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Trabalho e Liberdade

8 ago

Terceiro post da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cuma. Talvez a parceria continue num futuro próximo.

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Não é verdade que a idéia de um capitalismo nadificador, de uma economia que tem o nada como sua utopia máxima, não tem serventia. Ela serve sim pra algumas coisas. O “aconselhamento filosófico”, por exemplo, que está em voga há alguns anos… Percebendo que seu ofício não lhes garantiria o sustento diário no conforto imaginado, alguns dos nossos colegas que se graduaram em filosofia – e outros, mais titulados, já nos assentos da academia e preocupados em garantir o seu no mercado editorial – dedicam-se a este novo rebento da autoajuda. Claro, não chamariam de autoajuda aquilo que fazem, isso é coisa pra fracassados e bêbados. Batizando seus livros com títulos que variam em torno do “você realmente acha aquilo que acha que acha?”, prefeririam ocupar nas livrarias um lugarzinho que eles destacariam como “literatura de autoesclarecimento”.

Bobagem, a idéia de capitalismo nadificador já cumpre esse papel.

Se você é, ou tornou-se – ou está em vias de se tornar – um social-democrata (um desses típicos, que sofre com arrotos e com problemas de gota e de indigestão, que coça o sovaco com a caneta e os ouvidos com a unha do dedo mindinho) você não vai gostar da idéia. “E as todas as conquistas civilizatórias, todas as aquisições feitas pelos últimos séculos?” – você argumentará. Se, de outro lado, você é – ainda é, continua sendo – um voluntarista que acha que tudo depende da conjuntura da luta de classes, você também não vai gostar da idéia. Todo o problema é o enfrentamento e derrota política da burguesia, certo? Se você for um conservador talentoso, erudito, um “filho-da-puta de mão cheia”, pode ser que goste de parte dela. Mas, infelizmente, gente dessa estirpe – gente cuja resignação nervosa justifica-se em um sentido profundo de tragédia, gente com quem é possível discordar e ao mesmo tempo aprender muito (e mesmo comover-se) – gente assim não existe mais. Ou talvez existam ainda, mas simplesmente desistiram, desincumbiram-se de nós. O que é uma pena. O tipinho que hoje é mais vulgar, o arremedo contemporâneo do bom e velho, do sábio conservadorismo, não saberá o que pensar da idéia de um capitalismo nadificador. Porque ele está ocupado demais estudando logaritmos e pensando como é que poderá empregá-los na sua próxima operação de especulação cambial. Ou porque passa muito tempo pensando em tatuagens e body piercing. “Foda-se. Já faço minha parte: só ando de bicicleta.” E nisso está resolvido o seu drama.

Isso tudo é previsto e esperado, a idéia cumpre bem com a sua função autoesclarecedora. (Você, leitor, certificou-se que realmente acha o que acha? É realmente um social-democrata? É realmente um revolucionário?)

Partiremos agora do que é elementar.

 Imagine-se, leitor, ali defronte à vitrine. Tente imaginar-se com toda a generosidade, você é gente, é um ser humano, e busca responder a uma necessidade sensível – busca meias para evitar o frio nos pés. Já de saída é preciso dizer: não existe tal possibilidade. Ninguém, no mercado – e no trabalho e, na verdade, em qualquer outro lugar – pode se conceber com tanta dignidade. Isso não é lícito.

Todos conhecem a narrativa do gênio da lâmpada. Um sujeito encontra casualmente uma bonita lamparina. Ao enfregar-lhe o metal com a manga da camisa, já que o objeto está todo empoeirado, sai de seu recipiente uma figura fantasmagórica. Em troca de sua liberação – esfregar o objeto foi o gesto mágico, involuntário, que a liberou essa figura – o gênio, declarando-se servo de seu libertador, promete realizar-lhe um desejo. O desejo mencionado, ao realizar-se porém, acaba se afastando muito das expectativas do sujeito desejante, chega mesmo a tornar-se um flagelo. O conto do gênio da lâmpada, em todas as suas variações, é uma narrativa de esperanças atrozmente frustradas, é a narrativa de um tripúdio cruel.

Esse sentido de sarcasmo é fundamental. A economia capitalista não trabalha para realizar desejos – não os nossos. Não trabalha nem mesmo para realizar necessidades. Os antigos talvez comprassem meias – nós compramos promessas de comunhão social na forma de meias. E se, de antemão, as expectativas sérias de realização subjetiva na comunidade já foram quase todas demolidas, pode-se dizer que nossas meias decepcionam: elas esquentam menos. E nem todo o trabalho de pesquisa em tecidos, alegado pelo fabricante, vai fazer com que estas nossas meias nos pareçam melhores. E também não adianta endereçar um pedido detalhando ao gênio qual o tipo de meia que mais te agrada (já que é na imprecisão do desejo que, nas histórias, a traquinagem do gênio se desenrola): o seu gozo já está previamente prejudicado, a sua expectativa será frustrada. Não é, na verdade, uma questão de falta de detalhes. Nem é, totalmente, uma questão de falta de densidade humana – é também uma questão de falta de mundo.

A riqueza das sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de gênios da lâmpada – e eles pesam abstratamente sobre os nossos ombros e sobre os ombros do mundo. Fracassou o trabalho como ação teleológica, fracassou o cansativo esfregar do metal com a manga da camisa – não é a nós mesmos que nutrimos com nossa produção. O resultado de nossas ações se extravia, foge pra cima, conforma uma outra vontade. Mal nos damos conta disso e agora, risonha e crescida, fazendo troça com os que ainda acreditam que podem arrancar “desenvolvimento social” do “crescimento econômico”, a fantasmagoria cogita reivindicar maior autonomia, pensa poder livrar-se de vez da lâmpada e daqueles que acham ainda que são os seu senhores. Pensa poder livrar-se do seu chão – do trabalho e dos valores-de-uso que o trabalho produz.

A história do capitalismo tardio será a história do fim do trabalho: superado pelo próprio sistema econômico no momento final da catástrofe ou transformado em alguma outra coisa, mais parecida com uma atividade cujo fim é realmente a necessidade e são realmente os desejos humanos. E nisso não poderá haver conciliação.

Utopia e Crise

2 ago

Segundo texto da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cumachama.

