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Mandato Hacker

24 set

Desenho do Vitor Flynn Paciornik para o Cumachama. Para ver mais dele: http://quadrinhosbe.wordpress.com/

Por que um mandato hacker?

Porque a política precisa urgentemente ser hackeada, a brasileira em particular.

O que entendemos por hacker?

Por hacker entendemos aquele que inventa caminhos, que desvia funções, que abre, que modifica,que publiciza, que reconfigura. O termo é relacionado a tecnologias também, mas – e isso é muito importante -não só a isso.

O que seria um mandato hacker?

Seria um mandato construído e gerido de forma coletiva e com transparência, desde a definição do nome, passando pelas principais diretrizes políticas, forma de funcionamento interno, criação coletiva de leis, nomeação da assessoria, decisão do voto em cada lei apreciada no legislativo, definição das ferramentas de tecnologias de informação e comunicação usadas no processo.

Por que a política brasileira precisa ser hackeada?

Porque nas suas atuais configurações a política brasileira permite uma sobre-representação do capital financeiro, dos ricos e de seus interesses, bem como um distanciamento dos representantes de seus representados. Ela não possui mecanismos de controle sobre o financiamento privado de campanha -que depois é cobrado e de forma cara durante o mandato; e tampouco de mecanismos que obriguem os legisladores a contar com a participação de seus eleitores ao longo do mandato. Esses dois fatores, entre tantos outros, permitem tanto em um caso uma política voltada para interesses que representam apenas uma parcela pequena da sociedade; como em outros uma opacidade do processo político e uma cultura política de não participação popular.

Como funcionaria na prática?

Há diversas formas de se hackear a política, a que propomos aqui não se trata unicamente de um formato mais aberto (o que aliás compreende também conteúdo), mas também de um conteúdo de esquerda, progressista e voltado para transformação social, que buscará fornecer representação para movimentos sociais que contam com lutas e com acúmulos de discussão muito ricos, mas que não conseguem necessariamente eleger representantes sozinhos.

A proposta aqui delineada não parte do nada, ao contrário, busca valorizar essas experiências e acúmulos de lutas já existentes como, por exemplo, os movimentos de democratização da comunicação, de cultura digital, de lutas no território, de educação, de saúde, de gênero, de orientação sexual, de raça, e de teto entre outros.

(Este texto foi pensado usando como exemplo, e proposta, um cargo de vereador na cidade de São Paulo)

O nome que estaria nos materiais de campanha já seria um nome fantasia escolhido coletivamente, como, por exemplo, “mandato hacker”. Tornar o nome do mandato não associável diretamente com uma pessoa física é importante por dois motivos, o primeiro para assinalar que é um projeto coletivo, o segundo para combater o personalismo na política, que é mais um dos mecanismos que permitem insulamento burocrático e diferenças de poder decisório entre a pessoa que leva o nome do mandato e os que construíram coletivamente a candidatura.

Antes das eleições…

A construção do Programa, e das principais diretrizes seria coletiva e em plenárias e plataformas online construídas para essa finalidade, lembrando que serão convidados a usar o mandato movimentos sociais que já possuem pautas e bandeiras, e que estas já possuem acúmulo histórico, sendo excelentes pontos de partida.

A definição das ferramentas digitais também deve ser coletiva anterior à eleição, será um gabinete com muita telinhas de Linux, mas só isso não resolve, a decisão de cada programa digital a ser coletivamente usado é uma decisão política, que tanto abre como fecha possibilidades. Este será um mandato claramente aberto a experimentações nesta área. Há que se definir programas para armazenamento de arquivo, desenvolvimento do site, construção coletiva de agenda, streaming em software livre de atividades do mandato, georreferenciamento de informações, cruzamento de bancos de dados, linguagens de programação a serem ensinadas aos próprios integrantes do mandato. Uso de software livre não é um “algo mais” do mandato, é um princípio, bem como é princípio a sua disseminação pelas lutas de movimentos sociais e populares da cidade.

Convite a movimentos sociais que tenham enraizamento na cidade e possível afinidade com uma proposta mais aberta. A proposta inclui formalizar antes da eleição que terão uma assessoria e um espaço para divulgar, formar mais pessoas e desenvolver ferramentas livres sobre suas pautas. Citaremos alguns aqui como exemplo, lembrando que já são escolhas políticas claras os convites a serem feitos: na questão digital, a Laboratório de Cultura Digital; na questão de democratização da comunicação o Intervozes; na questão do desenvolvimento de tecnologias para trabalho de base no território a Casa dos Meninos, na questão da educação a chapa de oposição ao sindicato municipal de professores e quem está participando da construção do Plano Municipal de Educação; movimento de ciclistas, ao menos um de moradia, de direitos LGBTT, de combate ao racismo, do movimento de mulheres, na questão urbana além de teto seria algo a pensar convidar alguma associação com acúmulo na questão como o Pólis ou a Rede Nossa São Paulo.

A contrapartida única exigida, e que não é simples, é aceitar que ao menos no exercício do mandato e do voto sobre a área na qual atua, este ator político se submeta aos processos decisórios coletivos definidos antes do mandato, à transparência nas discussões relativas à questão no mandato e ao uso e formação em software livre.

No caso específica da cidade de São Paulo, há cerca de 19 vagas de assessoria (pois no nosso caso o próprio nome que seria o do mandato conta apenas como assessoria), que poderiam ser preenchidas com mais ou menos 12 convites a movimentos e os demais postos destinados à abertura tecnológica e política: pessoas para assegurar a criação, discussão e formação em ferramentas digitais abertas, bem como assegurar a transparência e transmissão de cada atividade do mandato. Talvez seja necessário uma ou duas pessoas para constantemente explicar os trâmites legislativos ao conjunto do mandato e a transformar a discussão coletiva de leis em um formato legal (sendo que uma vez elaborado um texto no formato legal este também seria mais uma vez submetido ao espaço de discussão coletiva).

A definição coletiva das formas de funcionamento do mandato

Esse é um assunto espinhoso, pois pode-se adotar tanto um modelo de assembleia única e votação online de todos os participantes do mandato, como um modelo de especialidades no qual cada área decide coletivamente os votos naquele assunto em particular. Ambas as formas têm seus prós e contras e precisam ser discutidas, pode-se também criar um modelo misto, no qual se defina de antemão quais questões são tão centrais a uma cidade e ao mandato que devem necessariamente ser decididas por todos, e quais as áreas devem tocar.

