Uma Virada Cultural

17 abr

Não há Virada, há viradas, e tantos são os percursos possíveis que formam um número finito, mas potencialmente ilimitado de vivências. Curtir a virada passa por entender que você vai fazer a sua e tirar da cabeça a bitolação de tudo que se está perdendo, do que se está deixando de ver.

É quase um exercício se libertar de todas as formas de pensamento que socam na nossa cabeça, de “custo de oportunidade”, de “taxa de aproveitamento” e de outros maquinismos do tipo. Da sensação de perda por não ver, por exemplo, o show da Rita Lee ou da Orkestra Rumpilezz, para dar uma boa e necessária dormida num dos cinemas que ficam abertos passando filmes ou na casa de algum conhecido que more pelo centro. Fiz uma virada pacata e basicamente musical, embora tenha trombado e apreciado uma dezena de espetáculos de artistas pelas ruas. Pileque leve e pegação nula. Fui tranqüilo, ver, ouvir e dançar. Ainda assim a Virada nunca é só boa de se ver e ouvir, a virada também é muito boa de se pensar e sentir.

Na Virada gosto de andar pelo meio da rua, só pelo meio da rua, retomando o direito roubado pelos sujos e barulhentos automóveis.

É divertido ver o constante abrir e fechar de programações/mapas, pessoas, além das de fora, paulistanas mesmo, meio que se tentando se localizar no centro, vendo o mapa para pensar o caminho da Praça Dom José Gaspar para a Estação Júlio Prestes, ou da Libero Badaró para o Arouche. Sejam bem vindos! Este é nosso centro, o centro de nossa cidade, eu também aprendi um tanto tarde a me deslocar pelas suas ruas e, para ser bem honesto, mesmo tendo morado por quase três anos no centro, ainda me perco um pouco lá pros lados da feirinha dos bolivianos.

No pleno domingão lindo de sol gostei de ver o belo prédio Eiffel, projeto do Niemeyer, cumprindo a função de caixa de som que sempre pareceu e repercutindo num eco oco o batuque do encontro de baterias (que dizem ser a maior bateria do mundo). Aliás, bem ali, um pouco depois da esquina da Praça da República com Rua do Arouche para quem caminha no sentido da Marquês de Itu, há um pedacinho da calçada, um mirante urbano desconhecido e despercebido, no qual se tem em vista ao mesmo tempo o Edifício Eiffel, o Edifício Itália e uma pontinha do Copan. Meu mirante secreto mesmo que exposto e mil vezes caminhado todos os dias por milhares de pessoas tão atarefadas que muitas vezes se esquecem até de olhar para o céu.

O que me apaixona e maravilha na Virada Cultural não é nem tanto, o colorido, as pessoas, a revogação ainda que precária, temporária e um tanto falsa do espaço das classes, do racismo e homofobia, e toda aquela discussão que fica entre documento da UNESCO e propaganda da Benetton. Não é isso, é a alegria, é o estar bem, é São Paulo que deixa de ser o monstro cinza e incrivelmente irritante dos congestionamentos e passa a ser a São Paulo das pessoas, são as pessoas na cidade, as pessoas pela cidade, o centro, o centro de São Paulo e sua beleza que se aprende a ver.

Listo abaixo apenas algumas bandas e alguns dos momentos que saboreei nesta virada.

Para além das multidões que dormiram nos gramados da República me chamou a atenção um indivíduo que achou por bem, com sua calça jeans e camisa pólo, dormir na calçada da Rua Aurora entre a São João e a Vieira de Carvalho. Não foi aquela dormidinha elegante, aninhada como um gato num cesta de roupas, era uma posição pouco graciosa, perpendicular ao meio fio. Pois bem, ao ir ao show do Skatalites lá estava o sujeito na posição mencionada, e um detalhe chamou particularmente minha atenção: trajava apenas uma meia, a do pé esquerdo. Esqueci mediatamente a cena e jamais teria pensado de novo nela se não fosse pelo seguinte detalhe: Ao voltar do show do Skatalites, algo como duas horas depois, encontro exatamente o mesmo sujeito, exatamente na mesma posição, mas sem a meia no pé esquerdo! Que país curioso, quem será o indivíduo que teve a pachorra de roubar apenas um pé de meia, o pé restante?

Beatles 24 horas

Fã que sou, não podia deixar de dar uma passada por lá, vi um pedaço do Rubber Soul, meu favorito – nem lembro mais porque – e o Revolver, os caras executaram muitíssimo bem as músicas, com paixão e bom humor. Durante o show inventei sem querer uma bebida estranha que era caldo de cana, caju e uísque. A diversão da galera era discutir qual era o combustível secreto por trás da banda para agüentar todo esse tempo. Voltando da São Bento passei lá às três da tarde de domingo e os caras estavam tocando ainda, na hora era o Past Masters Vol. 1.

Curioso como associo cada álbum dos Beatles com alguma pessoa, o Please com meu pai, pois era o único LP de rock que eu me lembro que conseguiu furar o duro bloqueio de samba e música clássica e galgar um lugar na prateleira; o Magical Mistery Tour com meu irmão que confeccionou na mão uma capa artística e lisérgica para sua cópia pirata; o Revolver era o favorito de uma certa Júlia que conheci faz anos; o White Album com meu amigo Lemmi, que certa vez pôs por engano a chatíssima Revolution 9 na jukebox da FunHouse e tomou uma tremenda vaia da galera.

Toni Tornado

Uma passada rápida no show, valeu por ter encontrado o Fábio Senne, amigo que eu não via faz muitos anos e por ouvir a música “Primavera” do Cassiano e Silvio Rochael (Trago essa rosa… para lhe dar…. trago essa rosa… para lhe dar….meu amooooor).

Orquestra Voadora

Foi a primeira vez que tocaram em Sampa, e mandaram bem, mandaram bem praca! Encararam um público que não os conhecia, num palco que não tinha a ver, respiraram fundo e sopraram seus metais e ressoaram seus tambores.

O povo, e a maioria da frente era de cariocas ou de paulistas que realizam a migração anual para os blocos de rua do Carnaval do Rio, provocou a banda gritando “-Desce! Desce!”, e a Orquestra Voadora, que tinha lá suas razões de estar brava por ser colocada num palco depois de Marina Lima, Elymar Santos e Banda Mel- ou seja meio deslocada- , comprou a provocação, desceu ao chão e tocou mais meia hora para os bravos que resistiram até as seis e meia da manhã. Girei com eles pelo chão em círculos frenéticos, não concêntricos e fiquei orgulhoso de, nesse horário e nesse estado, conseguir dar aquela célebre dançada entre o ska e o ritmo balcânico, levantando os joelhos bem alto em pulos empolgados.

DJ Dolores y Orquestra Santa Massa

Peguei esse show com os que sobraram da Orquestra Voadora, Vitinho e Gustavo, os nomes são reais, mas as pessoas – e quem os conhece sabe do que estou falando – parecem fictícias. Se depois das cinco simplesmente desisti de tentar entender o que essas pessoas estavam falando, nessa altura o português deles lembrava algo como um sânscrito com sotaque aramaico. Encontrei também neste show o Márcio que, como ele mesmo diria, estava mais louco que o cabeleireiro do Coringa.

Puta show. O vocalista do Eddie toca junto, o Dj Dolores dispensa apresentações e a orquestra como um todo pode ser caracterizada por uma série de adjetivos enfáticos positivos. Vá você descrever a maravilha de uma rabeca tocada no jeito. Tentei umas cinco onomatopéias que simulassem o som da rabeca, não deu certo. É melhor ouvir aqui.

Skatalites

Por fim, o começo. O Skatalites, junto com o Ethiopians, foram as bandas que o Alex me apresentou e que fizeram que eu me apaixonasse pelo ska. O clima estava bom, a lua apareceu, cheia e bela, por entre as nuvens. Uma névoa estranha e risonha cobriu a São João, que por um dia virou uma coffee shop holandesa a céu aberto. Os cigarros legais estavam mais raros que os naturais, várias pessoas se aproximavam e, ao ver que eu estava fumando um velho e careta filtro vermelho, recuavam enojadas. Latin Goes Ska é música maravilhosa que gruda na cabeça que nem o PMDB gruda em quem estiver no governo, e que eles tocaram com maestria. Já Guns of Navarone é uma música que escuto há dez anos, que assobio no banheiro, que cantarolo vindo do ponto de ônibus para casa, que coloquei no começo de todas as festinhas nas quais toquei. Quando começaram a tocar essa música eu, meu irmão, o povo na sacada, todo o público que estava na São João, simplesmente deliramos. Foi muito bom!

