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Trabalho e Liberdade

8 ago

Terceiro post da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cuma. Talvez a parceria continue num futuro próximo.

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Não é verdade que a idéia de um capitalismo nadificador, de uma economia que tem o nada como sua utopia máxima, não tem serventia. Ela serve sim pra algumas coisas. O “aconselhamento filosófico”, por exemplo, que está em voga há alguns anos… Percebendo que seu ofício não lhes garantiria o sustento diário no conforto imaginado, alguns dos nossos colegas que se graduaram em filosofia – e outros, mais titulados, já nos assentos da academia e preocupados em garantir o seu no mercado editorial – dedicam-se a este novo rebento da autoajuda. Claro, não chamariam de autoajuda aquilo que fazem, isso é coisa pra fracassados e bêbados. Batizando seus livros com títulos que variam em torno do “você realmente acha aquilo que acha que acha?”, prefeririam ocupar nas livrarias um lugarzinho que eles destacariam como “literatura de autoesclarecimento”.

Bobagem, a idéia de capitalismo nadificador já cumpre esse papel.

Se você é, ou tornou-se – ou está em vias de se tornar – um social-democrata (um desses típicos, que sofre com arrotos e com problemas de gota e de indigestão, que coça o sovaco com a caneta e os ouvidos com a unha do dedo mindinho) você não vai gostar da idéia. “E as todas as conquistas civilizatórias, todas as aquisições feitas pelos últimos séculos?” – você argumentará. Se, de outro lado, você é – ainda é, continua sendo – um voluntarista que acha que tudo depende da conjuntura da luta de classes, você também não vai gostar da idéia. Todo o problema é o enfrentamento e derrota política da burguesia, certo? Se você for um conservador talentoso, erudito, um “filho-da-puta de mão cheia”, pode ser que goste de parte dela. Mas, infelizmente, gente dessa estirpe – gente cuja resignação nervosa justifica-se em um sentido profundo de tragédia, gente com quem é possível discordar e ao mesmo tempo aprender muito (e mesmo comover-se) – gente assim não existe mais. Ou talvez existam ainda, mas simplesmente desistiram, desincumbiram-se de nós. O que é uma pena. O tipinho que hoje é mais vulgar, o arremedo contemporâneo do bom e velho, do sábio conservadorismo, não saberá o que pensar da idéia de um capitalismo nadificador. Porque ele está ocupado demais estudando logaritmos e pensando como é que poderá empregá-los na sua próxima operação de especulação cambial. Ou porque passa muito tempo pensando em tatuagens e body piercing. “Foda-se. Já faço minha parte: só ando de bicicleta.” E nisso está resolvido o seu drama.

Isso tudo é previsto e esperado, a idéia cumpre bem com a sua função autoesclarecedora. (Você, leitor, certificou-se que realmente acha o que acha? É realmente um social-democrata? É realmente um revolucionário?)

Partiremos agora do que é elementar.

 Imagine-se, leitor, ali defronte à vitrine. Tente imaginar-se com toda a generosidade, você é gente, é um ser humano, e busca responder a uma necessidade sensível – busca meias para evitar o frio nos pés. Já de saída é preciso dizer: não existe tal possibilidade. Ninguém, no mercado – e no trabalho e, na verdade, em qualquer outro lugar – pode se conceber com tanta dignidade. Isso não é lícito.

Todos conhecem a narrativa do gênio da lâmpada. Um sujeito encontra casualmente uma bonita lamparina. Ao enfregar-lhe o metal com a manga da camisa, já que o objeto está todo empoeirado, sai de seu recipiente uma figura fantasmagórica. Em troca de sua liberação – esfregar o objeto foi o gesto mágico, involuntário, que a liberou essa figura – o gênio, declarando-se servo de seu libertador, promete realizar-lhe um desejo. O desejo mencionado, ao realizar-se porém, acaba se afastando muito das expectativas do sujeito desejante, chega mesmo a tornar-se um flagelo. O conto do gênio da lâmpada, em todas as suas variações, é uma narrativa de esperanças atrozmente frustradas, é a narrativa de um tripúdio cruel.

Esse sentido de sarcasmo é fundamental. A economia capitalista não trabalha para realizar desejos – não os nossos. Não trabalha nem mesmo para realizar necessidades. Os antigos talvez comprassem meias – nós compramos promessas de comunhão social na forma de meias. E se, de antemão, as expectativas sérias de realização subjetiva na comunidade já foram quase todas demolidas, pode-se dizer que nossas meias decepcionam: elas esquentam menos. E nem todo o trabalho de pesquisa em tecidos, alegado pelo fabricante, vai fazer com que estas nossas meias nos pareçam melhores. E também não adianta endereçar um pedido detalhando ao gênio qual o tipo de meia que mais te agrada (já que é na imprecisão do desejo que, nas histórias, a traquinagem do gênio se desenrola): o seu gozo já está previamente prejudicado, a sua expectativa será frustrada. Não é, na verdade, uma questão de falta de detalhes. Nem é, totalmente, uma questão de falta de densidade humana – é também uma questão de falta de mundo.

A riqueza das sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de gênios da lâmpada – e eles pesam abstratamente sobre os nossos ombros e sobre os ombros do mundo. Fracassou o trabalho como ação teleológica, fracassou o cansativo esfregar do metal com a manga da camisa – não é a nós mesmos que nutrimos com nossa produção. O resultado de nossas ações se extravia, foge pra cima, conforma uma outra vontade. Mal nos damos conta disso e agora, risonha e crescida, fazendo troça com os que ainda acreditam que podem arrancar “desenvolvimento social” do “crescimento econômico”, a fantasmagoria cogita reivindicar maior autonomia, pensa poder livrar-se de vez da lâmpada e daqueles que acham ainda que são os seu senhores. Pensa poder livrar-se do seu chão – do trabalho e dos valores-de-uso que o trabalho produz.

A história do capitalismo tardio será a história do fim do trabalho: superado pelo próprio sistema econômico no momento final da catástrofe ou transformado em alguma outra coisa, mais parecida com uma atividade cujo fim é realmente a necessidade e são realmente os desejos humanos. E nisso não poderá haver conciliação.

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Enquanto isso … na Sala da justiça….. o Ônibus Hacker

27 jul
Busão Hacker no FISL 13

Busão Hacker no FISL 13

Este textinho é um presente para um camarada meu que me pôs em contato com essa experiência massa  do Ônibus Hacker, Pedro Belasco.