O financiamento claro, deve ser coletivo através de espaços online bem como arrecadação de formas presenciais, negar absolutamente a participação empresas e, o que poderia ser diferente, é ser feita já para áreas, pautas e ações específicas dentro do mandato (por exemplo, para financiar debates específicos sobre pontos ou publicizar debates específico sobre alguns pontos)

Quem vota pelo mandato?

Uma ideia é imediatamente após a eleição entrar na justiça solicitando que o voto seja exercido não apenas por uma pessoa, mas sim pelas 19 ou vinte pessoas que serão profissionalizadas no mandato, e deixar claro (e escrever em cartório?) quem são essas pessoas e que elas só podem exercer esse voto através dos mecanismos coletivos definidos anteriormente pelos que construírem essa proposta. Para além do nome que vá até a câmara apertar o botão, a ideia central é que exista antes da campanha um cadastro digital das pessoas que construíram a campanha e que estão aptas a participar da votação por áreas, bem como mecanismos de inclusão pelas áreas de pessoas que efetivamente estiverem participando ao longo do mandato.

Política não é apenas o exercício do desejo e da subjetividade, mas também responsabilidade e decisão coletiva, podendo as áreas pedir para que as pessoas que desejam participar da decisão coletiva em uma área a realização de breves atividades de formação sobre o assunto e participação em espaços coletivos de debate para que se tornem aptas a decidir e votar internamente em determinada questão.

Ao longo….

Formação política

As pessoas que construirão o mandato possuem diversas trajetórias de vida e experiência política, a ideia é construir plataformas online de aprendizagem (como, por exemplo, a criada em tecnologia open source chamada Moodle) nas quais cada um e cada grupo possa socializar seu acúmulo com os demais. Nestas podem estar desde textos básicos, vídeos, áudios, até exercícios simples para averiguar aprendizagem. Cada conteúdo pode ser dividido em blocos internos à plataforma com complexidade crescente, sendo o primeiro bloco básico e com sínteses das pautas e motivos destas, uma seleção de textos breves sobre cada assunto e vídeos explicativos (por exemplo, o “Levante sua Voz” no caso da pauta de democratização da comunicação)

Repositório digital comum e Reunião Digital

Nos quais se colocaria tanto o calendário de atividades do mandato como os vídeos, áudios, agenda de contatos e relatorias de reuniões das quais o mandato participou, de forma que o acumulo de discussão políticas e de contatos não fique estritamente preso em pessoas e que a saída de pessoas do mandato não signifique necessariamente a perda total de acúmulo sobre uma questão. ( O movimento Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo já possui uma ferramenta desenvolvida chamada Reunião Digital que é bastante interessante).

Base Comum de Conhecimento Cidadão

Esta ideia vem também da Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo, seria uma banco de dados georreferenciado e em software livre (um mapa do território) contando com todas as informações de bancos de dados públicos; a ideia por trás é tornar os dados públicos inteligíveis para o cidadão aproximando a escala destes de sua área de vivência, e assim construir uma ferramenta que o embase e empodere nas suas lutas por transformações locais.

Construção colaborativa de leis através de espaços de escrita coletiva e ferramentas de escrita coletiva online (como os “pads”)

Alguns outros pontos centrais:

Remuneração igual entre os participantes do projeto profissionalizados no mandato.

Indicação pública da assessoria.

Construção de ferramentas tanto de transparência como de exercício do mandato em software livre e a consequente abertura destas para uso de outros e modificações.

Transmissão em streaming (usando software livre, claro) de plenárias e reuniões do mandato.

A parte chata

Mecanismos de Segurança

Aqui não se fala sobre segurança digital, sendo o mandato e as discussões transparentes, a ubiquidade dos repositórios digitais (backup) deve dar conta desse problema, mas sim sobre proteção contra abusos e empoderamento pessoais internos ao mandato. A construção da confiança política entre as pessoas e entre grupos políticos é o horizonte, mas esta é uma construção que demanda tempo, convívio e a formação de novas culturas políticas. Neste sentido é importante criar alguns mecanismos de segurança coletivamente discutidos, como o registro em cartório do modo de funcionamento do mandato de modo a evitar que pessoas ou grupos usurpem a representação ou passem a falar em nome do mandato.

Legenda

Este é um ponto sensível. Por qual partido lançar uma candidatura como essa? Por um partido com postura de esquerda e que compreenda a proposta. A relação política e financeira com o partido deve ser discutida coletivamente e ficar muito clara para todos, compreendendo que dentro da iniciativa haverá pessoas e ideias de mais de um partido, bem como sem partido. Deve estar compreendido por ambos que são duas formas coletivas diferentes de organização. No acordo inicial deve estar permitido à esse mandato se abster ou se ausentar em votações nas quais não exista acordo. Em último caso, temos o Avaaz e toda a internet para ajudar a fundar outra solução política no caso de nada mais dar certo (uau! Agora foi longe).

Um mandato hacker é uma experiência pluripartidária, não pretende combater ou substituir partidos, apenas criar modelos de outras políticas, modelos que inclusive podem vir a ser adotados por outros partidos

Espaços fechados

Política não se faz no vazio, existe em cada cidade brasileira forças e partidos extremamente conservadores, talvez venha a ser necessária em cada área ao menos uma reunião não transmitida em streaming para se discutir formas de se organizar e elaborar táticas contra essas resistências; caso o coletivo decida, pode-se prescindir desses espaços e abrir absolutamente tudo.

Após o mandato

Não deu certo? Não se reelegeu? Não tem problema, fica a experiência, todo o acúmulo político acessível em repositórios digitais e todas as ferramentas criadas e desenvolvidas abertas para quem quiser usar em outros locais e modificar (os chamados “forks” na cultura digital).

Essa ideia aqui apresentada não resolve os problemas da política, ela não é já a política distribuída, ela tem um quê de ingênua, mas também tem a vontade de despertar potências, tem a vontade de criar aprendizado e diálogo entre culturas políticas distintas que existem no Brasil e que podem trocar, e muito, suas próprias discussões e potências

Enfim, está plantada uma semente. Esta é uma versão beta, há dois anos para se preparar. Quem quer ser vereador?

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Trabalho e Liberdade

8 ago

Terceiro post da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cuma. Talvez a parceria continue num futuro próximo.

