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Colaboracionismo

7 maio

O melhor tratamento para lucidez é a lobotomia.

Mais cedo ou mais tarde, eles vão lhe pegar. Tenha certeza disso. E a parte mais triste é que farão isso com sua colaboração direta.

Algum tempo atrás, após mais uma daquelas reuniões estapafúrdias do PSOL – em que se discute a conquista do universo pela manhã e a melhor maneira de derrotar trotskistas no período da tarde – fui tomar um café com um amigo. Neste caso, amigo é pouco. Além do afeto que sinto pela pessoa em questão, há o fato de tratar-se de uma das duas pessoas, sobre a face do planeta, que respeito intelectualmente. Pessoa viva, de carne e osso, ao meu alcance. O Marx, o Weber e o Durkheim, portanto, não contam. Enfim, um grande amigo, um grande cérebro e uma capacidade de análise crítica muito acima da média. Café vai, café vem e um debate sem fim sobre a tal da revolução, que teima em não chegar. O problema é a militância estéril? A dificuldade de diálogo com as massas? A inesgotável capacidade de autorreforma do capitalismo? Muito trabalho alienado combinado com muito fetiche da mercadoria? Tudo isso junto? Lá pelas tantas, com uma contribuição da antropologia, chegamos à conclusão de que falta criarmos uma “hermenêutica socialista”. Ou uma hermenêutica do socialismo ou, ainda, uma hermenêutica da militância socialista. Nesse contexto, hermenêutica remete à antropologia interpretativa do amável antropólogo norte-americano Clifford Geertz e seu conceito de descrição densa. Arredondando horrores, Geertz achava que o trabalho de campo deveria ser pautado pela construção de descrições contextualizadas da cultura alheia. Enxergar a cultura do aborígene como um texto que não podemos/devemos/conseguimos ler de forma direta. Desse modo, nos apoiamos sobre os ombros nativos e ficamos ali lendo, de rabo-de-olho, o que sua cultura escreve. Tal exercício é difícil na medida em que culturas são complexos articulados de símbolos que comportam múltiplos significados. Mas, simplificando tudo e voltando ao café com o amigo, a ideia era a de que, para além da análise das grandes estruturas de dominação, precisamos entender como as pessoas lidam com o modo de produção capitalista em seu cotidiano. Sentem-se exploradas? Por que diabos um pobre da periferia profunda, sua vítima preferencial, insiste em votar no Maluf? Por que um nano-fazendeiro, acossado por grileiros, acha o MST uma aberração? Por que boa parte de nossa classe média, de forma tão primitiva, abomina o senhor Lula da Silva – não por questões de orientação política ou econômica, mas, ainda, pelo fato de ele não ter um diploma? Naquele café de tarde inteira, chegamos à conclusão de que um pouco de etnografia faria bem à militância pelo socialismo. Ajudaria na compreensão dessas situações tão confusas à primeira vista.

Lembrei dessas questões, não sei exatamente porque, em virtude do texto logo abaixo, de autoria de meu bom amigo Guilherme. O carnaval é um daqueles temas caros aos antropólogos. O Roberto DaMatta acha que o festejo permite enxergar com maior acuidade as relações de poder presentes em nossa sociedade – justamente pelas inversões de papéis que o momento permite. Aquele exemplo clássico do sujeito que, ao sair para comprar o pão pela manhã, em uma terça-feira gorda, vê o patrão caído na calçada, em coma alcoólico, vestido de mulher e com um estandarte ao lado de sua mão direita em que se lê: “bloco das princesas 2012, as melhores bundas peludas do Rio”. Na quarta-feira de cinzas, é bem provável que o sujeito olhe seu patrão de forma diferente e até relativize seu sacro-poder como mandatário do escritório. Outros tantos avaliam a situação de modo diferente. No carnaval a polícia está toda na rua e se o festejo, em si, desafia a ordem do modo de produção – afinal, são cinco dias de absoluta putaria –, suas implicações estruturais não são significativas. Alguém acha que poderíamos invadir a prefeitura do Rio de Janeiro sob a alegação de que “ah, é carnaval amigo! Vamos jogar a escrivaninha do Eduardo Paes pela janela?” Creio que não. Talvez a combinação das duas análises leve a um resultado mais produtivo. O carnaval permite, de fato, um desvio de olhar. Poderia ser diferente. Poderia. A pergunta que faço é: algum dia vamos substituir o futuro do pretérito pelo futuro do presente? O sujeito que viu o patrão na calçada alguma vez pensou em chegar ao escritório, na quarta de cinzas, e dizer: “então, chefia, eu vi que o senhor é cachaceiro como eu, não é nenhum ungido de Deus para nos humilhar e agora a gente vai montar uma comissão gestora no escritório, democraticamente eleita e com mandato revogável”? Essas coisas não acontecem.

Agora, como diria Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Por que não acontecem? Não sei ao certo. O projeto de hermenêutica da militância socialista, que tracei com o amigo, não foi adiante. Talvez as pessoas não entendam que estamos presos a uma monotonia sem fim cujo único objetivo é a reprodução individual de nossa força de trabalho. Talvez estejam muito satisfeitas com sua cota de consumo. Talvez não enxerguem as formas sutis de dominação que se estabelecem em nosso cotidiano, que vão desde a catraca do ônibus, passando pela cobrança pelo consumo de água, até à imposição social para o consumo do Big Brother Brasil, vulgo BBB. Pode ser que ninguém entenda o que é trabalho alienado ou fetiche da mercadoria. E pode ser, também, que todos enxerguem o nosso modo de vida como o melhor possível – nesse ponto, algum engraçadinho, no fundo da sala, arremata: “se esse tal de comunismo é tão bom, por que lá na Rússia o resultado foi uma merda?” Aqui e ali, alguns “marginais” questionam a justiça e o equilíbrio desse estado de coisas. Posso garantir que os massacrados do Pinheirinho, os sem-terra que comem fumaça preta na beira da estrada e o menininho negro que foi expulso de um restaurante paulistano por um garçom racista têm, todos eles, algo a dizer. Mas também é fato que, até aqui, nossa sociedade não foi capaz ou não quis ou simplesmente não tentou se articular em torno de um projeto verdadeiramente emancipador. Falo do Brasil, mas os exemplos pelo mundo são inúmeros. Desde o caso norte-americano, com seu modelo de capitalismo-estado-de-natureza, até a experiência chinesa de capitalismo adornado com foices e martelos de ouro maciço. A humanidade caminha para uma imensa latrina de barbárie e, de um modo geral, ninguém dá muita pelota para as aberrações cotidianas do capitalismo. Nesse sentido, temos o exemplo neo-neocolonial europeu: “tentamos as Américas, a Índia, as ilhas do Pacífico e a África, agora vamos à Grécia”. A internet derruba governos das arábias e, em lugar de ditadores anacrônicos, teremos maravilhosas democracias liberais capitalistas – isso, lógico, se os militares entregarem o poder no Egito ou a charia, em versão hardcore, não for implementada na “nova” Líbia.

