Devemos enforcar os banqueiros?

20 jul

Esse é o primeiro de uma série de três textos de Rodrigo Linharez, mestre em Geografia pela USP.

———————–//———————————————-

Pode ser que esta minha impressão tenha algo de abusivo (já que tenho no temperamento uma espécie de desvio, uma espécie de má-formação essencial: uma contínua atração pelo caráter trágico, pelos dilemas e impasses das coisas), mas eu sinto muita falta de análises sistêmicas da crise econômica. Especialmente entre os que protestam – o pessoal dos movimentos “occupy” mundo afora – me parece, a análise mais corriqueira que fazem da crise tem muito de uma espécie de atualização do ódio medieval ao “usurário”.

Claro. Se os banqueiros e operadores da grande finança fossem submetidos a um pente fino, assim de primeira, é possivel imaginar que pouca coisa sobraria. Mas acho também que a grande dificuldade de uma limpa como essa seria definir, afinal, o que é criminoso e o que não é – e isso em um contexto em que o seu interlocutor/acusado será, muito provavelmente, um físico cujo pós-doutorado no MIT investiga, em mais de 500 laudas, um aspecto importantíssimo, mas também muito complicado e muito sutil, de determinada função matemática aplicada aos negócios com o câmbio. Um gênio do Mal jogando em casa. Bem, a lógica crime/encarceiramento, o modo como opera e como define as exclusões, como sabemos todos, é seletiva: embaixo ela funciona muito mais do que em cima…

Enfim… E esse tipo de coisa, apesar de não ser desimportante, serve demais ao diversionismo – até os Republicanos, nos Estados Unidos, fazem o discurso emocional de “cadeia para o banqueiro criminoso” e “que eles paguem o que devem e não o povo”. A questão mesmo – o lugar onde ela é capaz de se definir – é na política econômica e na capacidade de fazer política econômica.

E a questão mesmo – quando passamos da política econômica para a crítica da economia política – é que o capitalismo odeia propriedades concretas. Odeia qualitativos e despreza valores-de-uso. (E qualquer um que possua um jogo de jantar herdado dos bisavós ou tataravós – que, infelizmente, não é o meu caso – pode compará-lo com um exemplar contemporâneo e chegar a essa mesma conclusão.) O sonho deste tipo de economia, que está posto como lógica e como projeto, ainda que absurdo e impossível (mas deixemos para outra oportunidade um debate mais detido sobre a vocação suicida do capital) é extrair diretamente mais-valor do valor – e isso sem ter de se sujar, na produção, com graxa e óleo queimado! Pois é! Do que podemos inferir algo muito divertido, muitíssimo mesmo: no capitalismo o trabalho é explorado a contragosto.

Sim, seu desprezo pelos valores-de-uso é, inclusive, desprezo pela força-de-trabalho como valor-de-uso. Em sua esquisita filantropia, o capitalismo preferiria não ter de explorar. Isso é realmente muito doido… Idealmente (idealmente, quero dizer, segundo a lógica que se desdobra) o sistema deveria reproduzir-se sem ter de se imiscuir nessa complexidade toda de relações trabalhistas – e isso porque, nesta sua lógica fantástica, move-se através de categorias que desprezam concretudes, que funcionam para livrar-se delas, purgar-se delas, e que, no paroxismo, funcionariam com perfeição, deslizariam sem atrito… Só que em um mundo sem gente! (e sem ritmos climáticos, biológicos, etc., etc…)
E qual é o personagem que, no ciclo produtivo, mais se identifica com esse não-mundo que o capitalismo sonha em criar?

Claro, temos o trabalhador. Proletarização e despojamento são sinônimos. Mas este tem ao menos a esperança (ou o consolo) de que a negação que o produz também deposita nele, ao mesmo tempo, uma positividade (ou, ao menos a possibilidade de uma positividade – que é a sua capacidade potencial de recriar o mundo em novas formas). E a este não-ser resta ainda a concretude do valor-de-uso de sua força-de-trabalho.

O capitalismo cria o proletariado, mas faz o que faz com a mão no coração. Preferiria não o fazer porque gostaria de se reproduzir através de dinâmicas teológicas puras e mandar o resto ao diabo. Preferiria fazer pior. E isso é algo que somente há pouco tempo começamos realmente a vislumbrar, já que parte desse desejo secreto – traduzido pelo radicalismo neoliberal – tornou-se mundo e um dos tipos sociais que ele mais generalizou é algo que, mais uma vez, aproxima-se do paroxismo, do despojamento total: os mortos-vivos da sobrevivência no desemprego, os zumbis das exceções e das exclusões definidas pela lei, pela política e pela guerra (os detidos em penitenciárias, em campos de refugiados…).

Mas qual é mesmo o personagem que, pelo papel que desempenha no ciclo produtivo, mais se aproxima do movimento niilista da economia – e que, portanto, mais assemelha-se a um não-ser?

Uma dica: um estudo feito nas finanças em Wall Street conclui que, dos que sobrevivem à concorrência encarniçada que os grandes executivos jogam entre si – os poucos escolhidos entre os muitos que são chamados – dos que sobrevivem, são mais prováveis aqueles que são também os mais bem sucedidos na luta que movem contra si mesmos, contra a sua própria saúde: os que estão mais aptos a lidar com seguidas noites de insônia, com crises severas de ansiedade e de abatimento, os que estão mais aptos a suportar jornadas de 14 horas diárias (sem finais de semana) e em que é muito difícil separar, minimamente, domesticidade e trabalho… Enfim, um rosário de autoflagelação a ser debulhado segundo a segundo, minuto a minuto, sem interrupções e sem tempo pra acabar, com confiança cega e resignação animal. (Ah, está bem, tem também, nisso tudo, uns intervalinhos de consumo conspícuo no Caribe, que ninguém é de ferro…)

O fetiche máximo do capital – extrair mais-valor do valor em um circuito sem desvios – já tem a sua encarnação em forma humana (será mesmo humana?), mesmo que sua realização completa seja uma impossibilidade. Mas e se a garotada do “occupy” se deliciasse um pouco menos com fantasias de forca e de guilhotina e – recusando o seu próprio delírio de vingança – passasse à dissecação fria e cuidadosa (e que, afinal, tem também o seu quinhão de prazer) destes outros delírios, não tão visíveis, não tão palpáveis, que nos espremem cotidianamente, despojando-nos de sentidos e de finalidades? E se tratássemos de superar a figura de carne-e-osso do grande financista (e isso ele também já trata de fazer por si mesmo, mas com o uso constante de anfetaminas) na direção de seu desnudamento e de seu desmonte em lógica geral e sistemática? E se tratássemos de combater essa loucura da lógica tentando fazer com que o seu impossível continue a ser impossível – desentulhando, ao mesmo tempo, todo um horizonte de outros projetos?

Enforcar banqueiros simplesmente… Bastaria? Seria isso o suficiente para destruir também aquilo que os anima?

Rodrigo Linharez , São Paulo. 2012

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: