A porta dos fundos da história

23 jan

Cleveland Williams, em luta contra Muhammad Ali (14 de novembro de 1966). Caindo no esquecimento, em muitos sentidos.

 

Todo sujeito que possui grande apreço pela auto-sabotagem ou gosta de lutas de boxe tem, invariavelmente, grande simpatia pelo perdedor. Nesse sentido, meu caso é exemplar. Pois consigo destruir minhas entrevistas de emprego em segundos e sou capaz de passar dias assistindo a antigas lutas de boxe na internet. A inspiração para este texto veio de uma semana particularmente difícil quanto à busca de trabalho e da oportunidade que tive de rever os minutos finais de “Touro Indomável” – a impecável cinebiografia de Jake LaMotta, o “Touro do Bronx”, realizada por Martin Scorsese em 1980. O próprio LaMotta, aliás, seria inspiração para dezenas de textos sobre os possíveis significados da derrota.

Isso posto, ao perdedor cabe, sempre, a porta dos fundos da história. Quando esta existe. Em muitos casos, acho que esses discípulos de Jó simplesmente se desintegram no ar e nunca mais são vistos. Como prometi que, em 2011, seria um sujeito determinado a conquistar grandes realizações, achei muito adequado que meu primeiro texto do ano fosse totalmente contrário a tal decisão. Uma de minhas grandes tradições pessoais diz respeito à implementação do exato contraditório de tudo aquilo que prometo na virada do ano. Sempre faço promessas arrazoadas e que me seriam úteis se cumpridas. Mas quem disse que vou me render tão facilmente ao sucesso?

Meu primeiro homenageado é Cleveland “Big Cat” Williams. Um grande boxeador norte-americano dos anos 1960 e 70. Tão bom que tinha seu talento reconhecido pelo próprio Muhammad Ali. Abordado por um oficial de polícia num bloqueio de trânsito, foi baleado no abdome, aparentemente sem razão alguma. Quase morreu e teve um grande número de sequelas: problemas nos rins, perda considerável do intestino delgado e danos nos nervos que afetaram sua perna esquerda abaixo do joelho, causando atrofia. Dedicou todo ano de 1965 à recuperação da saúde. Poderia ser o fim trágico da carreira de qualquer outro boxeador. Mas esse não era o caso desse rapaz forte e de apurada técnica na distribuição de sopapos. Mostrando que não estava inválido para o esporte, com uma boa volta aos ringues, foi escalado para uma luta pelo título dos pesados contra o próprio Ali. Este, famoso por suas fanfarronices, declarou: “Cleveland é um lutador muito bom, que respeito. Por isso vou derrubá-lo no terceiro round”. O cenário era perfeito para criação de uma nova lenda em um cenário que as adora. A luta durou exatos três rounds. Cleveland foi soberbamente massacrado por Ali e mal conseguiu dar um soco. Nocauteado, garantiu sua entrada no rol das grandes figuras desimportantes da história.

O futebol possui não uma porta, mas gigantesco portal dos fundos. Há o famoso caso de Ditão, parrudo beque do Corínthians nos anos 1960. O defensor, paradoxalmente famoso entre os esquecidos, adquiriu o carimbo dos obscuros num lance que não faz justiça a suas notórias capacidades como zagueiro trombador. Depois de “parar” tantos atacantes de forma enérgica e determinada, foi numa disputa besta de bola, com o craque Tostão, que despontou para os rodapés das enciclopédias de futebol. Deu um chutão numa bola dividida e esta acabou por acertar a face do franzino mineiro. Véspera da Copa de 1970, o jogador cruzeirense ganhou um descolamento de retina e virou dúvida para convocação. Tudo acabou bem e o México viu Tostão em sua plenitude. Ditão, por sua vez, jaz na seção “Que fim levou?”, no portal do Milton Neves.

Ainda no futebol, há o episódio, que invento agora, de “Seu Fanucci”. Mais precisamente Vincenzo Fanucci de Oliveira, de pai calabrês e mãe portuguesa de Lisboa. Juntando tradições, era proprietário da Padaria Ibéria – cheia de azulejos com a Cruz de Malta – e palmeirense doente. Viu jogar, de Julinho Botelho a Ademir da Guia, todos os grandes craques que passaram pela Academia de Futebol. Depois disso, entre 1977 e 1992, não viu nenhum – pois eles não existiam mais pelas bandas do Parque Antártica. Xingou a mãe, a tia, todos os avós, a esposa e os filhos do Mirandinha, quando este era a risível esperança do Palestra. De tanta tristeza, foi descuidando da padaria. Azulejos gastos no chão, balcão sujo, infiltrações nas paredes, o trinco do banheiro que emperrava sempre… Em 1993, porém, Seu Fanucci voltou a sorrir. Com dinheiro de uma multinacional do leite, o clube montou um verdadeiro esquadrão. E, claro, em seu estabelecimento só entrava leite Parmalat. Contava os jogos para o título. A confiança era tanta – e tantas eram as promessas para San Gennaro – que nem se assustou muito com a derrota para o Corínthians no primeiro jogo das finais. Arrumou um ingresso de arquibancada para o segundo, com um fiel cliente italiano. Organizou a padaria, fechou o caixa, colocou uma camisa verde e, pronto para o jogo, resolveu passar pelo banheiro. Aí ficou evidente que trincos de banheiro não discriminam clientes e proprietários. Travou. Fanucci gritou, esmurrou, chutou a porta, fez o diabo. Implorou pela intervenção de São Genésio e depois xingou o santo. Nada. Encontraram o gordo uns cinco dias depois, esparramado no chão do banheiro. O legista ficou impressionado – nunca vira um infarto daquela magnitude. Ninguém publicou nada a respeito no jornal e a família vendeu a Padaria Ibéria. A plaquinha de mármore com seu nome, mal fixada no túmulo, foi roubada. Ouvi apenas uma única referência a esse personagem, após sua morte. Quando alguém apontou para a loja de materiais elétricos e disse que ali, antigamente, funcionava o mercadinho do Seu Patucci.