Agora que já passei pelo meu habitual catastrofismo, gostaria de chegar à motivação básica deste texto. Aquilo que produziu o “clique”. Pessoal, qual o nosso papel nisso tudo? Nós, militantes de verdade ou mentirinha, intelectuais idem, pessoas críticas, de boa formação e que acreditam não compactuar com esse grande amontoado de absurdos? Bem, nós fazemos parte disso, de um modo ou de outro. Há aqueles que fazem a crítica bem-comportada, nos bancos da biblioteca. Pode ser agressiva no último, mas fica lá, quietinha, na biblioteca. Também há boa quantidade de militantes que se contentam exclusivamente com a militância. Os bons objetivos transformadores são postos de lado e o sujeito passa a se sentir perfeitamente confortável no quentinho da burocracia do partido/movimento/grupamento político. Dito isso, gostaria de problematizar a questão um pouco mais, citando uma frase que não é minha (mas cujo autor desconheço): “antes o cinismo que a hipocrisia”. Nossa produção intelectual rasteira pode contribuir para formação de um desavisado que leia uma tese qualquer na biblioteca. O militante burocrata pode, eventualmente, colaborar para alguma conquista pontual da sociedade. Eu ainda acho que eleger um sujeito como o Chico Alencar é algo relevante. Assim sendo, como autor de uma dissertação de mestrado e ex-distribuidor de panfletos, acho que me sinto contemplado como cínico.

Entretanto, este texto é dedicado ao enorme contingente de inocentes úteis que povoa nossa sociedade em geral e nossos círculos de amigos em particular. Aqueles todos que são obrigados a fazer o que fazem. E, de obrigação em obrigação, terminam diretores de multinacionais, consultores de empresas gigantescas, assessores de tudo quanto é gente que não presta, executivos de empreendimentos diversos, operadores da bolsa de valores e por aí vai. Pessoas que ganham mais de vinte mil reais por mês – ou que estão nesse caminho – e que sentem muita saudade dos tempos de faculdade. Gente que lembra com carinho da militância juvenil e das noites em bares imundos. Que sente muita pena do amigo que não teve sucesso na vida, que ganha pouco e tem dificuldades para comprar um par de sapatos. Indivíduos que se sentem muito mal por terem abraçado o projeto – mas que não abrem mão, de modo algum, das benesses que ele proporciona e que jamais vão arrumar um emprego para o colega fodido. Exemplos de pessoas assim, temos aos montes. O Genoíno, aquele radical do paleolítico petista, virou babá da classe média que queria um partido de esquerda mais fofinho. O Palocci, que comandava ocupações de terra em Ribeirão Preto, tornou-se “consultor” de alguma coisa que ninguém sabe o que é. O João Gordo é palhaço televisivo. O Ferreira Gullar desenvolveu alguma patologia sociológica grave. E há uma lista interminável de colegas de vida toda que estão em bons empregos, jurando que continuam críticos de tudo e todos. Ganham muito bem e se prestam a serviços plenos de imundície.

Dizem que o poder endireita a esquerda. Depende da esquerda. A grande esquerda endireita com o poder, aos pequenos esquerdistas, um iPad basta.

Não escrevo para apontar o dedo a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo. Pois minha raiva vem do fato de que meu projeto pessoal de boa remuneração ainda não foi alcançado. Eu também desejo adentrar a longa marcha da humanidade rumo ao nada. Um deserto gigantesco, pontuado por um oásis/quinhão de consumo. Uma vez ao ano, a marcha para, todos enchem seus corpos de álcool e, ensandecidos, perguntam: “por que marchamos?” A pergunta é, sempre, o prenúncio da retomada do percurso.

Conheço uma moça que passou por uma fase pessoal turbulenta. Dificuldades e tristezas da vida. O fato pitoresco é que tal fase complicada foi marcada pelo ato de furtar livros. Nunca vendeu o produto de suas ações. Pelo contrário: lia tudo e, certa vez, me presenteou com um exemplar de autor que, à época, eu precisava ler. Em suma: não furtava para entesourar, mas para consumir os textos presentes nos livros. E nunca achou que estivesse cometendo qualquer barbaridade. Afinal, eram livros. Num dia de azar, foi pega. Daí em diante, eu comecei a dizer que era um absurdo a pessoa achar que alguém se comoveria com um flagrante numa livraria bonita voltada ao público endinheirado. Que o melhor seria organizar um movimento pelo acesso aos livros, informar as pessoas, criar consciência crítica, etc. Mandamos a moça ao psicólogo. Hoje, passados alguns anos, quero dizer a ela que estava certa. Completamente. Seu gesto foi de uma sobriedade tão plena, que o único resultado razoável seria o flagrante. Vejam: vivemos em um planeta em que vendem água, comida e livros. Água, comida e livros. Você precisa de dinheiro para comprar esses três itens, que são os mais elementares para composição da dignidade humana. O último até mais que os dois primeiros. É verdade que, sem água ou comida, você vai morrer bem rápido. Mas também é verdade que só os livros vão lhe explicar porque chegamos ao desastre ético de vender água e comida. Então, numa sociedade em que os livros são postos à venda, em que a matéria fundamental para o combate à alienação precisa ser adquirida à custa de muita alienação, a única atitude razoável é o furto. E ela furtou. Passou a ser a doida irresponsável da turma. Eu contribuí decisivamente com isso e tive meu momento “inocente útil”. Todos temos, aliás: quando nos orgulhamos de trabalhar bastante; quando procuramos ofender os colegas dizendo que acordamos cedo todos os dias; quando deixamos de corar diante do salário gordo; quando aceitamos, após umas oito sessões de terapia, que “o mundo é assim mesmo”. Achamos o Cartola e o Nelson fantásticos. Mas, caso fossemos seus vizinhos, naqueles momentos de solidão ética, não deixaríamos de pensar bem alto: “mas esse vagabundo não para de beber?”

Concluindo, você vai tomar parte nisso tudo. Vai fazer muito bem pensar que foi contra sua vontade, que nada poderia ser feito e que você não vai cair na afetação adolescente de achar que pode viver da venda de poemas na Rua Augusta. O salário elevado na empresa malvada não vai passar de um efeito colateral assaz desagradável da vida em uma sociedade injusta – e o seu cérebro vai desenvolver o prazer masoquista da repetição infinita de um mantra que diz que você está nessa merda até o pescoço, mas é crítico do sistema. Aliás, uma palavra aos adolescentes. Muito se fala da depressão difusa e da rebeldia sem causa que acomete todos que passam por esse estágio da vida. Na verdade, os adolescentes se assemelham muito aos porcos de abatedouro. Estes, quando percebem o fim inescapável, ficam terrivelmente agitados e gritam de forma assustadora. O adolescente, quando percebe no que está prestes a entrar, começa a espernear e gritar. O porco, caso seus gritos comovessem o verdugo, fugiria para bem longe do abatedouro. O adolescente grita para, tempos depois, dizer que, felizmente, superou aquelas crises bestas da juventude.

E vamos marchar, todos juntos, até o próximo carnaval.

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Tonico.

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Da utilidade da antropologia

30 set

Os leitores do Cumachama devem saber que minha formação acadêmica foi orientada para antropologia. Neste Departamento da Universidade de São Paulo, vinculado ao curso de Ciências Sociais, fiz meu mestrado. Este tratava de intolerância religiosa no Brasil e das trocas simbólicas que se estabelecem entre Umbanda e Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, durante três anos, vivi entre templos e terreiros; pastores e pais-de-santo; descarregos. De forma ampla, além das agruras do campo, a experiência de tornar-me antropólogo foi, por diversas vezes, áspera. Entre a incapacidade de explicar aos meus parentes o que fazia, profissionalmente, da minha vida, e a impossibilidade de fornecer uma resposta direta aos amigos ultra-esquerdistas sobre a “utilidade disso para revolução”, muitos foram os dissabores.

Além das dificuldades de explicações a terceiros, foi particularmente penoso o processo de justificativa dessa escolha acadêmica a mim mesmo. Afinal, se a antropologia é uma ciência (?) fundada na compreensão da diferença, da cultura do outro e do modo de vida alheio, como intervir? Qual sua capacidade de atuação prática nas misérias do mundo? Volto ao meu mestrado. Por mais que tenha me esforçado para criticar a atuação perversa da IURD e seus representantes na demonização dos cultos afro-brasileiros, fui obrigado a ceder diante de certas limitações próprias ao exercício antropológico. O entendimento da cultura e das representações do outro enseja um grande esforço de contextualização e de valorização do que, em princípio, parece estapafúrdio. O antropólogo que deseja compreender manifestações fascistas, por exemplo, se dispõe a um exercício de convivência e entendimento dos valores de determinados grupos fascistas que é tanto mais doloroso quanto maior for sua discordância para com esses tais valores. Ainda pior: quanto maior a discordância, mais rico pode ser o resultado da análise. Não se trata, obviamente, de justificar um sistema de práticas e pensamentos que lavra no ódio. Tampouco de elaborar uma etnografia que termine com algo como “respeitem o sagrado direito fascista de espancar ciganos e gays”. O exercício de entendimento, porém, traz suas limitações práticas ao – neste caso, necessário – ativismo. Fica difícil entrevistar uma pessoa enquanto você a esmurra.

Pois bem, para que serve a antropologia? Para o exercício de divertimento de uma consciência que toma contato com uma cultura que, inicialmente, parecia exótica e incompreensível? Serve para catalogar índios, populações africanas, aborígenes diversos, punks, skinheads e feministas? Tenho feito essas perguntas a mim mesmo, cotidianamente. Agora que adentrei o mercado de trabalho de forma definitiva e tenho minhas 40 horas semanais de labuta, nada consome mais meus devaneios que a constituição de um plano prático e facilmente executável de “destruição do modo de produção capitalista”. Deste e de seu projeto totalitário, já tenho compreensão mais que suficiente. Exploração do homem pelo homem, vidas vazias consumidas pelo trabalho alienado, fetiche da mercadoria em doses cavalares e, o mais triste, pessoas que abraçam seus princípios com todo ardor, dedicando o melhor de suas habilidades na aquisição de algumas toneladas de um tipo peculiar de papel pintado, que dá acesso a tabletinhos de felicidade que começam com “i” – iPad, iPhone… Para essa coisa monstruosa que adquiriu vida própria e envolve a tudo, já não cabe mais muita compreensão. Cabe, antes, a formulação de um programa consistente de aniquilação. Até porque esse espírito já tem, para conosco, um programa de idêntico objetivo, muito bem montado e em pleno processo de implementação.

Refletindo sobre tudo isso e sobre minha formação acadêmica, refletindo sobre o esforço que fiz para entender umas três linhas de Lévi-Strauss, senti que havia retornado à mesa de um bar, com algum colega meu resmungando sobre a inutilidade da antropologia para o grande projeto de emancipação da humanidade. Antropologia e socialismo? Conta outra, Antonio.

No entanto, aproveitando a tal sabedoria chinesa (que nos é muito útil quando temos a combinação de uma semana ruim com a preguiça de realizar uma análise sociológica minimamente honesta), algo de útil há de sair das desventuras cotidianas. Uma série de fatos me fez ver que há um conceito fundamental da antropologia que é de utilidade inequívoca. Aliás, o tamanho de sua utilidade só é comparável à dificuldade de defini-lo de forma razoável. Trata-se da ideia de alteridade. Que seria isso? Fazendo um exercício antropológico pelo método confuso, vejamos, antes, o que não é isso. Alteridade não é transmutar-se no outro. Não é parar de comer carne porque viveu com um grupo de vegetarianos. Não é torcer pelo Corinthians porque passou uma semana na sede da Gaviões da Fiel. Alteridade também não se resume ao para-choque de caminhão do “não faça aos outros o que não deseja que façam consigo”. Não é, portanto, o exercício de tornar-se um bom moço porque conviveu com muita gente diferente. Alteridade é a complexa experiência de conviver com o outro, tatear seus valores, lidar com a diferença e seus atritos e sair dessa experiência transformado de algum modo. De preferência, pronto a oferecer um relato do que ocorreu. Trata-se de engajar-se em uma estrutura cultural e social que não é aquela com a qual tem a familiaridade do cotidiano, tentar colocar-se no lugar do outro, representar o papel do outro, chegar o mais perto possível do outro sem nele converter-se. E, dessa experiência, formular uma leitura dos valores alheios enquanto, ao mesmo tempo, lança luz sobre seus próprios valores.

Certo. E por que, exatamente, isso é útil? A mim parece útil porque a alteridade, num exercício bem realizado, clarifica as possibilidades de diálogo entre diferentes. Torna possível o entendimento do outro, de suas dores e alegrias, daquilo que lhe é importante, das possibilidades de comunicação produtiva em lugar da troca de ofensas, pedradas e tiros. Acho, enfim, que é o necessário exercício para o estabelecimento de bases de convívio mais fraternas entre distintas culturas e instituições sociais. Outro dia, enquanto assistia a um documentário sobre o ex-presidente João Goulart, ouvi do narrador uma frase que era mais ou menos assim: “a visita de Jango à China não tinha nenhuma relação com ideais comunistas, tratava-se, antes, de uma iniciativa de fraternidade entre os povos”. Acho que essa colocação resume bem toda a ideia do texto. Meu desejo primeiro, hoje, é o de aniquilar, de forma definitiva, o capitalismo. Mas, neste particular “momento antropólogo” – que bem poderia ser um momento “antropologia de ursinho carinhoso”, desejo um pouco mais de fraternidade e convivência digna.

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Acho que muitos de meus amigos ultra-esquerdistas não vão compreender nada do que foi dito neste texto. Isso é perfeitamente compreensível. Eles estavam fazendo a revolução socialista enquanto eu estava na aula ou na biblioteca.

A porta dos fundos da história

23 jan

Cleveland Williams, em luta contra Muhammad Ali (14 de novembro de 1966). Caindo no esquecimento, em muitos sentidos.

 

Todo sujeito que possui grande apreço pela auto-sabotagem ou gosta de lutas de boxe tem, invariavelmente, grande simpatia pelo perdedor. Nesse sentido, meu caso é exemplar. Pois consigo destruir minhas entrevistas de emprego em segundos e sou capaz de passar dias assistindo a antigas lutas de boxe na internet. A inspiração para este texto veio de uma semana particularmente difícil quanto à busca de trabalho e da oportunidade que tive de rever os minutos finais de “Touro Indomável” – a impecável cinebiografia de Jake LaMotta, o “Touro do Bronx”, realizada por Martin Scorsese em 1980. O próprio LaMotta, aliás, seria inspiração para dezenas de textos sobre os possíveis significados da derrota.

Isso posto, ao perdedor cabe, sempre, a porta dos fundos da história. Quando esta existe. Em muitos casos, acho que esses discípulos de Jó simplesmente se desintegram no ar e nunca mais são vistos. Como prometi que, em 2011, seria um sujeito determinado a conquistar grandes realizações, achei muito adequado que meu primeiro texto do ano fosse totalmente contrário a tal decisão. Uma de minhas grandes tradições pessoais diz respeito à implementação do exato contraditório de tudo aquilo que prometo na virada do ano. Sempre faço promessas arrazoadas e que me seriam úteis se cumpridas. Mas quem disse que vou me render tão facilmente ao sucesso?