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Não é verdade que a idéia de um capitalismo nadificador, de uma economia que tem o nada como sua utopia máxima, não tem serventia. Ela serve sim pra algumas coisas. O “aconselhamento filosófico”, por exemplo, que está em voga há alguns anos… Percebendo que seu ofício não lhes garantiria o sustento diário no conforto imaginado, alguns dos nossos colegas que se graduaram em filosofia – e outros, mais titulados, já nos assentos da academia e preocupados em garantir o seu no mercado editorial – dedicam-se a este novo rebento da autoajuda. Claro, não chamariam de autoajuda aquilo que fazem, isso é coisa pra fracassados e bêbados. Batizando seus livros com títulos que variam em torno do “você realmente acha aquilo que acha que acha?”, prefeririam ocupar nas livrarias um lugarzinho que eles destacariam como “literatura de autoesclarecimento”.

Bobagem, a idéia de capitalismo nadificador já cumpre esse papel.

Se você é, ou tornou-se – ou está em vias de se tornar – um social-democrata (um desses típicos, que sofre com arrotos e com problemas de gota e de indigestão, que coça o sovaco com a caneta e os ouvidos com a unha do dedo mindinho) você não vai gostar da idéia. “E as todas as conquistas civilizatórias, todas as aquisições feitas pelos últimos séculos?” – você argumentará. Se, de outro lado, você é – ainda é, continua sendo – um voluntarista que acha que tudo depende da conjuntura da luta de classes, você também não vai gostar da idéia. Todo o problema é o enfrentamento e derrota política da burguesia, certo? Se você for um conservador talentoso, erudito, um “filho-da-puta de mão cheia”, pode ser que goste de parte dela. Mas, infelizmente, gente dessa estirpe – gente cuja resignação nervosa justifica-se em um sentido profundo de tragédia, gente com quem é possível discordar e ao mesmo tempo aprender muito (e mesmo comover-se) – gente assim não existe mais. Ou talvez existam ainda, mas simplesmente desistiram, desincumbiram-se de nós. O que é uma pena. O tipinho que hoje é mais vulgar, o arremedo contemporâneo do bom e velho, do sábio conservadorismo, não saberá o que pensar da idéia de um capitalismo nadificador. Porque ele está ocupado demais estudando logaritmos e pensando como é que poderá empregá-los na sua próxima operação de especulação cambial. Ou porque passa muito tempo pensando em tatuagens e body piercing. “Foda-se. Já faço minha parte: só ando de bicicleta.” E nisso está resolvido o seu drama.

Isso tudo é previsto e esperado, a idéia cumpre bem com a sua função autoesclarecedora. (Você, leitor, certificou-se que realmente acha o que acha? É realmente um social-democrata? É realmente um revolucionário?)

Partiremos agora do que é elementar.

 Imagine-se, leitor, ali defronte à vitrine. Tente imaginar-se com toda a generosidade, você é gente, é um ser humano, e busca responder a uma necessidade sensível – busca meias para evitar o frio nos pés. Já de saída é preciso dizer: não existe tal possibilidade. Ninguém, no mercado – e no trabalho e, na verdade, em qualquer outro lugar – pode se conceber com tanta dignidade. Isso não é lícito.

Todos conhecem a narrativa do gênio da lâmpada. Um sujeito encontra casualmente uma bonita lamparina. Ao enfregar-lhe o metal com a manga da camisa, já que o objeto está todo empoeirado, sai de seu recipiente uma figura fantasmagórica. Em troca de sua liberação – esfregar o objeto foi o gesto mágico, involuntário, que a liberou essa figura – o gênio, declarando-se servo de seu libertador, promete realizar-lhe um desejo. O desejo mencionado, ao realizar-se porém, acaba se afastando muito das expectativas do sujeito desejante, chega mesmo a tornar-se um flagelo. O conto do gênio da lâmpada, em todas as suas variações, é uma narrativa de esperanças atrozmente frustradas, é a narrativa de um tripúdio cruel.

Esse sentido de sarcasmo é fundamental. A economia capitalista não trabalha para realizar desejos – não os nossos. Não trabalha nem mesmo para realizar necessidades. Os antigos talvez comprassem meias – nós compramos promessas de comunhão social na forma de meias. E se, de antemão, as expectativas sérias de realização subjetiva na comunidade já foram quase todas demolidas, pode-se dizer que nossas meias decepcionam: elas esquentam menos. E nem todo o trabalho de pesquisa em tecidos, alegado pelo fabricante, vai fazer com que estas nossas meias nos pareçam melhores. E também não adianta endereçar um pedido detalhando ao gênio qual o tipo de meia que mais te agrada (já que é na imprecisão do desejo que, nas histórias, a traquinagem do gênio se desenrola): o seu gozo já está previamente prejudicado, a sua expectativa será frustrada. Não é, na verdade, uma questão de falta de detalhes. Nem é, totalmente, uma questão de falta de densidade humana – é também uma questão de falta de mundo.

A riqueza das sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de gênios da lâmpada – e eles pesam abstratamente sobre os nossos ombros e sobre os ombros do mundo. Fracassou o trabalho como ação teleológica, fracassou o cansativo esfregar do metal com a manga da camisa – não é a nós mesmos que nutrimos com nossa produção. O resultado de nossas ações se extravia, foge pra cima, conforma uma outra vontade. Mal nos damos conta disso e agora, risonha e crescida, fazendo troça com os que ainda acreditam que podem arrancar “desenvolvimento social” do “crescimento econômico”, a fantasmagoria cogita reivindicar maior autonomia, pensa poder livrar-se de vez da lâmpada e daqueles que acham ainda que são os seu senhores. Pensa poder livrar-se do seu chão – do trabalho e dos valores-de-uso que o trabalho produz.

A história do capitalismo tardio será a história do fim do trabalho: superado pelo próprio sistema econômico no momento final da catástrofe ou transformado em alguma outra coisa, mais parecida com uma atividade cujo fim é realmente a necessidade e são realmente os desejos humanos. E nisso não poderá haver conciliação.

Utopia e Crise

2 ago

Segundo texto da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cumachama.

Utopia e crise
Afirmar que “o capitalismo faz isso ou quer aquilo” pode ser, de um ponto de vista, muito simplório. Será que atribuir-lhe essa unidade não tem algo de forçado? Afinal, em sua formação histórica, este tipo de economia tem mostrado que é tudo, menos monolítico e repetitivo. Estou de acordo com isso, em parte.