Utopia e crise
Afirmar que “o capitalismo faz isso ou quer aquilo” pode ser, de um ponto de vista, muito simplório. Será que atribuir-lhe essa unidade não tem algo de forçado? Afinal, em sua formação histórica, este tipo de economia tem mostrado que é tudo, menos monolítico e repetitivo. Estou de acordo com isso, em parte.

Nós nos acostumamos hoje a falar sempre em “os capitais” – o industrial, o financeiro, a fração industrial cujos interesses estão ligados mais ao mercado interno, a outra fração que é mais afim com as dinâmicas globais… Ganhamos muito com esse tipo de análise, muito mesmo – também concordo com isso. Só que eu acho que existem coisas mais íntimas que devem ser arrancadas à força do empírico – que ele deve ser colocado contra a parede e deve ser obrigado a desmentí-las ou a confessá-las. Ou, para usar de uma metáfora menos violenta e mais polida, deveríamos submetê-lo, o empírico, a uma escuta psicanalítica cuidadosa, convidando-o a deitar-se em nosso divã e prestando atenção aos sinais que, normalmente, passariam despercebidos. E, pra isso, é necessário dirigir-se a “ele” assim mesmo, no pronome pessoal, na terceira pessoa do singular.

Devemos continuar a pensar em tendências em curso, em projetos e em conflitos em curso, claro, mas é preciso – inclusive para que o desdobrar dessas tendências e desses projetos seja menos confuso pra nós – devemos também pensar em “vontade”, em utopias não realizadas. E qual a utopia desse tipo de economia, qual o seu impossível desejado, qual a sua vontade? Que é esta coisa a respeito da qual é tão difícil ouvir falar de modo direto e unívoco (como são também, muitas vezes, as nossas próprias vontades)?

A utopia desse tipo de economia, me parece, é o deserto sob o céu teológico (uma distopia portanto). Um mundo sem gente, sem ritmos climáticos e sem ritmos biológicos. Mas é um vazio que está contido e é circundado pelo movimento abstrato do valor mercantil, que aprendeu a fecundar-se a si próprio, a crescer e reproduzir sem interferência externa alguma. É um pouco pior que o sadismo divino do Velho Testamento. Enviou-se o dilúvio mas, neste caso, nenhum Noé foi chamado.

Existe uma anedota clássica. O sujeito passa todo o seu tempo sonhando com o dia em que sua esposa vai abandoná-lo, ou com dia em que ela morrerá – porque assim ele poderá, finalmente, dedicar-se com exclusividade aos carinhos e afetos da mulher que é a sua amante. Quando isso acontece, quando ele se vê livre dos embaraços com a antiga esposa, descobre porém que não quer mais estar com a sua antiga amante. Que não a deseja como imaginava desejar.

Se você perguntar, ainda hoje, a um teórico crítico (mas, digamos, um tanto ortodoxo): qual é, afinal, a vontade mais selvagem, a utopia máxima do tipo de economia em que vivemos? Como são as feições da mulher que este sistema ama? Ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho. Pode ser que você faça essa pergunta a um teórico mais apimentado – e ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho que, no entanto, só sobrevive graças à superexploração, graças à exploração espoliativa que é praticada principalmente em sua beirada, mas também, eventualmente, no seu próprio núcleo.

Algo mudou. Bastou o capitalismo realmente conseguir povoar o mundo com fábricas e universalizar a exploração (morreu a esposa, eis a amante!) – e, subitamente, percebemos que a vontade do sistema não é aquilo que achávamos que fosse – ou aquilo que, talvez, “ele” mesmo achava que fosse. Não é a amante. A distopia do capitalismo tardio não é uma coisa nem outra – é simplesmente o nada. O seu movimento é niilista: uma circularidade descarnada e sem atritos, uma autorreferência perfeita, uma tautologia elementar. Uma forma vazia. Isso os neoliberais nos demonstraram, cuidadosamente, ao promoverem a desregulamentação dos mercados e a globalização das finanças.

Mas, uma coisa é perguntar qual é a vontade da economia, outra é perguntar a respeito de sua realização, do tornar-se mundo dessa vontade. Conciliações são necessárias: a exploração não acaba e o discurso da desindustrialização (a economia industrial teria sido deslocada por uma economia de serviços), em grande medida, só pretende tornar mais confuso o fato de que a indústria, em busca de lucros de exploração mais substanciosos, se redistribui geograficamente e reorganiza os seus fluxos. Infelizmente. E nem tanto pra nós, como para o proprio capital – que desejaria mesmo evadir-se logo dessas concretudes sujas e elevar-se de uma vez em essência etérea e pura.

Agora, quanto desta crise econômica não seria explicado (e bem explicado) pela tentativa programática da realização da utopia destrutiva de uma economia que se quer autorreferencial e tautológica?

Enquanto isso … na Sala da justiça….. o Ônibus Hacker

27 jul
Busão Hacker no FISL 13

Busão Hacker no FISL 13

Este textinho é um presente para um camarada meu que me pôs em contato com essa experiência massa  do Ônibus Hacker, Pedro Belasco.

Versão Beta

Sempre me espantei com os super-heróis americanos, tinham tantos poderes… e sempre os usavam para que o capitalismo voltasse a normalidade. Na cidade ou no mundo, Homem-Aranha ou Super-Homem, Batman ou Quarteto Fantástico. Todas as forças, armas e poderes para que o acúmulo de mais valia não seja ameaçado por bandidos malvados. Para a que o grande desperdício estadunidense continuasse intocado. Sempre confundiram democracia com o american way, o que além de errado, é feio, bobo e narigudo.

Estava mais que na hora de surgirem novos super-heróis tupiniquins, só que agora digitais, para se juntar aos que já lutam por um mundo justo de fato, nas trincheiras da educação, da luta por terra, por saúde. Por dignidade e distribuição de recursos, mas também contra todas as opressões que grassam o cotidiano: machismo, racismo, homofobia, entre tantas outras…

Mas são heróis diferentes, o uso central de seus superpoderes é dar superpoderes para todo mundo. Fazer com que o cidadão comum se aproprie do conjunto de aparelhos e informações que já o rodeiam e passe a usá-los de forma não escrava.