Meu primeiro homenageado é Cleveland “Big Cat” Williams. Um grande boxeador norte-americano dos anos 1960 e 70. Tão bom que tinha seu talento reconhecido pelo próprio Muhammad Ali. Abordado por um oficial de polícia num bloqueio de trânsito, foi baleado no abdome, aparentemente sem razão alguma. Quase morreu e teve um grande número de sequelas: problemas nos rins, perda considerável do intestino delgado e danos nos nervos que afetaram sua perna esquerda abaixo do joelho, causando atrofia. Dedicou todo ano de 1965 à recuperação da saúde. Poderia ser o fim trágico da carreira de qualquer outro boxeador. Mas esse não era o caso desse rapaz forte e de apurada técnica na distribuição de sopapos. Mostrando que não estava inválido para o esporte, com uma boa volta aos ringues, foi escalado para uma luta pelo título dos pesados contra o próprio Ali. Este, famoso por suas fanfarronices, declarou: “Cleveland é um lutador muito bom, que respeito. Por isso vou derrubá-lo no terceiro round”. O cenário era perfeito para criação de uma nova lenda em um cenário que as adora. A luta durou exatos três rounds. Cleveland foi soberbamente massacrado por Ali e mal conseguiu dar um soco. Nocauteado, garantiu sua entrada no rol das grandes figuras desimportantes da história.

O futebol possui não uma porta, mas gigantesco portal dos fundos. Há o famoso caso de Ditão, parrudo beque do Corínthians nos anos 1960. O defensor, paradoxalmente famoso entre os esquecidos, adquiriu o carimbo dos obscuros num lance que não faz justiça a suas notórias capacidades como zagueiro trombador. Depois de “parar” tantos atacantes de forma enérgica e determinada, foi numa disputa besta de bola, com o craque Tostão, que despontou para os rodapés das enciclopédias de futebol. Deu um chutão numa bola dividida e esta acabou por acertar a face do franzino mineiro. Véspera da Copa de 1970, o jogador cruzeirense ganhou um descolamento de retina e virou dúvida para convocação. Tudo acabou bem e o México viu Tostão em sua plenitude. Ditão, por sua vez, jaz na seção “Que fim levou?”, no portal do Milton Neves.

Ainda no futebol, há o episódio, que invento agora, de “Seu Fanucci”. Mais precisamente Vincenzo Fanucci de Oliveira, de pai calabrês e mãe portuguesa de Lisboa. Juntando tradições, era proprietário da Padaria Ibéria – cheia de azulejos com a Cruz de Malta – e palmeirense doente. Viu jogar, de Julinho Botelho a Ademir da Guia, todos os grandes craques que passaram pela Academia de Futebol. Depois disso, entre 1977 e 1992, não viu nenhum – pois eles não existiam mais pelas bandas do Parque Antártica. Xingou a mãe, a tia, todos os avós, a esposa e os filhos do Mirandinha, quando este era a risível esperança do Palestra. De tanta tristeza, foi descuidando da padaria. Azulejos gastos no chão, balcão sujo, infiltrações nas paredes, o trinco do banheiro que emperrava sempre… Em 1993, porém, Seu Fanucci voltou a sorrir. Com dinheiro de uma multinacional do leite, o clube montou um verdadeiro esquadrão. E, claro, em seu estabelecimento só entrava leite Parmalat. Contava os jogos para o título. A confiança era tanta – e tantas eram as promessas para San Gennaro – que nem se assustou muito com a derrota para o Corínthians no primeiro jogo das finais. Arrumou um ingresso de arquibancada para o segundo, com um fiel cliente italiano. Organizou a padaria, fechou o caixa, colocou uma camisa verde e, pronto para o jogo, resolveu passar pelo banheiro. Aí ficou evidente que trincos de banheiro não discriminam clientes e proprietários. Travou. Fanucci gritou, esmurrou, chutou a porta, fez o diabo. Implorou pela intervenção de São Genésio e depois xingou o santo. Nada. Encontraram o gordo uns cinco dias depois, esparramado no chão do banheiro. O legista ficou impressionado – nunca vira um infarto daquela magnitude. Ninguém publicou nada a respeito no jornal e a família vendeu a Padaria Ibéria. A plaquinha de mármore com seu nome, mal fixada no túmulo, foi roubada. Ouvi apenas uma única referência a esse personagem, após sua morte. Quando alguém apontou para a loja de materiais elétricos e disse que ali, antigamente, funcionava o mercadinho do Seu Patucci.

O último personagem deste texto é uma criança que conheci, quando também criança, no bairro da Aclimação. Eu morava na rua Mesquita e encontrava o menino todos os dias. Lembro-me dele porque tinha uma camisetinha de goleiro – não lembro o time – que usava bastante. Brincamos muitas e muitas vezes. Gostava de desenhar em paredes, desmontar relógios e tinha um pastor alemão lindo. Sua casinha, nos fundos de outra casa, era muito simpática. Tinha uma sala que, naquele tempo, era enorme. Creio que se a visse hoje acharia minúscula. Recordo de sua tristeza quando seu cachorro morreu e, também, que seu pai o levava ao Parque do Piqueri. Além do pai, tinha uma mãe e uma irmã que saía engatinhando por tudo que era canto. Em seu quarto, eu adorava invejar o lustre, com motivos infantis, que pendia do teto. Nele, uma lâmpada amarela pequenininha. Como se fosse hoje, ouço o menino dizendo: “papai colocou para eu não sentir medo do escuro”. Rememoro, enfim, o pai desse menino colocando-o para dormir e lendo histórias sobre outro menino, que não crescia nunca, de uma terra muito distante. Uma criança alegre. Mudou-se para o interior de São Paulo com a família e não mais o vi. Acho que merece citação neste texto pois desconfio, em meu íntimo, que ninguém, nunca mais, viu o menino.

Esta é minha homenagem a todos que não lembramos, que foram ignorados pela história, que caminham na obscuridade, que ganharam notoriedade na irrelevância ou aqueles que, embora não se enquadrem exatamente nesses casos, tentamos, todos os dias, apagar de nossas memórias. Parafraseando meu bom amigo Mateus, largo é o caminho do esquecimento, estreito o da (boa) lembrança.

Em causa própria

20 dez

O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem.

Guy Debord, A sociedade do Espetáculo. Capítulo I, tese 34. 1967.

 

A inspiração para este texto veio de uma frase que ouvi recentemente. Estava eu tomando um café, numa birosca do centro, quando vi um casal que parecia realizar uma daquelas discussões de relacionamento que, pelos semblantes dos envolvidos, temos certeza de que não terminará muito bem. O ponto final veio de uma frase do rapaz: “olha, Luciana, além de tudo, você tem uma série de características das quais eu fujo”. A moça pareceu um pouco espantada mas, no final das contas, despediram-se e cada um foi para seu lado. Ainda não foi dessa vez que pude presenciar uma autêntica briga amorosa num boteco da General Jardim, com direito a gritos, facadas, impropérios diversos e uma enorme poça de sangue. A cada dia que passa, convenço-me mais de que, de fato, os amores não acontecem, todos, nos anos 1930, numa viela perdida na fronteira quádrupla entre Madureira, Vila Isabel, Bixiga e o centro velho de São Paulo.

Por caminhos um tanto sinuosos, o fim bem-comportado dos jovens do parágrafo anterior me fez refletir sobre o mundo do trabalho. A frase do rapaz, sobre possíveis características indesejadas, somada aos olhos tristonhos da moça, me fez pensar sobre os motivos do rompimento. Ela não tinha tantas qualidades quanto ele gostaria: talvez não fosse muito sensual ou não tivesse uma formação intelectual muito sólida. Além disso, aquele olhar tristonho era bem típico daquelas figuras que cultivam chateações renitentes e irresolúveis: nada está bom, nunca, não é, Luciana? Gosta de sofrer e joga toda sua amargura nas costas dos outros. Poxa vida, moça! Com um pouco de esforço e dedicação, você conseguirá ter suas cotas de sucesso, realizações e alegrias. Cinema, beijos, sexo, mãos dadas, jantares e até mesmo um namoro. Deixe de ver o mundo por esse filtro cinza que não fica bem nem em filmes europeus de culto à depressão.

