o rei esteja nu, é que há detalhes de suas vestes íntimas que são inesperados.

Existe também uma falsa visão dos que avaliam ser possível resolver esta questão de vazamento simplesmente melhorando os mecanismos de segurança. É praticamente impossível achar uma forma de segurança de arquivos que destrua completamente a possibilidade de vazamentos.

Além dos vazamentos já conhecidos, a vontade de saber que o WikiLeaks despertou pode levar a muitas outras divulgações com consequências políticas importantes, se estes dados serão vazados por funcionários que não têm autorização para tanto, ou obtidos por hackers militantes da liberdade da informação – não há como se saber com certeza – isso não influencia em muito o resultado final.  Processos políticos que geram ou geraram suspeição generalizada são por excelência alvos inatos. Exemplos destes são contas em paraísos fiscais como as Ilhas Cayman e similiares, onde lideres políticos em ofício, principalmente – mas não só – do mundo em desenvolvimento, tenham contas não declaradas de valores inexplicáveis. Assim como outros processos sob forte suspeita como os do HD de Dantas, os documentos internos da CBF, a relação de certos governos com empresas estrangeiras como a Alstom, entre tantos outros exemplos.

Para os que insistem em negar as possibilidades de transformação política gerada pela internet, um exemplo de retrospecção (4) que poderia simplesmente mudar a história do século passado. Se os crimes de Stalin, dos expurgos, massacres e perseguições aos progroms tivessem acontecido numa época de internet, dificilmente o tamanho de seu sigilo e sua abrangência teria permanecido desconhecido até o Relatório de Kruschev em 1956 (5), que gerou defecções em partidos comunistas do mundo inteiro.

As elites e governos comportarem-se como se estivessem sendo observadas pode ter consequências diversas: no que tange à corrupção os casos podem diminuir muito, ampliando a verba remanescente para investimentos efetivos em políticas públicas, na parte das empresas essa diminuição da corrupção pode também aumentar a arrecadação pública; no que diz respeito à ação internacional, a dificuldade de se manter o sigilo pode permitir maior transparência para estas políticas e menos ações que seriam consideradas pela opinião pública como “moralmente questionáveis”; e no que concerne aos mecanismos decisórios, a dificuldade de se tomar decisões que não sejam publicamente escrutinadas pode tender a aumentar os mecanismos de democracia direta.

Se esse é de fato um processo que vai levar a mudanças na forma de se exercer o poder, o que interessa saber são as possibilidades desse processo no longo prazo, até porque – se ele é um processo em disputa – cabe não só analisar teoricamente essas possibilidades, mas também desenhar ações políticas que influam e acelerem o processo.

—————————————-//——————————————

Este texto é um primeiro esboço sobre o assunto, críticas e sugestões serão muito bem vindas.

1-Não apenas pela existência da possibilidade da comunicação de todos com todos e da epifania iluminista de estarem os melhores produtos do fazer humano, da ciência e das artes ao alcance de todos, mas também por motivos econômicos e político-organizacionais.

2-Kelly Garrett  – “Protest in an Informational Society: A review of literature on social movements and new ICTs”. 2006. O artigo de Bruce Bimber , de 1998- “The Internet and Political Mobilization – Research Note on the 1996 Election Season” , não pôde ser consultado, porque, apesar de estar a disposição na Social Science and Computer Review – revista dentro do sistema SAGE Journals Online – esta me oferece como possibilidade o seguinte mecanismo: “Pay per Article – You may access this article (from the computer you are currently using) for 1 day for US$25.00”. Ou seja, um artigo de nove páginas, por um dia e ao custo de 25 dólares!

3-Literalmente Pretty Good Privacy, código baseado em chave aberta, decodificá-lo trata-se da fatoração de dois números primos muito grandes, os quais os principais mainframes do mundo reunidos poderiam realizar, mas demorariam uma quantidade considerável de milênios para fazê-lo.

4-Retrospecção – Termo do filósofo Bergson, afirma sobre a tendência a “relegar as realidades atuais para o passado, para um estado de possibilidade ou virtualidade”

5- Diz-se que Marighela chorou de raiva e indignação ao ouvir o relatório pela primeira vez.

Guilherme Flynn Paciornik – Dezembro 2010

 

Anúncios

24 Respostas to “WikiLeaks: O reverso do panóptico de Foucault?”

  1. Pedro Ekman 15/12/2010 às 16:35 #

    O Wikileaks é o filme “Clube da Luta”(Figth club) da vida real, ou ao menos da vida virtual.

  2. blogs oswald 15/12/2010 às 16:53 #

    Acompanho essas questões de orelhada, então minha opinião talvez valha muito pouco. O que me parece é que o acesso à realidade dos poderosos, mesmo de suas partes mais podres, não garante nada, não significa salto revolucionário. A admiração que os alienados têm, seu respeito ao poder e sua sensação de fraqueza têm a ver justamente com o fato de as elites poderem, livremente, exibir seus podres à vontade, provocando aliás sistematicamente a reação de “isso é pra quem pode, não pra quem quer”. A comparação com Stálin pra mim não procede, porque ali estávamos num modelo de autoritarismo que funcionava pela força explícita (regime com caninos à mostra), diferente desse poder que consegue vencer pela sedução, pela “ração diária de erros distribuída em casa”. Não acho que os novos meios de informação necessariamente piorem as nossas condições de pensar a realidade, só acho que eles têm pouco a ver com uma possibilidade de produzir posicionamentos radicais acerca dela. Acho um erro a ideia de que, por si só, a informação possa gerar transformação. Estão aí os eleitores do Maluf para nos provar: quem duvida de que eles sabiam das sacanagens de seu ídolo? Isso por acaso era um problema? E os altos índices de acesso à informação de países ricos, por acaso têm inibido posições retrógradas, como a xenofobia? No caso do Brasil, não acho que o problema seja acesso à informação, mas ao conhecimento. Estamos cada vez mais convencidos de que agora somos um país melhor porque temos acesso à internet (visão de um Marcelo Tas, por exemplo), mas pouco a internet tem feito para aumentar o acesso à leitura (pelo contrário) e para um encontro mais profundo com o conhecimento. São dados, informações, significantes, não servem pra nada pra quem não tem preparo. E preparo pressupõe espera, demora, adiamento do prazer, disciplina, coisas que esse mundo interativo não permite.

    • Guilherme Flynn 16/12/2010 às 14:36 #

      Querido Blog Osvald,
      O enorme apoio internacional à União Soviética se baseava bastante no desconhecimento dos membros dos PCs do que efetivamente Stalin estava fazendo. Já dentro da Rússia havia também um desconhecimento da extensão dos crimes (Evtuchenko – Autobiografia Precoce).Ou seja, o regime não se mantinha exclusivamente pela coerção.
      Não acho que a internet e demais TICs sejam transformadoras por conta de um deslumbramento mágico iluminista, mas sim porque são um desenvolvimento das forças produtivas que permitem baixo custo de organização, comunicação interna e reprodução massiva de mensagens aos contestadores de elites dominantes. Esses novos meios também permitem diferentes e mais viáveis estruturas organizacionais políticas a esses mesmos contestatores. Ou seja, minha análise se dá, na medida do possível, sem deslumbramento mágico do “todos falando com todos” ou “conteúdo infinito”.
      Por fim, formação nada mais é que informação organizada no tempo com uma relação recíproca entre educadores e educandos. Nada impede que se desenvolvam via TICs meios que não sejam mais de pura troca de informação, mas sim dispositivos de troca efetivamente formativos.
      Abraço

  3. maria helena flynn 15/12/2010 às 17:11 #

    texto em cima! excelente!
    divulgarei entre todos!

  4. Fernando Amaral 15/12/2010 às 17:45 #

    Faltou o Raí no texto.

  5. Luciano Malheiro 15/12/2010 às 19:30 #

    Gostei do texto. Mas vc poderia deixar a fonte mais escura, está um pouco cansativo de ler.

    • Guilherme Flynn 16/12/2010 às 13:51 #

      Nossa equipe de arte está trabalhando incessantemente (alguns sequer verão sua família esse fim de ano para poder acabar o projeto).
      Falando sério, provavelmente teremos um modelo diferente ano que vem, obrigado pela dica.

  6. blogs oswald 17/12/2010 às 1:25 #

    Guila, concordo que “nada impede que se desenvolvam via TICs meios que não sejam mais de pura troca de informação, mas sim dispositivos de troca efetivamente formativos”, só acho que de ordinário não é o que tem acontecido, e isso pra mim quer dizer alguma coisa. Em matéria divulgada na Carta Capital 619 – “No fundo é raso” – Thomaz Wood Júnior tece considerações interessantes sobre a probabilidade de os mecanismos comunicativos da internet serem pouco favoráveis à aquisição de conhecimento: mostra, por exemplo, como o convite à dispersão (próprio do meio: “o meio é a mensagem”) dificulta a leitura concentrada e a capacidade de discernir o que é periférico do que é central num texto, por exemplo. Acho que são importantes essas considerações. E são coisas que nós, que não fomos educados pela internet, temos obrigação de dizer para as novas gerações, que apresentam como sintoma gritante a tal da DDA, doença que é moda na escola contemporânea, e não só das classes abastadas. O “multitarefismo” – estimuladíssimo pelo mundo internáutico – tem ameaçado a capacidade de engajamentos mais efetivos dos alunos nas leituras árduas, aquelas que a gente só consegue fazer quando investe movimentos mais verticais e continuados. Fiz um trabalho com os alunos na escola (eles ficaram uma semana fazendo um uso mais “regulado” da internet, para se testarem) e muitos deles disseram que, finalmente, fizeram as tarefas escolares e
    “conseguiram” ler textos e frequentar praças e clubes. Não quero condenar a internet (e não era esse meu intuito com os alunos; faço uso constante dela, gosto do meio), só acho que estamos dando pouca atenção para a sua capacidade de minar algumas habilidades que crianças e adolescentes só podem adquirir com exercícios que ela não propõe: ao contrário, ela desestimula.

    Adriano

    • Guilherme Flynn 17/12/2010 às 13:35 #

      Há diversas pesquisas nesse sentido. Que estamos ficando com a capacidade de atenção de um peixinho dourado de aquário, que a capacidade de leitura vem ficando prejudicada. Dá para perceber isso inclusive nas reclamações, você resume até o limite, corta uma série de raciocínios, posta um texto equivalente a duas folhas A4, e vem uma chuva de reclamações do tipo: “Você escreve posts longos demais!”
      Enfim, a se confirmar, seria esperar demais da realidade qualquer fenômeno que não seja prenhe de contradições.

  7. Franciere Bezerra de Menezes 17/12/2010 às 7:45 #

    Excelente texto!

    A revolução nas notícias como um todo está se iniciando. Vamos em cadeia usar os blogs para espalhar cada vez mais as notícias como elas são e não manipuladas. Vamos detonar o PIG e vamos fazer com que venha a tona os demandos dos tuCANALHAS, principalmente aqui em SP. Eu tenho notícias de desmandos na Educação aqui SP, só preciso de documentos para divulgar. Por exemplo, estou sabendo que as notas do SARESP são manipuladas.

    • Guilherme Flynn 17/12/2010 às 13:37 #

      O debate com a Natália Vianna do Wikileaks Brasil levantou diversas possibilidades de abrirmos mecanismos semelhantes ao Wikileaks para o Brasil para divulgar exatamente esse tipo de informação. O PIG também foi muito discutido.
      Recomendo:
      http://twitcam.livestream.com/30ura
      Saudações

  8. Pedro Paciornik 17/12/2010 às 8:11 #

    Muito bom texto e comentários. Sugiro “The clue train manifesto”. Uma abordagem mais “empresarial e corporativa” do assunto, mas que tange o mesmo universo conceitual.

