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Trabalho e Liberdade

8 ago

Terceiro post da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cuma. Talvez a parceria continue num futuro próximo.

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Não é verdade que a idéia de um capitalismo nadificador, de uma economia que tem o nada como sua utopia máxima, não tem serventia. Ela serve sim pra algumas coisas. O “aconselhamento filosófico”, por exemplo, que está em voga há alguns anos… Percebendo que seu ofício não lhes garantiria o sustento diário no conforto imaginado, alguns dos nossos colegas que se graduaram em filosofia – e outros, mais titulados, já nos assentos da academia e preocupados em garantir o seu no mercado editorial – dedicam-se a este novo rebento da autoajuda. Claro, não chamariam de autoajuda aquilo que fazem, isso é coisa pra fracassados e bêbados. Batizando seus livros com títulos que variam em torno do “você realmente acha aquilo que acha que acha?”, prefeririam ocupar nas livrarias um lugarzinho que eles destacariam como “literatura de autoesclarecimento”.

Bobagem, a idéia de capitalismo nadificador já cumpre esse papel.

Se você é, ou tornou-se – ou está em vias de se tornar – um social-democrata (um desses típicos, que sofre com arrotos e com problemas de gota e de indigestão, que coça o sovaco com a caneta e os ouvidos com a unha do dedo mindinho) você não vai gostar da idéia. “E as todas as conquistas civilizatórias, todas as aquisições feitas pelos últimos séculos?” – você argumentará. Se, de outro lado, você é – ainda é, continua sendo – um voluntarista que acha que tudo depende da conjuntura da luta de classes, você também não vai gostar da idéia. Todo o problema é o enfrentamento e derrota política da burguesia, certo? Se você for um conservador talentoso, erudito, um “filho-da-puta de mão cheia”, pode ser que goste de parte dela. Mas, infelizmente, gente dessa estirpe – gente cuja resignação nervosa justifica-se em um sentido profundo de tragédia, gente com quem é possível discordar e ao mesmo tempo aprender muito (e mesmo comover-se) – gente assim não existe mais. Ou talvez existam ainda, mas simplesmente desistiram, desincumbiram-se de nós. O que é uma pena. O tipinho que hoje é mais vulgar, o arremedo contemporâneo do bom e velho, do sábio conservadorismo, não saberá o que pensar da idéia de um capitalismo nadificador. Porque ele está ocupado demais estudando logaritmos e pensando como é que poderá empregá-los na sua próxima operação de especulação cambial. Ou porque passa muito tempo pensando em tatuagens e body piercing. “Foda-se. Já faço minha parte: só ando de bicicleta.” E nisso está resolvido o seu drama.

Isso tudo é previsto e esperado, a idéia cumpre bem com a sua função autoesclarecedora. (Você, leitor, certificou-se que realmente acha o que acha? É realmente um social-democrata? É realmente um revolucionário?)

Partiremos agora do que é elementar.

 Imagine-se, leitor, ali defronte à vitrine. Tente imaginar-se com toda a generosidade, você é gente, é um ser humano, e busca responder a uma necessidade sensível – busca meias para evitar o frio nos pés. Já de saída é preciso dizer: não existe tal possibilidade. Ninguém, no mercado – e no trabalho e, na verdade, em qualquer outro lugar – pode se conceber com tanta dignidade. Isso não é lícito.

Todos conhecem a narrativa do gênio da lâmpada. Um sujeito encontra casualmente uma bonita lamparina. Ao enfregar-lhe o metal com a manga da camisa, já que o objeto está todo empoeirado, sai de seu recipiente uma figura fantasmagórica. Em troca de sua liberação – esfregar o objeto foi o gesto mágico, involuntário, que a liberou essa figura – o gênio, declarando-se servo de seu libertador, promete realizar-lhe um desejo. O desejo mencionado, ao realizar-se porém, acaba se afastando muito das expectativas do sujeito desejante, chega mesmo a tornar-se um flagelo. O conto do gênio da lâmpada, em todas as suas variações, é uma narrativa de esperanças atrozmente frustradas, é a narrativa de um tripúdio cruel.