Nós nos acostumamos hoje a falar sempre em “os capitais” – o industrial, o financeiro, a fração industrial cujos interesses estão ligados mais ao mercado interno, a outra fração que é mais afim com as dinâmicas globais… Ganhamos muito com esse tipo de análise, muito mesmo – também concordo com isso. Só que eu acho que existem coisas mais íntimas que devem ser arrancadas à força do empírico – que ele deve ser colocado contra a parede e deve ser obrigado a desmentí-las ou a confessá-las. Ou, para usar de uma metáfora menos violenta e mais polida, deveríamos submetê-lo, o empírico, a uma escuta psicanalítica cuidadosa, convidando-o a deitar-se em nosso divã e prestando atenção aos sinais que, normalmente, passariam despercebidos. E, pra isso, é necessário dirigir-se a “ele” assim mesmo, no pronome pessoal, na terceira pessoa do singular.

Devemos continuar a pensar em tendências em curso, em projetos e em conflitos em curso, claro, mas é preciso – inclusive para que o desdobrar dessas tendências e desses projetos seja menos confuso pra nós – devemos também pensar em “vontade”, em utopias não realizadas. E qual a utopia desse tipo de economia, qual o seu impossível desejado, qual a sua vontade? Que é esta coisa a respeito da qual é tão difícil ouvir falar de modo direto e unívoco (como são também, muitas vezes, as nossas próprias vontades)?

A utopia desse tipo de economia, me parece, é o deserto sob o céu teológico (uma distopia portanto). Um mundo sem gente, sem ritmos climáticos e sem ritmos biológicos. Mas é um vazio que está contido e é circundado pelo movimento abstrato do valor mercantil, que aprendeu a fecundar-se a si próprio, a crescer e reproduzir sem interferência externa alguma. É um pouco pior que o sadismo divino do Velho Testamento. Enviou-se o dilúvio mas, neste caso, nenhum Noé foi chamado.

Existe uma anedota clássica. O sujeito passa todo o seu tempo sonhando com o dia em que sua esposa vai abandoná-lo, ou com dia em que ela morrerá – porque assim ele poderá, finalmente, dedicar-se com exclusividade aos carinhos e afetos da mulher que é a sua amante. Quando isso acontece, quando ele se vê livre dos embaraços com a antiga esposa, descobre porém que não quer mais estar com a sua antiga amante. Que não a deseja como imaginava desejar.

Se você perguntar, ainda hoje, a um teórico crítico (mas, digamos, um tanto ortodoxo): qual é, afinal, a vontade mais selvagem, a utopia máxima do tipo de economia em que vivemos? Como são as feições da mulher que este sistema ama? Ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho. Pode ser que você faça essa pergunta a um teórico mais apimentado – e ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho que, no entanto, só sobrevive graças à superexploração, graças à exploração espoliativa que é praticada principalmente em sua beirada, mas também, eventualmente, no seu próprio núcleo.

Algo mudou. Bastou o capitalismo realmente conseguir povoar o mundo com fábricas e universalizar a exploração (morreu a esposa, eis a amante!) – e, subitamente, percebemos que a vontade do sistema não é aquilo que achávamos que fosse – ou aquilo que, talvez, “ele” mesmo achava que fosse. Não é a amante. A distopia do capitalismo tardio não é uma coisa nem outra – é simplesmente o nada. O seu movimento é niilista: uma circularidade descarnada e sem atritos, uma autorreferência perfeita, uma tautologia elementar. Uma forma vazia. Isso os neoliberais nos demonstraram, cuidadosamente, ao promoverem a desregulamentação dos mercados e a globalização das finanças.

Mas, uma coisa é perguntar qual é a vontade da economia, outra é perguntar a respeito de sua realização, do tornar-se mundo dessa vontade. Conciliações são necessárias: a exploração não acaba e o discurso da desindustrialização (a economia industrial teria sido deslocada por uma economia de serviços), em grande medida, só pretende tornar mais confuso o fato de que a indústria, em busca de lucros de exploração mais substanciosos, se redistribui geograficamente e reorganiza os seus fluxos. Infelizmente. E nem tanto pra nós, como para o proprio capital – que desejaria mesmo evadir-se logo dessas concretudes sujas e elevar-se de uma vez em essência etérea e pura.

Agora, quanto desta crise econômica não seria explicado (e bem explicado) pela tentativa programática da realização da utopia destrutiva de uma economia que se quer autorreferencial e tautológica?

Devemos enforcar os banqueiros?

20 jul

Esse é o primeiro de uma série de três textos de Rodrigo Linharez, mestre em Geografia pela USP.

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Pode ser que esta minha impressão tenha algo de abusivo (já que tenho no temperamento uma espécie de desvio, uma espécie de má-formação essencial: uma contínua atração pelo caráter trágico, pelos dilemas e impasses das coisas), mas eu sinto muita falta de análises sistêmicas da crise econômica. Especialmente entre os que protestam – o pessoal dos movimentos “occupy” mundo afora – me parece, a análise mais corriqueira que fazem da crise tem muito de uma espécie de atualização do ódio medieval ao “usurário”.

Claro. Se os banqueiros e operadores da grande finança fossem submetidos a um pente fino, assim de primeira, é possivel imaginar que pouca coisa sobraria. Mas acho também que a grande dificuldade de uma limpa como essa seria definir, afinal, o que é criminoso e o que não é – e isso em um contexto em que o seu interlocutor/acusado será, muito provavelmente, um físico cujo pós-doutorado no MIT investiga, em mais de 500 laudas, um aspecto importantíssimo, mas também muito complicado e muito sutil, de determinada função matemática aplicada aos negócios com o câmbio. Um gênio do Mal jogando em casa. Bem, a lógica crime/encarceiramento, o modo como opera e como define as exclusões, como sabemos todos, é seletiva: embaixo ela funciona muito mais do que em cima…

Enfim… E esse tipo de coisa, apesar de não ser desimportante, serve demais ao diversionismo – até os Republicanos, nos Estados Unidos, fazem o discurso emocional de “cadeia para o banqueiro criminoso” e “que eles paguem o que devem e não o povo”. A questão mesmo – o lugar onde ela é capaz de se definir – é na política econômica e na capacidade de fazer política econômica.

E a questão mesmo – quando passamos da política econômica para a crítica da economia política – é que o capitalismo odeia propriedades concretas. Odeia qualitativos e despreza valores-de-uso. (E qualquer um que possua um jogo de jantar herdado dos bisavós ou tataravós – que, infelizmente, não é o meu caso – pode compará-lo com um exemplar contemporâneo e chegar a essa mesma conclusão.) O sonho deste tipo de economia, que está posto como lógica e como projeto, ainda que absurdo e impossível (mas deixemos para outra oportunidade um debate mais detido sobre a vocação suicida do capital) é extrair diretamente mais-valor do valor – e isso sem ter de se sujar, na produção, com graxa e óleo queimado! Pois é! Do que podemos inferir algo muito divertido, muitíssimo mesmo: no capitalismo o trabalho é explorado a contragosto.

Sim, seu desprezo pelos valores-de-uso é, inclusive, desprezo pela força-de-trabalho como valor-de-uso. Em sua esquisita filantropia, o capitalismo preferiria não ter de explorar. Isso é realmente muito doido… Idealmente (idealmente, quero dizer, segundo a lógica que se desdobra) o sistema deveria reproduzir-se sem ter de se imiscuir nessa complexidade toda de relações trabalhistas – e isso porque, nesta sua lógica fantástica, move-se através de categorias que desprezam concretudes, que funcionam para livrar-se delas, purgar-se delas, e que, no paroxismo, funcionariam com perfeição, deslizariam sem atrito… Só que em um mundo sem gente! (e sem ritmos climáticos, biológicos, etc., etc…)
E qual é o personagem que, no ciclo produtivo, mais se identifica com esse não-mundo que o capitalismo sonha em criar?

Claro, temos o trabalhador. Proletarização e despojamento são sinônimos. Mas este tem ao menos a esperança (ou o consolo) de que a negação que o produz também deposita nele, ao mesmo tempo, uma positividade (ou, ao menos a possibilidade de uma positividade – que é a sua capacidade potencial de recriar o mundo em novas formas). E a este não-ser resta ainda a concretude do valor-de-uso de sua força-de-trabalho.

O capitalismo cria o proletariado, mas faz o que faz com a mão no coração. Preferiria não o fazer porque gostaria de se reproduzir através de dinâmicas teológicas puras e mandar o resto ao diabo. Preferiria fazer pior. E isso é algo que somente há pouco tempo começamos realmente a vislumbrar, já que parte desse desejo secreto – traduzido pelo radicalismo neoliberal – tornou-se mundo e um dos tipos sociais que ele mais generalizou é algo que, mais uma vez, aproxima-se do paroxismo, do despojamento total: os mortos-vivos da sobrevivência no desemprego, os zumbis das exceções e das exclusões definidas pela lei, pela política e pela guerra (os detidos em penitenciárias, em campos de refugiados…).

Mas qual é mesmo o personagem que, pelo papel que desempenha no ciclo produtivo, mais se aproxima do movimento niilista da economia – e que, portanto, mais assemelha-se a um não-ser?

Uma dica: um estudo feito nas finanças em Wall Street conclui que, dos que sobrevivem à concorrência encarniçada que os grandes executivos jogam entre si – os poucos escolhidos entre os muitos que são chamados – dos que sobrevivem, são mais prováveis aqueles que são também os mais bem sucedidos na luta que movem contra si mesmos, contra a sua própria saúde: os que estão mais aptos a lidar com seguidas noites de insônia, com crises severas de ansiedade e de abatimento, os que estão mais aptos a suportar jornadas de 14 horas diárias (sem finais de semana) e em que é muito difícil separar, minimamente, domesticidade e trabalho… Enfim, um rosário de autoflagelação a ser debulhado segundo a segundo, minuto a minuto, sem interrupções e sem tempo pra acabar, com confiança cega e resignação animal. (Ah, está bem, tem também, nisso tudo, uns intervalinhos de consumo conspícuo no Caribe, que ninguém é de ferro…)

O fetiche máximo do capital – extrair mais-valor do valor em um circuito sem desvios – já tem a sua encarnação em forma humana (será mesmo humana?), mesmo que sua realização completa seja uma impossibilidade. Mas e se a garotada do “occupy” se deliciasse um pouco menos com fantasias de forca e de guilhotina e – recusando o seu próprio delírio de vingança – passasse à dissecação fria e cuidadosa (e que, afinal, tem também o seu quinhão de prazer) destes outros delírios, não tão visíveis, não tão palpáveis, que nos espremem cotidianamente, despojando-nos de sentidos e de finalidades? E se tratássemos de superar a figura de carne-e-osso do grande financista (e isso ele também já trata de fazer por si mesmo, mas com o uso constante de anfetaminas) na direção de seu desnudamento e de seu desmonte em lógica geral e sistemática? E se tratássemos de combater essa loucura da lógica tentando fazer com que o seu impossível continue a ser impossível – desentulhando, ao mesmo tempo, todo um horizonte de outros projetos?

Enforcar banqueiros simplesmente… Bastaria? Seria isso o suficiente para destruir também aquilo que os anima?

Rodrigo Linharez , São Paulo. 2012

O Carnaval

22 fev

Cordão do Boitatá

O carnaval é vivido, muito bem vivido, mas não consigo, depois que ele passa, não pensar no quanto a vida toda não podia ser vivida mais assim. Como voltar às vestes quase mortuárias que uma sociedade do trabalho européia impôs a um país tropical como o Brasil? Como voltar ao não poder conhecer e beijar uma pessoa pela primeira vez em qualquer lugar da cidade e em qualquer hora do dia? Como voltar ao não falar com quem é desconhecido no cotidiano? Como voltar a rotina de trocar um tanto de trabalho por um pouco de dinheiro e com sorte um pouco de prestígio? Como voltar a qualquer situação na qual a música, a dança e o humor não ocupem a maior parte do dia?

O carnaval não é muitas coisas, o carnaval não é a panacéia, tampouco é uma catarse que legitima por alívio as mazelas e opressões do resto do ano. O carnaval não anula – nem temporariamente – as classes, o carnaval não anula o racismo, o carnaval certamente não anula o machismo. O carnaval não é o samba, o carnaval não é o axé, o carnaval não é o frevo, o carnaval não são as fantasias, o carnaval não é a pegação, o carnaval não é um lugar, o carnaval definitivamente não é os desfiles de escolas de samba.

O carnaval não é o que as televisões mostram, pois por gênese e evolução a televisão no Brasil não consegue fazer outra coisa que não reafirmar o poder, seja ao falar trânsito matinal ou da expansão do universo, a transmissão do carnaval está inclusa nesse vício de ser da mídia brasileira. O carnaval não é a festa da carne, o carnaval não é o feriado, o carnaval não é a cerveja nem a cachaça, o carnaval não é a música. O carnaval não tem dois lados, o carnaval não tem três lados, o carnaval não tem sequer uma infinidade de lados, tampouco é fractal, o carnaval não é descritível de forma cartesiana, mas nem por isso ele não deixa de trazer algumas certezas.

O carnaval é a promessa que as relações entre as pessoas podem ser diferentes.

É o brincar com os desconhecidos ao redor; é a senhora negra e humilde sozinha na mesa ao lado com uma porção de frango a passarinho que nome aqui já não tem mais, que para por um momento para nos explicar porque os jurados não vão entender as três camadas de significado que ela vê no desfile da Unidos da Tijuca; é o sujeito com forte sotaque do sul que olha minha fantasia e brinca “- Exagerou!”; é o olhar triste da menina que diz sem palavras que quer me beijar, mas não pode no momento. É beber um pouco de confete a cada gole e não achar ruim. É a fantasia coletiva combinada com os chegados. É o humor transbordando largamente sobre as cinzas do cotidiano. É um hoje se livrando das eternas promessas, deveres e desafios que o amanhã sempre traz, é o se ver livre do tempo pela duração de um pouquinho do mesmo. O carnaval são todas as pracinhas centrais de todas as cidades do Brasil se iluminado com risos e cores, e as cores dos risos iluminam mais e são mais belas que as das fantasias.

De muitas outras maneiras o carnaval é uma daquelas coisas para as quais a linguagem humana ainda não se encontra evoluída o suficiente para colocar em estruturas de palavras, talvez nunca esteja. O carnaval é também todas aquelas entrelinhas que não se deve esmagar com palavras*

O carnaval também é – e devemos fazer com que deixe de ser – o senhor idoso catando latinhas; a menina, uma criança mesmo, vendendo balas e tiarinhas piscantes; todos os trogloditas que arrancam beijos a força; aqueles representantes que o usam para se promover; aquelas poucas marcas de bebida que impõem seu oligopólio. O carnaval são as mãos em sangue dos músicos tocando por amor, mas também as mãos em sangue de músicos tocando por pouquíssimos rendimentos. O carnaval é isso tudo apenas devido aos tempos burros, brutos e primitivos nos quais vivemos, nada disso está inscrito em sua alma. Sim, o carnaval tem alma, mais que alma o carnaval tem almas, e elas se parecem com a descoberta do corpo como fonte de prazer, com a primeira feita em que se sente uma paixão, com o rir até chorar com os amigos, e com a sensação de se ver um filho brincar com um brinquedo pela primeira vez.

Odeio, e defendo que devam ser odiadas, as frases do tipo “- Se você não fez isso você não viveu.”, ou ainda “- Se você não foi a tal lugar você não sabe o que é tal coisa.” – uma pessoa pode ser feliz sem nunca ter saído de Brasiléia, no Acre, assim como pode ter viajado o mundo todo e ser infeliz – mas apesar disso sugiro a todas as pessoas que puderem e quiserem um dia brincar o cordão do Boitatá na Praça XV no Rio. Belo, belo, beleza, parte da beleza que lutamos para trazer para o cotidiano de cada ser humano no mundo pode ser encontrada lá. É um de meus pequenos exemplos para a beleza que outros encontram cada um no lugar que esteve, e o carnaval é um sábio e generoso doador de beleza nas suas mais diversas formas.

O carnaval para mim este ano no Boitatá foi o chorar mais que de alegria, foi o chorar de beleza , pura resposta ao cordão tocando Villa-Lobos no aquece, mas foi também o chorar de tristeza ao perceber que perdia para sempre um grande amor. Até a dor mais aguda da alma o carnaval toca e confere uma beleza grave, uma beleza dolorida, que continua bela, mas é sempre dor. Encontrar e perder amores é parte constituinte e inextricável do carnaval.

A palavra “melhor” é sempre carregada do que é pessoal para quem a fala, é uma das palavras que mais se enrosca com a empáfia e a pedância nos desvãos do cotidiano, mas o carnaval acha um uso certeiro e absoluto para ela, o carnaval do Brasil é o melhor do mundo.

Como não ficar obstinadamente a pensar em como fazer com que o dia-a-dia seja um pouco mais como o carnaval? Como não ponderar sobre em qual tipo de sociedade isso, entre tantas outras coisas, seria possível e em como fazer para se chegar lá? Respostas há várias, e todas são coisa outra que não o que está posto.

Viva o carnaval, vivamos o carnaval!

 

* Essa frase é de Clarice.

Quem quer ser um milionário?

10 mar

Mais um texto de Pedro Ekman que, não se sabe bem porque, escolheu esse blog como veículo (bicicleta no caso) de sua farta produção. Lá vai:

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Quem quer ser um milionário?

A riqueza de 10 pessoas é mais de 120 vezes maior do que a riqueza que o país com pior índice de desenvolvimento humano consegue produzir em um árduo ano de trabalho. O contraste que esse dado revela já não causa tanta indignação em uma sociedade que acha natural as diferenças produzidas pelo capitalismo, e que comemora os grandes feitos financeiros lamentando a inevitável condição miserável de alguns pobres coitados que ainda não “aprenderam” como ser bem sucedidos nas regras da selva econômica.

Pois bem, não se conformando com a naturalidade dessas diferenças e acreditando na capacidade da humanidade de ser solidária consigo mesma, os socialistas propõem a divisão igualitária da riqueza socialmente produzida. Socialistas ou não, os trabalhadores que não conseguem acumular riqueza, dado seus baixos salários e alto custo de vida, também pedem para que sejam melhor distribuídos os ganhos com a produção. Como geralmente os ricos não estão muito dispostos a abrir mão da sua riqueza, esses pedidos são feitos não em conversas do chá da tarde no clube de campo, mas em greves e protestos. Infortunadamente alguns não-ricos acabam se cansando das negociações ou até mesmo perdem a crença na solidariedade humana e partem para iniciativas individuais mais violentas de distribuição direta da riqueza, como assaltos e seqüestros.

Talvez os ricos não queiram dividir sua riqueza por terem medo de que o resto da humanidade, em um ato de crueldade e vingança, os obrigue a viver apenas com um salário mínimo. Talvez os pobres tenham que ser mais compreensivos, pois pode ser que os ricos tenham que se acostumar com a idéia aos poucos. Será que eles teriam menos medo de distribuir a riqueza se percebessem que para isso não precisam deixar de ser ricos? Como reagiriam a pergunta: Quem quer ser um milionário?

A pergunta é de fácil resposta para bilhões de seres humanos espalhados pelo globo, mas não é tão simples para os raros bilionários entre nós. Se o plano der certo, em uma bela tarde no clube de campo, o tilintar das xícaras de chá brindarão uma nova lei geral para a humanidade: “Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.”

Isso pode soar menos ofensivo para os ricos. Para se ter uma idéia das conseqüências desta nova proposta, analisemos o que aconteceria com os extremos da questão. Os dez indivíduos mais ricos do planeta acumularam a bagatela de 426 bilhões de dólares em patrimônio pessoal. Coincidentemente nenhum desses abonados indivíduos vive no Zimbábue. Esse país, que não teve a sorte de nascer em berço de ouro, produz uma riqueza equivalente a 3,5 bilhões de dólares por ano. Se a regra fosse aplicada apenas a esses dez senhores (nenhuma mulher pertence ao grupo), cada um dos 13 milhões de cidadãos do país com as piores condições para se viver poderia contar com 32 mil dólares para tentar estruturar melhor a vida daqui para frente. Se entendermos que melhor do que o distribuir o dinheiro para a população seria realizar investimentos em programas sociais, teríamos um impacto US$ 426 bilhões aplicados de uma só vez em um território acostumado a ver US$ 3,5 bilhões ao longo de um ano todo. A mistura das duas soluções também seria fabulosa.

Certamente cada um dos dez senhores mais ricos do mundo conseguiria levar uma vida digna e confortável com a parca quantia de 999 milhões de dólares tendo apenas que suportar o trauma psicológico da perda do título de bilionário para se acostumar as ser tratado como um reles milionário. Para iniciar a prática de desapego material o homem mais rico do mundo, o investidor americano Warren Buffett teria que abrir mão de 61 bilhões de dólares. Já o menos rico dos top ten, o varejista alemão Karl Albrecht, teria que se desfazer apenas de 26 bilhões de dólares e um centavo dos seus 27 bilhões acumulados.

Parece claro que existência de poucos homens muito ricos implica necessariamente na condição de que muitos mais precisem permanecer pobres. Ainda assim, se uma tragédia provocada pelos próprios seres humanos não é suficiente para convencer os abastados a assumirem outra postura perante humanidade, tentemos uma comparação com tragédias de fato naturais.

Recentemente um terremoto devastou o Haiti que já era o vigésimo quinto pior país do mundo para se viver. Os Estados-membros das Nações Unidas e parceiros internacionais prometeram US$ 5,3 bilhões para os primeiros 18 meses da reconstrução deste país, mas entregaram até hoje apenas US$ 824 milhões. Os melhores números falam em um valor total prometido para os próximos três anos de US$ 9,9 bilhões, vindos de 59 países e organizações internacionais. Se levarmos em consideração as melhores previsões, o mundo estará oferecendo ao Haiti US$ 3,3 bilhões por ano por um período menor do que o de um mandato presidencial. O Haiti antes da tragédia, com suas forças produtivas a pleno vapor, tinha um Produto Interno Bruto anual de US$ 6,4 bilhões e ainda assim possuía o vigésimo quinto pior IDH do mundo. A comunidade internacional, mesmo mobilizando a riqueza produzida por pobres e ricos (dinheiro público) não foi capaz de oferecer para a reconstrução de um país devastado e sem qualquer capacidade produtiva mais da metade do que ele produzia em plenas condições.

Uma vez que os dez homens mais ricos do mundo já estão comprometidos com o Zimbábue, apelemos para outros dez que com apenas um click seriam capazes de aportar uma quantia considerável. Apelemos para as dez pessoas que mais enriqueceram com negócios da internet, afinal elas já conseguiram juntar 82 bilhões de dólares debaixo do colchão. Se pessoas como Larry Page da Google e Mark Zuckerberg do Facebook aceitassem se tornar milionários o Haiti poderia receber a cada um dos três anos de reconstrução uma quantia 4 vezes maior do que seu PIB original, uma ajuda quase 8 vezes maior do que o mobilizado por toda a comunidade internacional.

No Brasil a boa vontade de dez bilionários em se tornar milionários somaria 66 bilhões de dólares ao orçamento público podendo tornar os investimentos em saúde pública 2,5 vezes maior em 2011.

Se as trinta pessoas aqui citadas, que sequer chegam a lotar um ônibus, aceitassem viver apenas como milionários, muito já se poderia fazer com o meio trilhão de dólares redistribuídos. Imagine o que não aconteceria ao mundo se todos os bilionários se tornassem milionários. Ora, se no capitalismo não nos é dada a oportunidade de perguntar aos bilionários se aceitam se tornar milionários, ou se perguntados, estes são incapazes de dizer: “Sim”. Então desistamos de tentar mudar apenas uma regra e mudemos todas.

Aos que ainda acreditam que é possível reverter as convicções de um bilionário:

Carta de lançamento da CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO DA BURGUESIA: Você bilionário, faça a sua parte.

“Caros Warren Buffett (EUA – US$ 62,0 bilhões), Carlos Slim (MÉXICO – US$ 60,0 bilhões), Bill Gates (EUA – US$ 58,0 bilhões), Lakshmi Mittal (ÍNDIA – US$ 45,0 bilhões), Mukesh Ambani (ÍNDIA – US$ 43,0 bilhões), Anil Ambani (ÍNDIA – US$ 42,0 bilhões), Ingvar Kamprad (SUÉCIA – US$ 31,0 bilhões), K. P. Sing (ÍNDIA – US$ 30,0 bilhões), Oleg Deripaska (RÚSSIA – US$ 28,0 bilhões), Karl Albrecht (ALEMANHA – US$ 27,0 bilhões), Larry Page (GOOGLE US$ 17,5 bilhões), Sergey Brin (GOOGLE – US$ 17,5 bilhões), Jeff Bezos (AMAZON – US$ 12,3 bilhões), Eric Schmidt (GOOGLE – US$ 6,3 bilhões), Masayoshi Son (SOFTBANK – US$ 5,9 bilhões), Pierre Omidyar (EBAY – US$ 5,2 bilhões), Hiroshi Mikitani (RAKUTEN – US$ 4,8 bilhões), Charles Schwab (CHARLES SCHWAB BANK – US$ 4,7 bilhões), Mark Zuckerberg (FACEBOOK – US$ 4,0 bilhões), Ma Huateng (TECENT – US$ 3,8 bilhões), Eike Batista (BRASIL – US$ 27,0 bilhões), Jorge Paulo Lemann (BRASIL – US$ 11,5 bilhões), Joseph Safra (BRASIL – US$ 10 bilhões), Dorothea Steinbruch (BRASIL – US$ 5,5 bilhões), Marcel Herrmann Telles (BRASIL – US$ 5,1 bilhões), Carlos Albero Sicupira (BRASIL – US$ 4,5 bilhões), Aloysio de Andrade Faria (BRASIL – US$ 4,2 bilhões), Abilio dos Santos Diniz (BRASIL – US$ 3 bilhões), Antonio Ermírio de Morais (BRASIL – US$ 3 bilhões) e Moise Safra (BRASIL – US$ 2,3 bilhões) vimos por meio desta solicitar uma reunião para firmarmos o pacto QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

No referido pacto os signatários se comprometem em cumprir e honrar o texto:

Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.

