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Colaboracionismo

7 maio

O melhor tratamento para lucidez é a lobotomia.

Mais cedo ou mais tarde, eles vão lhe pegar. Tenha certeza disso. E a parte mais triste é que farão isso com sua colaboração direta.

Algum tempo atrás, após mais uma daquelas reuniões estapafúrdias do PSOL – em que se discute a conquista do universo pela manhã e a melhor maneira de derrotar trotskistas no período da tarde – fui tomar um café com um amigo. Neste caso, amigo é pouco. Além do afeto que sinto pela pessoa em questão, há o fato de tratar-se de uma das duas pessoas, sobre a face do planeta, que respeito intelectualmente. Pessoa viva, de carne e osso, ao meu alcance. O Marx, o Weber e o Durkheim, portanto, não contam. Enfim, um grande amigo, um grande cérebro e uma capacidade de análise crítica muito acima da média. Café vai, café vem e um debate sem fim sobre a tal da revolução, que teima em não chegar. O problema é a militância estéril? A dificuldade de diálogo com as massas? A inesgotável capacidade de autorreforma do capitalismo? Muito trabalho alienado combinado com muito fetiche da mercadoria? Tudo isso junto? Lá pelas tantas, com uma contribuição da antropologia, chegamos à conclusão de que falta criarmos uma “hermenêutica socialista”. Ou uma hermenêutica do socialismo ou, ainda, uma hermenêutica da militância socialista. Nesse contexto, hermenêutica remete à antropologia interpretativa do amável antropólogo norte-americano Clifford Geertz e seu conceito de descrição densa. Arredondando horrores, Geertz achava que o trabalho de campo deveria ser pautado pela construção de descrições contextualizadas da cultura alheia. Enxergar a cultura do aborígene como um texto que não podemos/devemos/conseguimos ler de forma direta. Desse modo, nos apoiamos sobre os ombros nativos e ficamos ali lendo, de rabo-de-olho, o que sua cultura escreve. Tal exercício é difícil na medida em que culturas são complexos articulados de símbolos que comportam múltiplos significados. Mas, simplificando tudo e voltando ao café com o amigo, a ideia era a de que, para além da análise das grandes estruturas de dominação, precisamos entender como as pessoas lidam com o modo de produção capitalista em seu cotidiano. Sentem-se exploradas? Por que diabos um pobre da periferia profunda, sua vítima preferencial, insiste em votar no Maluf? Por que um nano-fazendeiro, acossado por grileiros, acha o MST uma aberração? Por que boa parte de nossa classe média, de forma tão primitiva, abomina o senhor Lula da Silva – não por questões de orientação política ou econômica, mas, ainda, pelo fato de ele não ter um diploma? Naquele café de tarde inteira, chegamos à conclusão de que um pouco de etnografia faria bem à militância pelo socialismo. Ajudaria na compreensão dessas situações tão confusas à primeira vista.

Lembrei dessas questões, não sei exatamente porque, em virtude do texto logo abaixo, de autoria de meu bom amigo Guilherme. O carnaval é um daqueles temas caros aos antropólogos. O Roberto DaMatta acha que o festejo permite enxergar com maior acuidade as relações de poder presentes em nossa sociedade – justamente pelas inversões de papéis que o momento permite. Aquele exemplo clássico do sujeito que, ao sair para comprar o pão pela manhã, em uma terça-feira gorda, vê o patrão caído na calçada, em coma alcoólico, vestido de mulher e com um estandarte ao lado de sua mão direita em que se lê: “bloco das princesas 2012, as melhores bundas peludas do Rio”. Na quarta-feira de cinzas, é bem provável que o sujeito olhe seu patrão de forma diferente e até relativize seu sacro-poder como mandatário do escritório. Outros tantos avaliam a situação de modo diferente. No carnaval a polícia está toda na rua e se o festejo, em si, desafia a ordem do modo de produção – afinal, são cinco dias de absoluta putaria –, suas implicações estruturais não são significativas. Alguém acha que poderíamos invadir a prefeitura do Rio de Janeiro sob a alegação de que “ah, é carnaval amigo! Vamos jogar a escrivaninha do Eduardo Paes pela janela?” Creio que não. Talvez a combinação das duas análises leve a um resultado mais produtivo. O carnaval permite, de fato, um desvio de olhar. Poderia ser diferente. Poderia. A pergunta que faço é: algum dia vamos substituir o futuro do pretérito pelo futuro do presente? O sujeito que viu o patrão na calçada alguma vez pensou em chegar ao escritório, na quarta de cinzas, e dizer: “então, chefia, eu vi que o senhor é cachaceiro como eu, não é nenhum ungido de Deus para nos humilhar e agora a gente vai montar uma comissão gestora no escritório, democraticamente eleita e com mandato revogável”? Essas coisas não acontecem.