Esse sentido de sarcasmo é fundamental. A economia capitalista não trabalha para realizar desejos – não os nossos. Não trabalha nem mesmo para realizar necessidades. Os antigos talvez comprassem meias – nós compramos promessas de comunhão social na forma de meias. E se, de antemão, as expectativas sérias de realização subjetiva na comunidade já foram quase todas demolidas, pode-se dizer que nossas meias decepcionam: elas esquentam menos. E nem todo o trabalho de pesquisa em tecidos, alegado pelo fabricante, vai fazer com que estas nossas meias nos pareçam melhores. E também não adianta endereçar um pedido detalhando ao gênio qual o tipo de meia que mais te agrada (já que é na imprecisão do desejo que, nas histórias, a traquinagem do gênio se desenrola): o seu gozo já está previamente prejudicado, a sua expectativa será frustrada. Não é, na verdade, uma questão de falta de detalhes. Nem é, totalmente, uma questão de falta de densidade humana – é também uma questão de falta de mundo.

A riqueza das sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de gênios da lâmpada – e eles pesam abstratamente sobre os nossos ombros e sobre os ombros do mundo. Fracassou o trabalho como ação teleológica, fracassou o cansativo esfregar do metal com a manga da camisa – não é a nós mesmos que nutrimos com nossa produção. O resultado de nossas ações se extravia, foge pra cima, conforma uma outra vontade. Mal nos damos conta disso e agora, risonha e crescida, fazendo troça com os que ainda acreditam que podem arrancar “desenvolvimento social” do “crescimento econômico”, a fantasmagoria cogita reivindicar maior autonomia, pensa poder livrar-se de vez da lâmpada e daqueles que acham ainda que são os seu senhores. Pensa poder livrar-se do seu chão – do trabalho e dos valores-de-uso que o trabalho produz.

A história do capitalismo tardio será a história do fim do trabalho: superado pelo próprio sistema econômico no momento final da catástrofe ou transformado em alguma outra coisa, mais parecida com uma atividade cujo fim é realmente a necessidade e são realmente os desejos humanos. E nisso não poderá haver conciliação.

Utopia e Crise

2 ago

Segundo texto da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cumachama.

Utopia e crise
Afirmar que “o capitalismo faz isso ou quer aquilo” pode ser, de um ponto de vista, muito simplório. Será que atribuir-lhe essa unidade não tem algo de forçado? Afinal, em sua formação histórica, este tipo de economia tem mostrado que é tudo, menos monolítico e repetitivo. Estou de acordo com isso, em parte.

Nós nos acostumamos hoje a falar sempre em “os capitais” – o industrial, o financeiro, a fração industrial cujos interesses estão ligados mais ao mercado interno, a outra fração que é mais afim com as dinâmicas globais… Ganhamos muito com esse tipo de análise, muito mesmo – também concordo com isso. Só que eu acho que existem coisas mais íntimas que devem ser arrancadas à força do empírico – que ele deve ser colocado contra a parede e deve ser obrigado a desmentí-las ou a confessá-las. Ou, para usar de uma metáfora menos violenta e mais polida, deveríamos submetê-lo, o empírico, a uma escuta psicanalítica cuidadosa, convidando-o a deitar-se em nosso divã e prestando atenção aos sinais que, normalmente, passariam despercebidos. E, pra isso, é necessário dirigir-se a “ele” assim mesmo, no pronome pessoal, na terceira pessoa do singular.

Devemos continuar a pensar em tendências em curso, em projetos e em conflitos em curso, claro, mas é preciso – inclusive para que o desdobrar dessas tendências e desses projetos seja menos confuso pra nós – devemos também pensar em “vontade”, em utopias não realizadas. E qual a utopia desse tipo de economia, qual o seu impossível desejado, qual a sua vontade? Que é esta coisa a respeito da qual é tão difícil ouvir falar de modo direto e unívoco (como são também, muitas vezes, as nossas próprias vontades)?

A utopia desse tipo de economia, me parece, é o deserto sob o céu teológico (uma distopia portanto). Um mundo sem gente, sem ritmos climáticos e sem ritmos biológicos. Mas é um vazio que está contido e é circundado pelo movimento abstrato do valor mercantil, que aprendeu a fecundar-se a si próprio, a crescer e reproduzir sem interferência externa alguma. É um pouco pior que o sadismo divino do Velho Testamento. Enviou-se o dilúvio mas, neste caso, nenhum Noé foi chamado.

Existe uma anedota clássica. O sujeito passa todo o seu tempo sonhando com o dia em que sua esposa vai abandoná-lo, ou com dia em que ela morrerá – porque assim ele poderá, finalmente, dedicar-se com exclusividade aos carinhos e afetos da mulher que é a sua amante. Quando isso acontece, quando ele se vê livre dos embaraços com a antiga esposa, descobre porém que não quer mais estar com a sua antiga amante. Que não a deseja como imaginava desejar.