Acho interessantes essas recomendações. O sentimento pequeno-burguês aparece para fazer uma visita aos relacionamentos afetivos. Com um tanto de esforço e dedicação, qualquer um pode ser grande. Você começa vendendo pentes na feira, trabalha duro, umas 12 horas por dia, e vai juntando um dinheirinho. Depois aluga uma lojinha e, junto dos pentes, oferece umas miudezas: cortadores de unha, tesouras, linhas, agulhas, escovas, uns cremes vagabundos, toucas, incensos e um “muito obrigado, volte sempre”. Trabalhando em sua lojinha, 12 horas por dia, você vai conseguir juntar mais dinheiro e abrir uma loja maior, com produtos mais confiáveis. Procurando bem, o cliente vai achar até um “creme Nivea” e vai perceber, maravilhado, que o “Bazar do Odair” comprou uniformes para todos os funcionários. Nesse ritmo de 12 horas diárias, passados uns 20 anos, o Odair vai aparecer no caderno de Negócios do Estadão, como grande empresário do setor de varejo, e vai se apresentar como Silva Júnior, pois “Odair” é nome de quem não foi muito longe na vida. O repórter, malandro, vai fazer uma piada sobre isso e concluir que, qualquer que seja o nome do fulano, essa é mais uma história de sucesso empresarial. Deus ajuda quem cedo madruga e é empreendedor – com uma mãozinha do Sebrae.

No capitalismo flexível, esse mito pequeno-burguês aparece renovado. Você não precisa mais abrir uma lojinha e depois uma loja e depois uma lojona e depois comprar um montão de lojas. Provavelmente, lá pela terceira loja você será obrigado a abrir o capital da empresa ou pensar num modelo de franquias… Além disso, nos dias atuais, o mundo corporativo possui outras opções. O sujeito abre uma empresa/pessoa jurídica de um homem só – pois carteira de trabalho assinada é tema de ficção científica – e passa a prestar serviços para um grande conglomerado que produz sabe-se lá o que, em cidades bem miseráveis do interior da Tailândia. Ano após ano, trabalhando 12 horas por dia, vestindo a camisa da empresa e batendo as mais improváveis metas, chegará ao posto de vice-presidente-de-novos-mercados-e-gestão-de-mídias-inovadoras. Aparecerá no caderno de Negócios do Estadão como um sujeito que começou digitando formulários na empresa e, graças à muita dedicação e espírito proativo, tornou-se um executivo reconhecido por sua competência.

Os dois exemplos citados acima renderiam ótimas histórias de superação pessoal. Eu ainda vou criar uma série chamada “Rocky, um Empreendedor”. Acho que a Globo reprisaria à exaustão.

Nosso modo de produção valoriza muito a cultura da vitória, do sucesso e da realização. Creio não ser interessante que as grandes massas exploradas de trabalhadores percebam a situação na qual se encontram. Esse modelo deve permanecer envolto em grossas camadas de fetiche – inapreensível, em suas consequências, para essas massas. A exclusão, a desigualdade, a violência, a pobreza e a miséria, nenhum deles deve ter origem social/sistêmica, o modo de produção deve ser considerado justo e a vitória, seja ela qual for, deve depender exclusivamente do esforço pessoal de cada indivíduo. Em alguns lugares o direito à “busca da felicidade” está garantido na constituição. E, ora, se você tem o direito à busca da felicidade e não consegue encontrá-la, é responsável direto por tal fracasso.

No capitalismo, seja ele fordista ou flexível, o que é o fracasso? O fracasso resulta de uma combinação de fatores: pouco esforço, decisões erradas, ausência de iniciativa, falta de criatividade, recusa ao sacrifício e/ou incompetência. Todos esses elementos repousam sobre uma base moral: o Estado não lhe negou direitos e a sociedade não é desigual, foi você que dormiu demais – porque ficou na farra –, perdeu o horário e agora vai para o inferno (ou o fracasso, que é a mesma coisa).

Acho interessante notar como as pessoas não compreendem uma série de fatos óbvios. Que vencedores geram perdedores e que, em muitos casos, nem todo esforço do universo vai resultar em sucesso. A mobilidade social não é tão ampla, não é garantida constitucionalmente e não está escrito em lugar algum que será sempre ascendente. Uma oscilação mais dramática desse ser chamado Mercado, um furacão, um plano econômico exótico ou uma doença que não é coberta pelo plano de saúde e bau-bau, fio. Num Estado de Bem-Estar Social (e ele merece as maiúsculas), as chances são melhores. Num país que faz de tudo para rejeitar a universalização da saúde, bem piores. Mas não há garantias em ambos. O modo de produção capitalista é como aquele sargento do exército americano que sempre aparece nos filmes da sessão da tarde. Não importa qual a sua resposta, ela sempre estará errada.

Fiquei a pensar em Luciana e no fora que levou, por ter uma série de características das quais o sujeito foge. Também pensei nas propagandas de cerveja, na novela das oito, nos filmes da sessão da tarde, na Revista Capricho, na Playboy, nos casais que vão ao Shopping Center e no programa da Hebe. Todos alegres, contentes, de bem com a vida, buscando realizações, querendo crescer na vida, em ambientes que a tristeza não adentra e em situações em que o sucesso sempre está presente. Rapazes sorridentes com moças bonitas. Não há um alcoólatra, um depressivo, um sujeito tristonho, ninguém tem “síndrome do pânico”, não há uma pessoa com um dedo faltando, uma perna torna ou que seja vesgo. Não há suor nem secreções diversas, todos acabaram de sair do banho. Um mundo de pessoas que se cuidam, tem uma alimentação balanceada, não consomem cigarros e que, vez por outra, provam um ou dois copos de um ótimo tinto francês. Sejam bons livros ou obras de auto-ajuda, todos acabaram de ler alguma coisa muito interessante. Um mundo de gente branca, bem cuidada, heterossexual. Todos com uma vida amorosa bem estruturada, com parceiros da melhor qualidade. Famílias felizes, namoros alegres, sempre um passeio no parque, numa tarde de domingo.

O meu ponto, neste texto, é o seguinte: esse cenário afetivo asséptico, sempre presente em filmes, propagandas e programas duvidosos é a encarnação do sentimento pequeno-burguês no campo afetivo. Assim, com um tanto de esforço, cuidado e dedicação, acordando cedo, vendendo pentes e trabalhando 12 horas por dia, qualquer um pode ter o seu grande amor, caminhar de mãos dadas na praça e viver feliz para sempre. O tristonho, o fracassado, o infeliz e o tal do “loser” são, todos eles, personagens que se negam, de forma sistemática, a enfrentar seus problemas, gostam de sofrer e recusam o caminho árduo, porém seguro, que leva ao final feliz. Sabe qual o problema da Luciana?A Luciana não quer ser feliz. A Luciana quer chafurdar na tristeza. A Luciana não quer empreender o necessário esforço pessoal que garante o sucesso na busca pela felicidade. Todos sabemos que a felicidade depende exclusivamente do empenho pessoal, não é mesmo?

O homem que progride pelo próprio esforço pode progredir no mundo dos negócios, no campo afetivo e onde mais desejar. Deus ajuda quem cedo madruga e, trabalhando firme, não há como fracassar. O namoro desfeito é a derrota daquele que não se dedicou de modo suficiente à busca do final feliz.