Enfim, pela significação, pelo clima, pela lua, showzasso.

A Virada Cultural como um todo é um presente, um reencontro dos paulistanos e de quem quiser com São Paulo, e a arte, música e todas as demais artes presentes, é a arte.

A única falta mesmo, a única imperfeição dessa virada, foi que faltou Cíntia.

Guilherme Flynn Paciornik – 17 de Abril de 2011

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O espaço abaixo, dos comentários, é uma janela para interação, as vivências de cada um na Virada, as viradas são mais que bem vindas, são desejadas. Solte o verbo! (a imagem, e o som não sei se dá nos comentários, mas damos um jeito).

Para quem não conhece, a Virada Cultural, é uma evento cultural que acontece em São Paulo uma vez por ano, concentrada no centro da cidade mas também com eventos espalhados. Tem uma programação absurdamente vasta e boa, e é um momento feliz das pessoas com a cidade.

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47 Respostas to “Uma Virada Cultural”

  1. Bruno Porpetta 17/04/2011 às 22:24 #

    Maravilhoso! Nem se me esforçasse muito conseguiria descrever tão bem a Virada. Pena que este ano não deu pra ir, mas quem sabe ano que vem tô aí?

  2. Mário de Almeida 17/04/2011 às 22:47 #

    Eu e a Carol fomos exclusivamente para ver Skatalites. Assistimos ao show e logo em seguida, antes de ir embora, comemos um pastel sentados na calçada da República.
    Uma coisa que eu adoro é ficar observando as pessoas na multidão. A Virada é demais!

  3. Ná Leon N. 17/04/2011 às 23:14 #

    Também gosto da Virada, das caminhadas e descobertas pelo centro. Mas o domingo à noite sempre tem um gosto de quarta-feira de cinzas. O centro volta a ser o lugar que as pessoas têm medo de andar, a vida cultural da cidade tal como ela acontece nesse final de semana deixa de existir. Enfim, a experiência da virada é muito boa, mas essa política cultural é, acho, um lixo – mil bandas em um final de semana e o resto do ano convidando as pessoas a se divertirem em espaços privados.

    O show do Paulinho da Viola (minha pequena passagem pela virada) foi bem bom, cheio, sem ser lotado. E ainda contou com o coro contra o Kassab. Momento catártico da esquerda festiva, rs. Beijos!

    • Guilherme Flynn 18/04/2011 às 0:18 #

      É uma política de eventos em detrimento de uma política de longa duração de formação de público e de cultura no cotidiano. Bem sei. O Kassab não quero sequer como síndico do prédio de algum conhecido. É que o texto é sobre outras coisas… Fiquei triste de perder o coro anti-kassab, o que as pessoas cantavam?

      • Rodrigo 18/04/2011 às 10:44 #

        A cultura virou “evento” – essa distinção entre o curto e o longo prazo não faz nenhum sentido. Você terá o prazer de se certificar disso na Universidade.

  4. Carolina 18/04/2011 às 2:45 #

    Tive muito prazer nesta virada em tomar breja depois da 1h da manhã. Aproveitava pra detonar Kassab pros vendedores: obviamente, todos concordavam comigo.

  5. Rodrigo 18/04/2011 às 10:41 #

    A mim sempre me comove, em primeiro lugar, esta necessidade surda, cega, sem palavras, que as pessoas têm de viver a cidade. É realmente muito significativo. A mim sempre me comove, em segundo lugar, esta necessidade de viver o encantamento da cidade, mesmo quando a coisa que se espera como coisa encantada não passa de um simulacro, de um pseudoencantamento – e até mesmo um antiencantamento. O texto é adocicado, sentimental, mas, me perdoe, iludido e equivocado. Seria muito mais interessante pensar a Virada Cultural como parte da estratégia da “requalificação” – ou revalorização fundiária do antigo centro da cidade. Melhor seria perguntar: qual a afinidade deste evento com a organização “Viva o Centro”, com as operações urbanas higienistas como a “Nova Luz” e até com os bancos anti-mendigos? Eu, na sexta-feira, vi policiais expulsando um grupo de maltrapilhos, velhos, bêbados, sujos, da praça Ramos de Azevedo, de frente ao Teatro Municipal. Aos gritos e de armas em punho. Esse trabalho, essa “limpeza” das ruas, é feito todos os anos, dias antes da Virada Cultural. Ano passado e também no retrasado, e também antes disso, eu vi coisas parecidas. Ao que parece, portanto, não é feito com muita discrição. Todos vêem. Estranho que o olhar flaneur do narrador, tão sensível às elaborações estéticas do espírito não tenha se dado conta, não tenha pressentido que o trabalho da cultura é também um trabalho de barbárie. E, de mais a mais, o retorno à cidade sob o imperativos da “cultura”, do “lazer”, do “tempo livre” – isso não tem nada a ver com a vida urbana. Viver na cidade, isso está posto como perspectiva futura ainda não realizada, porém insinuada imperfeitamente pela história, é viver como sujeito comandante de suas ações, um sujeito com um sentido de integridade. Nada está mais distante disso que o consumo do espaço como consumo da cultura.
    Mas, enfim, quem está na Virada Cultura talvez só se preocupe mesmo em “se libertar de todas as formas de pensamento que socam na nossa cabeça”.

    • Guilherme Flynn 18/04/2011 às 13:40 #

      Rodrigo,
      De tanto devir você as vezes se esquece do presente. Devo esperar o fim do capitalismo para me divertir na cidade? O que afinal de contas você propõe? Postergar toda felicidade para um futuro remoto?
      A crítica da política de gentrificação do Kassab e sua correspondente esdrúxula e criminosa política para pessoas em situação de rua da prefeitura é criticada por mim e por outros ao longo do ano todo. A idéia do texto é completamente outra, pena que você não entendeu.
      As pessoas vivem na cidade, vivem mesmo, mesmo que você ache que de forma inautêntica e projete um “viver na cidade” para um futuro que não se anuncia claramente mas que está nas teleologias do “sujeito consciente de fato”, “sujeito crítico” ou “sujeito emancipado”.
      A diferença entre política de curto prazo e a de longo é a vida das pessoas, de diversas maneiras e de formas particulares para cada questão. Não importa o que o Debord diga, é uma questão também de política pública e não apenas da teoria crítica. O trabalho na Secretaria de Saúde e no Ministério da Cultura me ensinou mais sobre isso do que a universidade seria capaz de fazê-lo de forma puramente especulativa. Muitas vezes, para pensar as questões, é bom viver as questões.
      Por fim, sinto muito se considera o texto “iludido e equivocado”, mas não pedi e não o considero critério de validação de minhas experiências, principalmente num texto literário. Quando formos discutir a teoria dura, formatada academicamente, esse tipo de crítica será imensamente bem vinda, no blog é apenas chata.
      Minhas lutas faço na rua e no pensamento, minhas vivências também, e sei as vezes dar atenção ao belo e ao prazer que, acredite, existem e fazem a vida boa de ser vivida apesar de todos os pesares do capitalismo.
      Essa discussão parece aquela fala de uma personagem do Woody Allen “- Depois de vinte anos finalmente tive um orgasmo, mas meu analista me disse que era do tipo errado.”
      Resumidamente, é isso.
      Abraços,
      Guilherme

  6. Alex 18/04/2011 às 13:45 #

    No momento estou sem tempo pra escrever o comentário que gostaria, mas volto mais tarde para vaticinar uma observação irrepreensível e insofismável sobre a virada, seu texto e os comentários de desconhecidos.
    Pro hora só lamento que os Skatalites tenham vindo com os reservas e não com o time principal. Mas quase valeu a pena quando o Andrae Murchison tocou aquarela do brasil. Quase.

  7. Alex 18/04/2011 às 15:06 #

    Guilherme, mais uma coisa. Por que as mulheres que escrevem aqui ultimamente são tão desinteressantes?
    Ops, eu falei isso alto?