Os heróis digitais não vivem sem seus objetos, computadores, celulares, painéis de led, roteadores. Estes são o anel de poder do lanterna verde deles, a armadura do Homem de Ferro, a varinha de Harry, sem seus apetrechos são apenas pacatos cidadãos. Carregam no bolso ou nas costas a possibilidade de se comunicar com o mundo de forma diferente. Têm o poder de reconfigurar dados públicos de forma inteligível para as pessoas, de criar rádios e TVs livres, de criar coisas novas a partir de arduíno, de montar aparelhos diversos. De abrir redes e ideias.

Seu poderes são os das redes e das ondas; redes de pessoas e máquinas, ondas eletromagnéticas.

Não sabem se a melhor forma de salvar Gotham City é com Ubuntu, RedHat ou Debian – e isso gera discussões longas e divertidas – mas sabem que não é com Windows e OS.

Certo dia alguns decidiram levar essa vida de caracol mais a sério, a conchinha não seria mais uma mochila, mas sim um ônibus inteiro. Como se diz em Sampa: um busão. Acharam um site de financiamento coletivo, crowdsourcing, e em pouco tempo as ruas e redes do Brasil contavam com uma nova Sala da Justiça, mas esta ambulante, e tentando fazer justiça de fato.

Têm suas manias e línguas estranhas: Interface gráfica é para mugglers, é para noobs, legal mesmo é mexer na tela de comando, no prompt. A língua é truncada, sempre se está entre termos como kernell, VU, apt get, sudo, Tux, Puffy, BSD, TCP, entre inúmeros outros.

Quem são estes novos heróis? Tem de todos tipos, formas, cores e gêneros, homens e mulheres, meninos e meninas, de todo o Brasil

Um jovem padawan ainda, um pequeno gafanhoto, e com o super-poder de imprimir coisas em 3D! De transferir parte do que era o metier e a diferença da grande indústria para a casa de cada um. Perdeu uma peça? Não ligue para a empresa ou fornecedor ou assistência, imprima outra.

Outro herói cria rádios livres com a mesma facilidade com a qual as pessoas normais abrem documentos de word. Um tem o poder de libertar pessoas de dependência de propriedade alheia através de aplicativos multimídia livres. Outro crias redes de compartilhamento aberto em quase tempo nenhum. Uma outra ainda tem o poder criar redes em torno do Busão que o energizam, atraem pessoas para ele e, tão importante quanto, mantém o busão rodando.

Têm também seus arqui-inimigos, os que colocam a cidade e o mundo sempre em risco. O malvado Super Bill Portões e suas janelas do mal, o falecido Malévolo Esteves Trabalhos, que continua escravizando o mundo através de seus fiéis acólitos os Maçãs do Inferno.Além destes dois seres das trevas os inimigos são todos aqueles que querem fechar o mundo e a possibilidade de transformação aberta pelas novas tecnologias. Sejam estes governos, patrões, grande mídia ou qualquer um que queira transformar em propriedade aquilo que pode ser de todos.

A luta só está só iniciando. Mas já dá para saber que o bicho vai pegar mesmo quando os antigos heróis – movimentos e pessoas que querem a transformação deste sistema-mundo gerador de miséria e desigualdade – se apropriarem também deste superpoderes em sua luta. Aguardem, está só começando…

Devemos enforcar os banqueiros?

20 jul

Esse é o primeiro de uma série de três textos de Rodrigo Linharez, mestre em Geografia pela USP.

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Pode ser que esta minha impressão tenha algo de abusivo (já que tenho no temperamento uma espécie de desvio, uma espécie de má-formação essencial: uma contínua atração pelo caráter trágico, pelos dilemas e impasses das coisas), mas eu sinto muita falta de análises sistêmicas da crise econômica. Especialmente entre os que protestam – o pessoal dos movimentos “occupy” mundo afora – me parece, a análise mais corriqueira que fazem da crise tem muito de uma espécie de atualização do ódio medieval ao “usurário”.

Claro. Se os banqueiros e operadores da grande finança fossem submetidos a um pente fino, assim de primeira, é possivel imaginar que pouca coisa sobraria. Mas acho também que a grande dificuldade de uma limpa como essa seria definir, afinal, o que é criminoso e o que não é – e isso em um contexto em que o seu interlocutor/acusado será, muito provavelmente, um físico cujo pós-doutorado no MIT investiga, em mais de 500 laudas, um aspecto importantíssimo, mas também muito complicado e muito sutil, de determinada função matemática aplicada aos negócios com o câmbio. Um gênio do Mal jogando em casa. Bem, a lógica crime/encarceiramento, o modo como opera e como define as exclusões, como sabemos todos, é seletiva: embaixo ela funciona muito mais do que em cima…

Enfim… E esse tipo de coisa, apesar de não ser desimportante, serve demais ao diversionismo – até os Republicanos, nos Estados Unidos, fazem o discurso emocional de “cadeia para o banqueiro criminoso” e “que eles paguem o que devem e não o povo”. A questão mesmo – o lugar onde ela é capaz de se definir – é na política econômica e na capacidade de fazer política econômica.

E a questão mesmo – quando passamos da política econômica para a crítica da economia política – é que o capitalismo odeia propriedades concretas. Odeia qualitativos e despreza valores-de-uso. (E qualquer um que possua um jogo de jantar herdado dos bisavós ou tataravós – que, infelizmente, não é o meu caso – pode compará-lo com um exemplar contemporâneo e chegar a essa mesma conclusão.) O sonho deste tipo de economia, que está posto como lógica e como projeto, ainda que absurdo e impossível (mas deixemos para outra oportunidade um debate mais detido sobre a vocação suicida do capital) é extrair diretamente mais-valor do valor – e isso sem ter de se sujar, na produção, com graxa e óleo queimado! Pois é! Do que podemos inferir algo muito divertido, muitíssimo mesmo: no capitalismo o trabalho é explorado a contragosto.