Agora, como diria Jesuíno Galo Doido, eu dou com o xis da questão. Por que não acontecem? Não sei ao certo. O projeto de hermenêutica da militância socialista, que tracei com o amigo, não foi adiante. Talvez as pessoas não entendam que estamos presos a uma monotonia sem fim cujo único objetivo é a reprodução individual de nossa força de trabalho. Talvez estejam muito satisfeitas com sua cota de consumo. Talvez não enxerguem as formas sutis de dominação que se estabelecem em nosso cotidiano, que vão desde a catraca do ônibus, passando pela cobrança pelo consumo de água, até à imposição social para o consumo do Big Brother Brasil, vulgo BBB. Pode ser que ninguém entenda o que é trabalho alienado ou fetiche da mercadoria. E pode ser, também, que todos enxerguem o nosso modo de vida como o melhor possível – nesse ponto, algum engraçadinho, no fundo da sala, arremata: “se esse tal de comunismo é tão bom, por que lá na Rússia o resultado foi uma merda?” Aqui e ali, alguns “marginais” questionam a justiça e o equilíbrio desse estado de coisas. Posso garantir que os massacrados do Pinheirinho, os sem-terra que comem fumaça preta na beira da estrada e o menininho negro que foi expulso de um restaurante paulistano por um garçom racista têm, todos eles, algo a dizer. Mas também é fato que, até aqui, nossa sociedade não foi capaz ou não quis ou simplesmente não tentou se articular em torno de um projeto verdadeiramente emancipador. Falo do Brasil, mas os exemplos pelo mundo são inúmeros. Desde o caso norte-americano, com seu modelo de capitalismo-estado-de-natureza, até a experiência chinesa de capitalismo adornado com foices e martelos de ouro maciço. A humanidade caminha para uma imensa latrina de barbárie e, de um modo geral, ninguém dá muita pelota para as aberrações cotidianas do capitalismo. Nesse sentido, temos o exemplo neo-neocolonial europeu: “tentamos as Américas, a Índia, as ilhas do Pacífico e a África, agora vamos à Grécia”. A internet derruba governos das arábias e, em lugar de ditadores anacrônicos, teremos maravilhosas democracias liberais capitalistas – isso, lógico, se os militares entregarem o poder no Egito ou a charia, em versão hardcore, não for implementada na “nova” Líbia.

Agora que já passei pelo meu habitual catastrofismo, gostaria de chegar à motivação básica deste texto. Aquilo que produziu o “clique”. Pessoal, qual o nosso papel nisso tudo? Nós, militantes de verdade ou mentirinha, intelectuais idem, pessoas críticas, de boa formação e que acreditam não compactuar com esse grande amontoado de absurdos? Bem, nós fazemos parte disso, de um modo ou de outro. Há aqueles que fazem a crítica bem-comportada, nos bancos da biblioteca. Pode ser agressiva no último, mas fica lá, quietinha, na biblioteca. Também há boa quantidade de militantes que se contentam exclusivamente com a militância. Os bons objetivos transformadores são postos de lado e o sujeito passa a se sentir perfeitamente confortável no quentinho da burocracia do partido/movimento/grupamento político. Dito isso, gostaria de problematizar a questão um pouco mais, citando uma frase que não é minha (mas cujo autor desconheço): “antes o cinismo que a hipocrisia”. Nossa produção intelectual rasteira pode contribuir para formação de um desavisado que leia uma tese qualquer na biblioteca. O militante burocrata pode, eventualmente, colaborar para alguma conquista pontual da sociedade. Eu ainda acho que eleger um sujeito como o Chico Alencar é algo relevante. Assim sendo, como autor de uma dissertação de mestrado e ex-distribuidor de panfletos, acho que me sinto contemplado como cínico.