    Pedro

    • Guilherme Flynn 17/12/2010 às 13:40 #

      Se tiver, mande por e-mail, mas sabes que sou meio desconfiado de qualquer análise “corporativa”, pois o objetivo primeiro destas é maximizar o lucro e vender idéias que ajudem seus funcionários a fazê-lo, comprrender as ambiguidades da realidade não é prioridade.
      Abrax

  9. Cesar 17/12/2010 às 11:53 #

    Gui mano veio… na minha opinião, o seu melhor… Deu para aprender até o que é hagiografia…

  10. Antonio Gracias Vieira Filho 17/12/2010 às 18:22 #

    Guilherme,

    Muito boa sua reflexão. O debate suscitado pelo texto pode, inclusive, servir como uma primeira etnografia para posterior análise em seu mestrado. Um tópico intitulado “Reflexões suscitadas pelos escândalos do WikiLeaks” ficaria uma beleza! Quanto à qualidade de sua prosa, devo dizer que seus textos estão cada vez melhores. E este ficou particularmente supimpa.

    Considerando que estou com o acesso à internet bastante restrito aqui em BH, não pude reler e analisar as questões expostas com o cuidado que gostaria. Tenho muita simpatia pelo WikiLeaks e não posso deixar de ficar admirado pelo destemor (ou falta de noção do perigo) do senhor Assange. A pergunta fundamental que tenho me feito nos últimos tempos, porém, permanece intacta após todo o impacto midiático e sociológico das revelações de nosso bom amigo australiano: estamos avançando rumo à superação do atual modelo de produção? Tenho a impressão de que não. Capitalismo menos corrupto, menos bruto, menos cruel é, ainda assim, capitalismo. Não sabemos bem como sair dele e nem para onde queremos ir. Toda reforma que torne o sistema mais respirável é uma boa reforma. Mas não é justamente essa capacidade incrível de autoreforma sistêmica que nos apavora no capitalismo? São questões bem gerais que podemos debater depois.

    E antes de mudar as cores da página e da fonte, façamos uma reunião com nosso conselho de acionistas!

    Beijos,
    Tonico.

  11. Guilherme Flynn 18/12/2010 às 14:53 #

    Matou a pau! É exatamente essa a questão que mais comentaram, as TICs podem ser bacanas, progressistas, legais, supimpas e tal e coisa, mas efetivamente transformadoras? potencialmente revolucionárias? (seu Silvio comentou exatamente a mesma coisa). Cá com meus botões anda pensando, e minha resposta provisória é: Não há uma resposta, é um processo aberto no qual o surgimento efetivo desse caráter transformador depende da capacidade de luta política e re-organização de todo um conjunto de esquerdas que andam semi-hibernando.
    Eu jamais mudaria o formato do Cuma sem uma reunião com o pleno.
    ósculo.

    • Antonio Gracias Vieira Filho 18/12/2010 às 17:49 #

      Concordo totalmente contigo. A questão está em aberto. Apenas fico com a pulga atrás da orelha com essas “explosões internéticas” pois acho impressionante a capacidade da sociedade em manter-se letárgica mesmo quando confrontada com questões políticas absurdas.

      Ô queridão, quando me referi ao “conselho de acionistas”, pensei em nosso quadro de 388 funcionários que trabalha incansavelmente para manter o Cuma no ar! A propósito: o Jorginho, do financeiro, nos convidou para sermos padrinhos de casamento. A festa será naquele mesmo salão em que a Marcela, do RH, comemorou o aniversário.

      Beijos,
      Tonico.

      • Guilherme Flynn 19/12/2010 às 13:39 #

        Otimistas sim, deslumbrados jamais!
        Faz parte da tarefa criar umas teleologias por aí, mesmo sabendo que estas são apenas ideologias, o pessoal não se mexe muito sem uma boa teleologia como combustível.
        A gente deu parte das ações pro pessoal do chão de fábrica aqui do Cuma? Deviamos estar bêbados.