Seguros de que essa iniciativa marcará vossos nomes na mais significativa página da história da humanidade e certos de um retorno positivo, aguardamos a indicação de um clube de campo da vossa preferência para firmamos o referido documento.

Sem mais,

Não-bilionários do mundo.

São Paulo, 10 de março de 2011”

Pedro Ekman é socialista.

São Paulo 10 de março de 2011

Voto de boas festas e bom Ano Novo do Cumachama.

31 dez

Todos os anos recebemos simpáticos e anódinos votos de boas festas e bom ano novo, que se compõem basicamente da manifestação- sincera ou não – de que no ano vindouro obtenhamos sorte, amor, felicidade, saúde, dinheiro e paz – com a variante ‘muita luta’ no caso dos amigos de esquerda. Não temos absolutamente nada contra essa iniciativa esperançosa e de boa índole, e, para nos afinarmos com o coro dos possíveis contentes, resolvemos fazer nossos próprios e detalhados votos.

O Cumachama deseja a tod@s:

Sorte

Não sabemos ao certo se é boa educação ou total falta da mesma desejar sorte a alguém, não sabemos também se em algum caso na história adiantou alguma coisa, mas como é o costume, vamos lá:

Que você tenha uma jardineira ou um jardim e que o mato nesse seja de trevos de quatro folhas

Que os corpos celestes se alinhem ou desalinhem de forma que todos os charlatões falem que isso é, por algum motivo, muito bom para você.

Que todos os que dão ao signo algum significado ouçam bons augúrios por pertencerem a um determinado dozeavo.

Que a data de seu aniversário somada ao seu endereço caia quatro vezes na megasena e que você ganhe em todas essas.

Que você ganhe sempre os brindes dos pacotes de salgadinho.

Que seu time seja campeão estadual e nacional, na divisão em que estiver, e que ganhe, estranhamente, a Copa do Brasil E a Libertadores.

Que as pessoas das quais você não gosta se mudem para Porto Velho.

Que seu chefe se ausente por meses por questões familiares.

Que o PFL/DEM se mude para a Guiana.

Lembrando que, como o Cumachama lhe desejou sorte com muito mais ênfase e pormenores que qualquer outra mensagem, todos os dividendos eventuais que vierem pura e exclusivamente da sorte, como ganhar na loto ou herdar uma fortuna, deverão ter um quinto destinado a este honrado blog.

Amor e sexo

Desejamos que você encontre a pessoa ou pessoas que façam seus hormônios e receptores químicos ribombarem mais que a bateria da Peruche.

Que a moral e as leis vigentes não atrapalhem a plena realização de seus fetiches e sua sexualidade

Desejamos amor livre a todos e a liberdade de exercer esse amor onde, como e com quem quiserem.

Que seu parceiro libere finalmente aquele desejo que há tempos você tenta emplacar.

Desejamos orgasmos múltiplos e regozijos plenos a todos.

Dinheiro

Que você tenha e ganhe dinheiro, mas não muito ao ponto de você ser tentado a usá-lo com responsabilidade, ou a se sentir desobrigado a lutar pelo país, e não tão pouco a ponto de você se sentir tentado a trabalhar para crápulas como os do grupo Abril. Lembrando que o excesso de dinheiro é quase sempre suor de pobre extraído.

Saúde

Que você tenha uma saúde boa, mas não perfeita, para que possa pegar uma gripe e passar uma semaninha lendo bons romances ao invés de trabalhar. Que a doença não venha, mas que se vier que seja uma leve que afaste do trabalho mas não das capacidades mentais, como conjuntivite ou catapora.

Que a saúde boa seja não só a sua, mas a de todos, observada antes pelo prisma da prevenção do que da assistência. Que o governo do seu estado não privatize 25% das vagas do SUS.

Trabalho

Que seu trabalho seja pouco e bom. Que seja menor em quantidade e maior em qualidade.

Que seja útil não só ao seu sustento, mas a diminuição das mazelas do mundo.

Que seja não apenas bem remunerado como gratificante e bem sucedido.

Liberdade

Que você seja livre dentro das amarras do cotidiano.

Que a internet seja livre e que a Lei Azeredo não passe.

Desejamos a todas as comunidades uma rádio livre.

Desejamos a todos uma imprensa livre de oligopólios e que permita liberdade de expressão de fato, feito que só pode ser obtido através da regulação.

Desejamos a todos software livre.

Paz

Aí é mais difícil, não haverá paz de verdade enquanto existir esse sistema de desigualdade, mas que você, citando a banda carioca, saiba qual a paz que você não quer conservar para tentar ser feliz.

Felicidade

Que você seja feliz não como o final de uma comédia romântica estadunidense, mas como uma criança que se apaixonou pela leitura e encontra uma biblioteca, e que um dia toda a humanidade possa o ser também.

Festas

Que as festas sejam boas, muito boas, e que ninguém tenha as fotos mais comprometedoras para colocar no facebook, flickr ou similares.

Esses são os votos do Cumachama.

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Começar neste ano ano que puxava para o medíocre a escrever um blog trouxe diversas alegrias, sempre que aquele comichão beliscava no fundo do cérebro, a vontade de palpitar e escrever, era só ceder ao desejo e ver no que dava, a maior parte não deu em nada, mas mesmo assim, foi bom, não foi?.

Agradecemos a todos que escreveram, leram, palpitaram, repassaram, twitaram, feicebucaram ou tiveram qualquer relação com nosso cantinho Cumachama. Ano que vem tem mais infâmias, críticas grosseiras, textos rasos, textos longos e obscuros, questões mal resolvidas, somente no seu, no nosso, no Cumachama.

Amplexos e ósculos

Guilherme – Dezembro 2010