Entretanto, este texto é dedicado ao enorme contingente de inocentes úteis que povoa nossa sociedade em geral e nossos círculos de amigos em particular. Aqueles todos que são obrigados a fazer o que fazem. E, de obrigação em obrigação, terminam diretores de multinacionais, consultores de empresas gigantescas, assessores de tudo quanto é gente que não presta, executivos de empreendimentos diversos, operadores da bolsa de valores e por aí vai. Pessoas que ganham mais de vinte mil reais por mês – ou que estão nesse caminho – e que sentem muita saudade dos tempos de faculdade. Gente que lembra com carinho da militância juvenil e das noites em bares imundos. Que sente muita pena do amigo que não teve sucesso na vida, que ganha pouco e tem dificuldades para comprar um par de sapatos. Indivíduos que se sentem muito mal por terem abraçado o projeto – mas que não abrem mão, de modo algum, das benesses que ele proporciona e que jamais vão arrumar um emprego para o colega fodido. Exemplos de pessoas assim, temos aos montes. O Genoíno, aquele radical do paleolítico petista, virou babá da classe média que queria um partido de esquerda mais fofinho. O Palocci, que comandava ocupações de terra em Ribeirão Preto, tornou-se “consultor” de alguma coisa que ninguém sabe o que é. O João Gordo é palhaço televisivo. O Ferreira Gullar desenvolveu alguma patologia sociológica grave. E há uma lista interminável de colegas de vida toda que estão em bons empregos, jurando que continuam críticos de tudo e todos. Ganham muito bem e se prestam a serviços plenos de imundície.

Dizem que o poder endireita a esquerda. Depende da esquerda. A grande esquerda endireita com o poder, aos pequenos esquerdistas, um iPad basta.

Não escrevo para apontar o dedo a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo. Pois minha raiva vem do fato de que meu projeto pessoal de boa remuneração ainda não foi alcançado. Eu também desejo adentrar a longa marcha da humanidade rumo ao nada. Um deserto gigantesco, pontuado por um oásis/quinhão de consumo. Uma vez ao ano, a marcha para, todos enchem seus corpos de álcool e, ensandecidos, perguntam: “por que marchamos?” A pergunta é, sempre, o prenúncio da retomada do percurso.

Conheço uma moça que passou por uma fase pessoal turbulenta. Dificuldades e tristezas da vida. O fato pitoresco é que tal fase complicada foi marcada pelo ato de furtar livros. Nunca vendeu o produto de suas ações. Pelo contrário: lia tudo e, certa vez, me presenteou com um exemplar de autor que, à época, eu precisava ler. Em suma: não furtava para entesourar, mas para consumir os textos presentes nos livros. E nunca achou que estivesse cometendo qualquer barbaridade. Afinal, eram livros. Num dia de azar, foi pega. Daí em diante, eu comecei a dizer que era um absurdo a pessoa achar que alguém se comoveria com um flagrante numa livraria bonita voltada ao público endinheirado. Que o melhor seria organizar um movimento pelo acesso aos livros, informar as pessoas, criar consciência crítica, etc. Mandamos a moça ao psicólogo. Hoje, passados alguns anos, quero dizer a ela que estava certa. Completamente. Seu gesto foi de uma sobriedade tão plena, que o único resultado razoável seria o flagrante. Vejam: vivemos em um planeta em que vendem água, comida e livros. Água, comida e livros. Você precisa de dinheiro para comprar esses três itens, que são os mais elementares para composição da dignidade humana. O último até mais que os dois primeiros. É verdade que, sem água ou comida, você vai morrer bem rápido. Mas também é verdade que só os livros vão lhe explicar porque chegamos ao desastre ético de vender água e comida. Então, numa sociedade em que os livros são postos à venda, em que a matéria fundamental para o combate à alienação precisa ser adquirida à custa de muita alienação, a única atitude razoável é o furto. E ela furtou. Passou a ser a doida irresponsável da turma. Eu contribuí decisivamente com isso e tive meu momento “inocente útil”. Todos temos, aliás: quando nos orgulhamos de trabalhar bastante; quando procuramos ofender os colegas dizendo que acordamos cedo todos os dias; quando deixamos de corar diante do salário gordo; quando aceitamos, após umas oito sessões de terapia, que “o mundo é assim mesmo”. Achamos o Cartola e o Nelson fantásticos. Mas, caso fossemos seus vizinhos, naqueles momentos de solidão ética, não deixaríamos de pensar bem alto: “mas esse vagabundo não para de beber?”