O sentimento pequeno-burguês que impregna a maneira pela qual enxergamos o modo de produção parece impregnar, também, nosso modo de entender o campo afetivo. Procure um bom parceiro, uma pessoa que queira evoluir, transformar-se. Procure a melhor pessoa possível na gôndola desse mercadão humano. Muito cuidado com o bêbado, o amargurado e o feio. Procure, finalmente, aquele ser que quer empreender afetivamente. E muito cuidado com aqueles que dão trabalho. Não dê ouvidos ao tímido, ao ranzinza, ao rancoroso, ao amargurado, ao feio, ao chato, ao demasiado pacato, àquele que quer passar férias em Itajubá, que almoça no boteco da esquina, que se satisfaz com pouco, que não se veste tão bem, que fica feliz com três livros, quatro discos e uma bicicleta. Você merece, sempre, o melhor: aquele que quer mais, deseja ir mais longe, tem a fibra de um boxeador, é inteligente como Einstein, tem o gosto musical de um Mahler, vende tão bem quanto o Abílio Diniz, recebe trozentos mil reais por mês, possui um plano de carreira bem estruturado… Encontrando esse ser, você terá sido vitorioso em sua busca pela felicidade, terá rejeitado o fracasso e poderá se orgulhar de uma vitória afetiva obtida à custa de muito esforço e muita dedicação pessoal.

Neste instante, sinto vontade de dizer ao moço da Luciana o seguinte: nem todos ficarão ricos e nem todos encontrarão esse grande amor. Porque a pessoa que descrevi acima não existe. O modo de produção é injusto e muitos ficarão para trás, sempre. No campo afetivo, esse conjunto de imagens bizarras de uma pseudo-felicidade nos impede, cotidianamente, de encontrar a pessoa que nos trará alguma satisfação. Pessoa ou pessoas, pois ainda não tenho opinião formada sobre a poligamia. Compramos um modelo mentiroso que diz que o acúmulo de esforço resulta em riqueza. E agora abraçamos um outro modelo, igualmente mentiroso, que diz que a combinação da boa escolha com muito esforço também resultará em amor de conto de fadas. Mas podem acreditar: quase ninguém vai sair desta rico e ninguém vai encontrar uma porcaria de um príncipe num alazão branco.

Está bastante claro que este é o texto de um “nerd” que tem, por hábito, ruminar aborrecimentos. Também pode-se concluir que ele está desempregado e sem um único centavo no banco. Não se trata, porém, de uma recusa das responsabilidades individuais – minhas ou de quem lê este texto. Acredito que escolhas são possíveis, pode-se acertar mais ou menos. Em última análise, cabe, a cada um, decidir se quer o picadinho ou a calabresa. Não me venha culpar o sistema caso você tenha matado seu canário de estimação num acesso de fúria porque não passou de fase num jogo de computador. Mas é de espantar que ninguém repare no fato de que os muitos modelos e estruturas que regem nossas vidas nos impõem um sem-número de restrições. Que estão e estamos nos colocando em caixas cada vez menores e mais apertadas. Que nem todo esforço individual é capaz de dar conta de certas situações. Que nem todos ficarão ricos. Que quase todos tem um olho caído, uma amargura secreta, um pé torto, algumas dezenas de dias ruins e que todos acordam com mau hálito. Ainda ontem, fiquei a me perguntar sobre o que poderia ser útil na busca pelo socialismo. Acho que um bom passo seria encontrar um modo infalível de assassinar o espírito empreendedor pequeno-burguês. Agora também acho que, matando-o, poderíamos encontrar um pouco mais de alegria na vivência de nossa afetividade.

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Despeço-me com uma canção de um sujeito tuberculoso, mirrado, feio de doer, sem queixo, que não empreendeu em nada, não ficou rico, não deu uma boa vida à esposa, terminou sem sua grande paixão, que tomava porres homéricos e que morreu aos 26 anos. Quase sem qualidades, tinha uma certa habilidade como compositor. Fez uns 300 sambas. Definitivamente, um péssimo partido. Daqueles a que você recorre só quando acabou de ganhar um belíssimo par de chifres. Mas fique tranquilo, o rapaz é muito generoso.

 

“Quereres”

21 nov

 

Favela de Paraisópolis e prédios de luxo, no Morumbi. A segregação se dá através do muro do condomínio de luxo. E a gente a-d-o-r-a falar mal da cerca que separa México e Estados Unidos! FOTO: Tuca Vieira.

 

Parei de beber. No próximo mês de março, minha despedida do álcool completará 3 anos. Tonico fez sua última apresentação etílica de gala no carnaval de 2008. Foram 700 ml de cachaça por noite. E acho que esse número preciso, “setecentos”, se justifica perfeitamente: nesse ano, passei a festa de Exu em Paraty e, nessa aprazível cidade, são vendidas garrafas long-neck cheias de cana. Como eu consumia exatamente duas ampolinhas por noite, são 700 ml, na risca.

Todo santo dia, sinto muitas saudades do álcool. Eu era uma pessoa mais divertida, corajosa, alegre… Minha personalidade era mais exuberante. Sentia-me à vontade para xingar a mãe de um amigo, na mesa do bar. Quando tomava um fora de uma moça – daqueles fedidos – podia encontrar desprendimento e inconsequência suficientes para sair gritando no meio da rua, chutar a porta de uma loja chique, bater boca com um mendigo e tentar enfiar a cabeça de um amigo no espelho do banheiro. As grandes anedotas de minha vida vieram de momentos de extrema bebedeira. Como aquela vez em que passeei pelo Hospital das Clínicas com os dedos entrelaçados aos de um amigo, jurando se tratar da namorada que possuía à época.

A ausência do álcool me provoca uma série de sentimentos contraditórios. Hoje possuo muito maior acuidade para analisar quem sou. Qualidades, defeitos, potenciais, incapacidades, limitações (reais e imaginárias), etc. Tornei-me pessoa muito mais “civilizada”, gentil mesmo. Aquele sujeito que grunhia para os amigos, nos tempos de faculdade, ficou para trás. Estou reeducando minha personalidade para aprender a ser duro sem deixar de lado as boas maneiras. Aprendendo a reclamar sem gritar, transformando os pequenos ódios do cotidiano em gentilezas.

Infelizmente, esse projeto civilizatório pessoal esbarra em limites claros. Limites dados pelo mundo real. Estamos no Brasil, não na Noruega. Aspereza, agressividade e violência (verbal e física) são elementos importantes de nosso cotidiano. Nossas conversas podem descambar com facilidade para um murro no nariz ou um xingamento contra a avó esclerosada do colega ao lado. Em nossa sociedade, o jogo de corpo é tolerado e, por vezes, estimulado. Isso tudo pode soar regressivo, conservador, reacionário, para quem lê. Mas é um fato de nosso dia-a-dia. Está no comportamento do proprietário de uma mega-power-SUV que pára sobre a faixa de pedestres, no sujeito que dá uma garrafada em outro numa boate, na briga de torcidas organizadas, no deputado que enfia a mão em outro deputado, na briga do CDHU que termina em facada e por aí vai.

