Utopia e Crise

2 ago

Segundo texto da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cumachama.

Utopia e crise
Afirmar que “o capitalismo faz isso ou quer aquilo” pode ser, de um ponto de vista, muito simplório. Será que atribuir-lhe essa unidade não tem algo de forçado? Afinal, em sua formação histórica, este tipo de economia tem mostrado que é tudo, menos monolítico e repetitivo. Estou de acordo com isso, em parte.

Nós nos acostumamos hoje a falar sempre em “os capitais” – o industrial, o financeiro, a fração industrial cujos interesses estão ligados mais ao mercado interno, a outra fração que é mais afim com as dinâmicas globais… Ganhamos muito com esse tipo de análise, muito mesmo – também concordo com isso. Só que eu acho que existem coisas mais íntimas que devem ser arrancadas à força do empírico – que ele deve ser colocado contra a parede e deve ser obrigado a desmentí-las ou a confessá-las. Ou, para usar de uma metáfora menos violenta e mais polida, deveríamos submetê-lo, o empírico, a uma escuta psicanalítica cuidadosa, convidando-o a deitar-se em nosso divã e prestando atenção aos sinais que, normalmente, passariam despercebidos. E, pra isso, é necessário dirigir-se a “ele” assim mesmo, no pronome pessoal, na terceira pessoa do singular.

Devemos continuar a pensar em tendências em curso, em projetos e em conflitos em curso, claro, mas é preciso – inclusive para que o desdobrar dessas tendências e desses projetos seja menos confuso pra nós – devemos também pensar em “vontade”, em utopias não realizadas. E qual a utopia desse tipo de economia, qual o seu impossível desejado, qual a sua vontade? Que é esta coisa a respeito da qual é tão difícil ouvir falar de modo direto e unívoco (como são também, muitas vezes, as nossas próprias vontades)?

A utopia desse tipo de economia, me parece, é o deserto sob o céu teológico (uma distopia portanto). Um mundo sem gente, sem ritmos climáticos e sem ritmos biológicos. Mas é um vazio que está contido e é circundado pelo movimento abstrato do valor mercantil, que aprendeu a fecundar-se a si próprio, a crescer e reproduzir sem interferência externa alguma. É um pouco pior que o sadismo divino do Velho Testamento. Enviou-se o dilúvio mas, neste caso, nenhum Noé foi chamado.

Existe uma anedota clássica. O sujeito passa todo o seu tempo sonhando com o dia em que sua esposa vai abandoná-lo, ou com dia em que ela morrerá – porque assim ele poderá, finalmente, dedicar-se com exclusividade aos carinhos e afetos da mulher que é a sua amante. Quando isso acontece, quando ele se vê livre dos embaraços com a antiga esposa, descobre porém que não quer mais estar com a sua antiga amante. Que não a deseja como imaginava desejar.

Se você perguntar, ainda hoje, a um teórico crítico (mas, digamos, um tanto ortodoxo): qual é, afinal, a vontade mais selvagem, a utopia máxima do tipo de economia em que vivemos? Como são as feições da mulher que este sistema ama? Ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho. Pode ser que você faça essa pergunta a um teórico mais apimentado – e ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho que, no entanto, só sobrevive graças à superexploração, graças à exploração espoliativa que é praticada principalmente em sua beirada, mas também, eventualmente, no seu próprio núcleo.

Algo mudou. Bastou o capitalismo realmente conseguir povoar o mundo com fábricas e universalizar a exploração (morreu a esposa, eis a amante!) – e, subitamente, percebemos que a vontade do sistema não é aquilo que achávamos que fosse – ou aquilo que, talvez, “ele” mesmo achava que fosse. Não é a amante. A distopia do capitalismo tardio não é uma coisa nem outra – é simplesmente o nada. O seu movimento é niilista: uma circularidade descarnada e sem atritos, uma autorreferência perfeita, uma tautologia elementar. Uma forma vazia. Isso os neoliberais nos demonstraram, cuidadosamente, ao promoverem a desregulamentação dos mercados e a globalização das finanças.

Mas, uma coisa é perguntar qual é a vontade da economia, outra é perguntar a respeito de sua realização, do tornar-se mundo dessa vontade. Conciliações são necessárias: a exploração não acaba e o discurso da desindustrialização (a economia industrial teria sido deslocada por uma economia de serviços), em grande medida, só pretende tornar mais confuso o fato de que a indústria, em busca de lucros de exploração mais substanciosos, se redistribui geograficamente e reorganiza os seus fluxos. Infelizmente. E nem tanto pra nós, como para o proprio capital – que desejaria mesmo evadir-se logo dessas concretudes sujas e elevar-se de uma vez em essência etérea e pura.

Agora, quanto desta crise econômica não seria explicado (e bem explicado) pela tentativa programática da realização da utopia destrutiva de uma economia que se quer autorreferencial e tautológica?

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