    • Carolina 18/04/2011 às 17:31 #

      Não afugenta as comentadoras, pow! Kkkkk
      Mas, afinal, são as mulheres que estão desinteressantes ou é você que anda meio desinteressado?

    • Guilherme Flynn 18/04/2011 às 22:36 #

      Alex,
      Comporte-se.
      Assinado,
      Gerência.

  8. Rodrigo 18/04/2011 às 15:12 #

    É essa, meu caro Guilherme, a falta que faz uma compreensão dialética: você pensa com categorias isoladas umas das outras. Ou isso ou aquilo, mas não isso e aquilo ao mesmo tempo, em contradição. Pensar o devir não se opõe a pensar o presente, na medida em que o presente – apesar dos processos de abstração e de congelamento histórico que pretendem eternizá-lo – carrega ainda possibilidades. Eu não conseguiria pensar num presente isolado, claramente separado do devir, um lugar onde pudéssemos simplesmente nos divertir e espairecer – como você parece me aconselhar. Esse presente, esse agora – isso é o que a ideologia quer que eu acredite que exista. Não sou eu que quero adiar toda a felicidade do mundo para o futuro, você é que tem uma idéia de prazer – e felicidade – que é plana, unilateral, que exclui contradições e as ambivalências.
    O que eu proponho? Eu não proponho nada de novo, eu apenas assopro a brasa de coisas que já foram ditas. Insistir no espírito da contradição. Criticando os apelos sentimentais que Fromm passou, a partir de certo momento, a fazer, Adorno retrucou que não é possível simplesmente amar, porque o amor direto, reto, apenas faz com que se reproduzam as condições que tornam o mundo odioso. É preciso que o sentimento de amor seja também o seu negativo, que ele seja ódio. Por que o ódio ao que é odiável, isso é que prepara as condições para um mundo onde o amor direto, reto e universal não seja censurável. Eu assino embaixo. E, de fato, eu mesmo saí de casa para dar uma volta no centro da cidade este fim de semana. Me diverti. Inclusive me embriaguei. Só que todo o gozo, para os que admitem as contradições, tem, no fundo do copo, um gosto de morte. Não se foge a isso, a menos que se queira – os analgésicos e as mistificações estão por aí, disponíveis ao movimento da mão.
    Por fim, eu novamente estranho essa dualidade que você tem trabalhado de modo insistente: literatura (o que você faz no blog) é amena, é pra ser divertida, é pra ser aplaudida; outra coisa é a teoria, teoria dura, que é chata e que não deveria ter lugar num lugar como esse (e que eu uso pra te espinafrar). De algum modo isso confirma a desconfiança que eu sempre tenho em relação aos conteúdos de internet (e faz com que eu me sinta agora um tolo que, mesmo sabendo disso, insiste em perder seu tempo). Falar de um evento que se sustenta em um projeto de antiurbano (e que consegue, cúmulo do absurdo, fazer com que isso se pareça, na verdade, como uma “retomada da cidade”), tratar disso – como se fosse possível! – com amenidade e leveza, me perdoe mais uma vez, só pode resultar em literatura ruim. Literatura, na medida em que é síntese, não pode se dar ao luxo de dispensar parcelas importantes e, na verdade, constituidoras, que constituem um determinado processo. E se se faz esse tipo de coisa, é porque o espírito da contradição foi expulso. Eu, enquanto atentava para a performance de determinado músico, sabia que aquilo teve espancamentos e humilhação como pressupostos. E me lastimava que os próprios artistas estivessem se lixando pra isso. Documento de cultura, documento de barbárie…
    Enfim, pra terminar por aqui, amistosamente, eu só insistiria na minha desconfiança em relação às oposições duais e separadas que você utiliza: futuro (o que não é ainda, de modo exclusivo. Aquilo que não se vive.)/ presente (o que é agora, também de modo exclusivo. Aquilo que se vive.); literatura (amenindade) / teoria (dureza); Universidade (especulativa)/ seu antigo trabalho em na Secretaria da Saúde, no Ministério da Cultura, sua militância partidária (prática). É só porque você separa essas coisas entre si que os processos históricos podem parecer teleologias. Esse é o argumento clássico do positivista.
    Abraços,
    Rodrigo.

    • Guilherme Flynn 18/04/2011 às 23:19 #

      Oa! Ah preguiça infinita, mas …ufffff (respiro fundo) vamos lá:
      A teoria crítica de Adorno (assim como a de Horkheimer) começou a ser pensada num momento de crescimento do nazismo e do stalinismo, mesmo depois, na volta, é uma teoria que resultou, como você, somente em aporias. Não tenho medo e não vejo problemas em pensar em novas teorias que pensem a partir de outros locais e que procurem saída dos becos adornianos (vale para o Althusser também). Não tenho uma preferência definida ainda, mas de qualquer forma acho que lhe falta (e isso para jogar só no seu campo e ficar só nos marxistas) testar outras linhas, seja algo de “mundo da vida”, de “ação comunicativa” do Habermas ou mesmo os mais novos Offe, Honneth, Fraser. Preciso me aprofundar um pouco mais no povo do Krisis que me parece ser uma grande referência para você.
      Você também precisa se decidir, no começo diz que eu não penso de forma dialética, depois reclama que sou muito dual.
      Segundo você me faz falta uma compreensão dialética, qual compreensão dialética, a sua? Dialética é um termo deveras polissêmico na história do pensamento. (aliás, que fique claro, não aceito dialético por si só como um argumento de valor, que se um pensamento não é dialético é necessariamente incompleto, sincrônico. Creio que existem e podem existir mais outras tantas formas válidas de pensamento que levem em conta as contradições e a história, que não sejam apenas baseadas no triângulo de Hegel “tese – antítese – síntese” invertido para partir da produção material e não da “Idéia” ou “espírito”).
      O miolinho do que você escreve, acho que até você sabe – pois me conhece há um bom tempo – é um aglutinado de sofismas contingencialmente arrumados a guisa de resposta. Não separo os elementos, julgo que a divisão teoria-prática não só é falsa , mas impossível.
      Também não dissocio de forma absoluta literatura de teoria, muitas vezes acredito até que essas duas formas diferentes de comunicação escrita cumprem de forma distintas papéis semelhantes. O que concordo com sua resposta é que a literatura pode sim as vezes ser mais amena, e até – pasmem!- feliz e prazeirosa.
      Sobre o tempo não fiz afirmação alguma sobre essa dimensão que Einstein casou com o espaço, fiz afirmações apenas sobre como considero que você tende a superdimensionar o horizonte de eventos esquecendo de analisar, e viver, os eventos que acontecem no presente, e que portanto influenciam esse mesmo horizonte.
      Positivista? Fala sério Rodrigo?! duvido que você tenha utilizado esse termo de forma outra que não como provocação, que não comprarei.
      Bem sabes que adoro discutir contigo, mesmo quando a gente só bate da medalinha pra cima.
      Abraços

      • Carol Ferrarezi 19/04/2011 às 0:03 #

        Rodrigo, não te conheço, mas acho q aquilo q cantamos pro pstu vem bem a calhar para esse espaço: “relaxa e fuma um”.
        No mais,
        1) amei ter gritado “Ei, Kassab, vai tomar no cú!” no palco república e horas antes pensar “q bom q a virada me possibilitou redescobrir o cazuza, o noel rosa, os beatles, o samba, a mpb e tantos ritmos nordestinos”.
        2) a virada poderia ser transformada em eventos (des)centralizados mensais, pq só aguentei ficar 19h lá e ainda to com a crise do “po, perdi isso e aquilo” embora tenha curtido mto (e não me arrependido d)as coisas q fiz!
        3) dica a tod@s pra próxima virada: não ir de chinelo e levar uma canga para sentar no meio-fio.

  9. Rodrigo 19/04/2011 às 1:10 #

    Ok, Guilherme,
    quando a discussão descamba para a citação por minuto de autores, para o desenho de suas linhagens e avaliações sumárias do tipo: “mas a teoria de Frankfurt resultou apenas em aporias”, quando isso acontece, é porque a discussão acabou. Perdeu o rumo. Fica só o apelo ao argumento de autoridade que a citação endossa. Jogo a toalha.

    • Rodrigo 19/04/2011 às 1:32 #

      Ok, Carol, realmente não espero outra coisa da nossa militância de esquerda, sabe? Não espero nada mais consistente e, digamos, mais elaborado, do que isso: cantar em coro, “Kassab, vai tomar no cú”. Isso realmente me tranquiliza, sabe? Eu olho para o horizonte, escuto o que dizem meus amigos socialistas e, por fim, me acalmo: “Ah, mas eles, mas nós estamos realmente à altura das nossas dificuldades!” Depois disso eu durmo tranquilo.

      • Rodrigo 19/04/2011 às 1:41 #

        De mais a mais, esse seu comentário, ele mesmo se desqualifica. Também não te conheço Carol, mas qual é mesmo sua idade? Tem mais de 12?
        Essa audiência de blog é muito ruim, puta-que-pariu… O que estou mesmo fazendo aqui?

  10. Smeg 19/04/2011 às 13:13 #

    Guilherme,

    Eu não me encanto nem um pouco com a virada. Primeiro na sua concepção, que vem da idéia de dar cultura ao povo (já que o povo não tem cultura) e não de fomentar cultura. A curadoria tem até escolhas interessantes, mas pouquíssima relação com a cidade e sem nenhuma participação das pessoas que vivem nela. Deve ser por isso que a mulequeda se intorpece de vinho de forma tão intensa, essa foi a única participação que lhe foi permitida e com os seus vários poréns.

    Alem disso, não acho que a vocação do centro seja espaço para shows gigantes. Com exceção da Praça da República e o Anahangabau, os outros espaços são extremamente desconfortáveis para tal fim. O som é precário e a polícia que deveria estar lá para ajudar, só deixa as coisas ainda mais assustadoras.

    E as famílias que insistem em morar no centro, como ficam sabendo que há um final de semana que suas vidas são invabilizadas. Minha esperança é que o centro seja um dia ocupado de tal forma, que eventos desse tipo sejam complicadíssimos por conta das pessoas que lá vivem.

    E porque tanta coisa em apenas 24 horas? Qual a lógica disso? Vou emprestar parte do texto da Katia –
    “Mas gosto da proposta de ocupar a cidade com cultura, de trazer o cidadão de volta para as ruas do centro. Não gosto é de isso acontecer apenas durante as 24 horas do evento, enquanto nos demais 364 dias do ano somos reféns de um poder público que abandona a cidade a sua própria sorte e, nos últimos anos, faz de tudo para que não nos sintamos parte dela.”
    http://ritornelos.wordpress.com/2011/04/18/ao-povo-de-sao-paulo/

    No fim, a Virada Cultura é apenas uma festa precária para a população e não uma festa popular como vemos pelo resto do pais. O povo merece muito mais do que isso, merece eventos de qualidade, com participação da comunidade e que reflita suas raizes e sua cultura. No formato em que se encontra, pouco traz para a cidade.

    BTW, prefiro o centro nos dias normais, com o seu comércio, com os seus personagens e com a sua confusão costumeira.

    []´s
    Smeg

    • Guilherme Flynn 19/04/2011 às 22:29 #

      Smegucho (como diria o Bubble),
      Não sei se você sabe, mas a idéia de virada foi elaborada e aprovada na gestão Marta e como ela não se reelegeu a idéia foi pega e reconfigurada pelas gestões posteriores, fazia parte de uma idéia distinta de cidade que incluía tanto equipar a periferia com equipamentos de lazer e cultura mais elaborados (como os CEUs) como com re-valorizar o centro como espaço de moradia e lazer (e não exclusivamente de trabalho diurno).
      Essa segunda parte, de re-valorizar o centro, se preservou com muitas ressalvas, destruiu-se o projeto Boracéa, fecharam-se os abrigos, continua-se com uma discussão inconclusiva sobre a Nova Luz (Cracolândia), mas manteve-se -ainda que forma totalmente isolada – a idéia de juntar a cidade inteira no centro uma noite.
      Não creio que se trate de DAR cultura ao povo, mas sim de oferecer de forma gratuita e com segurança uma noite com coisas das quais as pessoas gostam NO centro, daí a diversidade de programação que passa desde Leandro Lehart, forró, eletrônica (que também é sim uma música muito ouvida na periferia), hip-hop, big bands, etc. A diversidade da programação vem daí, o LUGAR onde ocorre principalmente, o centro, é fundamental na discussão (há um número enorme de programações espalhadas pela cidade, principalmente as para o público infantil, que são mais próximas dos locais de moradia e ocorrem de dia).
      Claro que há um sem número de críticas pertinentes, principalmente no fato de ser apenas uma vez por ano e da programação ser construída de forma completamente opaca, sem participação popular. A questão mais importante nesse quesito me parece ser: Quais os espaços que temos para colocar essa crítica e a política municipal de cultura como um todo em discussão?
      Quanto à percepção da população local sobre o evento, não foi essa que tive quando lá morei, a de minha mãe e diversos amigos meus moram no centro também não é essa, me parecem mais lisonjeados pela população que mora em outros locais perceber que o centro a noite pode também ser um lugar aprazível e vivo.
      Acho que o shows são definidos de acordo com o tamanho do público esperado e que essa medido de forma geral tem funcionado bem, circulei bastante e não fui espremido sequer uma vez.
      Acho que ao contrário de precária a virada é, e pode ser cada vez mais, “A” festa popular de São Paulo, maior que cada dia de carnaval considerado isoladamente em São Paulo e maior do que a Parada. Porém não apenas maior, mas também melhor, não consigo lembrar um lugar no brasil onde em apenas um só dia se possa circular por tanta variedade de ritmos(boa parte nacional e cantada em português), e atividades artísticas diversas.
      Quanto a preferir o centro nos dias normais, o centro no dia a dia é isso: o centro no dia a dia. A noite quase não existe no centro para grande parte da população, são pessoas trabalhando e comendo, e poucas se espraiando, andando devagar, olhando para as coisas, jogando conversa fora, dançando e bebendo.
      Concordo plenamente que não deveria ser apenas uma vez por ano, fala-se muito que a Virada “custa” 8 milhões de reais, pois bem, o orçamento da cidade é de mais de 30 bilhões:
      http://deolhonascontas.prefeitura.sp.gov.br/

      Só os gastos em precatórios, muitos vezes rolados e pouquíssimas vezes auditados, são os seguintes:

      http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/arquivos/secretarias/financas/contas-publicas/Calculo-Pagamento-Precatorio-03-2011.pdf

      Quantas Viradas em quantos lugares dá para fazer com uma discussão honesta sobre o orçamento (e principalmente as monstruosidades viárias, aqueles túneis e elevados só para carros que custam cada um dezenas e dezenas de milhões)?

      Acho que era isso, e viva a Virada!

      • Smeg 23/04/2011 às 19:02 #

        Guilherme,

        Só um ponto, não lembro do projeto da Virada ter sido elaborado na gestão da Marta, alias consultei aqui os meus universitários que trabalharam na gestão Marta e ninguem se lembra disso também. Você tem algum referência para esse projeto original?

        []’s
        Smeg

      • Guilherme Flynn 23/04/2011 às 20:21 #

        Quem me disse foi o povo do PT (acho que o Ramom e o Anitelli), não fui confirmar. É uma boa dúvida, a gestão Marta acabou em 1 de Janeiro de 2005 e a primeira virada foi em novembro do mesmo ano. Tenho a impressão que se o projeto fosse kassabista ou tucano seríamos relembrados disso de forma cotidiana, se fosse da Marta ninguém discutiria muito autoria para não dar créditos, que me parece o que ocorre.De qualquer forma fica aberta a questão, quem achar a resposta correta primeiro grita.
        Abraço
        Guilherme

  11. 21 20/04/2011 às 10:35 #

    de fato não acredito que a virada venha a revalorizar o centro da cidade, outrora ocupado apenas por cidadãos trabalhadores que quase não olham para os lados durante seu percurso, ou olham e só enxergam pobreza e sujeira. e, acredito que poucos sentem o que você falou sobre a boa sensação de ocupar um espaço dominado pelos automóveis. é uma festa, só uma festa, bem organizada (na medida do possível, é claro) e que a maioria das pessoas vai para se divertir. fazem críticas, é claro que fazem, sempre fazem, mas o principal é a diversão e é claro que se divertem, seja xingando em coro o prefeito, seja cantando o refrão conhecidíssimo da banda, seja batendo celular na multidão.
    e que porra sexista são esses comentários? alex, por que isso?

    • Tonico 20/04/2011 às 18:20 #

      Em que pese o fato do Alex muitas vezes nos brindar com comentários pouco elegantes, me responde uma coisa: o comentário dele é sexista por quê?

      • Guilherme Flynn 20/04/2011 às 18:26 #

        Tava até com saudade, que bom que resolveste aparecer por aqui. Vamos dividir tarefas: Eu limpo a mesa e embaixo do sofá e você discretamente informa as visitas que com a lei do Psiu…. as crianças dormindo… enfim, menos barulho.

    • Guilherme Flynn 20/04/2011 às 18:30 #

      Só uma festa?! Só uma festa é a da tia Noca, que tem Guaraná Dolly e breja Crystal não muito gelada, a Virada é um puta evento e, ressalto, ser NO centro tem implicações várias. Faz diferença para a cidade ter um evento assim no centro.
      Por fim, respeito o anonimato na internet, mas de curiosidade mesmo, tu conheces o Alex?

    • Tonico 20/04/2011 às 18:34 #

      Eu sempre achei que todas as pessoas do planeta, independentemente de credo, gênero, cor de pele, orientação sexual ou política, pudessem ser ou considerar as demais desinteressantes.

  12. Daniel Andrade 20/04/2011 às 12:37 #

    Meus amigos,
    lendo os argumentos de vcs, resolvi me pronunciar também. De início, eu tinha adorado o texto do Guilherme, pois foi muito parecido com o que eu vivencio nas viradas. Eu gosto das viradas, gosto sobretudo de passear pelo centro cheio de gente, de tomar uma cerveja, ver e escutar uns shows legais, encontrar os amigos, namorar e tudo o mais. No entanto, concordo com algumas críticas, que não sei se invalidam completamente o argumento: a barbárie promovida de expulsar moradores de rua para tornar a virada possível, o fato de se realizar somente uma vez por ano e deixar o restante ao deus dará, o de ser um simulacro de encontro, na medida em que a impressão que tenho é que as classes socias somente se justapõe, mas não interagem, que isso dá cultura, mas não fomenta cultura etc, etc. Acrescentaria ainda que detesto esse termo de “revitalização do centro”, pois, para quem caminha em certos locais do centro de final de semana, é óbvio que o centro tem vida, ainda que seja uma vida muitas vezes tida como não-vida: classes populares, gays, travestis, miseráveis etc.
    No entano, para tentar argumentar na linha do Rodrigo, mas invertendo o ponto de vista, acho que a Virada pode conter em si uma possibilidade que ultrapassa o presente imediato: ela causa certo estranhamento, ela promove sim um reencontro com uma cidade desumanizadora, ela faz as pessoas habitarem um local que em grande medida só se destina ao comércio de mercadorias, ela promove uma certa “efervescência coletiva” humanizadora, para usar o termo do Durkheim que anda na minha cabeça ultimamente (positivista?, rs). E concordo também que, ao final, há um gosto de quarta-feira de cinzas, uma sensação de volta a um cotidiano desumanizado, uma decepção… Isso promove um estranhamento que acho que pode ser considerado uma possibilidade que se instaura no presente. Mesmo que a intenção política da virada seja higienizar o centro e promover especulação imobiliária, ela pode ter um contra-efeito que a ultrapassa. Ainda que não seja uma possibilidade suficiente, pelo menos ela permite a estranha sensação de habitarmos nossa própria cidade…
    Abraços, meus amigos!

    • Rodrigo 21/04/2011 às 14:50 #

      Meu caro Daniel,
      lá vou eu a me contradizer novamente: eu havia prometido não intervir mais em uma conversa que, segundo o que me pareceu a certa altura, havia descambado para a citação de autores por minuto, de um lado, e para o “relaxa e fuma um”, de outro. Mas eis que o diabólico tédio, que motiva, na verdade, quase tudo o que eu faço, o pouco que eu faço, me trouxe aqui de novo, nesta manhã.
      Pra mim, agora, é muito mais interessante argumentar com um interlocutor que, como parece que é o seu caso, consegue admitir o caráter contraditório de um evento, o caráter contraditório da experiência que se pode ter desse evento, ao invés de ter de ralhar com quem comprou, de primeiro, de barato, fanaticamente, o discurso oficial da Virada Cultural, o discurso que o próprio evento faz a seu respeito e que procura reproduzir em todo o canto.
      Partindo desse pressuposto compartilhado, eu, no entanto, insisto ainda na minha ênfase, que vai em sentido contrário à sua. Das coisas que, ultimamente – ou nem tão ultimamente assim – têm me deixado aturdido, os discursos e os convites à “comunidade” e às “experiências comunitárias” são certamente os que mais me perturbam. A promessa do “gozo comunitário” está em tudo – do consumo mais corriqueiro, do modo como escolhemos as nossas meias na loja de roupas íntimas, até os eventos de consumo de massa, como a Virada Cultural ou a ida ao estádio de futebol – sem falar, é claro, em nossos processos eleitorais. (E tem gente que acha que esse apelo comunitário acabou com fim dos regimes nazifascistas…) O indivíduo esvaziado, formado e deformado por um tipo de sociabilização abstrata – um tipo de socialização que, se o retirou do antigo domínio comunitário (e nisso, inegavelmente, há algo que poderíamos chamar de “positividade”), fez isso apenas para, um pouco adiante, largá-lo em plena nudez – é a esse indivíduo que o discurso comunitário se presta, e com ele que esse discurso se combina. O seu argumento, se eu o entendi corretamente, é de que essa experiência de comunidade, problemática em mil sentidos (nisso concordamos os dois), e até mesmo simulada ou falsa, mesmo como aparência, é capaz de causar um estranhamento, é capaz de rascunhar algo que poderíamos chamar de possibilidade. Eu discordo, você sabe por quê? Porque a experiência da pseudocomunidade, quando se frustra (e ela sempre se frustra – é esse o fundamento dos nossos hábitos de consumo, inclusive do consumo cultural), ela tende a procurar algum tipo de realização no mesmo tipo de mentira – exatamente no mesmo tipo de mentira – que a enganou antes. A decepção, ou o estranhamento, se estas coisas são deixadas por si mesmas, seguindo a dinâmica do todo, tendem sempre a repetir o mesmo ciclo. A não ser que algo seja capaz de reuni-las em outro sentido, as frustrações da experiência comunitária mal realizada não rompem o círculo, não apontarão para algo que está além: “peraí, caceta, é porque o processo de socialização é abstrato, é porque ele faz abstração do que é humano em favor da reprodução de coisas, é por isso que eu sou assim, nu e sem abrigo?”
      Que existem inúmeros contra-eventos, contra tendências, isso é forçoso admitir. Mas não é tão simples. É difícil admitir também que, boa parte deles, quase todos, são invisíveis, são sem palavras e são desarticulados entre si. Essa nossa conversa agora, com todos os poréns que há nela, talvez ela mesma seja um desses pequenos contra-eventos. E mesmo nesse caso, quando se tentar tirar a conversa do caminho neohippie que ela vinha assumindo (“compartilhem aqui as experiências bacanas que tivemos desse evento tão legal”), a gente tem de escutar coisas do tipo: “quer toda a felicidade pro futuro?”, “você não vive o momento”, “não sabe viver”, “é chato, escreve sofismas”.
      Eu francamente acho que é o momento, já passamos dele aliás, de se trabalhar na direção de projetos consistentes de futuro (de tentar reunir essa poeira de coisas invisíveis e silenciosas) – e isso não é estar descolado da vida, muito pelo contrário: é vê-la, é estar nela, é agir nela de modo mais largo e mais penetrante. Disso depende não apenas o modo como escolhemos as meias que compramos mas até a nossa experiência da música – pra não falar, em termos mais animalizados, em sobrevivência mesmo. A crítica tem de ser civilizatória, tem de mirar processos de dimensões teológicas, porque é essa a dimensão que o inimigo antihumano assume: Deus é apenas a segunda “melhor” invenção criada pelo homem, a primeira, que O desbancou, é o dispositivo de valorização do valor.
      Enfim, entre outras coisas, é por isso também que o conceito de “efervescência coletiva” de Durkheim tem lá muitos problemas, mesmo se usado apenas como metáfora.

      • Guilherme Flynn 22/04/2011 às 16:52 #

        Rodrigo,
        Meus parabéns, você acaba de fundar o “Materialismo Histérico”.
        Perceba que é só um texto num blog, a revolução não passa necessariamente por aqui.
        Não reproduzo discurso oficial algum, apenas gosto do evento. Mas ao menos não pseudo-teorizo como se estivesse no Leste Europeu.
        Um tanto enfezado e um tanto preocupado (ouvi outras considerações no mesmo sentido) com sua forma de criticar como seu eu fosse um inimigo teórico e não um amigo socialista. Como se descrever meia dúzia de shows no qual estive fosse reproduzir a lógica do capital.
        Me perdoe, mas creio que “iludido e equivocado” está você, não na sua crítica teórica. mas na forma de seu debate e na escolha dos adversários.
        Abraço,
        Guilherme

      • Rodrigo 22/04/2011 às 22:10 #

        Meu amigo Guilherme,
        então há um sentido de relatividade aqui que, me perdoe, eu não sou capaz de compreender. Porque há pouco tempo atrás, há alguns meses, na época eleitoral, isso aqui, o espaço de exposição e de comentários do blog, se tornou palanque de discussões apaixonadas. Creio que se alguém, naqueles dias, dissesse o que você diz agora: “perceba que é só um blog, a revolução não passa por aqui” – esse infeliz seria avacalhado de mil maneiras. (Eu, na época, sabendo que, entre os ânimos inflamados, criticar ao mesmo tempo PT e PSOL equivaleria a, inapelavelmente, ser taxado de “ultra-esquerdista” ou mesmo de “direitista”, permaneci calado. Não havia clima para argumentação.) E agora, no entanto, quando discutimos algo que é extremamente pertinente: o modo como os projetos de espoliação e reforço da alienação criam pra si uma fachada “estética” e “cultural” (quem pode ser contra o que é “estético” e “cultural”, não é mesmo?) eu exagero? A característica das formações totalitárias é justamente essa: não deixa e não pretende deixar nada, nadinha, fora de si – do sonhos que sonhamos durante o sono à movimentação da forças militares no mundo. Esse sentido de totalidade, ou melhor totalitário, exige de nós uma resposta à altura. Isso não é ser histérico. Isso é, aliás, recusar a esquizofrenia. É buscar uma consistência intelectual, pessoal, que é talvez a única coisa que nos sobrou – e o único lugar de onde podemos partir. É recusar uma separação artificial e arbitrária de papeis que a todos se impõe: na academia somos somente acadêmicos, no blog somos amenos, na Virada Cultural somos somente divertidos, no partido político somos engajados.

        Eu não peço que você desgoste do evento, sugiro apenas que o seu olhar seja menos unilateral, que seja capaz de admitir, num “gostar-desgostando”, o que nele há de perverso.

        Quanto à minha postura aqui, eu também me pergunto a respeito dela. Seria, por exemplo, muito mais aconselhável, do ponto de vista profissional, investir essas quatro horas (estimo em uma hora o tempo que eu levei entre pensar e escrever cada uma das minhas intervenções – as mais elegantes, ao menos – incluindo essa) em um artigo acadêmico. Desconfio que muitos professores e aspirantes a professores, ao escrever artigos, se eles talvez se ocupam por pouco mais que quatro horas na escrita, certamente não levam o que escrevem tão a sério como eu tomo a sério o que eu escrevo aqui. É um contrasenso porque eu, que me recusei a participar do blog quando fui convidado pelo Tonico, acabo tomando-o, por vezes, com muito mais paixão que os próprios autores. Enfim, talvez seja apenas uma questão de gênero literário – as missivas, e isso aqui se parece com uma troca de cartas abertas, sempre tiveram muito da minha afeição.

        Sinto muito se feri as sensibilidades e suscetibilidades de parte da audiência aqui (outra parte dela, também ouvi considerações nesse sentido, acha que o que eu digo é bastante justo). Não se enfezem e nem se preocupem. Mas eu faço questão de lembrar que eu, a maior parte do tempo – não no último texto, escrito ao Daniel, cheio de menções e escarninhos (peço perdão por isso) – fui ríspido, mas tudo dentro das conveniências do respeito. Quando chamei o seu texto de “iludido e equivocado” eu não fiz isso gratuitamente. Está tudo amparado em argumentação. Critiquei o que a sua inteligência e sensibilidade tem de unilateral e abusivo. Eu, ao contrário, não vejo nenhum contra-argumento. Você foge do principal, descentraliza, passa para uma crítica (na verdade uma relativização irresponsável) do que julga serem os meus pressupostos. Algo na linha do: “ah, mas isso não esgota a realidade, existe muito mais além do que você diz!” – sem, no entanto, e você poderia amparar-se nisso que escapa à minha argumentação de forma propositiva, sem nada sustentar. Diz até que não me autoriza a criticá-lo quando estou aqui a convite.

        “… com sua forma de criticar como se eu fosse um inimigo teórico e não um amigo socialista” – você diz. Discordo. Não o critico como se você fosse um inimigo teórico e não um amigo socialista, eu o critico como amigo socialista e adversário (não inimigo) teórico (e isso, espero, apenas por enquanto…), as duas coisas ao mesmo tempo. Eu, ao contrário de muitos de seus outros amigos que aparecem aqui apenas para bater palmas para o que você diz, respeito-o como alguém que pensa – algo que, certamente, a maioria deles não cobra de você porque se desacostumaram a cobrar isso inclusive de si mesmos. Enquanto o respeito deles é, no fundo, desrespeitoso, o meu aparente desrespeito é largamente respeitador.

        Por fim, quanto à escolha dos adversários, é, sem dúvida, gostoso bater também nos “de esquerda”. É importante também. Se a direita, que não tem projeto e nem capacidade de análise, apenas segue e admite o que está dado, consegue sempre avacalhar o debate, baixar o nível e arrastar tudo para a lama, isso sem dúvida acontece porque nós – os de “esquerda” – talvez não tenhamos, em contraposição coisa muito melhor que isso. Em larga medida, do que eu percebo, o que se tem não passa de um sentido de justiça, muito forte, muito honesto – às vezes nem tanto -, mas puramente moral. Um sentido de justiça que, na maioria das vezes, não é mais do que somente cristão e voluntarista. Gente muito arrogante, muito segura de si, cujo principal orgulho está em evitar o caminho da biblioteca (e da investigação honesta de si mesma).

        Enfim, é isso.

        Penso poder acabar agora, aqui, este debate. E dedicar essas mais de quatro horas, da próxima vez, a escrever burocraticamente artigos acadêmicos…

        Um afetuoso abraço,
        Rodrigo.

      • Guilherme Flynn 23/04/2011 às 13:44 #

        Rodrigo (em resposta ao comentário de 22/04),
        Você está coberto de razão. Agora há que pensar que esta, a razão, é uma substância viscosa com a qual por hora não tenho a menor vontade de me cobrir. É uma fase na qual, e de novo você tem razão, tendo a ficar um tanto relativista, pegar os conceitos bater com eles na parede e ver o que têm dentro. Não acho que esta relativização seja irresponsável, acho que se for de fato passageira é inclusive enormemente saudável. Como diz o dicionarista Abbagnano estamos: “numa época em que os conceitos são frequentemente confusos e equívocos a ponto de se tornarem inutilizáveis”. Tenho achado bom e sadio me banhar um pouco na contradição e dúvida, e por isso a contradição que você apontou entre momentos do blog é de fato isso, uma contradição entre afirmações em momentos diferentes. Uma das razões (de novo ela) do blog existir é dar vazão a estas contradições e discuti-las com meus camaradas.
        No quesito razão ultimamente tenho gostado muito do comentário do sociólogo inglês Luke, citado pelo francês Boudon: “Razão é um termo confuso nas ciências sociais, e acredito que parte desta confusão se deva a Weber”
        Separar os papeis e lugares de discurso para analisar não é um erro, é uma fatalidade, se pretendemos tratar apenas o todo o tempo inteiro acabamos nunca o fazendo com propriedade, isso é dado de princípio pela própria espécie: incapazes de expressar o real, simbolizamos, e nesta simbolização há sempre perdas.
        Não pense que não sou grato as suas críticas, que fique claro aqui que sou sim, e muito, apenas concordo quando você diz que leva muito a sério, mais que nós mesmos, este espaço de experimentação. Quando a crítica irrita devido à forma, deve haver na verdade algo de conteúdo por trás que é a causa real da irritação, o texto é mesmo um tanto deslumbrado, apenas não vejo tantos problemas com este fato. Li o texto ainda sem título que enviaste por e-mail e, me corrija se estiver enganado, mas me pareceu que há diversos tópicos da nossa última discussão que lá apareceram justamente porque tivemos aquela discussão (TICs como meio não neutro, TIC como possibilidade para a esquerda).
        Se nossa discussão estava http://www.youtube.com/watch?v=3X9LvC9WkkQ, com momentos http://www.youtube.com/watch?v=zpqHvQCybl4 creio que agora voltamos ao nosso bom http://www.youtube.com/watch?v=1U40xBSz6Dc (para ficar em clássicos). Na pior, assim como na melhor das hipóteses, um dia publicamos “Rodrigo e Guilherme: e-mails selecionados” ou ainda “Comentários em blogs selecionados”

        Abraços não relativistas
        Guilherme

  13. Carol Ferrarezi 20/04/2011 às 13:06 #

    “Besta é tu! Besta é tu!
    Não viver nesse mundo
    Se não há outro mundo…
    Porque não viver?
    Não viver outro mundo…
    …E prá ter outro mundo
    É preci-necessário
    Viver!
    Viver contanto
    Em qualquer coisa”

  14. Smeg 20/04/2011 às 13:07 #

    É duro criticar a Virada porque no fim é melhor tê-la do que não tê-la. E oito milhões no orçamento de uma cidade do tamanho de São Paulo não é nada, mas é só isso, uma festa de 8 milhões que divertiu uma multidão por algumas horas, sem maiores conseqüências para a cidade e para o centro.

    Mas espero que você esteja certo e eu, com o meu desencanto com São Paulo (sim, por que não é só com a Virada) errado.

  15. Alex 21/04/2011 às 1:56 #

    Pô, só confirmaram minha opinião.

  16. 21 21/04/2011 às 1:58 #

    se eu conheço o alex? conheço ele há quase dez anos, dividimos o mesmo teto há uns sete e recentemente tivemos uma filha. acho que posso dizer que conheço, não?
    saudade tonico.

  17. Daniel Andrade 21/04/2011 às 14:15 #

    Gente, mas vamos falar sério? A humanidade é um projeto falido… Acho melhor que a virada seja só uma festa mesmo, com muita bebedeira, para a gente se embreagar e esquecer esse erro que foi a nossa existência…

    • Rodrigo 21/04/2011 às 14:55 #

      Puta-que-pariu… acabo de levar quase uma hora escrevendo um texto. Algo me diz que há, comigo, algum problema no modo com eu encaminho os meus esforços.

    • Rodrigo 21/04/2011 às 15:06 #

      De mais a mais, duvido que a bebida faça esquecer… Depois de cada gole, quando estalamos a língua – faça um esforcinho, você também vai sentir – há sempre um gostinho de morte.

  18. taniaknapp 23/04/2011 às 0:40 #

    Tenho acompanhado a discussão, e relutei por não comentar. Costumo escrever por necessidade, o prazer em escrever é apenas uma conseqüência de uma necessidade.

    Esforço-me por publicar, enviar e expor textos dos quais eu não me arrependa no futuro, mesmo que eu já tenha ultrapassado as questões abordadas, até mesmo se depois eu nem tenha mais aquela opinião.
    Apenas algo realmente significativo pode me motivar a escrever um comentário nessa discussão que não concordo plenamente.

    Motivou-me especialmente ver que como eu muitos estranham esse evento. Não tenho fundamentos e leituras teóricas suficientes para entender o contexto sociológico e filosófico, até o contexto partidário do debate me foge os argumentos. Mas tenho argumentos de minha alçada profissional e de minha “desobediência civil e acadêmica”: Estou fora do discurso urbano-“revitalizador” modernista, pós-modernista, da cidade-espetáculo, pão-e-circo cult.

    Durante a graduação na Escola da Cidade – que, aliás, usufrui de forma muito mais legítima do centro do que seu discurso e de fato mais efetiva que a Virada Cultural e seus associados – debatemos temas como a Nova Luz e outras operações urbanas com o pessoal responsável da Emurb, o Glicério e sua realidade de cortiços e cooperativa de catadores, entre tantos outros assuntos a respeito do centro e suas formas de vida. O frustrante sempre foi no momento em que o debate e as proposições críticas eram tolhidos, apesar do discurso e tema proposto sugerirem o inverso. No final tudo era um pretexto para um projeto laminar, de térreo livre com generosidade urbana de seu vão, blá, blá, blá.

    A última proposição tolhida antes de me formar foi um trabalho apresentado em grupo: pensar a habitação no centro, a partir das questões dos moradores “em situação de rua”, do movimento sem teto, dos prédios ocupados, do movimento pendular do centro, da população flutuante, enfim, da realidade cotidiana que aprendemos a conviver, sem a isso nos acostumar e nos embrutecer. A proposta foi de “explodir” a habitação de seu espaço contido e delimitado, segregado, entendendo a cidade como habitação primeira. Naquela esquina se come, neste miolo de quadra se dorme, ali no galpão reformado lava-se a roupa e assim a vida e o fluir do centro ganha suporte e equipamentos para qualquer pessoa e transeunte: maleiros, vestiários, quartos, lavanderias, etc.

    De fato, a última vez que fui a um evento “Virada” com algum entusiasmo foi no Anhangabaú, quando os Gêmeos inflaram o boneco, acho que foi em 2009. Parecia uma procissão. E realmente poder ter um caráter mágico esse tipo de intervenção, mas o que fica afinal depois disso, além de ressacas, camisinhas (e/ou gravidezes) e deslumbramentos epifânicos? O que fica de benesse a tão clamada cidade, ao tão abençoado povão (me incluo nele)? Não digo isso porque ache que cultura, shows do Siba, performers de rua, circenses de toda sorte e tantos outros grupos não tenham contribuído e não cumpram um papel cultural, mas justamente eles merecem um lugar de destaque nessa cidade, merecem ter uma vida longa e útil, merecem ser fomentados por essa massa de milhões, que se alimentariam mais se isso fosse dosado de forma mais homeopática, fosse um projeto cultural e social inclusivo e interação que fosse de fato um equipamento urbano e não um espetáculo efêmero, volátil como o álcool. Se é um projeto da Secretaria de Cultura, é uma política pública, é dinheiro público e não pode exercer apenas a função de “é só para divertir, relaxa e fuma um, olha como é legal o centro à noite” e coisas assim!!! Não pode ser! É inconstitucional, não é, ou eu estou exagerando?

    E de outro ponto de vista, acho tão falso e discutível aquela galera que encontrei no Anhangabaú que se não fosse o evento, o espetáculo, estariam num barzinho em Moema, ou na Vila Madalena ou na Paulista, em qualquer lugar e se um amigo de mesa dissesse: “Ei vamos pegar umas breja e beber lá no Anhangabaú?” e reação mais provável seria: “Você endoidou? Tá maluco, fazer o que lá, só tem nóia… é perigoso” Claro que aqui dou margem para muitos discordarem, é o preconceito à avessas, talvez. Mas é uma incoerência fatídica, é ilegítimo.

    Na graduação tivemos a sebosa presença do então secretário de cultura Augusto Calil que entre outros projetos apresentou a Virada Cultural, já naquele momento um estranhamento, um incômodo me fez tomar o microfone e fazer as perguntas: “Senhor secretário, durante sua apresentação o senhor citou o projeto de cultura do Mário de Andrade, quando tinha o projeto da biblioteca circulante (a Kombi de livros e LPs de músicas da coleção etnográfica), não acha que essa idéia devia ser recuperada? Quanto aos museus, a Lina Bo Bardi tinha um projeto essencialmente inclusivo para o MASP (na rua 7 de abril e no projeto inicial do MASP Trianon), o que se tem de propostas inclusivas nesse sentido hoje em dia?

    Bem, é claro que ele fugiu das perguntas, falou que as bibliotecas temáticas e os pontos de leituras são bem freqüentados e que os Museus hoje têm cada um o seu programa de oficinas, cursos e que são independentes para isso.

    Guilherme, eu realmente gostaria de poder dizer como é legal a Virada Cultural e narrar aqui minhas boas impressões – que já tive nas primeiras edições. Dessa vez a necessidade falou mais alto e não tive prazer em escrever essas linhas, foi tão amargo quanto recitar um poema a um ser inexistente.
    Beijos
    Tania

    • Guilherme Flynn 23/04/2011 às 14:30 #

      Tânia,
      A Virada não ressolve por si nenhum dos problemas da cidade, mas talvez, apenas talvez, ela coloque como um problema a ser pensado a cidade para muitos que não o fariam não fosse por ela. E daí desdobrar e escorrer para todos os lados, o seu e o de tantos outros.
      Sei que não é de minha alçada – as questões psicológicas de sua escrita – mas não resisto a comentar que essa procura pelo comentário acabado, pela opus prima, me parece o recalque de mais um mecanismo de controle, amplamente introjectado pela esquerda. O medo de escrever algo do qual depois se arrependa é um dos medos que as novas tecnologias de comunicação combatem mesmo sem a clareza de fazê-lo (ainda que o Rodrigo ache que criando dessa forma comunicação “inautêntica”). Reprimir o prazer de escrever é reprimir o prazer de criar, é reforçar a divisão entre trabalho manual e intelectual, separar necessidade de prazer, é tudo que o capital quer. De minha parte acho maravilhoso (olha o deslumbre de novo aí gente!) que milhões passem a escrever nesses meios novos, ainda que isso gere cacofonias diversas e pouquíssimos textos “acabados”.
      Não é incostitucional de forma alguma, diversão não é um direito, mas deveria ser, a Virada, repito, é um ponto alto e não um ponto baixo na tão precária e pouco discutida política municipal de cultura. O problema não é a Virada, é todo o resto.
      Folgo em saber que o Calil esteja familiarizado com o programa de cultura de Mario de Andrade, a pergunta que gostaria de fazer para ele é: Por que, tirando o VAI e a Virada, a prática política de Secretaria é tão contrária a esse programa?.
      O MASP por exemplo, precisamos tira-lo do modelo de fundação e tranformá-lo em público de fato, como o fazemos?
      Voltamos aqui ao mesmo ponto da conversa com o Smeg: O problema é – Qual o espaço que temos para discutir e influir na política municipal de cultura?
      Você pergunta: O que fica da Virada? Alguma coisa, sempre fica alguma coisa…essa própria discussão que estamos tendo é uma coisa que ficou da virada.
      Não entro no miolo da sua divergência com as arquiteturas e seus discursos pois não os conheço muito bem.
      Agora comentando o parágrafo final, eu não gostaria, Tânia, que você dissesse como é legal a Virada, eu gostei é de dizer como eu gosto da Virada e me sinto bem nela. Pena que você não teve prazer em escrever suas linhas – talvez essa seja uma boa busca para o futuro – eu tive prazer em escrever tanto aquelas linhas de cima como estas aqui.Por fim, eu ADORO recitar poemas a seres inexistentes, que passam a existir apenas porque recito poemas a eles.
      Beijo

  19. taniaknapp 24/04/2011 às 17:53 #

    Guilherme,

    o ato de escrever, para mim é justamente um ato de libertação. Não é recalque, nem repressão, é expressão. Está longe de ser em si uma opus prima – a vida mesmo é um ensaio de um espetáculo que nunca estreará – não querer me arrepender diz respeito apenas em escrever excessivamente sobre superfícies, é pessoal. O prazer, quando existe vem justamente por libertar e expressar o que sou e isso sempre é uma necessidade. Faço uso das tecnologias virtuais, mantenho um blog e tenho página em rede social, mas não, o texto não era para discutirmos sobre o por que e como escrevo, certo? O comentário teve apenas uma introdução e um fechamento. A informação que justamente interessa está acolchoada, no meio.

    Se vamos discutir a política municipal de cultura, vamos começar pela virada, tema desse post. Por que não? Ela não é um evento acabado, perfeito, não é uma opus prima, nem compõe um projeto cultural que a justifique. Não temos nem se quer um projeto de cidade que dirá de cultura?
    Se vamos falar de cultura, e da Virada, digo que a Virada empobrece ainda mais o significado de cultura – termo já surrado e que nem a secretaria sabe direito o que significa. As expressões e meios da cultura excedem e muito ao que a Virada (e a secretaria) dá conta e abraça.
    Se vamos nos ater apenas ao evento, e descontextualizar todos os problemas, questões e investimentos que a cidade precisa, se vamos isolar a Virada de seu contexto físico, financeiro, cultural, educacional, político e social, então ela é apenas o que é: Um evento de 24 horas com shows, artistas de rua, peças de teatro e dança e expressões culturais afins no centro da cidade e adjacências, com algumas programações dispersas pontuais.
    De modo que seu texto, todos os comentários, as notícias do dia seguinte e as fotos que os espectadores tenham em seus celulares não são produtos da Virada, não é uma repercussão de pós evento elaborada em seu programa. A crescente valorização dos imóveis do centro e as especulações que se aferventam, também não são conseqüências “naturais” da tradicional festa. A pobreza de projetos consistentes e inclusivos de sua secretaria também não são questões concernentes à Virada. Ela apenas reflete tudo isso aqui posto e o restante que nem imagino.

    A Virada é reflexo. E digo como os Titãs: “a gente não quer só comida a gente quer comida diversão e arte, a gente não quer só comida a gente quer saída para qualquer parte… Desej0, necessidade, vontade”.

    Me parece mais saudável não me satisfazer, não sentir prazer e chupando o dedo, após o último show, voltando no metrô pensar: “é só isso?” Cada um sabe o que isso quer dizer. Para o Rodrigo é gosto de morte. Para mim é dessabor, que reflete nessas linhas. Não é só de prazer que vivem a literatura e seus autores, aliás, suspeito ser o que mais falta
    Guardei aqui comigo suas perguntas sobre o MASP, sobre espaço de produção coletiva e minhas divergências de arquitetura (que são mais divergências de produção de cidade, responsabilidade compartilhada com muitas outras pessoas).
    Gostei dessa sua afirmação: “eu ADORO recitar poemas a seres inexistentes, que passam a existir apenas porque recito poemas a eles.”. De fato isso deve acontecer, no meu caso, quando recitei, meu ser inexistente estava acuado de mais para tomar o fôlego da existência.
    E vamos para uma mesa discutir isso sem mediadores temporais, interpessoais e virtuais. Que tal?
    Beijos
    Tania

    • Guilherme Flynn 28/04/2011 às 12:46 #

      Tânia, Desculpe a demora em responder. A Jô já topou e eu topo também, tirar essa discussão desse espaço e colocá-la em frente a cervejas e pessoas, ambas não codificadas em 0s e 1s. Quando? Onde?

  20. 21, agora sei lá, 43.... 26/04/2011 às 12:17 #

    vixi a coisa é séria mesmo, achei que fosse uma FESTA!
    acho boa a ideia do encontro, para debatermos o post, ou para mais festa!

    • Carol Ferrarezi 28/04/2011 às 12:47 #

      Bem q blogs poderiam ter o “curtir” do FB, né?rs

  21. taniaknapp 28/04/2011 às 17:27 #

    A Festa tá chegando, de formatura, mas lá não rola um debate, é mais uma festa. Esse fim de semana estou livre como um taxi… hehe Podemos marcar algo no centro, no domingão tem uns bares da 7 de abril ou na pça dom josé gaspar, sugestões.

  22. Felipe Carrilho 08/05/2012 às 14:56 #

    Guilherme,

    Achei a sua análise lúcida e bonita.

    Um abraço,

    Felipe.

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