  12. Lise 21/12/2010 às 19:36 #

    Gostei, achei muito bom, mesmo! Não conhecia seus dotes na escrita! Inclusive concordo com o Cesar! rs
    E parabéns pelo mestrado!
    Osculos

  13. Bia Barbosa 21/12/2010 às 21:01 #

    O acesso à informação não é por si só transformador? Tenho minhas dúvidas. Numa sociedade “democrática”, talvez não seja. Numa autoritária – onde me encontro neste momento, na qual se liga a TV ou se abre o jornal e não se ouve/lê uma única notícia crítica ao governo – poderia ser o despertar de uma pequena, porém fundamental, transformação. Pra refletir, mesmo.
    Gui, parabéns pelo texto e pelo mestrado, que pelo visto avança 😉

    • Guilherme Flynn 24/12/2010 às 14:30 #

      Obrigado Bia, Acho que você tem razão, se o modo de proceder das elites em toda a história da humanidade foi manter o poder através do ocultamento de críticas e informações que eram desfavoráveis a permanência das mesmas, o simples acesso à informação é de alguma forma o acesso a crítica e à contradição, logo, transformador.
      E aí, já está na Al Jazeera? Beijo

  14. Rodrigo 11/01/2011 às 23:33 #

    Caro Guilherme,
    acabo de ler alguns dos textos do blog. Não costumo ler blogs. Já sugeri ao Tonico, que me pediu que eu lesse o último texto dele “Em causa própria”, que me entregasse o que ele escreve pessoalmente e em texto impresso. Bem, apesar de contrariar a minha religião, escrevo aqui, como também, antes, deixei um comentário ao texto do tonico.
    Foucalt não me agrada. Não cheguei a formular em texto o meu desagrado. Por enquanto é algo apenas intuitivo. Li dele umas poucas obras, reconheço o talento teórico – reconheco-o com um interlocutor necessário -, mas ainda assim não me agrada. Como não me agrada a sugestão do “panóptico invertido”.
    O princípio de operação do poder contemporâneo não é a vigilância. É o espetáculo. O que significa que, incapazes de dominar coletivamente as condições de realização e reprodução da vida social, os homens tornam-se espectadores dos centros de poder – que não são apenas gestores, mas representantes e simuladores da totalidade social perdida. Não se trata, portanto, do olhar que vigia, mas daquele que assiste.
    A “tela onde o espetáculo se realiza” é vulgarmente entendida como o conjunto dos meios de comunicação. É também isso, mas é bem pior. Significa que, a partir de certo momento histórico, toda a vida social passa a ser comandada pelo momento econômico tornado momento social hegemônico. O capital, abstração da atividade humana, passa a submetê-la. É o mesmo processo em todo o lugar: a abstração voltada para si mesmo e sem controle passa a corroer o que antes era vivido concretamente. Entre estes processos, um dos mais importantes, é a deslegitimação de uma comunicação autêntica em favor da sub-comunicação generalizada que a tecnoesfera audiovisual distribui.
    Pensar no exercício de uma espécie de controle social do poder a ser exercido pela “sociedade civil”, me desculpe, é ridículo. Isso porque o meio técnico, como já sabemos desde os frankfurtianos, não é neutro. Não existem objetividade puras, soltas por aí, esperando para serem atiradas contra o capitalismo. O meio técnico é a materialização ideológica de uma sociedade que escolheu (“escolher” não é bem o termo, mas vá lá) explodir em abstração e purgar de si a consistência social mínima que a racionalidade e a comunicação exigem para subsistir.
    O próprio exemplo que você utiliza, as denúncias feitas através do WikiLeaks. Francamente, o que há ali que já não sabemos? O que há ali que não é dito abertamente pelos governos? É o fetiche da autenticidade, da prova material, da prova escrita? É preciso que os governos sempre divulguem uma carta de intenções sinceras antes de agir com brutalidade e violar leis? Mais ainda, as teorias da conspiração não valem mais nada no mundo congelado do espetáculo. Se o segredo já teve um papel histórico, hoje ele pode ser dispensado porque conseguimos algo muito mais sutil, muito mais operativo: o cinismo de massa. O que é realmente importante? Qual o peso que devemos atribuir a cada um de dois eventos distintos? Não sabemos e nem queremos saber. E isso está além das vontades individuais.
    A minha opinião, que já mudou muitas vezes, é que a atividade emancipadora, hoje, está em defender elementos provenientes da tradição que estão em perigo. Uma certa racionalidade, por exemplo. Um certa formação social: a cidade. O projeto de modernidade mais consistente, mais apaixonador – o projeto de desalienação social – parte desses elementos. O niilismo pós-moderno os desarticula. Chegamos a um ponto em que defender o projeto moderno é defender elementos de tradição. Um exército de hackers, pra mim, soa tão assustadoramente deslocado como um pelotão de bolcheviques. Seria melhor que eles se organizassem em grupos de leitura de Flaubert, ou Cervantes, ou Gogol.
    Enfim, escrevo isso com a certeza da perda de tempo… Afinal é só internet.