Sim, seu desprezo pelos valores-de-uso é, inclusive, desprezo pela força-de-trabalho como valor-de-uso. Em sua esquisita filantropia, o capitalismo preferiria não ter de explorar. Isso é realmente muito doido… Idealmente (idealmente, quero dizer, segundo a lógica que se desdobra) o sistema deveria reproduzir-se sem ter de se imiscuir nessa complexidade toda de relações trabalhistas – e isso porque, nesta sua lógica fantástica, move-se através de categorias que desprezam concretudes, que funcionam para livrar-se delas, purgar-se delas, e que, no paroxismo, funcionariam com perfeição, deslizariam sem atrito… Só que em um mundo sem gente! (e sem ritmos climáticos, biológicos, etc., etc…)
E qual é o personagem que, no ciclo produtivo, mais se identifica com esse não-mundo que o capitalismo sonha em criar?

Claro, temos o trabalhador. Proletarização e despojamento são sinônimos. Mas este tem ao menos a esperança (ou o consolo) de que a negação que o produz também deposita nele, ao mesmo tempo, uma positividade (ou, ao menos a possibilidade de uma positividade – que é a sua capacidade potencial de recriar o mundo em novas formas). E a este não-ser resta ainda a concretude do valor-de-uso de sua força-de-trabalho.

O capitalismo cria o proletariado, mas faz o que faz com a mão no coração. Preferiria não o fazer porque gostaria de se reproduzir através de dinâmicas teológicas puras e mandar o resto ao diabo. Preferiria fazer pior. E isso é algo que somente há pouco tempo começamos realmente a vislumbrar, já que parte desse desejo secreto – traduzido pelo radicalismo neoliberal – tornou-se mundo e um dos tipos sociais que ele mais generalizou é algo que, mais uma vez, aproxima-se do paroxismo, do despojamento total: os mortos-vivos da sobrevivência no desemprego, os zumbis das exceções e das exclusões definidas pela lei, pela política e pela guerra (os detidos em penitenciárias, em campos de refugiados…).

Mas qual é mesmo o personagem que, pelo papel que desempenha no ciclo produtivo, mais se aproxima do movimento niilista da economia – e que, portanto, mais assemelha-se a um não-ser?

Uma dica: um estudo feito nas finanças em Wall Street conclui que, dos que sobrevivem à concorrência encarniçada que os grandes executivos jogam entre si – os poucos escolhidos entre os muitos que são chamados – dos que sobrevivem, são mais prováveis aqueles que são também os mais bem sucedidos na luta que movem contra si mesmos, contra a sua própria saúde: os que estão mais aptos a lidar com seguidas noites de insônia, com crises severas de ansiedade e de abatimento, os que estão mais aptos a suportar jornadas de 14 horas diárias (sem finais de semana) e em que é muito difícil separar, minimamente, domesticidade e trabalho… Enfim, um rosário de autoflagelação a ser debulhado segundo a segundo, minuto a minuto, sem interrupções e sem tempo pra acabar, com confiança cega e resignação animal. (Ah, está bem, tem também, nisso tudo, uns intervalinhos de consumo conspícuo no Caribe, que ninguém é de ferro…)

O fetiche máximo do capital – extrair mais-valor do valor em um circuito sem desvios – já tem a sua encarnação em forma humana (será mesmo humana?), mesmo que sua realização completa seja uma impossibilidade. Mas e se a garotada do “occupy” se deliciasse um pouco menos com fantasias de forca e de guilhotina e – recusando o seu próprio delírio de vingança – passasse à dissecação fria e cuidadosa (e que, afinal, tem também o seu quinhão de prazer) destes outros delírios, não tão visíveis, não tão palpáveis, que nos espremem cotidianamente, despojando-nos de sentidos e de finalidades? E se tratássemos de superar a figura de carne-e-osso do grande financista (e isso ele também já trata de fazer por si mesmo, mas com o uso constante de anfetaminas) na direção de seu desnudamento e de seu desmonte em lógica geral e sistemática? E se tratássemos de combater essa loucura da lógica tentando fazer com que o seu impossível continue a ser impossível – desentulhando, ao mesmo tempo, todo um horizonte de outros projetos?

Enforcar banqueiros simplesmente… Bastaria? Seria isso o suficiente para destruir também aquilo que os anima?

Rodrigo Linharez , São Paulo. 2012

Colaboracionismo

7 maio

O melhor tratamento para lucidez é a lobotomia.

Mais cedo ou mais tarde, eles vão lhe pegar. Tenha certeza disso. E a parte mais triste é que farão isso com sua colaboração direta.

Algum tempo atrás, após mais uma daquelas reuniões estapafúrdias do PSOL – em que se discute a conquista do universo pela manhã e a melhor maneira de derrotar trotskistas no período da tarde – fui tomar um café com um amigo. Neste caso, amigo é pouco. Além do afeto que sinto pela pessoa em questão, há o fato de tratar-se de uma das duas pessoas, sobre a face do planeta, que respeito intelectualmente. Pessoa viva, de carne e osso, ao meu alcance. O Marx, o Weber e o Durkheim, portanto, não contam. Enfim, um grande amigo, um grande cérebro e uma capacidade de análise crítica muito acima da média. Café vai, café vem e um debate sem fim sobre a tal da revolução, que teima em não chegar. O problema é a militância estéril? A dificuldade de diálogo com as massas? A inesgotável capacidade de autorreforma do capitalismo? Muito trabalho alienado combinado com muito fetiche da mercadoria? Tudo isso junto? Lá pelas tantas, com uma contribuição da antropologia, chegamos à conclusão de que falta criarmos uma “hermenêutica socialista”. Ou uma hermenêutica do socialismo ou, ainda, uma hermenêutica da militância socialista. Nesse contexto, hermenêutica remete à antropologia interpretativa do amável antropólogo norte-americano Clifford Geertz e seu conceito de descrição densa. Arredondando horrores, Geertz achava que o trabalho de campo deveria ser pautado pela construção de descrições contextualizadas da cultura alheia. Enxergar a cultura do aborígene como um texto que não podemos/devemos/conseguimos ler de forma direta. Desse modo, nos apoiamos sobre os ombros nativos e ficamos ali lendo, de rabo-de-olho, o que sua cultura escreve. Tal exercício é difícil na medida em que culturas são complexos articulados de símbolos que comportam múltiplos significados. Mas, simplificando tudo e voltando ao café com o amigo, a ideia era a de que, para além da análise das grandes estruturas de dominação, precisamos entender como as pessoas lidam com o modo de produção capitalista em seu cotidiano. Sentem-se exploradas? Por que diabos um pobre da periferia profunda, sua vítima preferencial, insiste em votar no Maluf? Por que um nano-fazendeiro, acossado por grileiros, acha o MST uma aberração? Por que boa parte de nossa classe média, de forma tão primitiva, abomina o senhor Lula da Silva – não por questões de orientação política ou econômica, mas, ainda, pelo fato de ele não ter um diploma? Naquele café de tarde inteira, chegamos à conclusão de que um pouco de etnografia faria bem à militância pelo socialismo. Ajudaria na compreensão dessas situações tão confusas à primeira vista.

Lembrei dessas questões, não sei exatamente porque, em virtude do texto logo abaixo, de autoria de meu bom amigo Guilherme. O carnaval é um daqueles temas caros aos antropólogos. O Roberto DaMatta acha que o festejo permite enxergar com maior acuidade as relações de poder presentes em nossa sociedade – justamente pelas inversões de papéis que o momento permite. Aquele exemplo clássico do sujeito que, ao sair para comprar o pão pela manhã, em uma terça-feira gorda, vê o patrão caído na calçada, em coma alcoólico, vestido de mulher e com um estandarte ao lado de sua mão direita em que se lê: “bloco das princesas 2012, as melhores bundas peludas do Rio”. Na quarta-feira de cinzas, é bem provável que o sujeito olhe seu patrão de forma diferente e até relativize seu sacro-poder como mandatário do escritório. Outros tantos avaliam a situação de modo diferente. No carnaval a polícia está toda na rua e se o festejo, em si, desafia a ordem do modo de produção – afinal, são cinco dias de absoluta putaria –, suas implicações estruturais não são significativas. Alguém acha que poderíamos invadir a prefeitura do Rio de Janeiro sob a alegação de que “ah, é carnaval amigo! Vamos jogar a escrivaninha do Eduardo Paes pela janela?” Creio que não. Talvez a combinação das duas análises leve a um resultado mais produtivo. O carnaval permite, de fato, um desvio de olhar. Poderia ser diferente. Poderia. A pergunta que faço é: algum dia vamos substituir o futuro do pretérito pelo futuro do presente? O sujeito que viu o patrão na calçada alguma vez pensou em chegar ao escritório, na quarta de cinzas, e dizer: “então, chefia, eu vi que o senhor é cachaceiro como eu, não é nenhum ungido de Deus para nos humilhar e agora a gente vai montar uma comissão gestora no escritório, democraticamente eleita e com mandato revogável”? Essas coisas não acontecem.

Agora, como diria Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Por que não acontecem? Não sei ao certo. O projeto de hermenêutica da militância socialista, que tracei com o amigo, não foi adiante. Talvez as pessoas não entendam que estamos presos a uma monotonia sem fim cujo único objetivo é a reprodução individual de nossa força de trabalho. Talvez estejam muito satisfeitas com sua cota de consumo. Talvez não enxerguem as formas sutis de dominação que se estabelecem em nosso cotidiano, que vão desde a catraca do ônibus, passando pela cobrança pelo consumo de água, até à imposição social para o consumo do Big Brother Brasil, vulgo BBB. Pode ser que ninguém entenda o que é trabalho alienado ou fetiche da mercadoria. E pode ser, também, que todos enxerguem o nosso modo de vida como o melhor possível – nesse ponto, algum engraçadinho, no fundo da sala, arremata: “se esse tal de comunismo é tão bom, por que lá na Rússia o resultado foi uma merda?” Aqui e ali, alguns “marginais” questionam a justiça e o equilíbrio desse estado de coisas. Posso garantir que os massacrados do Pinheirinho, os sem-terra que comem fumaça preta na beira da estrada e o menininho negro que foi expulso de um restaurante paulistano por um garçom racista têm, todos eles, algo a dizer. Mas também é fato que, até aqui, nossa sociedade não foi capaz ou não quis ou simplesmente não tentou se articular em torno de um projeto verdadeiramente emancipador. Falo do Brasil, mas os exemplos pelo mundo são inúmeros. Desde o caso norte-americano, com seu modelo de capitalismo-estado-de-natureza, até a experiência chinesa de capitalismo adornado com foices e martelos de ouro maciço. A humanidade caminha para uma imensa latrina de barbárie e, de um modo geral, ninguém dá muita pelota para as aberrações cotidianas do capitalismo. Nesse sentido, temos o exemplo neo-neocolonial europeu: “tentamos as Américas, a Índia, as ilhas do Pacífico e a África, agora vamos à Grécia”. A internet derruba governos das arábias e, em lugar de ditadores anacrônicos, teremos maravilhosas democracias liberais capitalistas – isso, lógico, se os militares entregarem o poder no Egito ou a charia, em versão hardcore, não for implementada na “nova” Líbia.

Agora que já passei pelo meu habitual catastrofismo, gostaria de chegar à motivação básica deste texto. Aquilo que produziu o “clique”. Pessoal, qual o nosso papel nisso tudo? Nós, militantes de verdade ou mentirinha, intelectuais idem, pessoas críticas, de boa formação e que acreditam não compactuar com esse grande amontoado de absurdos? Bem, nós fazemos parte disso, de um modo ou de outro. Há aqueles que fazem a crítica bem-comportada, nos bancos da biblioteca. Pode ser agressiva no último, mas fica lá, quietinha, na biblioteca. Também há boa quantidade de militantes que se contentam exclusivamente com a militância. Os bons objetivos transformadores são postos de lado e o sujeito passa a se sentir perfeitamente confortável no quentinho da burocracia do partido/movimento/grupamento político. Dito isso, gostaria de problematizar a questão um pouco mais, citando uma frase que não é minha (mas cujo autor desconheço): “antes o cinismo que a hipocrisia”. Nossa produção intelectual rasteira pode contribuir para formação de um desavisado que leia uma tese qualquer na biblioteca. O militante burocrata pode, eventualmente, colaborar para alguma conquista pontual da sociedade. Eu ainda acho que eleger um sujeito como o Chico Alencar é algo relevante. Assim sendo, como autor de uma dissertação de mestrado e ex-distribuidor de panfletos, acho que me sinto contemplado como cínico.

Entretanto, este texto é dedicado ao enorme contingente de inocentes úteis que povoa nossa sociedade em geral e nossos círculos de amigos em particular. Aqueles todos que são obrigados a fazer o que fazem. E, de obrigação em obrigação, terminam diretores de multinacionais, consultores de empresas gigantescas, assessores de tudo quanto é gente que não presta, executivos de empreendimentos diversos, operadores da bolsa de valores e por aí vai. Pessoas que ganham mais de vinte mil reais por mês – ou que estão nesse caminho – e que sentem muita saudade dos tempos de faculdade. Gente que lembra com carinho da militância juvenil e das noites em bares imundos. Que sente muita pena do amigo que não teve sucesso na vida, que ganha pouco e tem dificuldades para comprar um par de sapatos. Indivíduos que se sentem muito mal por terem abraçado o projeto – mas que não abrem mão, de modo algum, das benesses que ele proporciona e que jamais vão arrumar um emprego para o colega fodido. Exemplos de pessoas assim, temos aos montes. O Genoíno, aquele radical do paleolítico petista, virou babá da classe média que queria um partido de esquerda mais fofinho. O Palocci, que comandava ocupações de terra em Ribeirão Preto, tornou-se “consultor” de alguma coisa que ninguém sabe o que é. O João Gordo é palhaço televisivo. O Ferreira Gullar desenvolveu alguma patologia sociológica grave. E há uma lista interminável de colegas de vida toda que estão em bons empregos, jurando que continuam críticos de tudo e todos. Ganham muito bem e se prestam a serviços plenos de imundície.

Dizem que o poder endireita a esquerda. Depende da esquerda. A grande esquerda endireita com o poder, aos pequenos esquerdistas, um iPad basta.

Não escrevo para apontar o dedo a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo. Pois minha raiva vem do fato de que meu projeto pessoal de boa remuneração ainda não foi alcançado. Eu também desejo adentrar a longa marcha da humanidade rumo ao nada. Um deserto gigantesco, pontuado por um oásis/quinhão de consumo. Uma vez ao ano, a marcha para, todos enchem seus corpos de álcool e, ensandecidos, perguntam: “por que marchamos?” A pergunta é, sempre, o prenúncio da retomada do percurso.

Conheço uma moça que passou por uma fase pessoal turbulenta. Dificuldades e tristezas da vida. O fato pitoresco é que tal fase complicada foi marcada pelo ato de furtar livros. Nunca vendeu o produto de suas ações. Pelo contrário: lia tudo e, certa vez, me presenteou com um exemplar de autor que, à época, eu precisava ler. Em suma: não furtava para entesourar, mas para consumir os textos presentes nos livros. E nunca achou que estivesse cometendo qualquer barbaridade. Afinal, eram livros. Num dia de azar, foi pega. Daí em diante, eu comecei a dizer que era um absurdo a pessoa achar que alguém se comoveria com um flagrante numa livraria bonita voltada ao público endinheirado. Que o melhor seria organizar um movimento pelo acesso aos livros, informar as pessoas, criar consciência crítica, etc. Mandamos a moça ao psicólogo. Hoje, passados alguns anos, quero dizer a ela que estava certa. Completamente. Seu gesto foi de uma sobriedade tão plena, que o único resultado razoável seria o flagrante. Vejam: vivemos em um planeta em que vendem água, comida e livros. Água, comida e livros. Você precisa de dinheiro para comprar esses três itens, que são os mais elementares para composição da dignidade humana. O último até mais que os dois primeiros. É verdade que, sem água ou comida, você vai morrer bem rápido. Mas também é verdade que só os livros vão lhe explicar porque chegamos ao desastre ético de vender água e comida. Então, numa sociedade em que os livros são postos à venda, em que a matéria fundamental para o combate à alienação precisa ser adquirida à custa de muita alienação, a única atitude razoável é o furto. E ela furtou. Passou a ser a doida irresponsável da turma. Eu contribuí decisivamente com isso e tive meu momento “inocente útil”. Todos temos, aliás: quando nos orgulhamos de trabalhar bastante; quando procuramos ofender os colegas dizendo que acordamos cedo todos os dias; quando deixamos de corar diante do salário gordo; quando aceitamos, após umas oito sessões de terapia, que “o mundo é assim mesmo”. Achamos o Cartola e o Nelson fantásticos. Mas, caso fossemos seus vizinhos, naqueles momentos de solidão ética, não deixaríamos de pensar bem alto: “mas esse vagabundo não para de beber?”

Concluindo, você vai tomar parte nisso tudo. Vai fazer muito bem pensar que foi contra sua vontade, que nada poderia ser feito e que você não vai cair na afetação adolescente de achar que pode viver da venda de poemas na Rua Augusta. O salário elevado na empresa malvada não vai passar de um efeito colateral assaz desagradável da vida em uma sociedade injusta – e o seu cérebro vai desenvolver o prazer masoquista da repetição infinita de um mantra que diz que você está nessa merda até o pescoço, mas é crítico do sistema. Aliás, uma palavra aos adolescentes. Muito se fala da depressão difusa e da rebeldia sem causa que acomete todos que passam por esse estágio da vida. Na verdade, os adolescentes se assemelham muito aos porcos de abatedouro. Estes, quando percebem o fim inescapável, ficam terrivelmente agitados e gritam de forma assustadora. O adolescente, quando percebe no que está prestes a entrar, começa a espernear e gritar. O porco, caso seus gritos comovessem o verdugo, fugiria para bem longe do abatedouro. O adolescente grita para, tempos depois, dizer que, felizmente, superou aquelas crises bestas da juventude.

E vamos marchar, todos juntos, até o próximo carnaval.

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Tonico.

O Carnaval

22 fev

Cordão do Boitatá

O carnaval é vivido, muito bem vivido, mas não consigo, depois que ele passa, não pensar no quanto a vida toda não podia ser vivida mais assim. Como voltar às vestes quase mortuárias que uma sociedade do trabalho européia impôs a um país tropical como o Brasil? Como voltar ao não poder conhecer e beijar uma pessoa pela primeira vez em qualquer lugar da cidade e em qualquer hora do dia? Como voltar ao não falar com quem é desconhecido no cotidiano? Como voltar a rotina de trocar um tanto de trabalho por um pouco de dinheiro e com sorte um pouco de prestígio? Como voltar a qualquer situação na qual a música, a dança e o humor não ocupem a maior parte do dia?

O carnaval não é muitas coisas, o carnaval não é a panacéia, tampouco é uma catarse que legitima por alívio as mazelas e opressões do resto do ano. O carnaval não anula – nem temporariamente – as classes, o carnaval não anula o racismo, o carnaval certamente não anula o machismo. O carnaval não é o samba, o carnaval não é o axé, o carnaval não é o frevo, o carnaval não são as fantasias, o carnaval não é a pegação, o carnaval não é um lugar, o carnaval definitivamente não é os desfiles de escolas de samba.

O carnaval não é o que as televisões mostram, pois por gênese e evolução a televisão no Brasil não consegue fazer outra coisa que não reafirmar o poder, seja ao falar trânsito matinal ou da expansão do universo, a transmissão do carnaval está inclusa nesse vício de ser da mídia brasileira. O carnaval não é a festa da carne, o carnaval não é o feriado, o carnaval não é a cerveja nem a cachaça, o carnaval não é a música. O carnaval não tem dois lados, o carnaval não tem três lados, o carnaval não tem sequer uma infinidade de lados, tampouco é fractal, o carnaval não é descritível de forma cartesiana, mas nem por isso ele não deixa de trazer algumas certezas.

O carnaval é a promessa que as relações entre as pessoas podem ser diferentes.

É o brincar com os desconhecidos ao redor; é a senhora negra e humilde sozinha na mesa ao lado com uma porção de frango a passarinho que nome aqui já não tem mais, que para por um momento para nos explicar porque os jurados não vão entender as três camadas de significado que ela vê no desfile da Unidos da Tijuca; é o sujeito com forte sotaque do sul que olha minha fantasia e brinca “- Exagerou!”; é o olhar triste da menina que diz sem palavras que quer me beijar, mas não pode no momento. É beber um pouco de confete a cada gole e não achar ruim. É a fantasia coletiva combinada com os chegados. É o humor transbordando largamente sobre as cinzas do cotidiano. É um hoje se livrando das eternas promessas, deveres e desafios que o amanhã sempre traz, é o se ver livre do tempo pela duração de um pouquinho do mesmo. O carnaval são todas as pracinhas centrais de todas as cidades do Brasil se iluminado com risos e cores, e as cores dos risos iluminam mais e são mais belas que as das fantasias.

De muitas outras maneiras o carnaval é uma daquelas coisas para as quais a linguagem humana ainda não se encontra evoluída o suficiente para colocar em estruturas de palavras, talvez nunca esteja. O carnaval é também todas aquelas entrelinhas que não se deve esmagar com palavras*

O carnaval também é – e devemos fazer com que deixe de ser – o senhor idoso catando latinhas; a menina, uma criança mesmo, vendendo balas e tiarinhas piscantes; todos os trogloditas que arrancam beijos a força; aqueles representantes que o usam para se promover; aquelas poucas marcas de bebida que impõem seu oligopólio. O carnaval são as mãos em sangue dos músicos tocando por amor, mas também as mãos em sangue de músicos tocando por pouquíssimos rendimentos. O carnaval é isso tudo apenas devido aos tempos burros, brutos e primitivos nos quais vivemos, nada disso está inscrito em sua alma. Sim, o carnaval tem alma, mais que alma o carnaval tem almas, e elas se parecem com a descoberta do corpo como fonte de prazer, com a primeira feita em que se sente uma paixão, com o rir até chorar com os amigos, e com a sensação de se ver um filho brincar com um brinquedo pela primeira vez.

Odeio, e defendo que devam ser odiadas, as frases do tipo “- Se você não fez isso você não viveu.”, ou ainda “- Se você não foi a tal lugar você não sabe o que é tal coisa.” – uma pessoa pode ser feliz sem nunca ter saído de Brasiléia, no Acre, assim como pode ter viajado o mundo todo e ser infeliz – mas apesar disso sugiro a todas as pessoas que puderem e quiserem um dia brincar o cordão do Boitatá na Praça XV no Rio. Belo, belo, beleza, parte da beleza que lutamos para trazer para o cotidiano de cada ser humano no mundo pode ser encontrada lá. É um de meus pequenos exemplos para a beleza que outros encontram cada um no lugar que esteve, e o carnaval é um sábio e generoso doador de beleza nas suas mais diversas formas.

O carnaval para mim este ano no Boitatá foi o chorar mais que de alegria, foi o chorar de beleza , pura resposta ao cordão tocando Villa-Lobos no aquece, mas foi também o chorar de tristeza ao perceber que perdia para sempre um grande amor. Até a dor mais aguda da alma o carnaval toca e confere uma beleza grave, uma beleza dolorida, que continua bela, mas é sempre dor. Encontrar e perder amores é parte constituinte e inextricável do carnaval.

A palavra “melhor” é sempre carregada do que é pessoal para quem a fala, é uma das palavras que mais se enrosca com a empáfia e a pedância nos desvãos do cotidiano, mas o carnaval acha um uso certeiro e absoluto para ela, o carnaval do Brasil é o melhor do mundo.

Como não ficar obstinadamente a pensar em como fazer com que o dia-a-dia seja um pouco mais como o carnaval? Como não ponderar sobre em qual tipo de sociedade isso, entre tantas outras coisas, seria possível e em como fazer para se chegar lá? Respostas há várias, e todas são coisa outra que não o que está posto.

Viva o carnaval, vivamos o carnaval!

 

* Essa frase é de Clarice.

Da utilidade da antropologia

30 set

Os leitores do Cumachama devem saber que minha formação acadêmica foi orientada para antropologia. Neste Departamento da Universidade de São Paulo, vinculado ao curso de Ciências Sociais, fiz meu mestrado. Este tratava de intolerância religiosa no Brasil e das trocas simbólicas que se estabelecem entre Umbanda e Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, durante três anos, vivi entre templos e terreiros; pastores e pais-de-santo; descarregos. De forma ampla, além das agruras do campo, a experiência de tornar-me antropólogo foi, por diversas vezes, áspera. Entre a incapacidade de explicar aos meus parentes o que fazia, profissionalmente, da minha vida, e a impossibilidade de fornecer uma resposta direta aos amigos ultra-esquerdistas sobre a “utilidade disso para revolução”, muitos foram os dissabores.

Além das dificuldades de explicações a terceiros, foi particularmente penoso o processo de justificativa dessa escolha acadêmica a mim mesmo. Afinal, se a antropologia é uma ciência (?) fundada na compreensão da diferença, da cultura do outro e do modo de vida alheio, como intervir? Qual sua capacidade de atuação prática nas misérias do mundo? Volto ao meu mestrado. Por mais que tenha me esforçado para criticar a atuação perversa da IURD e seus representantes na demonização dos cultos afro-brasileiros, fui obrigado a ceder diante de certas limitações próprias ao exercício antropológico. O entendimento da cultura e das representações do outro enseja um grande esforço de contextualização e de valorização do que, em princípio, parece estapafúrdio. O antropólogo que deseja compreender manifestações fascistas, por exemplo, se dispõe a um exercício de convivência e entendimento dos valores de determinados grupos fascistas que é tanto mais doloroso quanto maior for sua discordância para com esses tais valores. Ainda pior: quanto maior a discordância, mais rico pode ser o resultado da análise. Não se trata, obviamente, de justificar um sistema de práticas e pensamentos que lavra no ódio. Tampouco de elaborar uma etnografia que termine com algo como “respeitem o sagrado direito fascista de espancar ciganos e gays”. O exercício de entendimento, porém, traz suas limitações práticas ao – neste caso, necessário – ativismo. Fica difícil entrevistar uma pessoa enquanto você a esmurra.

Pois bem, para que serve a antropologia? Para o exercício de divertimento de uma consciência que toma contato com uma cultura que, inicialmente, parecia exótica e incompreensível? Serve para catalogar índios, populações africanas, aborígenes diversos, punks, skinheads e feministas? Tenho feito essas perguntas a mim mesmo, cotidianamente. Agora que adentrei o mercado de trabalho de forma definitiva e tenho minhas 40 horas semanais de labuta, nada consome mais meus devaneios que a constituição de um plano prático e facilmente executável de “destruição do modo de produção capitalista”. Deste e de seu projeto totalitário, já tenho compreensão mais que suficiente. Exploração do homem pelo homem, vidas vazias consumidas pelo trabalho alienado, fetiche da mercadoria em doses cavalares e, o mais triste, pessoas que abraçam seus princípios com todo ardor, dedicando o melhor de suas habilidades na aquisição de algumas toneladas de um tipo peculiar de papel pintado, que dá acesso a tabletinhos de felicidade que começam com “i” – iPad, iPhone… Para essa coisa monstruosa que adquiriu vida própria e envolve a tudo, já não cabe mais muita compreensão. Cabe, antes, a formulação de um programa consistente de aniquilação. Até porque esse espírito já tem, para conosco, um programa de idêntico objetivo, muito bem montado e em pleno processo de implementação.

Refletindo sobre tudo isso e sobre minha formação acadêmica, refletindo sobre o esforço que fiz para entender umas três linhas de Lévi-Strauss, senti que havia retornado à mesa de um bar, com algum colega meu resmungando sobre a inutilidade da antropologia para o grande projeto de emancipação da humanidade. Antropologia e socialismo? Conta outra, Antonio.

No entanto, aproveitando a tal sabedoria chinesa (que nos é muito útil quando temos a combinação de uma semana ruim com a preguiça de realizar uma análise sociológica minimamente honesta), algo de útil há de sair das desventuras cotidianas. Uma série de fatos me fez ver que há um conceito fundamental da antropologia que é de utilidade inequívoca. Aliás, o tamanho de sua utilidade só é comparável à dificuldade de defini-lo de forma razoável. Trata-se da ideia de alteridade. Que seria isso? Fazendo um exercício antropológico pelo método confuso, vejamos, antes, o que não é isso. Alteridade não é transmutar-se no outro. Não é parar de comer carne porque viveu com um grupo de vegetarianos. Não é torcer pelo Corinthians porque passou uma semana na sede da Gaviões da Fiel. Alteridade também não se resume ao para-choque de caminhão do “não faça aos outros o que não deseja que façam consigo”. Não é, portanto, o exercício de tornar-se um bom moço porque conviveu com muita gente diferente. Alteridade é a complexa experiência de conviver com o outro, tatear seus valores, lidar com a diferença e seus atritos e sair dessa experiência transformado de algum modo. De preferência, pronto a oferecer um relato do que ocorreu. Trata-se de engajar-se em uma estrutura cultural e social que não é aquela com a qual tem a familiaridade do cotidiano, tentar colocar-se no lugar do outro, representar o papel do outro, chegar o mais perto possível do outro sem nele converter-se. E, dessa experiência, formular uma leitura dos valores alheios enquanto, ao mesmo tempo, lança luz sobre seus próprios valores.

Certo. E por que, exatamente, isso é útil? A mim parece útil porque a alteridade, num exercício bem realizado, clarifica as possibilidades de diálogo entre diferentes. Torna possível o entendimento do outro, de suas dores e alegrias, daquilo que lhe é importante, das possibilidades de comunicação produtiva em lugar da troca de ofensas, pedradas e tiros. Acho, enfim, que é o necessário exercício para o estabelecimento de bases de convívio mais fraternas entre distintas culturas e instituições sociais. Outro dia, enquanto assistia a um documentário sobre o ex-presidente João Goulart, ouvi do narrador uma frase que era mais ou menos assim: “a visita de Jango à China não tinha nenhuma relação com ideais comunistas, tratava-se, antes, de uma iniciativa de fraternidade entre os povos”. Acho que essa colocação resume bem toda a ideia do texto. Meu desejo primeiro, hoje, é o de aniquilar, de forma definitiva, o capitalismo. Mas, neste particular “momento antropólogo” – que bem poderia ser um momento “antropologia de ursinho carinhoso”, desejo um pouco mais de fraternidade e convivência digna.

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Acho que muitos de meus amigos ultra-esquerdistas não vão compreender nada do que foi dito neste texto. Isso é perfeitamente compreensível. Eles estavam fazendo a revolução socialista enquanto eu estava na aula ou na biblioteca.