Se você perguntar, ainda hoje, a um teórico crítico (mas, digamos, um tanto ortodoxo): qual é, afinal, a vontade mais selvagem, a utopia máxima do tipo de economia em que vivemos? Como são as feições da mulher que este sistema ama? Ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho. Pode ser que você faça essa pergunta a um teórico mais apimentado – e ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho que, no entanto, só sobrevive graças à superexploração, graças à exploração espoliativa que é praticada principalmente em sua beirada, mas também, eventualmente, no seu próprio núcleo.

Algo mudou. Bastou o capitalismo realmente conseguir povoar o mundo com fábricas e universalizar a exploração (morreu a esposa, eis a amante!) – e, subitamente, percebemos que a vontade do sistema não é aquilo que achávamos que fosse – ou aquilo que, talvez, “ele” mesmo achava que fosse. Não é a amante. A distopia do capitalismo tardio não é uma coisa nem outra – é simplesmente o nada. O seu movimento é niilista: uma circularidade descarnada e sem atritos, uma autorreferência perfeita, uma tautologia elementar. Uma forma vazia. Isso os neoliberais nos demonstraram, cuidadosamente, ao promoverem a desregulamentação dos mercados e a globalização das finanças.

Mas, uma coisa é perguntar qual é a vontade da economia, outra é perguntar a respeito de sua realização, do tornar-se mundo dessa vontade. Conciliações são necessárias: a exploração não acaba e o discurso da desindustrialização (a economia industrial teria sido deslocada por uma economia de serviços), em grande medida, só pretende tornar mais confuso o fato de que a indústria, em busca de lucros de exploração mais substanciosos, se redistribui geograficamente e reorganiza os seus fluxos. Infelizmente. E nem tanto pra nós, como para o proprio capital – que desejaria mesmo evadir-se logo dessas concretudes sujas e elevar-se de uma vez em essência etérea e pura.

Agora, quanto desta crise econômica não seria explicado (e bem explicado) pela tentativa programática da realização da utopia destrutiva de uma economia que se quer autorreferencial e tautológica?

Devemos enforcar os banqueiros?

20 jul

Esse é o primeiro de uma série de três textos de Rodrigo Linharez, mestre em Geografia pela USP.

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Pode ser que esta minha impressão tenha algo de abusivo (já que tenho no temperamento uma espécie de desvio, uma espécie de má-formação essencial: uma contínua atração pelo caráter trágico, pelos dilemas e impasses das coisas), mas eu sinto muita falta de análises sistêmicas da crise econômica. Especialmente entre os que protestam – o pessoal dos movimentos “occupy” mundo afora – me parece, a análise mais corriqueira que fazem da crise tem muito de uma espécie de atualização do ódio medieval ao “usurário”.

Claro. Se os banqueiros e operadores da grande finança fossem submetidos a um pente fino, assim de primeira, é possivel imaginar que pouca coisa sobraria. Mas acho também que a grande dificuldade de uma limpa como essa seria definir, afinal, o que é criminoso e o que não é – e isso em um contexto em que o seu interlocutor/acusado será, muito provavelmente, um físico cujo pós-doutorado no MIT investiga, em mais de 500 laudas, um aspecto importantíssimo, mas também muito complicado e muito sutil, de determinada função matemática aplicada aos negócios com o câmbio. Um gênio do Mal jogando em casa. Bem, a lógica crime/encarceiramento, o modo como opera e como define as exclusões, como sabemos todos, é seletiva: embaixo ela funciona muito mais do que em cima…

Enfim… E esse tipo de coisa, apesar de não ser desimportante, serve demais ao diversionismo – até os Republicanos, nos Estados Unidos, fazem o discurso emocional de “cadeia para o banqueiro criminoso” e “que eles paguem o que devem e não o povo”. A questão mesmo – o lugar onde ela é capaz de se definir – é na política econômica e na capacidade de fazer política econômica.

E a questão mesmo – quando passamos da política econômica para a crítica da economia política – é que o capitalismo odeia propriedades concretas. Odeia qualitativos e despreza valores-de-uso. (E qualquer um que possua um jogo de jantar herdado dos bisavós ou tataravós – que, infelizmente, não é o meu caso – pode compará-lo com um exemplar contemporâneo e chegar a essa mesma conclusão.) O sonho deste tipo de economia, que está posto como lógica e como projeto, ainda que absurdo e impossível (mas deixemos para outra oportunidade um debate mais detido sobre a vocação suicida do capital) é extrair diretamente mais-valor do valor – e isso sem ter de se sujar, na produção, com graxa e óleo queimado! Pois é! Do que podemos inferir algo muito divertido, muitíssimo mesmo: no capitalismo o trabalho é explorado a contragosto.

Sim, seu desprezo pelos valores-de-uso é, inclusive, desprezo pela força-de-trabalho como valor-de-uso. Em sua esquisita filantropia, o capitalismo preferiria não ter de explorar. Isso é realmente muito doido… Idealmente (idealmente, quero dizer, segundo a lógica que se desdobra) o sistema deveria reproduzir-se sem ter de se imiscuir nessa complexidade toda de relações trabalhistas – e isso porque, nesta sua lógica fantástica, move-se através de categorias que desprezam concretudes, que funcionam para livrar-se delas, purgar-se delas, e que, no paroxismo, funcionariam com perfeição, deslizariam sem atrito… Só que em um mundo sem gente! (e sem ritmos climáticos, biológicos, etc., etc…)
E qual é o personagem que, no ciclo produtivo, mais se identifica com esse não-mundo que o capitalismo sonha em criar?

Claro, temos o trabalhador. Proletarização e despojamento são sinônimos. Mas este tem ao menos a esperança (ou o consolo) de que a negação que o produz também deposita nele, ao mesmo tempo, uma positividade (ou, ao menos a possibilidade de uma positividade – que é a sua capacidade potencial de recriar o mundo em novas formas). E a este não-ser resta ainda a concretude do valor-de-uso de sua força-de-trabalho.

O capitalismo cria o proletariado, mas faz o que faz com a mão no coração. Preferiria não o fazer porque gostaria de se reproduzir através de dinâmicas teológicas puras e mandar o resto ao diabo. Preferiria fazer pior. E isso é algo que somente há pouco tempo começamos realmente a vislumbrar, já que parte desse desejo secreto – traduzido pelo radicalismo neoliberal – tornou-se mundo e um dos tipos sociais que ele mais generalizou é algo que, mais uma vez, aproxima-se do paroxismo, do despojamento total: os mortos-vivos da sobrevivência no desemprego, os zumbis das exceções e das exclusões definidas pela lei, pela política e pela guerra (os detidos em penitenciárias, em campos de refugiados…).

Mas qual é mesmo o personagem que, pelo papel que desempenha no ciclo produtivo, mais se aproxima do movimento niilista da economia – e que, portanto, mais assemelha-se a um não-ser?

Uma dica: um estudo feito nas finanças em Wall Street conclui que, dos que sobrevivem à concorrência encarniçada que os grandes executivos jogam entre si – os poucos escolhidos entre os muitos que são chamados – dos que sobrevivem, são mais prováveis aqueles que são também os mais bem sucedidos na luta que movem contra si mesmos, contra a sua própria saúde: os que estão mais aptos a lidar com seguidas noites de insônia, com crises severas de ansiedade e de abatimento, os que estão mais aptos a suportar jornadas de 14 horas diárias (sem finais de semana) e em que é muito difícil separar, minimamente, domesticidade e trabalho… Enfim, um rosário de autoflagelação a ser debulhado segundo a segundo, minuto a minuto, sem interrupções e sem tempo pra acabar, com confiança cega e resignação animal. (Ah, está bem, tem também, nisso tudo, uns intervalinhos de consumo conspícuo no Caribe, que ninguém é de ferro…)

O fetiche máximo do capital – extrair mais-valor do valor em um circuito sem desvios – já tem a sua encarnação em forma humana (será mesmo humana?), mesmo que sua realização completa seja uma impossibilidade. Mas e se a garotada do “occupy” se deliciasse um pouco menos com fantasias de forca e de guilhotina e – recusando o seu próprio delírio de vingança – passasse à dissecação fria e cuidadosa (e que, afinal, tem também o seu quinhão de prazer) destes outros delírios, não tão visíveis, não tão palpáveis, que nos espremem cotidianamente, despojando-nos de sentidos e de finalidades? E se tratássemos de superar a figura de carne-e-osso do grande financista (e isso ele também já trata de fazer por si mesmo, mas com o uso constante de anfetaminas) na direção de seu desnudamento e de seu desmonte em lógica geral e sistemática? E se tratássemos de combater essa loucura da lógica tentando fazer com que o seu impossível continue a ser impossível – desentulhando, ao mesmo tempo, todo um horizonte de outros projetos?

Enforcar banqueiros simplesmente… Bastaria? Seria isso o suficiente para destruir também aquilo que os anima?

Rodrigo Linharez , São Paulo. 2012