Ao lado dessa agressividade que permeia nosso tecido social, temos a “fofice” classe média dos “quereres”, dos desejos, sentimentos, vontades, representações, símbolos, da polifonia, polissemia, máscaras sociais, do volks-qualquer-coisa na obra de um autor alemão qualquer. Esse descolamento entre a mentalidade ursina-carinhosa de nossas classes médias educadas, instruídas e fofas e o tal do “mundo real” me causa engulhos. Ora, mas o que é o tal “mundo real”? Ele existe? Isso não é muita reificação? Respondo que é esse tipo de pergunta escabrosa, de tão ignorante, que separa a massa amorfa intelectualizada do cotidiano dos indivíduos. Em minha humilde opinião maniqueísta, as realidades das hordas de consumidores de crack, do condomínio que vive sob o Minhocão, das intermináveis favelas, dos Comandos de Amigos da Capital, das travestis tratadas como leprosas, todos elas, estão se lixando para os “quereres” e os desejos e as polissemias.

A desigualdade social no Brasil possui efeitos mais sutis que aqueles demonstrados pela relação de vizinhança entre os prédios luxuosos e a favela em Paraisópolis (zona sul de São Paulo, capital). No topo da pirâmide, há o comportamento da civilidade cínica miguxa. Dos bons modos à mesa, das viagens interiores profundas, daquele luxo de um mau gosto terrível e da erudição de galinheiro. Esse comportamento civilizado entre iguais subjaz à violência absurda e cotidiana demonstrada, pela simples segregação espacial, para com seus vizinhos. A violência do sujeito que toma seu uísque contemplando, da sacada de casa, a miséria da favela abaixo. Ou a agressividade do fulano que acha muito razoável furar um sinal vermelho pelo simples fato de estar dirigindo um Jaguar.

Na base da pirâmide, por outro lado, temos um belo conjunto de violências diárias. A discussão com o vizinho que termina em pancada, a revista da PM, o traficante que decide mandar, a surra do pai no filho… O mundo não é fofo: lembra mais um muro chapiscado.

Pode ficar a impressão de que defendo, como meta de nosso processo civilizatório, que retornemos à guerra de todos contra todos. Ou, de modo muito fascista, que a melhor maneira de resolução de todo e qualquer conflito, é o ato de chutar a boca de um colega, quando este estiver caído. Podem concluir, ainda, que sou um daqueles idiotas que acham que a miséria é linda. Que a favela é a última palavra em manifestação cultural. Que passar fome é divertido e que morar no Jardim Ângela é cult. Não, não acho nada disso razoável e acho que seriam conclusões típicas dessa classe média que ora critico. Este texto, na verdade, trata menos de processo civilizatório e muito mais sobre compreensão e entendimento. Eu sou capaz de compreender a violência das relações que se passam em ambientes de opressão ostensiva. O conflito entre quem não possui coisa nenhuma. A loucura do consumidor de crack e dos moleques de rua que se estapeiam por uma lata de cola de sapateiro. Mas me é absolutamente incompreensível o misto de formação acadêmica, cinismo e agressão dissimulada que atravessa nossa classe média. Esta que é incapaz de compreender como é cruel e violenta toda vez que um de seus representantes termina um doutorado sobre as possíveis relações entre o pensamento kantiano e o uso de roupas de plástico em raves no interior de São Paulo. Que fique claro: não me refiro às colocações grotescas dessa mesma classe média, via internet, sobre o voto dos nordestinos, nas últimas eleições presidenciais. O grotesco a que me refiro é muito mais disfarçado. A violência oculta no discurso que perdeu qualquer contato com o mundo real. A violência da espiral interminável de alienação voluntária. Como se vivessem na Noruega – onde, creio, falar de desejos e “quereres” já é atitude bem suportada por um estado de bem-estar social bastante avançado.

No que me diz respeito, preciso encontrar um modo de sobreviver sem o álcool. Mantendo a aspereza que me fazia menos cínico quando bêbado.

Mainardi, esse profeta

18 nov

Pesquisas

Nós, eleitores de José Serra, não temos tempo para responder às pesquisas, pois estamos sempre muito ocupados trabalhando para sustentar os eleitores de Dilma Rousseff, que vivem à custa do Estado brasileiro. Mas no dia 3 de outubro vamos às urnas.

SANDRO FERREIRA – sandroferreira94@hotmail.com – Ponta Grossa (PR)

Mensagem publicada na sessão de Cartas da edição eletrônica do jornal “O Estado de São Paulo” em 22/08/2010.

 

 

No início de 2007, defendi minha dissertação de mestrado. Na verdade, nem precisei defender muita coisa, pois a banca de arguição foi muitíssimo gentil. Falemos desse meu trabalho. Meu objeto de estudo foi o conjunto de relações que se estabelece entre a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e as religiões afro-brasileiras (com destaque à umbanda). Tentei demonstrar que a primeira não se restringe ao discurso de demonização das segundas. Há uma infinidade de trocas simbólicas e intensa produção de discursos para justificar tais trocas. O pastor diz que a IURD utiliza sal grosso no ritual de descarrego pois esse elemento está muito presente no imaginário dos brasileiros. Então, para facilitar o entendimento do ritual de descarrego, joguemos sal grosso na cabeça dos fiéis. O pai-de-santo, quando questionado sobre as razões que levariam um exu a aparecer no templo, tomando o corpo de um fiel, afirma, placidamente: “ah, isso aí é exu que gosta de aparecer! Eles vão até lá para fazer farra! Exu é um bicho exibido…”

Embora fascinante para um antropólogo, tal processo não se desenvolve no limbo. Ainda que as trocas simbólicas sejam muito interessantes, há o contexto da demonização. Representantes de muitas* igrejas evangélicas, com amplo acesso aos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, jornais, livros e revistas) conclamam todos os indivíduos do planeta – com ênfase naqueles cujas vidas não estão lá muito bem – a comparecer aos seus templos para que possam se livrar de maldições diversas. Grande parte destas com origem no campo religioso afro-brasileiro.

Na última década, com o recrudescimento desse proselitismo evangélico agressivo e uma maior organização das religiões afro, começaram a surgir algumas iniciativas de reação ao discurso demonizador. Aqui, amigo leitor, citando Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Essa parcela mais “aguerrida” do campo evangélico encontrou uma técnica perfeita de esquiva a toda e qualquer crítica. Acompanhemos, ponto a ponto:

1. Nosso discurso é pautado pela verdade, sempre. Nosso trabalho de evangelização tem como referência, a Bíblia. A palavra de Deus revelada através de profetas e de seu próprio filho, Jesus Cristo. Ora, se Deus Pai e Deus Filho nos dizem que o demônio está presente em todo sentimento religioso que não o cristão, quem somos nós para negar?

2. Jesus foi perseguido por trazer à Terra a palavra renovada de Deus. Ele era a encarnação da verdade e tinha a missão de divulgar a mensagem divina. Mais que persegui-lo, fomos insolentes a ponto de crucificar o filho de Deus,

3. Agora, nós, evangélicos autênticos*, divulgamos a palavra de Deus e suas vontades, de acordo com o texto sagrado, a Bílbia. Nos guiamos pelos ensinamentos de Jesus. Ora, se Jesus foi perseguido e a palavra de Deus, negada, porque os infiéis deixariam de nos perseguir? A crítica e a discordância reforçam, portanto, o manto de verdade que recobre nossa prática evangélica,

4. Denunciamos a ação do diabo, através da verdade. Os inimigos da verdade, representantes do diabo, nos atacam. Como Jesus, há 2000 anos, somos vítimas.

Que a IURD utilize tal mecanismo argumentativo de retorção, não me espanta. Na verdade, fico assustado com minha ingenuidade. Não havia notado como essa prática está disseminada em nossa sociedade. A imprensa nos fornece um exemplo bastante interessante. Ela nos traz a verdade, todos os dias. O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, a revista Veja… São todos portadores da verdade. Não de uma opinião, não de um ponto de vista, não de uma análise, possibilidade ou relativismo qualquer que o valha. Esses veículos de comunicação carregam consigo a verdade e aqueles que os atacam, inimigos da verdade, mentirosos compulsivos e ladinos, apenas reforçam, através de seus ardis e vilanias, a veracidade da verdade verdadeira presente nas páginas sinceras dessas empresas.

Essa verdade tem seus profetas e muitos se dispõem a substituir Isaías, Jeremias e Ezequiel. Diogo Mainardi, Celso Ming, Carlos Alberto Sardenberg e Arnaldo Jabor são alguns exemplos. Temos também um belo conjunto de tribos “eleitas”: os Civita, os Marinho, os Mesquita e os Frias. Todos defensores estridentes da verdade. Contra esta, o diabo forjou a mentira da regulação, o engodo do controle social e o supremo pecado do pluralismo. Neste reino bárbaro de inverdades e perdições de todo tipo, deuses, profetas e tribos são vítimas cotidianas desse tipo de blasfêmia. O que reforça a verdade de suas palavras. Aqui e ali, defensores do Bezerro de Ouro, levantam-se. Muitos deles já foram defensores da verdade. Infelizmente, perderam-se no caminho. Outro dia, ouvi dizer que o Centro de Mídia Independente e o Brasil de Fato realizam rituais satanistas – não sei se chegam ao ponto de sacrificar bodes e galinhas pretas.

A defesa da verdade chega, finalmente, aos indivíduos. Cada um com a sua verdade suprema. Num mundo guiado pelo turbo-capitalismo, nada mais adequado que um turbo-individualismo. O debate de idéias, a análise de divergências e a construção de consensos soam como elementos de seitas exóticas. No reino da flexibilidade produtiva, a busca da vitória individual, do sucesso financeiro, da carreira bem construída, do patrimônio consolidado, do cotovelaço no concorrente e da rasteira no vizinho são práticas correntes na construção das verdades individuais. Estas não concorrem com a grande verdade. São suas manifestações individuais. Todo aquele que distribui livremente sua limonada, ao invés de vendê-la, atenta contra a verdade.

Cuidado, Deus está olhando.

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Nota:

* Que fique claro e bem registrado: o campo evangélico é bastante diverso. Nem toda denominação evangélica demoniza as religiões afro-brasileiras ou possui práticas agressivas de proselitismo. Há grande variedade de práticas religiosas nesse campo: desde as mais conservadoras até outras bem progressistas. No entanto, acredito que é correto afirmar que a maior parte do campo religioso evangélico ainda possui discurso bastante agressivo para com o campo religioso afro-brasileiro.

Observação:

– Não sou a nêmesis da IURD. Toda grande religião organizada tem seus problemas. Os católicos, por exemplo, devem estar morrendo de vergonha depois do papelão eleitoral do Bento XVI. Entretanto, quanto às relações entre a IURD e o campo religioso afro-brasileiro, acho que a primeira não pode reclamar de meus comentários. Não enquanto o livro “Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios?”, de autoria de Edir Macedo, continuar a ser editado. Trata-se da demonização das religiões afro à enésima potência.

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P.S.:

– Algumas pessoas comentaram que o meu último texto parece ser uma declaração de que cheguei ao fundo do poço. Pode ser. Mas você também poderia perguntar: se o Tonico tem tanto medo de todo mundo, será que ele realmente simpatiza comigo? Como eu não sou muito fã da verdade, posso bem ser um covarde cínico.

As caixas de Antonio

16 nov

A impressão que tenho é a seguinte: ao longo de minha vida, tratei de me enfiar em caixas cada vez menores. Quando criança, vivia em uma caixa de papelão daquelas que servem para acomodar geladeiras. Hoje, sinto-me preso em uma caixinha do tamanho de um cubo mágico. Mal consigo mexer os dedos.

Eu tenho medo, medo de tudo. Acho que serei agredido de forma bárbara. Uma discussão banal sobre futebol resultará em meu completo espancamento. Tenho medo dos desconhecidos. Dos meus amigos, das minhas amigas e dos meus parentes. Acho que todos, absolutamente todos, aproveitarão a primeira oportunidade – ou o primeiro pretexto – para me esmurrar. Aqueles murros espetaculares, típicos de filmes cheios de porrada. Meu nariz vai se estraçalhar e vai jorrar sangue para todos os lados. Também tenho medo de assaltos, medo dos desconhecidos na rua, medo dos bandidos e muito medo da polícia. Sempre carreguei comigo a certeza de que terminaria meus dias preso. Por um crime que não cometi. Mas também carrego a certeza de que minhas culpas neuróticas conseguirão produzir evidências irrefutáveis, em minha consciência, de que sou culpado. Culpado, de forma inapelável, daquilo que não cometi. Tenho medo das minhas declarações de imposto de renda. Nunca soneguei um centavo de coisa alguma. Mas tenho certeza, mais uma vez absoluta, de que restará provado que sou culpado da sonegação dos centavos que não soneguei. Tenho medo de todas as mulheres, esse conceito que anda por nossas ruas e que nunca consegui compreender muito bem de que trata e como funciona. Verdadeiro pavor do asilo em que irei morar, num momento qualquer em que a idade ou meu cérebro virão a me incapacitar de vez. Medo de voltar a beber e de nunca mais beber. Quando chego à rua, espero pelo desastre que irá ocorrer e, quando retorno à minha casa, sinto-me frustrado pelo fato do desastre não haver ocorrido. Tenho medo de meus amigos. Acho que vou apanhar de uns, ser desprezado por outros e ridicularizado pelos terceiros. Medo da esquizofrenia, da malária, da filariose, do mal de chagas, da esquistossomose, da cisticercose, de diversos tipos de câncer, de todas aquelas doenças sexualmente transmissíveis que podemos adquirir caso não joguemos nosso parceiro em água fervente antes do sexo.

Eles irão me encontrar. Cedo ou tarde. E, quando esse momento chegar, vai ser horrível. Dolorido. Vão quebrar meus ossos e me submeter a torturas horrendas. Tudo isso vai ficar impresso na minha memória e, caso o desastre, a polícia, os amigos ou os inimigos não façam sua parte, o hospício o fará.

O avião vai cair, o barco afundar, o carro bater, o ônibus capotar. A comida vai estar estragada. A entrevista de emprego será um desastre. A entrevista de emprego não vai acontecer. O emprego não acontecerá. Nada acontecerá. Porque a caixa é pequena. A próxima será menor. E ainda terei outras, todas menores que as anteriores. E essas caixas vão diminuir infinitas vezes. Desafiando todos os conceitos da Física. Esta me ensinou a ter medo da nanotecnologia e das ondas de rádio e do meu celular. Todos eles serão responsáveis pelo meu câncer. Quando entrar no hospital, para tratá-lo, serei preso. Por que? Não sei. Não sei porque o avião vai cair e não sei porque ônibus capotam. Só sei que tem alguma coisa quebrada na minha cabeça. Essa coisa atrapalha tudo. Ela me convenceu, ainda muito pequeno, de que as caixas são nossas amigas. São confortáveis, nos abrigam em momentos difíceis. Não sei de onde veio essa bobagem. Odeio caixas e acho que nem deveríamos reciclá-las. Devemos enviar as caixas todas para Júpiter.

O problema, Antonio, é que você sempre arruma um jeito de ficar confortável em suas caixas. Não importa quão diminutas sejam. Você tem um dom, rapaz. E ele ainda vai acabar com você. Uma pena. Seria mais divertido ver você morrer afogado em álcool.