O último personagem deste texto é uma criança que conheci, quando também criança, no bairro da Aclimação. Eu morava na rua Mesquita e encontrava o menino todos os dias. Lembro-me dele porque tinha uma camisetinha de goleiro – não lembro o time – que usava bastante. Brincamos muitas e muitas vezes. Gostava de desenhar em paredes, desmontar relógios e tinha um pastor alemão lindo. Sua casinha, nos fundos de outra casa, era muito simpática. Tinha uma sala que, naquele tempo, era enorme. Creio que se a visse hoje acharia minúscula. Recordo de sua tristeza quando seu cachorro morreu e, também, que seu pai o levava ao Parque do Piqueri. Além do pai, tinha uma mãe e uma irmã que saía engatinhando por tudo que era canto. Em seu quarto, eu adorava invejar o lustre, com motivos infantis, que pendia do teto. Nele, uma lâmpada amarela pequenininha. Como se fosse hoje, ouço o menino dizendo: “papai colocou para eu não sentir medo do escuro”. Rememoro, enfim, o pai desse menino colocando-o para dormir e lendo histórias sobre outro menino, que não crescia nunca, de uma terra muito distante. Uma criança alegre. Mudou-se para o interior de São Paulo com a família e não mais o vi. Acho que merece citação neste texto pois desconfio, em meu íntimo, que ninguém, nunca mais, viu o menino.

Esta é minha homenagem a todos que não lembramos, que foram ignorados pela história, que caminham na obscuridade, que ganharam notoriedade na irrelevância ou aqueles que, embora não se enquadrem exatamente nesses casos, tentamos, todos os dias, apagar de nossas memórias. Parafraseando meu bom amigo Mateus, largo é o caminho do esquecimento, estreito o da (boa) lembrança.

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5 Respostas to “A porta dos fundos da história”

  1. Paula 23/01/2011 às 3:57 #

    Tio Tu, a menos que o alzheimer ou a esclerose me corroam, sempre irei me lembrar de vc.

  2. Alex 24/01/2011 às 11:14 #

    Ah, Tunico! Eu ia dizer um negócio assim, bem bacana. Mas acabei esquecendo. Mas, no lugar lembrei do padre que presidia a paróquia onde o Alex da filosofia (lembra dele? Comprou uma vespa, mas já faz 6 anos) fazia estágio (padres fazem estágio? Ou melhor, seminaristas fazem estágio?). A paróquia ficava perto de um campo de pouso desses do interior e quase todo dia, quando o padre tava lá, no meio da homilia passava um teco-teco (ou algo que o valha) e o padre parava, esperava o barulho diminuir e voltava ao que estava falando. Como ele já era bem de idade o mais comum era que falasse bem alto, no púlpito: E como eu dizia… é, ahn… ah, mas que DIABO eu estava falando mesmo? Ô aviãozinho do CÃO dos INFERNOS!
    Lembra dele?
    Eu não.

  3. Renata 24/01/2011 às 21:13 #

    Minha mãe fez promessa,em sua intenção, à Nossa Senhora Desatadora do Nós.

  4. Silvio D. Paciornik 26/01/2011 às 16:53 #

    Caro Tonico, não creio que você esteja, como se diz, despontando para o anonimato. Já o malfadado encontro do olho do Tostão com a bola rebatida pelo Ditão foi no Pacaembu, eu estava lá e vi (“com esses olhos que a terra há de comer, mas não coma já”) o acontecido bem na minha frente. Lembro também de ter visto (ou será que a memória me trai?) nesse mesmo dia o Tostão marcar um gol de fora da área… com o pé direito. Emendando (porque o autor do post é mineiro – como mineiro é o autor da citação acima) certa vez no aeroporto de BH vi (mas não consegui ouvir, malgrado meu), a poucos metros de distância, o mesmo Tostão conversando animadamente, com quem? Ninguém menos que o Reinaldo (nosso Rei). Nada de mais dirão vocês. Dois gênios do futebol mineiro conversando no aeroporto. Só que, soube depois, eles vinham participar de um programa de televisão em São Paulo, se encontraram por acaso e, pasmem, mal se conheciam! A (única) vantagem de ficar velho é que aumenta o número de coisas inusitadas que se presenciam.

  5. Maykon 10/03/2011 às 19:14 #

    Pedro,

    Nos idos anos 80 Luiz Pereira voltou a jogar no Palmeiras. Como você publica que entre 1977 e 1992 não tivemos nenhum craque? Sem contar no começo de carreira de Neto, nas defesa de Zetti!!!

    Fanfarrão!

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