Colaboracionismo

7 maio

O melhor tratamento para lucidez é a lobotomia.

Mais cedo ou mais tarde, eles vão lhe pegar. Tenha certeza disso. E a parte mais triste é que farão isso com sua colaboração direta.

Algum tempo atrás, após mais uma daquelas reuniões estapafúrdias do PSOL – em que se discute a conquista do universo pela manhã e a melhor maneira de derrotar trotskistas no período da tarde – fui tomar um café com um amigo. Neste caso, amigo é pouco. Além do afeto que sinto pela pessoa em questão, há o fato de tratar-se de uma das duas pessoas, sobre a face do planeta, que respeito intelectualmente. Pessoa viva, de carne e osso, ao meu alcance. O Marx, o Weber e o Durkheim, portanto, não contam. Enfim, um grande amigo, um grande cérebro e uma capacidade de análise crítica muito acima da média. Café vai, café vem e um debate sem fim sobre a tal da revolução, que teima em não chegar. O problema é a militância estéril? A dificuldade de diálogo com as massas? A inesgotável capacidade de autorreforma do capitalismo? Muito trabalho alienado combinado com muito fetiche da mercadoria? Tudo isso junto? Lá pelas tantas, com uma contribuição da antropologia, chegamos à conclusão de que falta criarmos uma “hermenêutica socialista”. Ou uma hermenêutica do socialismo ou, ainda, uma hermenêutica da militância socialista. Nesse contexto, hermenêutica remete à antropologia interpretativa do amável antropólogo norte-americano Clifford Geertz e seu conceito de descrição densa. Arredondando horrores, Geertz achava que o trabalho de campo deveria ser pautado pela construção de descrições contextualizadas da cultura alheia. Enxergar a cultura do aborígene como um texto que não podemos/devemos/conseguimos ler de forma direta. Desse modo, nos apoiamos sobre os ombros nativos e ficamos ali lendo, de rabo-de-olho, o que sua cultura escreve. Tal exercício é difícil na medida em que culturas são complexos articulados de símbolos que comportam múltiplos significados. Mas, simplificando tudo e voltando ao café com o amigo, a ideia era a de que, para além da análise das grandes estruturas de dominação, precisamos entender como as pessoas lidam com o modo de produção capitalista em seu cotidiano. Sentem-se exploradas? Por que diabos um pobre da periferia profunda, sua vítima preferencial, insiste em votar no Maluf? Por que um nano-fazendeiro, acossado por grileiros, acha o MST uma aberração? Por que boa parte de nossa classe média, de forma tão primitiva, abomina o senhor Lula da Silva – não por questões de orientação política ou econômica, mas, ainda, pelo fato de ele não ter um diploma? Naquele café de tarde inteira, chegamos à conclusão de que um pouco de etnografia faria bem à militância pelo socialismo. Ajudaria na compreensão dessas situações tão confusas à primeira vista.

Lembrei dessas questões, não sei exatamente porque, em virtude do texto logo abaixo, de autoria de meu bom amigo Guilherme. O carnaval é um daqueles temas caros aos antropólogos. O Roberto DaMatta acha que o festejo permite enxergar com maior acuidade as relações de poder presentes em nossa sociedade – justamente pelas inversões de papéis que o momento permite. Aquele exemplo clássico do sujeito que, ao sair para comprar o pão pela manhã, em uma terça-feira gorda, vê o patrão caído na calçada, em coma alcoólico, vestido de mulher e com um estandarte ao lado de sua mão direita em que se lê: “bloco das princesas 2012, as melhores bundas peludas do Rio”. Na quarta-feira de cinzas, é bem provável que o sujeito olhe seu patrão de forma diferente e até relativize seu sacro-poder como mandatário do escritório. Outros tantos avaliam a situação de modo diferente. No carnaval a polícia está toda na rua e se o festejo, em si, desafia a ordem do modo de produção – afinal, são cinco dias de absoluta putaria –, suas implicações estruturais não são significativas. Alguém acha que poderíamos invadir a prefeitura do Rio de Janeiro sob a alegação de que “ah, é carnaval amigo! Vamos jogar a escrivaninha do Eduardo Paes pela janela?” Creio que não. Talvez a combinação das duas análises leve a um resultado mais produtivo. O carnaval permite, de fato, um desvio de olhar. Poderia ser diferente. Poderia. A pergunta que faço é: algum dia vamos substituir o futuro do pretérito pelo futuro do presente? O sujeito que viu o patrão na calçada alguma vez pensou em chegar ao escritório, na quarta de cinzas, e dizer: “então, chefia, eu vi que o senhor é cachaceiro como eu, não é nenhum ungido de Deus para nos humilhar e agora a gente vai montar uma comissão gestora no escritório, democraticamente eleita e com mandato revogável”? Essas coisas não acontecem.

Agora, como diria Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Por que não acontecem? Não sei ao certo. O projeto de hermenêutica da militância socialista, que tracei com o amigo, não foi adiante. Talvez as pessoas não entendam que estamos presos a uma monotonia sem fim cujo único objetivo é a reprodução individual de nossa força de trabalho. Talvez estejam muito satisfeitas com sua cota de consumo. Talvez não enxerguem as formas sutis de dominação que se estabelecem em nosso cotidiano, que vão desde a catraca do ônibus, passando pela cobrança pelo consumo de água, até à imposição social para o consumo do Big Brother Brasil, vulgo BBB. Pode ser que ninguém entenda o que é trabalho alienado ou fetiche da mercadoria. E pode ser, também, que todos enxerguem o nosso modo de vida como o melhor possível – nesse ponto, algum engraçadinho, no fundo da sala, arremata: “se esse tal de comunismo é tão bom, por que lá na Rússia o resultado foi uma merda?” Aqui e ali, alguns “marginais” questionam a justiça e o equilíbrio desse estado de coisas. Posso garantir que os massacrados do Pinheirinho, os sem-terra que comem fumaça preta na beira da estrada e o menininho negro que foi expulso de um restaurante paulistano por um garçom racista têm, todos eles, algo a dizer. Mas também é fato que, até aqui, nossa sociedade não foi capaz ou não quis ou simplesmente não tentou se articular em torno de um projeto verdadeiramente emancipador. Falo do Brasil, mas os exemplos pelo mundo são inúmeros. Desde o caso norte-americano, com seu modelo de capitalismo-estado-de-natureza, até a experiência chinesa de capitalismo adornado com foices e martelos de ouro maciço. A humanidade caminha para uma imensa latrina de barbárie e, de um modo geral, ninguém dá muita pelota para as aberrações cotidianas do capitalismo. Nesse sentido, temos o exemplo neo-neocolonial europeu: “tentamos as Américas, a Índia, as ilhas do Pacífico e a África, agora vamos à Grécia”. A internet derruba governos das arábias e, em lugar de ditadores anacrônicos, teremos maravilhosas democracias liberais capitalistas – isso, lógico, se os militares entregarem o poder no Egito ou a charia, em versão hardcore, não for implementada na “nova” Líbia.

Agora que já passei pelo meu habitual catastrofismo, gostaria de chegar à motivação básica deste texto. Aquilo que produziu o “clique”. Pessoal, qual o nosso papel nisso tudo? Nós, militantes de verdade ou mentirinha, intelectuais idem, pessoas críticas, de boa formação e que acreditam não compactuar com esse grande amontoado de absurdos? Bem, nós fazemos parte disso, de um modo ou de outro. Há aqueles que fazem a crítica bem-comportada, nos bancos da biblioteca. Pode ser agressiva no último, mas fica lá, quietinha, na biblioteca. Também há boa quantidade de militantes que se contentam exclusivamente com a militância. Os bons objetivos transformadores são postos de lado e o sujeito passa a se sentir perfeitamente confortável no quentinho da burocracia do partido/movimento/grupamento político. Dito isso, gostaria de problematizar a questão um pouco mais, citando uma frase que não é minha (mas cujo autor desconheço): “antes o cinismo que a hipocrisia”. Nossa produção intelectual rasteira pode contribuir para formação de um desavisado que leia uma tese qualquer na biblioteca. O militante burocrata pode, eventualmente, colaborar para alguma conquista pontual da sociedade. Eu ainda acho que eleger um sujeito como o Chico Alencar é algo relevante. Assim sendo, como autor de uma dissertação de mestrado e ex-distribuidor de panfletos, acho que me sinto contemplado como cínico.

Entretanto, este texto é dedicado ao enorme contingente de inocentes úteis que povoa nossa sociedade em geral e nossos círculos de amigos em particular. Aqueles todos que são obrigados a fazer o que fazem. E, de obrigação em obrigação, terminam diretores de multinacionais, consultores de empresas gigantescas, assessores de tudo quanto é gente que não presta, executivos de empreendimentos diversos, operadores da bolsa de valores e por aí vai. Pessoas que ganham mais de vinte mil reais por mês – ou que estão nesse caminho – e que sentem muita saudade dos tempos de faculdade. Gente que lembra com carinho da militância juvenil e das noites em bares imundos. Que sente muita pena do amigo que não teve sucesso na vida, que ganha pouco e tem dificuldades para comprar um par de sapatos. Indivíduos que se sentem muito mal por terem abraçado o projeto – mas que não abrem mão, de modo algum, das benesses que ele proporciona e que jamais vão arrumar um emprego para o colega fodido. Exemplos de pessoas assim, temos aos montes. O Genoíno, aquele radical do paleolítico petista, virou babá da classe média que queria um partido de esquerda mais fofinho. O Palocci, que comandava ocupações de terra em Ribeirão Preto, tornou-se “consultor” de alguma coisa que ninguém sabe o que é. O João Gordo é palhaço televisivo. O Ferreira Gullar desenvolveu alguma patologia sociológica grave. E há uma lista interminável de colegas de vida toda que estão em bons empregos, jurando que continuam críticos de tudo e todos. Ganham muito bem e se prestam a serviços plenos de imundície.

Dizem que o poder endireita a esquerda. Depende da esquerda. A grande esquerda endireita com o poder, aos pequenos esquerdistas, um iPad basta.

Não escrevo para apontar o dedo a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo. Pois minha raiva vem do fato de que meu projeto pessoal de boa remuneração ainda não foi alcançado. Eu também desejo adentrar a longa marcha da humanidade rumo ao nada. Um deserto gigantesco, pontuado por um oásis/quinhão de consumo. Uma vez ao ano, a marcha para, todos enchem seus corpos de álcool e, ensandecidos, perguntam: “por que marchamos?” A pergunta é, sempre, o prenúncio da retomada do percurso.

Conheço uma moça que passou por uma fase pessoal turbulenta. Dificuldades e tristezas da vida. O fato pitoresco é que tal fase complicada foi marcada pelo ato de furtar livros. Nunca vendeu o produto de suas ações. Pelo contrário: lia tudo e, certa vez, me presenteou com um exemplar de autor que, à época, eu precisava ler. Em suma: não furtava para entesourar, mas para consumir os textos presentes nos livros. E nunca achou que estivesse cometendo qualquer barbaridade. Afinal, eram livros. Num dia de azar, foi pega. Daí em diante, eu comecei a dizer que era um absurdo a pessoa achar que alguém se comoveria com um flagrante numa livraria bonita voltada ao público endinheirado. Que o melhor seria organizar um movimento pelo acesso aos livros, informar as pessoas, criar consciência crítica, etc. Mandamos a moça ao psicólogo. Hoje, passados alguns anos, quero dizer a ela que estava certa. Completamente. Seu gesto foi de uma sobriedade tão plena, que o único resultado razoável seria o flagrante. Vejam: vivemos em um planeta em que vendem água, comida e livros. Água, comida e livros. Você precisa de dinheiro para comprar esses três itens, que são os mais elementares para composição da dignidade humana. O último até mais que os dois primeiros. É verdade que, sem água ou comida, você vai morrer bem rápido. Mas também é verdade que só os livros vão lhe explicar porque chegamos ao desastre ético de vender água e comida. Então, numa sociedade em que os livros são postos à venda, em que a matéria fundamental para o combate à alienação precisa ser adquirida à custa de muita alienação, a única atitude razoável é o furto. E ela furtou. Passou a ser a doida irresponsável da turma. Eu contribuí decisivamente com isso e tive meu momento “inocente útil”. Todos temos, aliás: quando nos orgulhamos de trabalhar bastante; quando procuramos ofender os colegas dizendo que acordamos cedo todos os dias; quando deixamos de corar diante do salário gordo; quando aceitamos, após umas oito sessões de terapia, que “o mundo é assim mesmo”. Achamos o Cartola e o Nelson fantásticos. Mas, caso fossemos seus vizinhos, naqueles momentos de solidão ética, não deixaríamos de pensar bem alto: “mas esse vagabundo não para de beber?”

Concluindo, você vai tomar parte nisso tudo. Vai fazer muito bem pensar que foi contra sua vontade, que nada poderia ser feito e que você não vai cair na afetação adolescente de achar que pode viver da venda de poemas na Rua Augusta. O salário elevado na empresa malvada não vai passar de um efeito colateral assaz desagradável da vida em uma sociedade injusta – e o seu cérebro vai desenvolver o prazer masoquista da repetição infinita de um mantra que diz que você está nessa merda até o pescoço, mas é crítico do sistema. Aliás, uma palavra aos adolescentes. Muito se fala da depressão difusa e da rebeldia sem causa que acomete todos que passam por esse estágio da vida. Na verdade, os adolescentes se assemelham muito aos porcos de abatedouro. Estes, quando percebem o fim inescapável, ficam terrivelmente agitados e gritam de forma assustadora. O adolescente, quando percebe no que está prestes a entrar, começa a espernear e gritar. O porco, caso seus gritos comovessem o verdugo, fugiria para bem longe do abatedouro. O adolescente grita para, tempos depois, dizer que, felizmente, superou aquelas crises bestas da juventude.

E vamos marchar, todos juntos, até o próximo carnaval.

—–

Tonico.

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Uma resposta to “Colaboracionismo”

  1. Rodrigo 17/05/2012 às 11:10 #

    Nenhuma resposta até agora?
    (…)
    Bem, serei eu o primeiro então.
    (Tonico, você não me avisou que havia colocado o texto aqui. Soube ontem pela Tania: “você já leu?”)

    Você está certíssimo. Acho que não existe melhor pergunta, hoje, que essa a respeito do nosso cinismo (e também a respeito disso que você chama de hipocrisia, que, me parece, é um cinismo militante). Alguém já disse, comentando as perspectivas de futuro do velho Estado Prussiano, que aquele ordenamento “apenas acha que acredita em si mesmo” – como o mentiroso que acha que acredita na própria mentira. Uma comparação pode ser interessante: a análise das nossas esperanças revelaria que nós, diversamente da aristocracia prussiana, apenas achamos que não acreditamos na nossa própria mentira. E, na verdade, acreditamos muito mais do que seria conveniente admitir.
    E o que é mais espantoso (como você bem notou) é que nesse novo padrão de desesperança – esse do sujeito que acha que não acredita – a falta de crença chega não para trazer peste e dor, mas para trazer conforto e acomodação!
    Que situaçãozinha ridícula essa nossa…

    Abração.

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