Concluindo, você vai tomar parte nisso tudo. Vai fazer muito bem pensar que foi contra sua vontade, que nada poderia ser feito e que você não vai cair na afetação adolescente de achar que pode viver da venda de poemas na Rua Augusta. O salário elevado na empresa malvada não vai passar de um efeito colateral assaz desagradável da vida em uma sociedade injusta – e o seu cérebro vai desenvolver o prazer masoquista da repetição infinita de um mantra que diz que você está nessa merda até o pescoço, mas é crítico do sistema. Aliás, uma palavra aos adolescentes. Muito se fala da depressão difusa e da rebeldia sem causa que acomete todos que passam por esse estágio da vida. Na verdade, os adolescentes se assemelham muito aos porcos de abatedouro. Estes, quando percebem o fim inescapável, ficam terrivelmente agitados e gritam de forma assustadora. O adolescente, quando percebe no que está prestes a entrar, começa a espernear e gritar. O porco, caso seus gritos comovessem o verdugo, fugiria para bem longe do abatedouro. O adolescente grita para, tempos depois, dizer que, felizmente, superou aquelas crises bestas da juventude.

E vamos marchar, todos juntos, até o próximo carnaval.

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Tonico.

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O Videoteipe é burro

8 maio

E não só ele, o áudio que o acompanha também. Nelson Rodrigues, com completa razão, afirmava que o videotape era burro, mas por outros motivos, mais sábios e profundos. E se no que nos diz respeito o videoteipe não é burro, ao menos se pode  afirmar com muita tranqüilidade que o videoteipe na transmissão de televisão de futebol brasileira está muito burro.

É apenas senso comum, já difundido e assimilado, que nenhum sistema de inteligência ou segurança pode ser mais inteligente que o mais burro de seus operadores. Do mesmo modo nenhum sistema de transmissão de jogos de futebol pode ser mais inteligente do que o diretor de imagens designado para o jogo, do que a equipe de cobertura ou do que as diretrizes da emissora que o transmite.

Nas transmissões de jogos de hoje, a seleção de imagens que serão passadas novamente, seja imediatamente, seja no intervalo, se baseia numa visão ranheta do futebol, no qual a violência, independentemente de onde ocorra, prevalece sobre a arte sempre que esta se realizar longe do gol adversário. Sinal dos tempos talvez. O que sei é que já vi mais vezes a pancadaria gerada pro aquela brincadeira do Edilson do que uma matada de bola do Romário, num passe de 40 metros, tirando o zagueiro já na matada (Por que dominar uma bola virou “matá-la”?), também andei procurando uma jogada do Zidane no qual ele mata a bola de costas para o lado do ataque, ainda no ar vira, dá uma petecada na bola e sai jogando pro lado certo antes de tornar ao chão, não acho,  é mais fácil até encontrar para rever a violência do que belas jogadas.

Chutes a gol bisonhos, que tem até divertidas narrações específicas, e faltas violentas são repetidos ad nauseam, enquanto matadas de bola que beiram o primor e dribles que poderiam estar expostos em qualquer bienal se encaminham, resignados, para o ostracismo (uma pequena cidade em Minas Gerais). Quanto mais violenta uma falta, mais vezes esta será repetida. Talvez seja um repetição do mesmo raciocínio que leva a televisão a passar tantas vezes “Rambo” e tão poucas “O Carteiro e o Poeta”, talvez tenha um pouco do sangue que tinge os jornais enquanto as boas notícias são aninhadas no miolo dos cadernos, e com chamada discreta, talvez não tenha nada a ver. Vivemos mesmo em um mundo no qual a violência vende mais do que a arte?

Outra moda das transmissões de TV é filmar o técnico a cada sete minutos e passar cinco segundos da imagem dele esbravejando ou parado. Acabam afirmando, mesmo que subliminarmente, que se ele está gritando, então está ajudando o time, se ele está parado, então é apático. Exceção feita aos casos no qual o jogo já está ganho para alguma equipe. Além de não acrescentar dados ao telespectador, essa prática de filmar o técnico traz julgamentos errôneos sobre a competência do técnico cuja eficácia a simples menção do nome Feola* já desmente.

Quanto ao impedimento, o mesmo excesso se repete, se o lance foi óbvio, uma repetição bastaria, já se o bandeirinha errou num lance incrivelmente difícil, o time prejudicado foi “garfado”, e lá vai o lance repetido doze vezes (duas seriam mais do que suficientes), por fim, se o erro foi crasso, fica fácil de ver e uma repetição também daria conta do recado. A única solução humana para os erros em lances extremamente difíceis de impedimento seria contratar para bandeirinha somente pessoas estrábicas, e com o estrabismo divergente – a única condição humana através do qual é perfeitamente possível observar o passe e a linha de impedimento ao mesmo tempo.

Outro momento sensacional de nossas transmissões é quando a imagem, o jogo que está passando na tela e a análise tem tantas semelhanças quanto uma mitocôndria e a convenção de Genebra, ou seja, nenhuma. Sempre que o time supostamente mais fraco está ganhando ou arrancando um empate absolutamente improvável é demérito do time maior, jamais qualidade da equipe que cumpre o papel da zebra. Mesmo que as imagens mostrem exatamente o contrário, que a equipe grande está jogando um jogo normal e que o time pequeno esteja arrasando, se superando. Isso quando a equipe de transmissão não se propõe a fazer uma análise do sentido geral do jogo aos quatro minutos do primeiro tempo:

Cenas que gostaríamos de ouvir:

– E aí João, dá para afirmar que o Ibitira está mais consistente?

­Momento no qual a única análise decente seria:

– Não dá para saber José, o jogo acabou de começar.

Outra mania consolidada nas transmissões de futebol é dar emoção através da narração a um jogo que pelas imagens que vemos não a tem. Se o jogo está chato, está chato, não deveria ser um pecado apontar isso na transmissão.

No capítulo ranhetice, que é todo um mundo de visão sobre o futebol como uma coisa séria, há um único comentarista na Bandeirantes que é tão ranheta que faz todo mundo voltar para a Globo, que é justamente de onde estava se fugindo. Outra invenção moderna é o comentarista ranheta de arbitragem, o que é completamente diferente do jeito mesmo que involuntariamente divertidão , com o qual Mário Viana, por exemplo, comentava.  A regra é clara, mas os lances não, como a primeira só pode ser aplicada sobre os segundos, a frase fica absolutamente sem sentido ao invés de ficar com o sentido absoluto que pretendia.

Cenas que gostaríamos de ouvir:

-E aí Peçanha, o árbitro foi bem?

-Não sei Bigode, estava olhando os jogadores.

No universo ranheta bom é ser “guerreiro”, “lutador”, tem que levar o jogo a sério, tem que levar o adversário a sério. Nesse lugar triste, o universo ranheta, é justo dar um pontapé num jogador que está “abusando” de “jogadas de efeito”, como dribles bonitos debaixo das pernas, chapéus e dos toques de calcanhar. Um neurocirurgião tem de ser sério, um jogador de futebol tem de jogar futebol, e isto não tem nada a ver com ser sério. Quando você sinceramente começa a achar que vinte e dois marmanjos de shortinho tentando chutar uma bola num retângulo é uma coisa séria, está na hora de você parar e repensar uma série de coisas.

No universo ranheta, concentração é lei.

Ao contrário de outros profissionais bem remunerados, para os quais o que vale é o que realiza no seu horário de trabalho, no universo ranheta o que um jogador faz nas suas horas de lazer deve ser discutido e muito. O critério para um ranheta nunca é apenas o campo. Êta lugar ranzinza.

Há também um outro capítulo a parte na transmissão televisiva atual, que é o das platitudes, também conhecidas como banalidades, obviedades, senso comum, comentários sem originalidade. Só a transmissão das finais dos estaduais daria para encher um livro com falas como “jogar em casa é uma vantagem”, ou, para um time que acabou de ter um jogador expulso ou tomar o terceiro gol, “-Agora ficou mais difícil para o Pirapora!”,  ou quando está zero a zero, “O jogo está indefinido”, isso entre toda uma coleção de “Quem não faz toma”, “tem que ocupar o meio de campo”, “um gol agora é importante” etc, são vazios que preenchem lacunas. Nesse capítulo, a cena que mais gostaríamos de ouvir é:

– Um gol agora muda a história do jogo, Janir!

-Dããã Célio.

Enfim, assistir essas transmissões é um grande desafio para os ouvidos, para a inteligência e para a alma. Será que teremos que esperar o advento de um mundo mais justo para ver futebol com algum bom humor, inteligência e arte? Não, não precisamos, Milton Leite está aí para provar que é possível, mesmos nestes tempos, transmitir futebol como a bela e divertida brincadeira que é.

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*  Vicente Italo Feola – técnico do Brasil em 1958 e 1966, era acusado pela mídia de dormir no banco de reservas.

Este texto é dedicado a meu amigo Porpetta, que sofre de flamenguismo agudo.

Guilherme Flynn – Maio de 2011

Quem quer ser um milionário?

10 mar

Mais um texto de Pedro Ekman que, não se sabe bem porque, escolheu esse blog como veículo (bicicleta no caso) de sua farta produção. Lá vai:

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Quem quer ser um milionário?

A riqueza de 10 pessoas é mais de 120 vezes maior do que a riqueza que o país com pior índice de desenvolvimento humano consegue produzir em um árduo ano de trabalho. O contraste que esse dado revela já não causa tanta indignação em uma sociedade que acha natural as diferenças produzidas pelo capitalismo, e que comemora os grandes feitos financeiros lamentando a inevitável condição miserável de alguns pobres coitados que ainda não “aprenderam” como ser bem sucedidos nas regras da selva econômica.

Pois bem, não se conformando com a naturalidade dessas diferenças e acreditando na capacidade da humanidade de ser solidária consigo mesma, os socialistas propõem a divisão igualitária da riqueza socialmente produzida. Socialistas ou não, os trabalhadores que não conseguem acumular riqueza, dado seus baixos salários e alto custo de vida, também pedem para que sejam melhor distribuídos os ganhos com a produção. Como geralmente os ricos não estão muito dispostos a abrir mão da sua riqueza, esses pedidos são feitos não em conversas do chá da tarde no clube de campo, mas em greves e protestos. Infortunadamente alguns não-ricos acabam se cansando das negociações ou até mesmo perdem a crença na solidariedade humana e partem para iniciativas individuais mais violentas de distribuição direta da riqueza, como assaltos e seqüestros.

Talvez os ricos não queiram dividir sua riqueza por terem medo de que o resto da humanidade, em um ato de crueldade e vingança, os obrigue a viver apenas com um salário mínimo. Talvez os pobres tenham que ser mais compreensivos, pois pode ser que os ricos tenham que se acostumar com a idéia aos poucos. Será que eles teriam menos medo de distribuir a riqueza se percebessem que para isso não precisam deixar de ser ricos? Como reagiriam a pergunta: Quem quer ser um milionário?

A pergunta é de fácil resposta para bilhões de seres humanos espalhados pelo globo, mas não é tão simples para os raros bilionários entre nós. Se o plano der certo, em uma bela tarde no clube de campo, o tilintar das xícaras de chá brindarão uma nova lei geral para a humanidade: “Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.”

Isso pode soar menos ofensivo para os ricos. Para se ter uma idéia das conseqüências desta nova proposta, analisemos o que aconteceria com os extremos da questão. Os dez indivíduos mais ricos do planeta acumularam a bagatela de 426 bilhões de dólares em patrimônio pessoal. