Da utilidade da antropologia

30 set

Os leitores do Cumachama devem saber que minha formação acadêmica foi orientada para antropologia. Neste Departamento da Universidade de São Paulo, vinculado ao curso de Ciências Sociais, fiz meu mestrado. Este tratava de intolerância religiosa no Brasil e das trocas simbólicas que se estabelecem entre Umbanda e Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, durante três anos, vivi entre templos e terreiros; pastores e pais-de-santo; descarregos. De forma ampla, além das agruras do campo, a experiência de tornar-me antropólogo foi, por diversas vezes, áspera. Entre a incapacidade de explicar aos meus parentes o que fazia, profissionalmente, da minha vida, e a impossibilidade de fornecer uma resposta direta aos amigos ultra-esquerdistas sobre a “utilidade disso para revolução”, muitos foram os dissabores.

Além das dificuldades de explicações a terceiros, foi particularmente penoso o processo de justificativa dessa escolha acadêmica a mim mesmo. Afinal, se a antropologia é uma ciência (?) fundada na compreensão da diferença, da cultura do outro e do modo de vida alheio, como intervir? Qual sua capacidade de atuação prática nas misérias do mundo? Volto ao meu mestrado. Por mais que tenha me esforçado para criticar a atuação perversa da IURD e seus representantes na demonização dos cultos afro-brasileiros, fui obrigado a ceder diante de certas limitações próprias ao exercício antropológico. O entendimento da cultura e das representações do outro enseja um grande esforço de contextualização e de valorização do que, em princípio, parece estapafúrdio. O antropólogo que deseja compreender manifestações fascistas, por exemplo, se dispõe a um exercício de convivência e entendimento dos valores de determinados grupos fascistas que é tanto mais doloroso quanto maior for sua discordância para com esses tais valores. Ainda pior: quanto maior a discordância, mais rico pode ser o resultado da análise. Não se trata, obviamente, de justificar um sistema de práticas e pensamentos que lavra no ódio. Tampouco de elaborar uma etnografia que termine com algo como “respeitem o sagrado direito fascista de espancar ciganos e gays”. O exercício de entendimento, porém, traz suas limitações práticas ao – neste caso, necessário – ativismo. Fica difícil entrevistar uma pessoa enquanto você a esmurra.

Pois bem, para que serve a antropologia? Para o exercício de divertimento de uma consciência que toma contato com uma cultura que, inicialmente, parecia exótica e incompreensível? Serve para catalogar índios, populações africanas, aborígenes diversos, punks, skinheads e feministas? Tenho feito essas perguntas a mim mesmo, cotidianamente. Agora que adentrei o mercado de trabalho de forma definitiva e tenho minhas 40 horas semanais de labuta, nada consome mais meus devaneios que a constituição de um plano prático e facilmente executável de “destruição do modo de produção capitalista”. Deste e de seu projeto totalitário, já tenho compreensão mais que suficiente. Exploração do homem pelo homem, vidas vazias consumidas pelo trabalho alienado, fetiche da mercadoria em doses cavalares e, o mais triste, pessoas que abraçam seus princípios com todo ardor, dedicando o melhor de suas habilidades na aquisição de algumas toneladas de um tipo peculiar de papel pintado, que dá acesso a tabletinhos de felicidade que começam com “i” – iPad, iPhone… Para essa coisa monstruosa que adquiriu vida própria e envolve a tudo, já não cabe mais muita compreensão. Cabe, antes, a formulação de um programa consistente de aniquilação. Até porque esse espírito já tem, para conosco, um programa de idêntico objetivo, muito bem montado e em pleno processo de implementação.

Refletindo sobre tudo isso e sobre minha formação acadêmica, refletindo sobre o esforço que fiz para entender umas três linhas de Lévi-Strauss, senti que havia retornado à mesa de um bar, com algum colega meu resmungando sobre a inutilidade da antropologia para o grande projeto de emancipação da humanidade. Antropologia e socialismo? Conta outra, Antonio.

No entanto, aproveitando a tal sabedoria chinesa (que nos é muito útil quando temos a combinação de uma semana ruim com a preguiça de realizar uma análise sociológica minimamente honesta), algo de útil há de sair das desventuras cotidianas. Uma série de fatos me fez ver que há um conceito fundamental da antropologia que é de utilidade inequívoca. Aliás, o tamanho de sua utilidade só é comparável à dificuldade de defini-lo de forma razoável. Trata-se da ideia de alteridade. Que seria isso? Fazendo um exercício antropológico pelo método confuso, vejamos, antes, o que não é isso. Alteridade não é transmutar-se no outro. Não é parar de comer carne porque viveu com um grupo de vegetarianos. Não é torcer pelo Corinthians porque passou uma semana na sede da Gaviões da Fiel. Alteridade também não se resume ao para-choque de caminhão do “não faça aos outros o que não deseja que façam consigo”. Não é, portanto, o exercício de tornar-se um bom moço porque conviveu com muita gente diferente. Alteridade é a complexa experiência de conviver com o outro, tatear seus valores, lidar com a diferença e seus atritos e sair dessa experiência transformado de algum modo. De preferência, pronto a oferecer um relato do que ocorreu. Trata-se de engajar-se em uma estrutura cultural e social que não é aquela com a qual tem a familiaridade do cotidiano, tentar colocar-se no lugar do outro, representar o papel do outro, chegar o mais perto possível do outro sem nele converter-se. E, dessa experiência, formular uma leitura dos valores alheios enquanto, ao mesmo tempo, lança luz sobre seus próprios valores.

Certo. E por que, exatamente, isso é útil? A mim parece útil porque a alteridade, num exercício bem realizado, clarifica as possibilidades de diálogo entre diferentes. Torna possível o entendimento do outro, de suas dores e alegrias, daquilo que lhe é importante, das possibilidades de comunicação produtiva em lugar da troca de ofensas, pedradas e tiros. Acho, enfim, que é o necessário exercício para o estabelecimento de bases de convívio mais fraternas entre distintas culturas e instituições sociais. Outro dia, enquanto assistia a um documentário sobre o ex-presidente João Goulart, ouvi do narrador uma frase que era mais ou menos assim: “a visita de Jango à China não tinha nenhuma relação com ideais comunistas, tratava-se, antes, de uma iniciativa de fraternidade entre os povos”. Acho que essa colocação resume bem toda a ideia do texto. Meu desejo primeiro, hoje, é o de aniquilar, de forma definitiva, o capitalismo. Mas, neste particular “momento antropólogo” – que bem poderia ser um momento “antropologia de ursinho carinhoso”, desejo um pouco mais de fraternidade e convivência digna.

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Acho que muitos de meus amigos ultra-esquerdistas não vão compreender nada do que foi dito neste texto. Isso é perfeitamente compreensível. Eles estavam fazendo a revolução socialista enquanto eu estava na aula ou na biblioteca.

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2 Respostas to “Da utilidade da antropologia”

  1. vanessa espínola 13/10/2011 às 1:36 #

    nossa, eu estava me perguntando isso hoje… bonito o texto. está faltando alteridade no mundo. acho q. comparar com ursinho carinhosos fica parecendo que essa alteridade é a do bom mocismo que vc diz não ser.

  2. Daniel 13/10/2011 às 18:08 #

    Você deveria conhecer o conceito de “simpatia” de um cara chamado Adam Smith em um livro entitulado Teoria dos Sentimentos Morais…

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