Versão Beta

Sempre me espantei com os super-heróis americanos, tinham tantos poderes… e sempre os usavam para que o capitalismo voltasse a normalidade. Na cidade ou no mundo, Homem-Aranha ou Super-Homem, Batman ou Quarteto Fantástico. Todas as forças, armas e poderes para que o acúmulo de mais valia não seja ameaçado por bandidos malvados. Para a que o grande desperdício estadunidense continuasse intocado. Sempre confundiram democracia com o american way, o que além de errado, é feio, bobo e narigudo.

Estava mais que na hora de surgirem novos super-heróis tupiniquins, só que agora digitais, para se juntar aos que já lutam por um mundo justo de fato, nas trincheiras da educação, da luta por terra, por saúde. Por dignidade e distribuição de recursos, mas também contra todas as opressões que grassam o cotidiano: machismo, racismo, homofobia, entre tantas outras…

Mas são heróis diferentes, o uso central de seus superpoderes é dar superpoderes para todo mundo. Fazer com que o cidadão comum se aproprie do conjunto de aparelhos e informações que já o rodeiam e passe a usá-los de forma não escrava.

Os heróis digitais não vivem sem seus objetos, computadores, celulares, painéis de led, roteadores. Estes são o anel de poder do lanterna verde deles, a armadura do Homem de Ferro, a varinha de Harry, sem seus apetrechos são apenas pacatos cidadãos. Carregam no bolso ou nas costas a possibilidade de se comunicar com o mundo de forma diferente. Têm o poder de reconfigurar dados públicos de forma inteligível para as pessoas, de criar rádios e TVs livres, de criar coisas novas a partir de arduíno, de montar aparelhos diversos. De abrir redes e ideias.

Seu poderes são os das redes e das ondas; redes de pessoas e máquinas, ondas eletromagnéticas.

Não sabem se a melhor forma de salvar Gotham City é com Ubuntu, RedHat ou Debian – e isso gera discussões longas e divertidas – mas sabem que não é com Windows e OS.

Certo dia alguns decidiram levar essa vida de caracol mais a sério, a conchinha não seria mais uma mochila, mas sim um ônibus inteiro. Como se diz em Sampa: um busão. Acharam um site de financiamento coletivo, crowdsourcing, e em pouco tempo as ruas e redes do Brasil contavam com uma nova Sala da Justiça, mas esta ambulante, e tentando fazer justiça de fato.

Têm suas manias e línguas estranhas: Interface gráfica é para mugglers, é para noobs, legal mesmo é mexer na tela de comando, no prompt. A língua é truncada, sempre se está entre termos como kernell, VU, apt get, sudo, Tux, Puffy, BSD, TCP, entre inúmeros outros.

Quem são estes novos heróis? Tem de todos tipos, formas, cores e gêneros, homens e mulheres, meninos e meninas, de todo o Brasil

Um jovem padawan ainda, um pequeno gafanhoto, e com o super-poder de imprimir coisas em 3D! De transferir parte do que era o metier e a diferença da grande indústria para a casa de cada um. Perdeu uma peça? Não ligue para a empresa ou fornecedor ou assistência, imprima outra.

Outro herói cria rádios livres com a mesma facilidade com a qual as pessoas normais abrem documentos de word. Um tem o poder de libertar pessoas de dependência de propriedade alheia através de aplicativos multimídia livres. Outro crias redes de compartilhamento aberto em quase tempo nenhum. Uma outra ainda tem o poder criar redes em torno do Busão que o energizam, atraem pessoas para ele e, tão importante quanto, mantém o busão rodando.

Têm também seus arqui-inimigos, os que colocam a cidade e o mundo sempre em risco. O malvado Super Bill Portões e suas janelas do mal, o falecido Malévolo Esteves Trabalhos, que continua escravizando o mundo através de seus fiéis acólitos os Maçãs do Inferno.Além destes dois seres das trevas os inimigos são todos aqueles que querem fechar o mundo e a possibilidade de transformação aberta pelas novas tecnologias. Sejam estes governos, patrões, grande mídia ou qualquer um que queira transformar em propriedade aquilo que pode ser de todos.

A luta só está só iniciando. Mas já dá para saber que o bicho vai pegar mesmo quando os antigos heróis – movimentos e pessoas que querem a transformação deste sistema-mundo gerador de miséria e desigualdade – se apropriarem também deste superpoderes em sua luta. Aguardem, está só começando…

O Carnaval

22 fev

Cordão do Boitatá

O carnaval é vivido, muito bem vivido, mas não consigo, depois que ele passa, não pensar no quanto a vida toda não podia ser vivida mais assim. Como voltar às vestes quase mortuárias que uma sociedade do trabalho européia impôs a um país tropical como o Brasil? Como voltar ao não poder conhecer e beijar uma pessoa pela primeira vez em qualquer lugar da cidade e em qualquer hora do dia? Como voltar ao não falar com quem é desconhecido no cotidiano? Como voltar a rotina de trocar um tanto de trabalho por um pouco de dinheiro e com sorte um pouco de prestígio? Como voltar a qualquer situação na qual a música, a dança e o humor não ocupem a maior parte do dia?

O carnaval não é muitas coisas, o carnaval não é a panacéia, tampouco é uma catarse que legitima por alívio as mazelas e opressões do resto do ano. O carnaval não anula – nem temporariamente – as classes, o carnaval não anula o racismo, o carnaval certamente não anula o machismo. O carnaval não é o samba, o carnaval não é o axé, o carnaval não é o frevo, o carnaval não são as fantasias, o carnaval não é a pegação, o carnaval não é um lugar, o carnaval definitivamente não é os desfiles de escolas de samba.

O carnaval não é o que as televisões mostram, pois por gênese e evolução a televisão no Brasil não consegue fazer outra coisa que não reafirmar o poder, seja ao falar trânsito matinal ou da expansão do universo, a transmissão do carnaval está inclusa nesse vício de ser da mídia brasileira. O carnaval não é a festa da carne, o carnaval não é o feriado, o carnaval não é a cerveja nem a cachaça, o carnaval não é a música. O carnaval não tem dois lados, o carnaval não tem três lados, o carnaval não tem sequer uma infinidade de lados, tampouco é fractal, o carnaval não é descritível de forma cartesiana, mas nem por isso ele não deixa de trazer algumas certezas.

O carnaval é a promessa que as relações entre as pessoas podem ser diferentes.

É o brincar com os desconhecidos ao redor; é a senhora negra e humilde sozinha na mesa ao lado com uma porção de frango a passarinho que nome aqui já não tem mais, que para por um momento para nos explicar porque os jurados não vão entender as três camadas de significado que ela vê no desfile da Unidos da Tijuca; é o sujeito com forte sotaque do sul que olha minha fantasia e brinca “- Exagerou!”; é o olhar triste da menina que diz sem palavras que quer me beijar, mas não pode no momento. É beber um pouco de confete a cada gole e não achar ruim. É a fantasia coletiva combinada com os chegados. É o humor transbordando largamente sobre as cinzas do cotidiano. É um hoje se livrando das eternas promessas, deveres e desafios que o amanhã sempre traz, é o se ver livre do tempo pela duração de um pouquinho do mesmo. O carnaval são todas as pracinhas centrais de todas as cidades do Brasil se iluminado com risos e cores, e as cores dos risos iluminam mais e são mais belas que as das fantasias.

De muitas outras maneiras o carnaval é uma daquelas coisas para as quais a linguagem humana ainda não se encontra evoluída o suficiente para colocar em estruturas de palavras, talvez nunca esteja. O carnaval é também todas aquelas entrelinhas que não se deve esmagar com palavras*

O carnaval também é – e devemos fazer com que deixe de ser – o senhor idoso catando latinhas; a menina, uma criança mesmo, vendendo balas e tiarinhas piscantes; todos os trogloditas que arrancam beijos a força; aqueles representantes que o usam para se promover; aquelas poucas marcas de bebida que impõem seu oligopólio. O carnaval são as mãos em sangue dos músicos tocando por amor, mas também as mãos em sangue de músicos tocando por pouquíssimos rendimentos. O carnaval é isso tudo apenas devido aos tempos burros, brutos e primitivos nos quais vivemos, nada disso está inscrito em sua alma. Sim, o carnaval tem alma, mais que alma o carnaval tem almas, e elas se parecem com a descoberta do corpo como fonte de prazer, com a primeira feita em que se sente uma paixão, com o rir até chorar com os amigos, e com a sensação de se ver um filho brincar com um brinquedo pela primeira vez.

Odeio, e defendo que devam ser odiadas, as frases do tipo “- Se você não fez isso você não viveu.”, ou ainda “- Se você não foi a tal lugar você não sabe o que é tal coisa.” – uma pessoa pode ser feliz sem nunca ter saído de Brasiléia, no Acre, assim como pode ter viajado o mundo todo e ser infeliz – mas apesar disso sugiro a todas as pessoas que puderem e quiserem um dia brincar o cordão do Boitatá na Praça XV no Rio. Belo, belo, beleza, parte da beleza que lutamos para trazer para o cotidiano de cada ser humano no mundo pode ser encontrada lá. É um de meus pequenos exemplos para a beleza que outros encontram cada um no lugar que esteve, e o carnaval é um sábio e generoso doador de beleza nas suas mais diversas formas.

O carnaval para mim este ano no Boitatá foi o chorar mais que de alegria, foi o chorar de beleza , pura resposta ao cordão tocando Villa-Lobos no aquece, mas foi também o chorar de tristeza ao perceber que perdia para sempre um grande amor. Até a dor mais aguda da alma o carnaval toca e confere uma beleza grave, uma beleza dolorida, que continua bela, mas é sempre dor. Encontrar e perder amores é parte constituinte e inextricável do carnaval.

A palavra “melhor” é sempre carregada do que é pessoal para quem a fala, é uma das palavras que mais se enrosca com a empáfia e a pedância nos desvãos do cotidiano, mas o carnaval acha um uso certeiro e absoluto para ela, o carnaval do Brasil é o melhor do mundo.

Como não ficar obstinadamente a pensar em como fazer com que o dia-a-dia seja um pouco mais como o carnaval? Como não ponderar sobre em qual tipo de sociedade isso, entre tantas outras coisas, seria possível e em como fazer para se chegar lá? Respostas há várias, e todas são coisa outra que não o que está posto.

Viva o carnaval, vivamos o carnaval!

 

* Essa frase é de Clarice.

O Videoteipe é burro

8 maio

E não só ele, o áudio que o acompanha também. Nelson Rodrigues, com completa razão, afirmava que o videotape era burro, mas por outros motivos, mais sábios e profundos. E se no que nos diz respeito o videoteipe não é burro, ao menos se pode  afirmar com muita tranqüilidade que o videoteipe na transmissão de televisão de futebol brasileira está muito burro.

É apenas senso comum, já difundido e assimilado, que nenhum sistema de inteligência ou segurança pode ser mais inteligente que o mais burro de seus operadores. Do mesmo modo nenhum sistema de transmissão de jogos de futebol pode ser mais inteligente do que o diretor de imagens designado para o jogo, do que a equipe de cobertura ou do que as diretrizes da emissora que o transmite.

Nas transmissões de jogos de hoje, a seleção de imagens que serão passadas novamente, seja imediatamente, seja no intervalo, se baseia numa visão ranheta do futebol, no qual a violência, independentemente de onde ocorra, prevalece sobre a arte sempre que esta se realizar longe do gol adversário. Sinal dos tempos talvez. O que sei é que já vi mais vezes a pancadaria gerada pro aquela brincadeira do Edilson do que uma matada de bola do Romário, num passe de 40 metros, tirando o zagueiro já na matada (Por que dominar uma bola virou “matá-la”?), também andei procurando uma jogada do Zidane no qual ele mata a bola de costas para o lado do ataque, ainda no ar vira, dá uma petecada na bola e sai jogando pro lado certo antes de tornar ao chão, não acho,  é mais fácil até encontrar para rever a violência do que belas jogadas.

Chutes a gol bisonhos, que tem até divertidas narrações específicas, e faltas violentas são repetidos ad nauseam, enquanto matadas de bola que beiram o primor e dribles que poderiam estar expostos em qualquer bienal se encaminham, resignados, para o ostracismo (uma pequena cidade em Minas Gerais). Quanto mais violenta uma falta, mais vezes esta será repetida. Talvez seja um repetição do mesmo raciocínio que leva a televisão a passar tantas vezes “Rambo” e tão poucas “O Carteiro e o Poeta”, talvez tenha um pouco do sangue que tinge os jornais enquanto as boas notícias são aninhadas no miolo dos cadernos, e com chamada discreta, talvez não tenha nada a ver. Vivemos mesmo em um mundo no qual a violência vende mais do que a arte?

Outra moda das transmissões de TV é filmar o técnico a cada sete minutos e passar cinco segundos da imagem dele esbravejando ou parado. Acabam afirmando, mesmo que subliminarmente, que se ele está gritando, então está ajudando o time, se ele está parado, então é apático. Exceção feita aos casos no qual o jogo já está ganho para alguma equipe. Além de não acrescentar dados ao telespectador, essa prática de filmar o técnico traz julgamentos errôneos sobre a competência do técnico cuja eficácia a simples menção do nome Feola* já desmente.

Quanto ao impedimento, o mesmo excesso se repete, se o lance foi óbvio, uma repetição bastaria, já se o bandeirinha errou num lance incrivelmente difícil, o time prejudicado foi “garfado”, e lá vai o lance repetido doze vezes (duas seriam mais do que suficientes), por fim, se o erro foi crasso, fica fácil de ver e uma repetição também daria conta do recado. A única solução humana para os erros em lances extremamente difíceis de impedimento seria contratar para bandeirinha somente pessoas estrábicas, e com o estrabismo divergente – a única condição humana através do qual é perfeitamente possível observar o passe e a linha de impedimento ao mesmo tempo.

Outro momento sensacional de nossas transmissões é quando a imagem, o jogo que está passando na tela e a análise tem tantas semelhanças quanto uma mitocôndria e a convenção de Genebra, ou seja, nenhuma. Sempre que o time supostamente mais fraco está ganhando ou arrancando um empate absolutamente improvável é demérito do time maior, jamais qualidade da equipe que cumpre o papel da zebra. Mesmo que as imagens mostrem exatamente o contrário, que a equipe grande está jogando um jogo normal e que o time pequeno esteja arrasando, se superando. Isso quando a equipe de transmissão não se propõe a fazer uma análise do sentido geral do jogo aos quatro minutos do primeiro tempo:

Cenas que gostaríamos de ouvir:

– E aí João, dá para afirmar que o Ibitira está mais consistente?

­Momento no qual a única análise decente seria:

– Não dá para saber José, o jogo acabou de começar.

Outra mania consolidada nas transmissões de futebol é dar emoção através da narração a um jogo que pelas imagens que vemos não a tem. Se o jogo está chato, está chato, não deveria ser um pecado apontar isso na transmissão.

No capítulo ranhetice, que é todo um mundo de visão sobre o futebol como uma coisa séria, há um único comentarista na Bandeirantes que é tão ranheta que faz todo mundo voltar para a Globo, que é justamente de onde estava se fugindo. Outra invenção moderna é o comentarista ranheta de arbitragem, o que é completamente diferente do jeito mesmo que involuntariamente divertidão , com o qual Mário Viana, por exemplo, comentava.  A regra é clara, mas os lances não, como a primeira só pode ser aplicada sobre os segundos, a frase fica absolutamente sem sentido ao invés de ficar com o sentido absoluto que pretendia.

Cenas que gostaríamos de ouvir:

-E aí Peçanha, o árbitro foi bem?

-Não sei Bigode, estava olhando os jogadores.

No universo ranheta bom é ser “guerreiro”, “lutador”, tem que levar o jogo a sério, tem que levar o adversário a sério. Nesse lugar triste, o universo ranheta, é justo dar um pontapé num jogador que está “abusando” de “jogadas de efeito”, como dribles bonitos debaixo das pernas, chapéus e dos toques de calcanhar. Um neurocirurgião tem de ser sério, um jogador de futebol tem de jogar futebol, e isto não tem nada a ver com ser sério. Quando você sinceramente começa a achar que vinte e dois marmanjos de shortinho tentando chutar uma bola num retângulo é uma coisa séria, está na hora de você parar e repensar uma série de coisas.

No universo ranheta, concentração é lei.

Ao contrário de outros profissionais bem remunerados, para os quais o que vale é o que realiza no seu horário de trabalho, no universo ranheta o que um jogador faz nas suas horas de lazer deve ser discutido e muito. O critério para um ranheta nunca é apenas o campo. Êta lugar ranzinza.

Há também um outro capítulo a parte na transmissão televisiva atual, que é o das platitudes, também conhecidas como banalidades, obviedades, senso comum, comentários sem originalidade. Só a transmissão das finais dos estaduais daria para encher um livro com falas como “jogar em casa é uma vantagem”, ou, para um time que acabou de ter um jogador expulso ou tomar o terceiro gol, “-Agora ficou mais difícil para o Pirapora!”,  ou quando está zero a zero, “O jogo está indefinido”, isso entre toda uma coleção de “Quem não faz toma”, “tem que ocupar o meio de campo”, “um gol agora é importante” etc, são vazios que preenchem lacunas. Nesse capítulo, a cena que mais gostaríamos de ouvir é:

– Um gol agora muda a história do jogo, Janir!

-Dããã Célio.

Enfim, assistir essas transmissões é um grande desafio para os ouvidos, para a inteligência e para a alma. Será que teremos que esperar o advento de um mundo mais justo para ver futebol com algum bom humor, inteligência e arte? Não, não precisamos, Milton Leite está aí para provar que é possível, mesmos nestes tempos, transmitir futebol como a bela e divertida brincadeira que é.

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*  Vicente Italo Feola – técnico do Brasil em 1958 e 1966, era acusado pela mídia de dormir no banco de reservas.

Este texto é dedicado a meu amigo Porpetta, que sofre de flamenguismo agudo.

Guilherme Flynn – Maio de 2011

A porta dos fundos da história

23 jan

Cleveland Williams, em luta contra Muhammad Ali (14 de novembro de 1966). Caindo no esquecimento, em muitos sentidos.

 

Todo sujeito que possui grande apreço pela auto-sabotagem ou gosta de lutas de boxe tem, invariavelmente, grande simpatia pelo perdedor. Nesse sentido, meu caso é exemplar. Pois consigo destruir minhas entrevistas de emprego em segundos e sou capaz de passar dias assistindo a antigas lutas de boxe na internet. A inspiração para este texto veio de uma semana particularmente difícil quanto à busca de trabalho e da oportunidade que tive de rever os minutos finais de “Touro Indomável” – a impecável cinebiografia de Jake LaMotta, o “Touro do Bronx”, realizada por Martin Scorsese em 1980. O próprio LaMotta, aliás, seria inspiração para dezenas de textos sobre os possíveis significados da derrota.

Isso posto, ao perdedor cabe, sempre, a porta dos fundos da história. Quando esta existe. Em muitos casos, acho que esses discípulos de Jó simplesmente se desintegram no ar e nunca mais são vistos. Como prometi que, em 2011, seria um sujeito determinado a conquistar grandes realizações, achei muito adequado que meu primeiro texto do ano fosse totalmente contrário a tal decisão. Uma de minhas grandes tradições pessoais diz respeito à implementação do exato contraditório de tudo aquilo que prometo na virada do ano. Sempre faço promessas arrazoadas e que me seriam úteis se cumpridas. Mas quem disse que vou me render tão facilmente ao sucesso?

Meu primeiro homenageado é Cleveland “Big Cat” Williams. Um grande boxeador norte-americano dos anos 1960 e 70. Tão bom que tinha seu talento reconhecido pelo próprio Muhammad Ali. Abordado por um oficial de polícia num bloqueio de trânsito, foi baleado no abdome, aparentemente sem razão alguma. Quase morreu e teve um grande número de sequelas: problemas nos rins, perda considerável do intestino delgado e danos nos nervos que afetaram sua perna esquerda abaixo do joelho, causando atrofia. Dedicou todo ano de 1965 à recuperação da saúde. Poderia ser o fim trágico da carreira de qualquer outro boxeador. Mas esse não era o caso desse rapaz forte e de apurada técnica na distribuição de sopapos. Mostrando que não estava inválido para o esporte, com uma boa volta aos ringues, foi escalado para uma luta pelo título dos pesados contra o próprio Ali. Este, famoso por suas fanfarronices, declarou: “Cleveland é um lutador muito bom, que respeito. Por isso vou derrubá-lo no terceiro round”. O cenário era perfeito para criação de uma nova lenda em um cenário que as adora. A luta durou exatos três rounds. Cleveland foi soberbamente massacrado por Ali e mal conseguiu dar um soco. Nocauteado, garantiu sua entrada no rol das grandes figuras desimportantes da história.

O futebol possui não uma porta, mas gigantesco portal dos fundos. Há o famoso caso de Ditão, parrudo beque do Corínthians nos anos 1960. O defensor, paradoxalmente famoso entre os esquecidos, adquiriu o carimbo dos obscuros num lance que não faz justiça a suas notórias capacidades como zagueiro trombador. Depois de “parar” tantos atacantes de forma enérgica e determinada, foi numa disputa besta de bola, com o craque Tostão, que despontou para os rodapés das enciclopédias de futebol. Deu um chutão numa bola dividida e esta acabou por acertar a face do franzino mineiro. Véspera da Copa de 1970, o jogador cruzeirense ganhou um descolamento de retina e virou dúvida para convocação. Tudo acabou bem e o México viu Tostão em sua plenitude. Ditão, por sua vez, jaz na seção “Que fim levou?”, no portal do Milton Neves.

Ainda no futebol, há o episódio, que invento agora, de “Seu Fanucci”. Mais precisamente Vincenzo Fanucci de Oliveira, de pai calabrês e mãe portuguesa de Lisboa. Juntando tradições, era proprietário da Padaria Ibéria – cheia de azulejos com a Cruz de Malta – e palmeirense doente. Viu jogar, de Julinho Botelho a Ademir da Guia, todos os grandes craques que passaram pela Academia de Futebol. Depois disso, entre 1977 e 1992, não viu nenhum – pois eles não existiam mais pelas bandas do Parque Antártica. Xingou a mãe, a tia, todos os avós, a esposa e os filhos do Mirandinha, quando este era a risível esperança do Palestra. De tanta tristeza, foi descuidando da padaria. Azulejos gastos no chão, balcão sujo, infiltrações nas paredes, o trinco do banheiro que emperrava sempre… Em 1993, porém, Seu Fanucci voltou a sorrir. Com dinheiro de uma multinacional do leite, o clube montou um verdadeiro esquadrão. E, claro, em seu estabelecimento só entrava leite Parmalat. Contava os jogos para o título. A confiança era tanta – e tantas eram as promessas para San Gennaro – que nem se assustou muito com a derrota para o Corínthians no primeiro jogo das finais. Arrumou um ingresso de arquibancada para o segundo, com um fiel cliente italiano. Organizou a padaria, fechou o caixa, colocou uma camisa verde e, pronto para o jogo, resolveu passar pelo banheiro. Aí ficou evidente que trincos de banheiro não discriminam clientes e proprietários. Travou. Fanucci gritou, esmurrou, chutou a porta, fez o diabo. Implorou pela intervenção de São Genésio e depois xingou o santo. Nada. Encontraram o gordo uns cinco dias depois, esparramado no chão do banheiro. O legista ficou impressionado – nunca vira um infarto daquela magnitude. Ninguém publicou nada a respeito no jornal e a família vendeu a Padaria Ibéria. A plaquinha de mármore com seu nome, mal fixada no túmulo, foi roubada. Ouvi apenas uma única referência a esse personagem, após sua morte. Quando alguém apontou para a loja de materiais elétricos e disse que ali, antigamente, funcionava o mercadinho do Seu Patucci.

O último personagem deste texto é uma criança que conheci, quando também criança, no bairro da Aclimação. Eu morava na rua Mesquita e encontrava o menino todos os dias. Lembro-me dele porque tinha uma camisetinha de goleiro – não lembro o time – que usava bastante. Brincamos muitas e muitas vezes. Gostava de desenhar em paredes, desmontar relógios e tinha um pastor alemão lindo. Sua casinha, nos fundos de outra casa, era muito simpática. Tinha uma sala que, naquele tempo, era enorme. Creio que se a visse hoje acharia minúscula. Recordo de sua tristeza quando seu cachorro morreu e, também, que seu pai o levava ao Parque do Piqueri. Além do pai, tinha uma mãe e uma irmã que saía engatinhando por tudo que era canto. Em seu quarto, eu adorava invejar o lustre, com motivos infantis, que pendia do teto. Nele, uma lâmpada amarela pequenininha. Como se fosse hoje, ouço o menino dizendo: “papai colocou para eu não sentir medo do escuro”. Rememoro, enfim, o pai desse menino colocando-o para dormir e lendo histórias sobre outro menino, que não crescia nunca, de uma terra muito distante. Uma criança alegre. Mudou-se para o interior de São Paulo com a família e não mais o vi. Acho que merece citação neste texto pois desconfio, em meu íntimo, que ninguém, nunca mais, viu o menino.

Esta é minha homenagem a todos que não lembramos, que foram ignorados pela história, que caminham na obscuridade, que ganharam notoriedade na irrelevância ou aqueles que, embora não se enquadrem exatamente nesses casos, tentamos, todos os dias, apagar de nossas memórias. Parafraseando meu bom amigo Mateus, largo é o caminho do esquecimento, estreito o da (boa) lembrança.

Voto de boas festas e bom Ano Novo do Cumachama.

31 dez

Todos os anos recebemos simpáticos e anódinos votos de boas festas e bom ano novo, que se compõem basicamente da manifestação- sincera ou não – de que no ano vindouro obtenhamos sorte, amor, felicidade, saúde, dinheiro e paz – com a variante ‘muita luta’ no caso dos amigos de esquerda. Não temos absolutamente nada contra essa iniciativa esperançosa e de boa índole, e, para nos afinarmos com o coro dos possíveis contentes, resolvemos fazer nossos próprios e detalhados votos.

O Cumachama deseja a tod@s:

Sorte

Não sabemos ao certo se é boa educação ou total falta da mesma desejar sorte a alguém, não sabemos também se em algum caso na história adiantou alguma coisa, mas como é o costume, vamos lá:

Que você tenha uma jardineira ou um jardim e que o mato nesse seja de trevos de quatro folhas

Que os corpos celestes se alinhem ou desalinhem de forma que todos os charlatões falem que isso é, por algum motivo, muito bom para você.

Que todos os que dão ao signo algum significado ouçam bons augúrios por pertencerem a um determinado dozeavo.

Que a data de seu aniversário somada ao seu endereço caia quatro vezes na megasena e que você ganhe em todas essas.

Que você ganhe sempre os brindes dos pacotes de salgadinho.

Que seu time seja campeão estadual e nacional, na divisão em que estiver, e que ganhe, estranhamente, a Copa do Brasil E a Libertadores.

Que as pessoas das quais você não gosta se mudem para Porto Velho.

Que seu chefe se ausente por meses por questões familiares.

Que o PFL/DEM se mude para a Guiana.

Lembrando que, como o Cumachama lhe desejou sorte com muito mais ênfase e pormenores que qualquer outra mensagem, todos os dividendos eventuais que vierem pura e exclusivamente da sorte, como ganhar na loto ou herdar uma fortuna, deverão ter um quinto destinado a este honrado blog.

Amor e sexo

Desejamos que você encontre a pessoa ou pessoas que façam seus hormônios e receptores químicos ribombarem mais que a bateria da Peruche.

Que a moral e as leis vigentes não atrapalhem a plena realização de seus fetiches e sua sexualidade

Desejamos amor livre a todos e a liberdade de exercer esse amor onde, como e com quem quiserem.

Que seu parceiro libere finalmente aquele desejo que há tempos você tenta emplacar.

Desejamos orgasmos múltiplos e regozijos plenos a todos.

Dinheiro

Que você tenha e ganhe dinheiro, mas não muito ao ponto de você ser tentado a usá-lo com responsabilidade, ou a se sentir desobrigado a lutar pelo país, e não tão pouco a ponto de você se sentir tentado a trabalhar para crápulas como os do grupo Abril. Lembrando que o excesso de dinheiro é quase sempre suor de pobre extraído.

Saúde

Que você tenha uma saúde boa, mas não perfeita, para que possa pegar uma gripe e passar uma semaninha lendo bons romances ao invés de trabalhar. Que a doença não venha, mas que se vier que seja uma leve que afaste do trabalho mas não das capacidades mentais, como conjuntivite ou catapora.

Que a saúde boa seja não só a sua, mas a de todos, observada antes pelo prisma da prevenção do que da assistência. Que o governo do seu estado não privatize 25% das vagas do SUS.

Trabalho

Que seu trabalho seja pouco e bom. Que seja menor em quantidade e maior em qualidade.

Que seja útil não só ao seu sustento, mas a diminuição das mazelas do mundo.

Que seja não apenas bem remunerado como gratificante e bem sucedido.

Liberdade

Que você seja livre dentro das amarras do cotidiano.

Que a internet seja livre e que a Lei Azeredo não passe.

Desejamos a todas as comunidades uma rádio livre.

Desejamos a todos uma imprensa livre de oligopólios e que permita liberdade de expressão de fato, feito que só pode ser obtido através da regulação.

Desejamos a todos software livre.

Paz

Aí é mais difícil, não haverá paz de verdade enquanto existir esse sistema de desigualdade, mas que você, citando a banda carioca, saiba qual a paz que você não quer conservar para tentar ser feliz.

Felicidade

Que você seja feliz não como o final de uma comédia romântica estadunidense, mas como uma criança que se apaixonou pela leitura e encontra uma biblioteca, e que um dia toda a humanidade possa o ser também.

Festas

Que as festas sejam boas, muito boas, e que ninguém tenha as fotos mais comprometedoras para colocar no facebook, flickr ou similares.

Esses são os votos do Cumachama.

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Começar neste ano ano que puxava para o medíocre a escrever um blog trouxe diversas alegrias, sempre que aquele comichão beliscava no fundo do cérebro, a vontade de palpitar e escrever, era só ceder ao desejo e ver no que dava, a maior parte não deu em nada, mas mesmo assim, foi bom, não foi?.

Agradecemos a todos que escreveram, leram, palpitaram, repassaram, twitaram, feicebucaram ou tiveram qualquer relação com nosso cantinho Cumachama. Ano que vem tem mais infâmias, críticas grosseiras, textos rasos, textos longos e obscuros, questões mal resolvidas, somente no seu, no nosso, no Cumachama.

Amplexos e ósculos

Guilherme – Dezembro 2010

 

 

 

Em causa própria

20 dez

O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem.

Guy Debord, A sociedade do Espetáculo. Capítulo I, tese 34. 1967.

 

A inspiração para este texto veio de uma frase que ouvi recentemente. Estava eu tomando um café, numa birosca do centro, quando vi um casal que parecia realizar uma daquelas discussões de relacionamento que, pelos semblantes dos envolvidos, temos certeza de que não terminará muito bem. O ponto final veio de uma frase do rapaz: “olha, Luciana, além de tudo, você tem uma série de características das quais eu fujo”. A moça pareceu um pouco espantada mas, no final das contas, despediram-se e cada um foi para seu lado. Ainda não foi dessa vez que pude presenciar uma autêntica briga amorosa num boteco da General Jardim, com direito a gritos, facadas, impropérios diversos e uma enorme poça de sangue. A cada dia que passa, convenço-me mais de que, de fato, os amores não acontecem, todos, nos anos 1930, numa viela perdida na fronteira quádrupla entre Madureira, Vila Isabel, Bixiga e o centro velho de São Paulo.

Por caminhos um tanto sinuosos, o fim bem-comportado dos jovens do parágrafo anterior me fez refletir sobre o mundo do trabalho. A frase do rapaz, sobre possíveis características indesejadas, somada aos olhos tristonhos da moça, me fez pensar sobre os motivos do rompimento. Ela não tinha tantas qualidades quanto ele gostaria: talvez não fosse muito sensual ou não tivesse uma formação intelectual muito sólida. Além disso, aquele olhar tristonho era bem típico daquelas figuras que cultivam chateações renitentes e irresolúveis: nada está bom, nunca, não é, Luciana? Gosta de sofrer e joga toda sua amargura nas costas dos outros. Poxa vida, moça! Com um pouco de esforço e dedicação, você conseguirá ter suas cotas de sucesso, realizações e alegrias. Cinema, beijos, sexo, mãos dadas, jantares e até mesmo um namoro. Deixe de ver o mundo por esse filtro cinza que não fica bem nem em filmes europeus de culto à depressão.

Acho interessantes essas recomendações. O sentimento pequeno-burguês aparece para fazer uma visita aos relacionamentos afetivos. Com um tanto de esforço e dedicação, qualquer um pode ser grande. Você começa vendendo pentes na feira, trabalha duro, umas 12 horas por dia, e vai juntando um dinheirinho. Depois aluga uma lojinha e, junto dos pentes, oferece umas miudezas: cortadores de unha, tesouras, linhas, agulhas, escovas, uns cremes vagabundos, toucas, incensos e um “muito obrigado, volte sempre”. Trabalhando em sua lojinha, 12 horas por dia, você vai conseguir juntar mais dinheiro e abrir uma loja maior, com produtos mais confiáveis. Procurando bem, o cliente vai achar até um “creme Nivea” e vai perceber, maravilhado, que o “Bazar do Odair” comprou uniformes para todos os funcionários. Nesse ritmo de 12 horas diárias, passados uns 20 anos, o Odair vai aparecer no caderno de Negócios do Estadão, como grande empresário do setor de varejo, e vai se apresentar como Silva Júnior, pois “Odair” é nome de quem não foi muito longe na vida. O repórter, malandro, vai fazer uma piada sobre isso e concluir que, qualquer que seja o nome do fulano, essa é mais uma história de sucesso empresarial. Deus ajuda quem cedo madruga e é empreendedor – com uma mãozinha do Sebrae.

No capitalismo flexível, esse mito pequeno-burguês aparece renovado. Você não precisa mais abrir uma lojinha e depois uma loja e depois uma lojona e depois comprar um montão de lojas. Provavelmente, lá pela terceira loja você será obrigado a abrir o capital da empresa ou pensar num modelo de franquias… Além disso, nos dias atuais, o mundo corporativo possui outras opções. O sujeito abre uma empresa/pessoa jurídica de um homem só – pois carteira de trabalho assinada é tema de ficção científica – e passa a prestar serviços para um grande conglomerado que produz sabe-se lá o que, em cidades bem miseráveis do interior da Tailândia. Ano após ano, trabalhando 12 horas por dia, vestindo a camisa da empresa e batendo as mais improváveis metas, chegará ao posto de vice-presidente-de-novos-mercados-e-gestão-de-mídias-inovadoras. Aparecerá no caderno de Negócios do Estadão como um sujeito que começou digitando formulários na empresa e, graças à muita dedicação e espírito proativo, tornou-se um executivo reconhecido por sua competência.

Os dois exemplos citados acima renderiam ótimas histórias de superação pessoal. Eu ainda vou criar uma série chamada “Rocky, um Empreendedor”. Acho que a Globo reprisaria à exaustão.

Nosso modo de produção valoriza muito a cultura da vitória, do sucesso e da realização. Creio não ser interessante que as grandes massas exploradas de trabalhadores percebam a situação na qual se encontram. Esse modelo deve permanecer envolto em grossas camadas de fetiche – inapreensível, em suas consequências, para essas massas. A exclusão, a desigualdade, a violência, a pobreza e a miséria, nenhum deles deve ter origem social/sistêmica, o modo de produção deve ser considerado justo e a vitória, seja ela qual for, deve depender exclusivamente do esforço pessoal de cada indivíduo. Em alguns lugares o direito à “busca da felicidade” está garantido na constituição. E, ora, se você tem o direito à busca da felicidade e não consegue encontrá-la, é responsável direto por tal fracasso.

No capitalismo, seja ele fordista ou flexível, o que é o fracasso? O fracasso resulta de uma combinação de fatores: pouco esforço, decisões erradas, ausência de iniciativa, falta de criatividade, recusa ao sacrifício e/ou incompetência. Todos esses elementos repousam sobre uma base moral: o Estado não lhe negou direitos e a sociedade não é desigual, foi você que dormiu demais – porque ficou na farra –, perdeu o horário e agora vai para o inferno (ou o fracasso, que é a mesma coisa).

Acho interessante notar como as pessoas não compreendem uma série de fatos óbvios. Que vencedores geram perdedores e que, em muitos casos, nem todo esforço do universo vai resultar em sucesso. A mobilidade social não é tão ampla, não é garantida constitucionalmente e não está escrito em lugar algum que será sempre ascendente. Uma oscilação mais dramática desse ser chamado Mercado, um furacão, um plano econômico exótico ou uma doença que não é coberta pelo plano de saúde e bau-bau, fio. Num Estado de Bem-Estar Social (e ele merece as maiúsculas), as chances são melhores. Num país que faz de tudo para rejeitar a universalização da saúde, bem piores. Mas não há garantias em ambos. O modo de produção capitalista é como aquele sargento do exército americano que sempre aparece nos filmes da sessão da tarde. Não importa qual a sua resposta, ela sempre estará errada.

Fiquei a pensar em Luciana e no fora que levou, por ter uma série de características das quais o sujeito foge. Também pensei nas propagandas de cerveja, na novela das oito, nos filmes da sessão da tarde, na Revista Capricho, na Playboy, nos casais que vão ao Shopping Center e no programa da Hebe. Todos alegres, contentes, de bem com a vida, buscando realizações, querendo crescer na vida, em ambientes que a tristeza não adentra e em situações em que o sucesso sempre está presente. Rapazes sorridentes com moças bonitas. Não há um alcoólatra, um depressivo, um sujeito tristonho, ninguém tem “síndrome do pânico”, não há uma pessoa com um dedo faltando, uma perna torna ou que seja vesgo. Não há suor nem secreções diversas, todos acabaram de sair do banho. Um mundo de pessoas que se cuidam, tem uma alimentação balanceada, não consomem cigarros e que, vez por outra, provam um ou dois copos de um ótimo tinto francês. Sejam bons livros ou obras de auto-ajuda, todos acabaram de ler alguma coisa muito interessante. Um mundo de gente branca, bem cuidada, heterossexual. Todos com uma vida amorosa bem estruturada, com parceiros da melhor qualidade. Famílias felizes, namoros alegres, sempre um passeio no parque, numa tarde de domingo.

O meu ponto, neste texto, é o seguinte: esse cenário afetivo asséptico, sempre presente em filmes, propagandas e programas duvidosos é a encarnação do sentimento pequeno-burguês no campo afetivo. Assim, com um tanto de esforço, cuidado e dedicação, acordando cedo, vendendo pentes e trabalhando 12 horas por dia, qualquer um pode ter o seu grande amor, caminhar de mãos dadas na praça e viver feliz para sempre. O tristonho, o fracassado, o infeliz e o tal do “loser” são, todos eles, personagens que se negam, de forma sistemática, a enfrentar seus problemas, gostam de sofrer e recusam o caminho árduo, porém seguro, que leva ao final feliz. Sabe qual o problema da Luciana?A Luciana não quer ser feliz. A Luciana quer chafurdar na tristeza. A Luciana não quer empreender o necessário esforço pessoal que garante o sucesso na busca pela felicidade. Todos sabemos que a felicidade depende exclusivamente do empenho pessoal, não é mesmo?

O homem que progride pelo próprio esforço pode progredir no mundo dos negócios, no campo afetivo e onde mais desejar. Deus ajuda quem cedo madruga e, trabalhando firme, não há como fracassar. O namoro desfeito é a derrota daquele que não se dedicou de modo suficiente à busca do final feliz.

O sentimento pequeno-burguês que impregna a maneira pela qual enxergamos o modo de produção parece impregnar, também, nosso modo de entender o campo afetivo. Procure um bom parceiro, uma pessoa que queira evoluir, transformar-se. Procure a melhor pessoa possível na gôndola desse mercadão humano. Muito cuidado com o bêbado, o amargurado e o feio. Procure, finalmente, aquele ser que quer empreender afetivamente. E muito cuidado com aqueles que dão trabalho. Não dê ouvidos ao tímido, ao ranzinza, ao rancoroso, ao amargurado, ao feio, ao chato, ao demasiado pacato, àquele que quer passar férias em Itajubá, que almoça no boteco da esquina, que se satisfaz com pouco, que não se veste tão bem, que fica feliz com três livros, quatro discos e uma bicicleta. Você merece, sempre, o melhor: aquele que quer mais, deseja ir mais longe, tem a fibra de um boxeador, é inteligente como Einstein, tem o gosto musical de um Mahler, vende tão bem quanto o Abílio Diniz, recebe trozentos mil reais por mês, possui um plano de carreira bem estruturado… Encontrando esse ser, você terá sido vitorioso em sua busca pela felicidade, terá rejeitado o fracasso e poderá se orgulhar de uma vitória afetiva obtida à custa de muito esforço e muita dedicação pessoal.

Neste instante, sinto vontade de dizer ao moço da Luciana o seguinte: nem todos ficarão ricos e nem todos encontrarão esse grande amor. Porque a pessoa que descrevi acima não existe. O modo de produção é injusto e muitos ficarão para trás, sempre. No campo afetivo, esse conjunto de imagens bizarras de uma pseudo-felicidade nos impede, cotidianamente, de encontrar a pessoa que nos trará alguma satisfação. Pessoa ou pessoas, pois ainda não tenho opinião formada sobre a poligamia. Compramos um modelo mentiroso que diz que o acúmulo de esforço resulta em riqueza. E agora abraçamos um outro modelo, igualmente mentiroso, que diz que a combinação da boa escolha com muito esforço também resultará em amor de conto de fadas. Mas podem acreditar: quase ninguém vai sair desta rico e ninguém vai encontrar uma porcaria de um príncipe num alazão branco.

Está bastante claro que este é o texto de um “nerd” que tem, por hábito, ruminar aborrecimentos. Também pode-se concluir que ele está desempregado e sem um único centavo no banco. Não se trata, porém, de uma recusa das responsabilidades individuais – minhas ou de quem lê este texto. Acredito que escolhas são possíveis, pode-se acertar mais ou menos. Em última análise, cabe, a cada um, decidir se quer o picadinho ou a calabresa. Não me venha culpar o sistema caso você tenha matado seu canário de estimação num acesso de fúria porque não passou de fase num jogo de computador. Mas é de espantar que ninguém repare no fato de que os muitos modelos e estruturas que regem nossas vidas nos impõem um sem-número de restrições. Que estão e estamos nos colocando em caixas cada vez menores e mais apertadas. Que nem todo esforço individual é capaz de dar conta de certas situações. Que nem todos ficarão ricos. Que quase todos tem um olho caído, uma amargura secreta, um pé torto, algumas dezenas de dias ruins e que todos acordam com mau hálito. Ainda ontem, fiquei a me perguntar sobre o que poderia ser útil na busca pelo socialismo. Acho que um bom passo seria encontrar um modo infalível de assassinar o espírito empreendedor pequeno-burguês. Agora também acho que, matando-o, poderíamos encontrar um pouco mais de alegria na vivência de nossa afetividade.

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Despeço-me com uma canção de um sujeito tuberculoso, mirrado, feio de doer, sem queixo, que não empreendeu em nada, não ficou rico, não deu uma boa vida à esposa, terminou sem sua grande paixão, que tomava porres homéricos e que morreu aos 26 anos. Quase sem qualidades, tinha uma certa habilidade como compositor. Fez uns 300 sambas. Definitivamente, um péssimo partido. Daqueles a que você recorre só quando acabou de ganhar um belíssimo par de chifres. Mas fique tranquilo, o rapaz é muito generoso.