    • Guilherme Flynn 19/01/2011 às 9:34 #

      Caro Rodrigo,
      É um prazer iniciar um debate com um interlocutor tão interessante, e mais ainda um interlocutor com o qual tenho tantas divergências. Pensei bastante sobre seu texto e decidi que alguns esclarecimentos de sua parte me seriam bem úteis, para que minha crítica não fosse uma crítica deslocada de início. Eles estão no meio do texto em pontos nos quais só pincelei, junto a citações de seu texto.
      Em primeiro lugar não sou foucaultiano, e acredito que a aplicabilidade de suas teorias e a de seus seguidores tem de passar por um conjunto muito grande de mediações para serem minimamente adequadas a uma realidade como a brasileira, apenas me apropriei de uma imagem dele que acredito ter poder explicativo, principalmente quando se alude a um processo de inversão.
      Da mesma forma como Foucault não lhe agrada, o Guy Debord, pano de fundo não declarado de sua primeira análise, é um autor que pouco estudei, mas cuja metáfora do “espetáculo” me parece, de forma ainda um tanto crua, por demais “espetacular”, nos termos do mesmo. Uma versão moderna do panis et circensis elevada à enésima potência. Mas espero estar sendo fútil aqui e aprender bastante com você e com o Debord sobre o conceito, e discutir principalmente como o conceito se comporta e aplica ao nosso pedacinho da sociedade ocidental.
      “O princípio de operação do poder contemporâneo não é a vigilância. É o espetáculo. O que significa que, incapazes de dominar coletivamente as condições de realização e reprodução da vida social, os homens tornam-se espectadores dos centros de poder – que não são apenas gestores, mas representantes e simuladores da totalidade social perdida. Não se trata, portanto, do olhar que vigia, mas daquele que assiste.”
      Não considero que exista um princípio de operação do poder único, vigilância ou espetáculo, mas sim um conjunto grande de mecanismos sobrepostos e que adquirem diferentes importâncias de momento a momento, e que assim devem ser tratados pela teoria, reservado o direito de cada teórico de dar ênfase maior a um ou outro ou ainda outros. (eu de minha parte continuo gostando muito de alienação do trabalho e de fetiche da mercadoria, muito mais afins com o espetáculo do que com a vigilância, sendo que este último conceito tem uma genealogia teórica distinta, surgiu de uma discussão do processo de individuação).
      “Entre estes processos, um dos mais importantes, é a deslegitimação de uma comunicação autêntica em favor da sub-comunicação generalizada que a tecnoesfera audiovisual distribui.”
      Novamente, o que era uma comunicação autêntica? Quando e por que a comunicação deixa de ser autêntica?
      “Pensar no exercício de uma espécie de controle social do poder a ser exercido pela “sociedade civil”, me desculpe, é ridículo. Isso porque o meio técnico, como já sabemos desde os frankfurtianos, não é neutro. “
      Nunca insinuei, nem insinuarei, que o meio técnico é neutro, é ao contrário um desenvolvimento das forças produtivas com implicações políticas grandes a priori, o que defendo é que ele abre possibilidades de disputa para a esquerda da mesma forma como os demais meios que foram criados e não eram neutros, como a imprensa ou o telefone, abriram.
      “Não existem objetividades puras, soltas por aí, esperando para serem atiradas contra o capitalismo. O meio técnico é a materialização ideológica de uma sociedade que escolheu (“escolher” não é bem o termo, mas vá lá) explodir em abstração e purgar de si a consistência social mínima que a racionalidade e a comunicação exigem para subsistir.”
      É exatamente nestes pontos que acho que a teoria se espetaculariza e, portanto, perde capacidade analítica, e muitas vezes a capacidade de ser levada a sério. Não fui oficialmente informado que a consciência social mínima foi completamente purgada numa explosão de abstração, provavelmente porque, independente do recrudescimento das formas do capital, é impossível purgar totalmente a consciência social -ela é em diversos níveis inerente ao processo produtivo – sendo possível apenas mantê-la operando em padrões mais fluidos e, logo, menos propensos à ação.
      Teoria não se produz exclusivamente na biblioteca, mas também nas ruas, e, mais, não só existem diversas objetividades, como sem falta amanhã centenas de milhares de pessoas, divididas em grupos menores, irão às ruas protestar contra estas. Como fazer com que esse número salte para centenas de milhões é uma ótima pergunta, das centrais, que se colocam.
      “O próprio exemplo que você utiliza, as denúncias feitas através do WikiLeaks. Francamente, o que há ali que já não sabemos? O que há ali que não é dito abertamente pelos governos? É o fetiche da autenticidade, da prova material, da prova escrita?“
      Entre a desconfiança e a confirmação, e ainda por cima sem contestação de autoria, vai a mesma distância que existe entre a observação cuidadosa e a ação política. Um exemplo imediato na América Latina foi o de dar legitimidade aos discursos e ações dos governos da Venezuela e Bolívia em relação ao corpo consular estadunidense. Não haveria a reação política que acontece contra o Wikileaks nos EUA se não houvesse alguma ofensa real ao poder do convalescente império.
      “A minha opinião, que já mudou muitas vezes, é que a atividade emancipadora, hoje, está em defender elementos provenientes da tradição que estão em perigo.”
      Aí você me pegou, pois não tenho a menor idéia do que você está falando. O que você quer dizer com tradição? Quais elementos da tradição defender? Essa frase pode ser interpretada em inúmeras posições dentro dos dois campos longitudinais ao longo do qual comumente espalhamos o espectro político, esquerda e direita. Defender o quê? Defender as práticas culturais de São João? A Igreja Católica Apostólica Romana? O corte ritual do clitóris de meninas em partes do Islã? O carnaval e o samba? Os partidos comunistas da terceira internacional? Devemos desligar os milhões de domicílios recém conectados às redes de energia elétrica?
      Se necessário for criarmos teleologias, teleologias criaremos, mas não necessariamente calcadas na tradição, novas visões de transcendências podem surgir de novas cepas de práticas sociais. O capital muda, recrudesce, mas os humanos continuam existindo e resistindo de diversas formas às novas formas criadas por este. A história não acabou. E pode ficar tranquilo de que enquanto houver desigualdade existirá luta contra a desigualdade.
      “Um exército de hackers, pra mim, soa tão assustadoramente deslocado como um pelotão de bolcheviques. Seria melhor que eles se organizassem em grupos de leitura de Flaubert, ou Cervantes, ou Gogol.
      Enfim, escrevo isso com a certeza da perda de tempo… Afinal é só internet.”
      Neste ponto não só eu, mas também o governo dos Estados Unidos, as grandes corporações e qualquer um que tenha possibilidade de se beneficiar ocultando informações e procedimentos realizados, discordam de você.
      Para não entrar nos detalhes dos processos dos zapatistas, na greve de Moçambique, na derrocada do governo da Tunísia, na perda de apoio da guerra no Afeganistão, afirmo-lhe apenas que sem a internet provavelmente não estaríamos sequer tendo essa conversa.
      Abraços,
      Guilherme

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: