Arquivo | Uncategorized RSS feed for this section

Comprender melhor a internet para aumentar o alcance da luta contra o impeachment

3 abr
 “É mais fácil entrar em Harvard do que no feed de notícias de alguém!” – Stefanie Grieser
PARA ENTENDER MELHOR COMO FUNCIONAM AS FERRAMENTAS DE REDE SOCIAL EM DIVULGAÇÃO DE PAUTAS
Filtro Bolha
    
    
Se você está assustado com o período político que o país vive e quer ajudar dentro da sua capacidade a melhorar o fluxo de discussão, peço-lhe meia hora de atenção para evitar o auto-isolamento através de filtros do próprio Facebook e outras redes sociais. Publicar melhor, driblar barreiras, atingir pessoas indecisas e usar outras ferramentas diversas
A dificuldade central aqui é furar barreiras comunicativas e demontrar como é problemático todo o processo de impeachment. Mesmo que esse acúmulo argumentativo e organizativo não barre o processo já em andamento, ele já acumula discussão para usar forças geradas anti-corrupção contra um eventual governo Temer.
Para além das redes já muito bem estabelecidas, como as Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular, há dezenas, talvez centenas, de milhares de pessoas com acesso a internet preocupadas com a democracia que buscam cotidianamente influenciar no debate público. Como boa parte dessas pessoas, talvez vocẽ que lê esse texto também, usa majoritariamente a grande rede social privada Facebook, é central parar uma meia hora para entender melhor o funcionamento dessa rede em particular.
Tudo o que você publica no Facebook ou que você pesquisa no google é filtrado a partir de grandes algoritmos, também chamados “filtros bolha”. Antes de mais nada, é bom politizar e problematizar o grande problema das bolhas que atuam no Facebook e Google.
Por favor, assistam, assistam, assistam, o curto filme de nove minutos que explica o problema. Por favor, assistam mesmo, esse breve vídeo vai mudar a forma como pensam a parte digital de sua militância pela democracia: http://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?language=pt-br
Sentiu o tamanho do drama? Pois bem, tanto o Nexo como o Estadão já deram matérias falando o como esse tipo de filtro acaba por polarizar a discussão, e que talvez este seja o momento mais polarizado de discussão da história recente do país.
As tais hashtags
Hastags, # (cerquilha ou jogo da velha), são aglutinadores de conteúdo, colocar um hashtag em um post ou comentário aumenta a probabilidade de que alguém que for procurar conteúdo semelhante se depare com seu post ou comentário.
Para achar boas hashtags, basta ir no http://hashtagify.me/ (ou outro parecido) e digitar alguma hashtag  no campo de buscas. O site mostrará as mais influentes e a partir daí selecionar uma das mais poderosas parecida com o conteúdo que quer postar.
Se quiser que pessoas a favor do impeachment vejam seus links, você pode usar uma hashtag outra, como as que estão em http://hashtagify.me/hashtag/foradilma, por exemplo a #impeachment, para tentar furar cercas algoritimicas.
Pesquisas indicam que muitas hashtags diminuem ao invés de aumentar a visibilidade de um post, sendo dois o melhor número de hashtags (a partir de três já cai o acesso). Para maiores informações leia https://www.postplanner.com/how-to-use-hashtags-on-facebook/
Se for usar o Facebook, leia alguns links que vão lhe ajudar a pensar como essa REDE FUNCIONA:    
“it’s easier to get into Harvard than into someone’s Facebook news feed!” Stefanie Grieser. Em tradução livre: “É mais fácil entrar em Harvard (Universidade de prestígio) do que no feed de notícias de alguém”! 
Parte das análises são para veículos comerciais e não pessoas físicas, mas ajudam na reflexão.
Excluindo amigos, colegas de trabalho e conhecidos do Facebook, do Twitter e do Whatsapp – Ufa! enfim me livrei destes reacionários!
Nãaaaao!!! Excluir as pessoas de quem discorda do Facebook só amplia a polarização e diminui nossa capacidade de diálogo. O mesmo vale para listas de mensagens via Whatsapp ou Telegram. Neste caso e momento, o melhor seria pedir leitura de textos intermediários, que problematizam o processo de impeachment, a corrupção na câmara, que dissociam a Lava Jato do processo de impeachment e que coloquem o que se passa no Brasil dentro de um panorama mais amplo. Em muitas vezes será preciso respirar fundo, mas com certeza apenas excluir só piora a situação.
Resumindo, a forma de operar dessas redes causa um isolamento das posições políticas, para convencer outros e ser efetivo na disputa de visões é preciso furar bolhas, e para isso a forma das publicações é importante. Há sempre o perigo da postagem recorrente e a exclusão de pessoas que pensam diferente da sua timeline acabar por diminuir sua capacidade de intervenção ao invés de aumentá-la. Em muitos momentos será necessário respirar fundo de três a dez vezes numa troca de comentários. Se isolar para fornecer e receber posts de quem já concorda com você é a pior estratégia politicamente, embora seja a mais confortadora psicologicamente.
Aplicativos de mensagem direta individuais e em grupos não possuem filtro bolha, pois são diretos de ponto a ponto, aí, ao invés de sair de grupos de família e amigos de trabalho, o mais eficiente seria paulatinamente ir colocando como contraponto lá links de meios de comunicação que conhecem, mas links específicos que auxiliam o sentido geral das linhas maiores de discussão pró democracia (coloco uma seleção de links que testei no Facebook com pessoas pró impeachment e que auxiliaram a recriar diálogo onde antes não mais havia).
Quanto maior sua virulência retórica -embora psicologicamente seja balsâmico – menor sua capacidade de diálogo com os que de fato possuem a possibilidade de mudar de percepção em relação aos processos em andamento. Sim, isso significa começar com analistas e análises mais distanciados da esquerda, muitos da própria grande mídia, reconhecida em geral como fonte válida de notícias e argumentações por estas pessoas, e progressivamente aprofundar análises outras. Análises internacionais também podem ajudar
Em geral as pessoas tem se referido genericamente com os que se manifestam pelo impeachment como “direita” e “golpistas”, acredito que é importante fazer distinções nessa grande massa e ver quem de fato não tem nenhum apreço pela democracia e defende um golpe ou a volta da ditadura (ampla minoria, segundo as pesquisas empíricas com manifestantes). Ver aqueles que trazem em si o fascismo e agridem fisicamente pessoas vestidas de vermelho, que me parecem também ser minorias, perigosas, mas minorias  E também ver o conjunto de pessoas que acreditam sinceramente na democracia, mas que avaliam que o governo Dilma e Lula são os mais corruptos da história do país e que por isso o governo deve ser deposto. Não é uma posição absurda para os que assistem cotidianamente há mais de dez anos, todos os dias o dia todo, desde o mensalão, a grande mídia focar seletivamente em algumas personagens do governo e petistas como se estes fossem os inventores e amplificadores da corrupção. 
Engarrancham-se aí uma série de tarefas diferentes:
  • mostrar a parcialidade da grande mídia,
  • a importância da democracia,
  • a separação da Lava Jato do processo do Impeachment (e no fato como este será usado como moeda de troca justamente para barrar a lava Jato),
  • o fato de que os mecanismos institucionais de combate à corrupção fortaleceram-se durante esses governos e que isso significa uma exposição maior de casos de corrupção e logo uma percepção maior de corrupção
  • mostrar quem são os deputados na comissão do impeachment e como o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não tem intenção de fazer qualquer coisa contra a corrupção e não tem condições éticas de presidir um impeachment,
  • mostrar que o esboço de projeto de governo apresentado por Temer e Serra é contrário ao projeto eleito nas urnas, o que significa golpe contra o desejo das urnas.  
Há vários materiais que podem trazer de volta colegas, amigos e familiares para uma posição no mínimo contra o golpe, mas para isso é necessário paciência e muito, mas muito, trabalho argumentativo.
Talvez seja o momento de voltar naquele grupo de Whatsapp da família e paulatinamente colocar posts mais gerais e argumentativos (do tipo, “-O que vocês acham disso?”). Ver qual o centro da argumentação da pessoa, pessoas ou grupo, se é corrupção, PT, democracia, legalidade e contra argumentar paulatinamente através de links o mais didáticos possíveis e depois aumentar a complexidade analítica aos poucos.
Outra coisa, as vezes, menos é mais,. Ter trinta curtidas em um post, todas de pessoas que já corncordam com sua posição, as vezes é menos importante do que ter dez curtidas de pessoas que estavam com posições menos atuante, indiferentes ao momento político ou favoráveis à saída da Dilma. Estamos muito acostumados a pensar quantitativamente e ter uma satisfação baseada em quantidade. Com os filtros bolha isso não necessariamente significa conseguir furar a bolha. Pensar qualitativamente as curtidas e principalmente os compartilhamentos é central para conseguir fazer a autocrítica do alcance que se está obtendo e modificar forma de escrever e de divulgar.
Onde guardar conteúdo (ou, não deixe tudo no Facebook):
Nunca publique uma coisa exclusivamente no Facebook, devido à dinâmica efêmera desta ferramenta de rede social, posteriormente é muito difícil recuperar de forma fácil posts, conteúdos diversos e links de outros lá colocados. Isso para não mencionar a hipótese por ora remota do próprio Facebook começar a censurar diretamente posts de conteúdo contrário aos poderosos seja por ordem da justiça seja por acordos comerciais. Há diversas outras formas de conservar conteúdo, deixamos aqui só duas sugestões:
Primeira, crie um blog, mesmo que não vá publicizar esse link. Uma sugestão razoável e simples, para quem não é muito da tecnologia, é o WordPress (www.wordpress.com)
Segunda, crie um PAD, um espaço para textos que permite que várias pessoas escrevam e editem textos simultaneamente. Alguns PADs que funcionam bem são: https://pad.okfn.org/ (Open Kwnoledge Foundation), e o Etherpad Open Sourced! (http://piratepad.nl/).
Tarefas no momento:
 A tarefa central em geral é paulatinamente utilizar a massificação de emissores de opinião permitida por redes distribuídas, como a internet, para fazer uma disputa de longo prazo de valores e leitura política com a grande mídia. Grande parte da disputa de opinião hoje é feita via internet, o único canal no qual a maioria dos que possuem acesso é também emissor. É o principal canal de comunicação no qual o indivíduo e os pequenos grupos são capazes de ampliar o alcance político de suas opiniões e posições, e dentro desta tem uma preocupante posição central a ferramenta de rede social privada, o Facebook. Compreender as dinâmicas dessas redes distribuídas e das ferramentas de rede social como o próprio Facebook e o Twitter me parece fundamental para ampliar a potência política dessas centenas de milhares de militantes indignados com o golpe que sofre a democracia.
Os argumentos centrais da posição contra o impeachment já foram listados de diferentes formas  por diferentes atores e em diferentes espaços. A questão aqui é amplificá-los. Elegemos alguns:
  • O impeachment não é justificável e significa verdadeiro golpe contra a jovem democracia brasileira. (e aqui entram os links dos juristas)
  • Mesmo se fosse justificável, essa presidência da Câmara e essa comissão eleita não tem distanciamento do caso central que usaram para gerar a percepção geral sobre corrupção neste governo -a Lava Jato- para ter uma atuação ética e republicana. 
  • Auxiliar esse impeachment significa antes, dado os que querem tirar esse governo, auxiliar a corrupção a se manter e não o contrário como a Globo e demais mídias pregam.
  • A apresentação de um projeto político para o governo, o executivo, que não foi eleito em urnas é a própria definição de golpe, e é justamente isso que Serra e Temer propuseram, sem antes apresentar o projeto à aprovação da população pela via do voto.
É um momento oportuno para aproveitar essa indignação criada seletivamente contra um partido e governo e transformar em indignação contra uma forma de funcionamento da relação dinheiropolítica. Mostrar com dados empíricos e análises diversas que não há democracia com financiamento privado de campanha e que não há democracia sem expansão dos emissores de opinião na televisão e rádio. A primeira pauta é mais fácil de emplacar no momento.
A disputa é de médio e longo prazo na formação de valores e leituras de mundo. A grande mídia tem claramente optado pela desconstrução da política e em criar uma visão econômica liberal tendo por fundo o argumento que o mercado é a melhor forma de distribuição de recursos. Daí os governos que não compartilham dessa visão seriam corruptos (como fizeram com Nestor e Cristina Kichner), ineptos (como tentam fazer com Morales e Corrêa) ou verdadeiras ditaduras (como caracterizaram o governo Chávez contra todos os dados empíricos e votações observadas por órgãos internacionais). Parte central de nossos esforços imediatos e futuros é discutir essa concentração de mídia, mecanismos de democratização da mídia e outras e melhores visões de mundo possíveis, mais igualitárias e generosas. 
Em relação aos deputados em disputa no voto do impeachment:
As motivações tradicionais com as quais se avaliam as movimentações de deputados de partidos fisiológicos e sem grande coerência programática, como o PMDB, são duas: grana e poder.
Na questão do dinheiro, grana, na posição que ocupamos é muito difícil até imaginar que tipo de benefícios em dinheiro estão sendo ofertados aos deputados em disputa, dado que grande parte das grandes empresas e organizações de empresas do Brasil se pronunciaram a favor do impeachment e, sendo o Brasil um dos países mais ricos do mundo, a quantidade de dinheiro capaz de ser mobilizada por estes atores é quase incalculável. Neste quesito temos pouca ou nenhuma capacidade de intervenção
Já na questão do poder, tanto o Governo na distribuição de cargos na máquina federal, quanto à oposição na distribuição de cargos do eventual governo Temer estão em plena movimentação. Temos neste quesito também pouca ou nenhuma ingerência. O máximo que podemos fazer aqui é afirmar que puniremos golpistas nas urnas, colocando seus nomes nos postes e realizando toda a discussão da forma mais pública possível sobre o que fizeram. Que estes não se reelegerão etc etc etc, essa é uma tática que no atual momento da opinião pública (sempre mutável, lembramos) se assemelha a um blefe. Quanto mais repercussão a discussão de que o impeachment é golpe receber, mais plausível se torna. (imaginem , por exemplo, o Lula falar para deputados do nordeste que fará campanhas contra as deles nos estados do nordeste se estes votarem no impeachment, dado o perfil do voto no Nordeste, a ameaça de não conseguir se reeleger ganha algum fôlego, mas, de novo, isto não está em nossas mãos)
Acredito que apenas grana e poder não explique totalmente o comportamento, discurso e voto dos deputados. Existem sim crenças políticas e também existe sim, e muita, vaidade. Deixar claro em que página da história um voto como esse os colocaria, e o que será ensinado para seus filhos e netos sobre eles na escola pode ter apelo a essa vaidade gigantesca. A Globo não escreveu a visão prevalente sobre o que foi a ditadura. Parece haver uma certa chantagem da parte mais partidarizada do Judiciário e grande mídia com algum controle sobre a Lava Jato no seguinte sentido: a chantagem, seria “-Ou votem pelo impeachment ou o faremos ser investigado e punido e colocaremos seu rosto nos jornais, revistas e noticiários de TV como corrupto (no fundo é usar a justiça pela política justamente contra….a justiça!)”. Passaram os últimos 10 anos tentando associar Lula com corrupção e ainda assim boa parte da população não comprou o discurso. Esse discurso inflamou incrivelmente setores das classes médias que em geral já eram contra o PT e de fato conquistou adeptos e ampliou essa visão.  Mas o povo não é bobo, e em geral sabe o quanto a Globo mente e é aliada do PSDB. Neste caso, amplificar a resposta social ao impeachment e reafimar aos políticos que assim como a Globo não controlou o discurso social sobre a ditadura, não controlará o discurso sobre este golpe e que votar a favor dele é a certeza de associar seu nome a um dos momentos menos democráticos e mais obscuros da história política nacional.
Por fim, coloco alguns links que testei e funcionaram ao menos parcialmente na criação de diálogos. Eu mesmo não sou lá um grande entusiasta do Facebook e publico lá esporadicamente -ultimamente com maior frequência – mas sem particular zelo na forma de cada publicação. Não é esta rede o centro de meu debate, mas compreendo e respeito àqueles que a usam intensivamente e para os quais parte das considerações deste post foi pensada. Não sou especialista nos tópicos listados acima, apenas alguém bastante preocupado com as consequências políticas e perda de capacidade de discussão que tem ocorrido. Caso você possua conhecimento especializado sobre algum dos tópicos acima e quiser ajudar, não hesite em me escrever que melhoro o texto. Compartilhar conhecimento é parte central da construção da democracia e de um mundo melhor
Alguns links úteis
 Como a conjuntura em movendo-se de forma muito rápida, parte dos links listados podem estar defasados. Sintam-se a vontade para criar seus próprios PADs ou para sugerir outros links nos comentários.
Geral
Análises maiores e internacionais, sobre a judicialização da política no mundo e o papel da direita nisso.
 Um análise de mais fôlego, feita pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos:
Por quê esse impeachment, da forma como está sendo feito, é golpe?
Por quê da reforma política
Manifesto de juristas consagrados, e já com mais de 7.800 assinaturas, contra o impeachment:
A cobertura internacional sobre o caso:
Análise de Glenn Greenwald, prẽmio Pulitzer de jornalismo, sobre o golpe em andamento no Brasil:
Seletividade da justiça
 16 pontos para pensar mais sobre a seletividade da justiça brasileira, de TV Poeira:
O caso Banestado, de 2,4 bilhões de reais e a anulação da punição dos réus:
O Documentário sobre Furnas:
Impeachment -Quem são os parlamentares que vão julgar Dilma?
 A inacreditável ficha corrida do impeachment. Absolutamente inacreditável:
Qual o projeto que o golpe vem construir?
O problema da alternativa Temer:
 Análise de Ivan Valente sobre a alternativa de empossar Michel Temer no lugar de Dilma:
Cunha reclama de Temer ter levado 5 milhões o que atrasaria a propina de outros envolvidos:
O que o programa proposto pelo PMDB em conjunto com o PSDB, “Uma ponte para o futuro” significa:
O que acontece em caso de impeachment?
A emenda pode sair pior ainda, com Cunha sendo esporadicamente ou durante longos períodos presidente do Brasil. Eis um vídeo bom e didático sobre a questão:
 Corrupção 
Há movimentos mais sérios e que trabalham faz algum tempo a questão, ligado à CNBB, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral é um deles:http://www.mcce.org.br/
Não, o PT não inventou a corrupção, e não há dados empíricos que ela tenha aumentado durante os governos Lula e Dilma, na verdade a melhor hipótese é que o aparelhamento da Polícia Federal, a autonomia e o não amordaçamento da Procuradoria Geral da República – como aconteceu durante a gestão FHC (http://jornalggn.com.br/noticia/relembrando-a-atuacao-do-procurador-geral-geraldo-brindeiro) quando Geraldo Brindeiro arquivou todos os grandes escândalos – geraram uma sensação de maior corrupção, pois os casos passaram a ser investigados e expostos. A legislação anticorrupção avançou também, com leis que punem não apenas os corruptos, mas também os corruptores, como a Lei Anticorrupção de 2013 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12846.htm) e a modificação no mecanismo de delação premiada. O orçamento da Polícia Federal praticamente triplicou no governo Lula e Dilma, aumentando de 1,5 bilhões em 2002 para 4,3 bilhões em 2013. Ainda assim, o UO usando somente o investimento conseguiu computar isso como redução! (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/veja-o-orcamento-da-policia-federal/)
Por exemplo, a caso Odebrecht, tão em voga no momento, funcionava desde o governo Sarney: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/03/26/esquema-de-propina-da-odebrecht-funcionava-desde-governo-sarney.htm
Em tempo: nem Lula nem Dilma aparecem na lista de mais de 300 políticos que teriam recebido dinheiro de forma legal e ilegal da Odebrecht.
Um dos Bispos da CNBB -Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, realizou uma fala que aborda diversos pontos, desde seletividade da mídia até corrupção:
 Caso SABESB e Trensalão.
Calendário do impeachment
 Calendário provável
É bom ir pensando ações ao longo desse período.
Sérgio Moro
A direita também faz guerra de informação e busca explicar ponto por ponto cada exemplo nosso. Aqui está um exemplo: http://spotniks.com/7-mentiras-que-voce-provavelmente-ja-ouviu-sobre-o-juiz-sergio-moro/
Até o UOL começa a fazer matérias questionando Moro.
Eduardo Cunha
 O presidente da Câmara no processo de impeachment é investigado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro STF. Metiu na CPI da Petobrás ao afirmar que não possuia contas na Suiça. Curiosamente sumiu das manchetes da Rede Globo de Televisão. A sua ficha corrida é simplesmente impressionante:
Grande Mídia
Muito Além do cidadão Kane. Um pouco da história da Globo:
    
Como funciona o oligopólio da mídia no Brasil, 11 famílias comandam 80% dos meios de comunicação.  O vídeo “Levante sua Voz” é central para quem quiser enviar uma breve explicação sobre a forma de operar da mídia brasileira:
Capacidade gigantesca de sumir com investigações da pauta pública quando interessa, como é o caso da Operação Zelotes:
Os 242 casos engavetados por Brindeiro durante a gestão FHC e a própria afimração de FHC a respeito da compra de votos na reeleição. Como a grande mídia teria noticiado se fosse o PT? http://www.vermelho.org.br/noticia/251814-1
    
Como somem a análise das 8667 brasileiros que tem conta na Suiça, em grande parte não declaradas à receita? No maior caso de sonegação já apurado?
Funcionamento atual da internet e redes em geral 
 Cada vez mais posições à direita e um longo conservadorismo se imiscuem e ganham força na internet. Compreender o fenômeno é chave para a disputa de valores de longo prazo:
Para uma análise boa do ascenso da luta contra o golpe e pela democracia nas redes, sugiro a leitura da análise do excelente pesquisador da UFES Fábio Malini:
Uma análise do dia 13 de março, o das grandes manifestações da direita, mostra que as redes tem mais cores do quer fazer crer a grande mídia:
   
Dados sociais do Brasil de 2003 para cá:
É sempre bom lembrar quais os avanços, mesmo que insuficientes, aconteceram de 2003 para cá:
As ligações internacionais:
Para quem acha no mínimo curioso uma só operação atacar o projeto de submarino nuclear, as grandes construtoras, a principal empresa de petróleo que realizou a maior descoberta de reservas do século XXI, e o partido político que buscou assegurar exploração exclusivamente nacional sobre as mesmas… Pode parecer teoria da conspiração, mas quanto mais se lê, mais parece fazer sentido:
Curiosamente não só Brasil, mas outros países sofrearam ataques semelhantes:
A nova guerra híbrida:
Quem são os irmãos Koch e o quem tem feito em diversos países
Guilherme Flynn Paciornik,  3 de abril de 2016
Anúncios

Mandato Hacker

24 set

Desenho do Vitor Flynn Paciornik para o Cumachama. Para ver mais dele: http://quadrinhosbe.wordpress.com/

Por que um mandato hacker?

Porque a política precisa urgentemente ser hackeada, a brasileira em particular.

O que entendemos por hacker?

Por hacker entendemos aquele que inventa caminhos, que desvia funções, que abre, que modifica,que publiciza, que reconfigura. O termo é relacionado a tecnologias também, mas – e isso é muito importante -não só a isso.

O que seria um mandato hacker?

Seria um mandato construído e gerido de forma coletiva e com transparência, desde a definição do nome, passando pelas principais diretrizes políticas, forma de funcionamento interno, criação coletiva de leis, nomeação da assessoria, decisão do voto em cada lei apreciada no legislativo, definição das ferramentas de tecnologias de informação e comunicação usadas no processo.

Por que a política brasileira precisa ser hackeada?

Porque nas suas atuais configurações a política brasileira permite uma sobre-representação do capital financeiro, dos ricos e de seus interesses, bem como um distanciamento dos representantes de seus representados. Ela não possui mecanismos de controle sobre o financiamento privado de campanha -que depois é cobrado e de forma cara durante o mandato; e tampouco de mecanismos que obriguem os legisladores a contar com a participação de seus eleitores ao longo do mandato. Esses dois fatores, entre tantos outros, permitem tanto em um caso uma política voltada para interesses que representam apenas uma parcela pequena da sociedade; como em outros uma opacidade do processo político e uma cultura política de não participação popular.

Como funcionaria na prática?

Há diversas formas de se hackear a política, a que propomos aqui não se trata unicamente de um formato mais aberto (o que aliás compreende também conteúdo), mas também de um conteúdo de esquerda, progressista e voltado para transformação social, que buscará fornecer representação para movimentos sociais que contam com lutas e com acúmulos de discussão muito ricos, mas que não conseguem necessariamente eleger representantes sozinhos.

A proposta aqui delineada não parte do nada, ao contrário, busca valorizar essas experiências e acúmulos de lutas já existentes como, por exemplo, os movimentos de democratização da comunicação, de cultura digital, de lutas no território, de educação, de saúde, de gênero, de orientação sexual, de raça, e de teto entre outros.

(Este texto foi pensado usando como exemplo, e proposta, um cargo de vereador na cidade de São Paulo)

O nome que estaria nos materiais de campanha já seria um nome fantasia escolhido coletivamente, como, por exemplo, “mandato hacker”. Tornar o nome do mandato não associável diretamente com uma pessoa física é importante por dois motivos, o primeiro para assinalar que é um projeto coletivo, o segundo para combater o personalismo na política, que é mais um dos mecanismos que permitem insulamento burocrático e diferenças de poder decisório entre a pessoa que leva o nome do mandato e os que construíram coletivamente a candidatura.

Antes das eleições…

A construção do Programa, e das principais diretrizes seria coletiva e em plenárias e plataformas online construídas para essa finalidade, lembrando que serão convidados a usar o mandato movimentos sociais que já possuem pautas e bandeiras, e que estas já possuem acúmulo histórico, sendo excelentes pontos de partida.

A definição das ferramentas digitais também deve ser coletiva anterior à eleição, será um gabinete com muita telinhas de Linux, mas só isso não resolve, a decisão de cada programa digital a ser coletivamente usado é uma decisão política, que tanto abre como fecha possibilidades. Este será um mandato claramente aberto a experimentações nesta área. Há que se definir programas para armazenamento de arquivo, desenvolvimento do site, construção coletiva de agenda, streaming em software livre de atividades do mandato, georreferenciamento de informações, cruzamento de bancos de dados, linguagens de programação a serem ensinadas aos próprios integrantes do mandato. Uso de software livre não é um “algo mais” do mandato, é um princípio, bem como é princípio a sua disseminação pelas lutas de movimentos sociais e populares da cidade.

Convite a movimentos sociais que tenham enraizamento na cidade e possível afinidade com uma proposta mais aberta. A proposta inclui formalizar antes da eleição que terão uma assessoria e um espaço para divulgar, formar mais pessoas e desenvolver ferramentas livres sobre suas pautas. Citaremos alguns aqui como exemplo, lembrando que já são escolhas políticas claras os convites a serem feitos: na questão digital, a Laboratório de Cultura Digital; na questão de democratização da comunicação o Intervozes; na questão do desenvolvimento de tecnologias para trabalho de base no território a Casa dos Meninos, na questão da educação a chapa de oposição ao sindicato municipal de professores e quem está participando da construção do Plano Municipal de Educação; movimento de ciclistas, ao menos um de moradia, de direitos LGBTT, de combate ao racismo, do movimento de mulheres, na questão urbana além de teto seria algo a pensar convidar alguma associação com acúmulo na questão como o Pólis ou a Rede Nossa São Paulo.

A contrapartida única exigida, e que não é simples, é aceitar que ao menos no exercício do mandato e do voto sobre a área na qual atua, este ator político se submeta aos processos decisórios coletivos definidos antes do mandato, à transparência nas discussões relativas à questão no mandato e ao uso e formação em software livre.

No caso específica da cidade de São Paulo, há cerca de 19 vagas de assessoria (pois no nosso caso o próprio nome que seria o do mandato conta apenas como assessoria), que poderiam ser preenchidas com mais ou menos 12 convites a movimentos e os demais postos destinados à abertura tecnológica e política: pessoas para assegurar a criação, discussão e formação em ferramentas digitais abertas, bem como assegurar a transparência e transmissão de cada atividade do mandato. Talvez seja necessário uma ou duas pessoas para constantemente explicar os trâmites legislativos ao conjunto do mandato e a transformar a discussão coletiva de leis em um formato legal (sendo que uma vez elaborado um texto no formato legal este também seria mais uma vez submetido ao espaço de discussão coletiva).

A definição coletiva das formas de funcionamento do mandato

Esse é um assunto espinhoso, pois pode-se adotar tanto um modelo de assembleia única e votação online de todos os participantes do mandato, como um modelo de especialidades no qual cada área decide coletivamente os votos naquele assunto em particular. Ambas as formas têm seus prós e contras e precisam ser discutidas, pode-se também criar um modelo misto, no qual se defina de antemão quais questões são tão centrais a uma cidade e ao mandato que devem necessariamente ser decididas por todos, e quais as áreas devem tocar.

O financiamento claro, deve ser coletivo através de espaços online bem como arrecadação de formas presenciais, negar absolutamente a participação empresas e, o que poderia ser diferente, é ser feita já para áreas, pautas e ações específicas dentro do mandato (por exemplo, para financiar debates específicos sobre pontos ou publicizar debates específico sobre alguns pontos)

Quem vota pelo mandato?

Uma ideia é imediatamente após a eleição entrar na justiça solicitando que o voto seja exercido não apenas por uma pessoa, mas sim pelas 19 ou vinte pessoas que serão profissionalizadas no mandato, e deixar claro (e escrever em cartório?) quem são essas pessoas e que elas só podem exercer esse voto através dos mecanismos coletivos definidos anteriormente pelos que construírem essa proposta. Para além do nome que vá até a câmara apertar o botão, a ideia central é que exista antes da campanha um cadastro digital das pessoas que construíram a campanha e que estão aptas a participar da votação por áreas, bem como mecanismos de inclusão pelas áreas de pessoas que efetivamente estiverem participando ao longo do mandato.

Política não é apenas o exercício do desejo e da subjetividade, mas também responsabilidade e decisão coletiva, podendo as áreas pedir para que as pessoas que desejam participar da decisão coletiva em uma área a realização de breves atividades de formação sobre o assunto e participação em espaços coletivos de debate para que se tornem aptas a decidir e votar internamente em determinada questão.

Ao longo….

Formação política

As pessoas que construirão o mandato possuem diversas trajetórias de vida e experiência política, a ideia é construir plataformas online de aprendizagem (como, por exemplo, a criada em tecnologia open source chamada Moodle) nas quais cada um e cada grupo possa socializar seu acúmulo com os demais. Nestas podem estar desde textos básicos, vídeos, áudios, até exercícios simples para averiguar aprendizagem. Cada conteúdo pode ser dividido em blocos internos à plataforma com complexidade crescente, sendo o primeiro bloco básico e com sínteses das pautas e motivos destas, uma seleção de textos breves sobre cada assunto e vídeos explicativos (por exemplo, o “Levante sua Voz” no caso da pauta de democratização da comunicação)

Repositório digital comum e Reunião Digital

Nos quais se colocaria tanto o calendário de atividades do mandato como os vídeos, áudios, agenda de contatos e relatorias de reuniões das quais o mandato participou, de forma que o acumulo de discussão políticas e de contatos não fique estritamente preso em pessoas e que a saída de pessoas do mandato não signifique necessariamente a perda total de acúmulo sobre uma questão. ( O movimento Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo já possui uma ferramenta desenvolvida chamada Reunião Digital que é bastante interessante).

Base Comum de Conhecimento Cidadão

Esta ideia vem também da Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo, seria uma banco de dados georreferenciado e em software livre (um mapa do território) contando com todas as informações de bancos de dados públicos; a ideia por trás é tornar os dados públicos inteligíveis para o cidadão aproximando a escala destes de sua área de vivência, e assim construir uma ferramenta que o embase e empodere nas suas lutas por transformações locais.

Construção colaborativa de leis através de espaços de escrita coletiva e ferramentas de escrita coletiva online (como os “pads”)

Alguns outros pontos centrais:

Remuneração igual entre os participantes do projeto profissionalizados no mandato.

Indicação pública da assessoria.

Construção de ferramentas tanto de transparência como de exercício do mandato em software livre e a consequente abertura destas para uso de outros e modificações.

Transmissão em streaming (usando software livre, claro) de plenárias e reuniões do mandato.

A parte chata

Mecanismos de Segurança

Aqui não se fala sobre segurança digital, sendo o mandato e as discussões transparentes, a ubiquidade dos repositórios digitais (backup) deve dar conta desse problema, mas sim sobre proteção contra abusos e empoderamento pessoais internos ao mandato. A construção da confiança política entre as pessoas e entre grupos políticos é o horizonte, mas esta é uma construção que demanda tempo, convívio e a formação de novas culturas políticas. Neste sentido é importante criar alguns mecanismos de segurança coletivamente discutidos, como o registro em cartório do modo de funcionamento do mandato de modo a evitar que pessoas ou grupos usurpem a representação ou passem a falar em nome do mandato.

Legenda

Este é um ponto sensível. Por qual partido lançar uma candidatura como essa? Por um partido com postura de esquerda e que compreenda a proposta. A relação política e financeira com o partido deve ser discutida coletivamente e ficar muito clara para todos, compreendendo que dentro da iniciativa haverá pessoas e ideias de mais de um partido, bem como sem partido. Deve estar compreendido por ambos que são duas formas coletivas diferentes de organização. No acordo inicial deve estar permitido à esse mandato se abster ou se ausentar em votações nas quais não exista acordo. Em último caso, temos o Avaaz e toda a internet para ajudar a fundar outra solução política no caso de nada mais dar certo (uau! Agora foi longe).

Um mandato hacker é uma experiência pluripartidária, não pretende combater ou substituir partidos, apenas criar modelos de outras políticas, modelos que inclusive podem vir a ser adotados por outros partidos

Espaços fechados

Política não se faz no vazio, existe em cada cidade brasileira forças e partidos extremamente conservadores, talvez venha a ser necessária em cada área ao menos uma reunião não transmitida em streaming para se discutir formas de se organizar e elaborar táticas contra essas resistências; caso o coletivo decida, pode-se prescindir desses espaços e abrir absolutamente tudo.

Após o mandato

Não deu certo? Não se reelegeu? Não tem problema, fica a experiência, todo o acúmulo político acessível em repositórios digitais e todas as ferramentas criadas e desenvolvidas abertas para quem quiser usar em outros locais e modificar (os chamados “forks” na cultura digital).

Essa ideia aqui apresentada não resolve os problemas da política, ela não é já a política distribuída, ela tem um quê de ingênua, mas também tem a vontade de despertar potências, tem a vontade de criar aprendizado e diálogo entre culturas políticas distintas que existem no Brasil e que podem trocar, e muito, suas próprias discussões e potências

Enfim, está plantada uma semente. Esta é uma versão beta, há dois anos para se preparar. Quem quer ser vereador?

Uma Virada Cultural

17 abr

Não há Virada, há viradas, e tantos são os percursos possíveis que formam um número finito, mas potencialmente ilimitado de vivências. Curtir a virada passa por entender que você vai fazer a sua e tirar da cabeça a bitolação de tudo que se está perdendo, do que se está deixando de ver.

É quase um exercício se libertar de todas as formas de pensamento que socam na nossa cabeça, de “custo de oportunidade”, de “taxa de aproveitamento” e de outros maquinismos do tipo. Da sensação de perda por não ver, por exemplo, o show da Rita Lee ou da Orkestra Rumpilezz, para dar uma boa e necessária dormida num dos cinemas que ficam abertos passando filmes ou na casa de algum conhecido que more pelo centro. Fiz uma virada pacata e basicamente musical, embora tenha trombado e apreciado uma dezena de espetáculos de artistas pelas ruas. Pileque leve e pegação nula. Fui tranqüilo, ver, ouvir e dançar. Ainda assim a Virada nunca é só boa de se ver e ouvir, a virada também é muito boa de se pensar e sentir.

Na Virada gosto de andar pelo meio da rua, só pelo meio da rua, retomando o direito roubado pelos sujos e barulhentos automóveis.

É divertido ver o constante abrir e fechar de programações/mapas, pessoas, além das de fora, paulistanas mesmo, meio que se tentando se localizar no centro, vendo o mapa para pensar o caminho da Praça Dom José Gaspar para a Estação Júlio Prestes, ou da Libero Badaró para o Arouche. Sejam bem vindos! Este é nosso centro, o centro de nossa cidade, eu também aprendi um tanto tarde a me deslocar pelas suas ruas e, para ser bem honesto, mesmo tendo morado por quase três anos no centro, ainda me perco um pouco lá pros lados da feirinha dos bolivianos.

No pleno domingão lindo de sol gostei de ver o belo prédio Eiffel, projeto do Niemeyer, cumprindo a função de caixa de som que sempre pareceu e repercutindo num eco oco o batuque do encontro de baterias (que dizem ser a maior bateria do mundo). Aliás, bem ali, um pouco depois da esquina da Praça da República com Rua do Arouche para quem caminha no sentido da Marquês de Itu, há um pedacinho da calçada, um mirante urbano desconhecido e despercebido, no qual se tem em vista ao mesmo tempo o Edifício Eiffel, o Edifício Itália e uma pontinha do Copan. Meu mirante secreto mesmo que exposto e mil vezes caminhado todos os dias por milhares de pessoas tão atarefadas que muitas vezes se esquecem até de olhar para o céu.

O que me apaixona e maravilha na Virada Cultural não é nem tanto, o colorido, as pessoas, a revogação ainda que precária, temporária e um tanto falsa do espaço das classes, do racismo e homofobia, e toda aquela discussão que fica entre documento da UNESCO e propaganda da Benetton. Não é isso, é a alegria, é o estar bem, é São Paulo que deixa de ser o monstro cinza e incrivelmente irritante dos congestionamentos e passa a ser a São Paulo das pessoas, são as pessoas na cidade, as pessoas pela cidade, o centro, o centro de São Paulo e sua beleza que se aprende a ver.

Listo abaixo apenas algumas bandas e alguns dos momentos que saboreei nesta virada.

Para além das multidões que dormiram nos gramados da República me chamou a atenção um indivíduo que achou por bem, com sua calça jeans e camisa pólo, dormir na calçada da Rua Aurora entre a São João e a Vieira de Carvalho. Não foi aquela dormidinha elegante, aninhada como um gato num cesta de roupas, era uma posição pouco graciosa, perpendicular ao meio fio. Pois bem, ao ir ao show do Skatalites lá estava o sujeito na posição mencionada, e um detalhe chamou particularmente minha atenção: trajava apenas uma meia, a do pé esquerdo. Esqueci mediatamente a cena e jamais teria pensado de novo nela se não fosse pelo seguinte detalhe: Ao voltar do show do Skatalites, algo como duas horas depois, encontro exatamente o mesmo sujeito, exatamente na mesma posição, mas sem a meia no pé esquerdo! Que país curioso, quem será o indivíduo que teve a pachorra de roubar apenas um pé de meia, o pé restante?

Beatles 24 horas

Fã que sou, não podia deixar de dar uma passada por lá, vi um pedaço do Rubber Soul, meu favorito – nem lembro mais porque – e o Revolver, os caras executaram muitíssimo bem as músicas, com paixão e bom humor. Durante o show inventei sem querer uma bebida estranha que era caldo de cana, caju e uísque. A diversão da galera era discutir qual era o combustível secreto por trás da banda para agüentar todo esse tempo. Voltando da São Bento passei lá às três da tarde de domingo e os caras estavam tocando ainda, na hora era o Past Masters Vol. 1.

Curioso como associo cada álbum dos Beatles com alguma pessoa, o Please com meu pai, pois era o único LP de rock que eu me lembro que conseguiu furar o duro bloqueio de samba e música clássica e galgar um lugar na prateleira; o Magical Mistery Tour com meu irmão que confeccionou na mão uma capa artística e lisérgica para sua cópia pirata; o Revolver era o favorito de uma certa Júlia que conheci faz anos; o White Album com meu amigo Lemmi, que certa vez pôs por engano a chatíssima Revolution 9 na jukebox da FunHouse e tomou uma tremenda vaia da galera.

Toni Tornado

Uma passada rápida no show, valeu por ter encontrado o Fábio Senne, amigo que eu não via faz muitos anos e por ouvir a música “Primavera” do Cassiano e Silvio Rochael (Trago essa rosa… para lhe dar…. trago essa rosa… para lhe dar….meu amooooor).

Orquestra Voadora

Foi a primeira vez que tocaram em Sampa, e mandaram bem, mandaram bem praca! Encararam um público que não os conhecia, num palco que não tinha a ver, respiraram fundo e sopraram seus metais e ressoaram seus tambores.

O povo, e a maioria da frente era de cariocas ou de paulistas que realizam a migração anual para os blocos de rua do Carnaval do Rio, provocou a banda gritando “-Desce! Desce!”, e a Orquestra Voadora, que tinha lá suas razões de estar brava por ser colocada num palco depois de Marina Lima, Elymar Santos e Banda Mel- ou seja meio deslocada- , comprou a provocação, desceu ao chão e tocou mais meia hora para os bravos que resistiram até as seis e meia da manhã. Girei com eles pelo chão em círculos frenéticos, não concêntricos e fiquei orgulhoso de, nesse horário e nesse estado, conseguir dar aquela célebre dançada entre o ska e o ritmo balcânico, levantando os joelhos bem alto em pulos empolgados.

DJ Dolores y Orquestra Santa Massa

Peguei esse show com os que sobraram da Orquestra Voadora, Vitinho e Gustavo, os nomes são reais, mas as pessoas – e quem os conhece sabe do que estou falando – parecem fictícias. Se depois das cinco simplesmente desisti de tentar entender o que essas pessoas estavam falando, nessa altura o português deles lembrava algo como um sânscrito com sotaque aramaico. Encontrei também neste show o Márcio que, como ele mesmo diria, estava mais louco que o cabeleireiro do Coringa.

Puta show. O vocalista do Eddie toca junto, o Dj Dolores dispensa apresentações e a orquestra como um todo pode ser caracterizada por uma série de adjetivos enfáticos positivos. Vá você descrever a maravilha de uma rabeca tocada no jeito. Tentei umas cinco onomatopéias que simulassem o som da rabeca, não deu certo. É melhor ouvir aqui.

Skatalites

Por fim, o começo. O Skatalites, junto com o Ethiopians, foram as bandas que o Alex me apresentou e que fizeram que eu me apaixonasse pelo ska. O clima estava bom, a lua apareceu, cheia e bela, por entre as nuvens. Uma névoa estranha e risonha cobriu a São João, que por um dia virou uma coffee shop holandesa a céu aberto. Os cigarros legais estavam mais raros que os naturais, várias pessoas se aproximavam e, ao ver que eu estava fumando um velho e careta filtro vermelho, recuavam enojadas. Latin Goes Ska é música maravilhosa que gruda na cabeça que nem o PMDB gruda em quem estiver no governo, e que eles tocaram com maestria. Já Guns of Navarone é uma música que escuto há dez anos, que assobio no banheiro, que cantarolo vindo do ponto de ônibus para casa, que coloquei no começo de todas as festinhas nas quais toquei. Quando começaram a tocar essa música eu, meu irmão, o povo na sacada, todo o público que estava na São João, simplesmente deliramos. Foi muito bom!

Enfim, pela significação, pelo clima, pela lua, showzasso.

A Virada Cultural como um todo é um presente, um reencontro dos paulistanos e de quem quiser com São Paulo, e a arte, música e todas as demais artes presentes, é a arte.

A única falta mesmo, a única imperfeição dessa virada, foi que faltou Cíntia.

Guilherme Flynn Paciornik – 17 de Abril de 2011

————————————–//———————————

O espaço abaixo, dos comentários, é uma janela para interação, as vivências de cada um na Virada, as viradas são mais que bem vindas, são desejadas. Solte o verbo! (a imagem, e o som não sei se dá nos comentários, mas damos um jeito).

Para quem não conhece, a Virada Cultural, é uma evento cultural que acontece em São Paulo uma vez por ano, concentrada no centro da cidade mas também com eventos espalhados. Tem uma programação absurdamente vasta e boa, e é um momento feliz das pessoas com a cidade.

São-paulinos e Corintianos

25 mar

Faz pouco tempo um amigo, Dmitri, me acusou de ter me divertido mais com o time dele do que com o meu nos últimos dois anos, como é sábio dar razão ao interlocutor quando este a tem, não discordei.

Refletindo sobre a questão e observando a não-delicada rede de relações e provocações entre corintianos e são-paulinos (e corintianas e são-paulinas, dito esteja) compilei abaixo os principais argumentos, reações e pensamentos – mesmo secretos e não admitidos – que apreendi nessas relações entre torcedores(as) de ambos os times:

Um jeito de irritar um são-paulino é dizer que o grande clássico paulista é o Corinthians contra o Palmeiras, o Derby Paulista.

Um jeito de irritar um corintiano é dizer (infelizmente de uma forma um tanto homofóbica) que quem gosta de torcida e de ver macho sem camisa devia ir é numa sauna, porque quem gosta de futebol vai ao Morumbi ver o tricolor.

Corintianos: Inveja de um estádio para chamar de seu.

São-paulinos: Certa inveja do tamanho e da presença de estádio da torcida do Coríntia.

Corintianos: Inveja das festas e alegrias são paulinas nas comemorações de seus três títulos da Libertadores e de seus três títulos mundiais.

São-paulinos: Inveja profunda da relação com time que os corintianos têm na derrota, de reafirmá-lo.

Corintianos: Inveja da qualidade do futebol que o São Paulo apresenta mais comumente, e que o Coríntia só apresenta uma vez por década.

São-paulinos: Certeza secreta, não confessada nem para o pai em seu leito de morte, de que – na arquibancada – é mais gostoso ver jogo no Pacaembu do que no Morumbi.

Corintianos: Raiva da pedância e da fleuma novo rico, ambos falsos, que o são-paulino médio ostenta, e de sua defesa do estádio do Morumbi em oposição à avenida marginal sem número, onde fica a Fazendinha.

São-paulinos: Ódio da demagogia corintiana de se auto-intitular “O” povo, “OS” verdadeiros brasileiros, “O” Brasil real, posição encontrada com um frequência de cem por cento no caso dos corintianos progressistas.

Corintianos: inveja secreta da diretoria são-paulina que, apesar de em essência não ser diferente das demais cartolagens, produz a aparência de deixar a casa minimamente em ordem.

São-paulinos: Desconfiança profunda, quase certeza, de que o Brasileiro de 2005 só foi para o Coríntia porque uma das máfias com as quais os cartolas corintianos costumam se associar literalmente comprou todo mundo.

Corintianos: Um prazer de relembrar sempre que possível que faz quase quatro anos que o São Paulo não ganha do Coríntia, e de, depois de cada clássico recente no qual o São Paulo, mais uma vez, perde para o Coríntia, perguntar: – CPF na nota?

São-paulinos: Prazer inenarrável de brincar dizendo que este ano o Carnaval caiu em março e o Coríntia em fevereiro, ou de dizer que o Coríntia caiu antes até do Mubarak.

Corintianos: Tem a certeza de que um são-paulino não consegue entender o que é a paixão corintiana, o que é gostar de um time como ele gostam do Coríntia, o que lhes dá ao mesmo tempo uma pena dos são-paulinos por não entender essa paixão e uma raiva de si mesmos por não conseguir explicá-la de forma alguma através de palavras.

São-paulinos: Uma relação meio doentia de torcer contra o Corinthians independente do adversário, e de obter um prazer considerável com isso.

Percebi que teria de rever minha posição e minha satisfação ao ver o Corinthians se dar mal, após a eliminação do mesmo da Libertadores de 2010, ocasião na qual um vizinho próximo, após o jogo, gania de tempos e tempos, dentro de seu próprio quarto : -Vai Curíntia!

Ao longo da noite este mesmo torcedor acordava de meia em meia hora e chorosamente repetia seu bordão: – Vai Curíntia! Ao invés de sentir empatia e pena, sentimentos normalmente mais condizentes com o sofrimento humano, eu me regozijava internamente com estes balidos.

Um exemplo da psique da questão: Se o Boca goleasse o São Paulo por 7 a 0 numa final de Libertadores e no ano seguinte o mesmo Boca pegasse o Curíntia na final, os tricolores torceriam fervorosamente pelo time argentino (com exceção de alguns que torceriam para um meteorito atingir o estádio).

Corintianos: Uma certeza secreta de que o Coríntia, e suas mazelas, é muito mais importante para os são-paulinos do que o São-Paulo é para os corintianos, de que eles se importam muito menos com o time dos outros do que os outros se importam com o Coríntia.

São-paulinos; Uma inveja grande por seu time nunca ter tido nada parecido com a democracia corintiana.

Corintianos: Não admitem que gostariam de ter o mito Rogério Ceni no seu time.

Ambos: Têm uma admiração profunda pela qualidade do futebol do Santos. E gostariam de ter o Ganso em seus times.

Ambos: Sentem certa falta secreta do Palmeiras como oponente de verdade, pois nos últimos tempos esse time, com seus oito volantes em campo, lembra mais uma equipe de rúgbi do que de futebol.

Ambos: Odeiam a CBF e as mazelas pelas quais esta faz o futebol brasileiro passar.

A única certeza e conclusão definitiva que se pode afirmar cientificamente e de acordo com os métodos mais acurados de análise já inventados, é que seria bem menos divertido morar em São Paulo não fosse essa rivalidade.

——————————-//—————————————————————–

Dedico esse textinho a meu amigo Dmitri Cerboncini, que tanta alegria me deu com seus pitis por causa de qualquer provocação sobre o Corintia.

Esse é um texto aberto, sugestões pertinentes (e o critério sou eu, hehe, esse texto não é uma democracia) serão anexadas ao texto.

A grafia Coríntia foi escolhida porque, cá entre nós, ninguém fala Corinthians, e porque a grafia Curíntia, devido à analogia com a forma popular de se referir a uma parte do corpo humano, pode soar ofensiva.

Guilherme – Março de 2011.

Nada de novo no front

21 jan

O Tunico até falou que ia postar uns troços dele mas não postou (isso, bonito, põe a culpa no outro!). 2011 vagaroso até o momento no Cumachama.

Autobiografia precoce: Um homem quebrado

6 out

Nem feio, nem bonito.

Desempregado. Desperdiçando sistematicamente tantas oportunidades quanto aparecerem. Alguma inteligência, na parte superior do mediano, mas que não tem se concretizado. Sem uma práxis cotidiana de transformação, parasitário. Aterrorizado com a idéia de oito horas diárias sob uma luz branca numa baia realizando nada mencionável.

Gordo, não obeso, dentes que já estiveram em melhor estado, corpo também. Fumante, pálido, mal vestido.

Triste, tristonho, pelo recente fracasso num processo cuja culpa única e exclusiva foi dele mesmo e, ao mesmo tempo, com a perda de uma paixão que achou que poderia ser “a” paixão.

Embora convicto de que o universo não faz sentido e que deus é um reconforto criado para horas difíceis, baseia sua visão de mundo e sua ação no mundo num sentido artificialmente construído – e consequentemente precário – de que a forma mais digna de se atravessar essa curta passagem pelo terreno da matéria animada é a luta pela transformação social.

Sem posses materiais relevantes, sem casa, sem carro, sem boas roupas, sem um tostão no bolso. Não é dono, nem por herança nem por trabalho, de nenhum meio de produção.

Sem posses culturais relevantes, sem um poema belo escrito, sem um livro publicado, sem um grande título acadêmico.

Sem grandes posses afetivas, sem ser o centro ativo de um grupo de amigos, sem um grande amor.

Possui como único patrimônio amealhado alguns bons amigos, cada vez menos presentes, e um amor infinito pela família, maior do que só o sangue daria.

Sem gabar-se ou comiserar-se em demasia, às vezes lamentando-se, mas não muito, por ter nascido nesse momento já histórico, mas incrivelmente primitivo, da humanidade que foi o fim do século XX, e por estar vivendo no começo do século XXI com suas epistemologias incipientes, ontologias cruéis e ideologias asquerosas.

A multiplicidade de sentidos do real contemporâneo não lhe parece uma confusão porque jamais lhe pareceu uma ordem. Observa as categorias explicativas das quais gosta – não necessariamente de acreditar, mas mais de utilizar – não naufragando por si, mas sim sendo torpedeadas cotidianamente por golpes inclementes de relativismo e desesperança.

Sujeito oculto ou inexistente da história. Até o momento.

Considera o universo um lugar interessante, embora admita que não possui nenhum padrão comparativo.  A existência lhe parece ser a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido.

Possui as qualidades raras de saber dar a razão a um debatedor quando este a possui, e de saber a importância relativa das coisas e as tratar dessa forma.

Alguns ídolos, alguns adversários, nenhum inimigo materializado em uma pessoa, mas um conflito com um inimigo mordaz materializado em um sistema.

Ainda assim esperançoso e, dentro das possibilidades, feliz.

Humano, demasiado humano.

Guilherme Flynn Paciornik. Outubro 2010.

*Título baseado no livro “Autobiografia Precoce” de Eugênio Evtuchenko, frase final tirada do título de “Humano, demasiado humano. Um livro para espíritos livres”, obra de Friedrich Nietzsche.

Voltando com um pouco de literatura autocomiserante ao blog.

Se esse blog fosse um buteco, já tinha fechado há muito tempo

23 ago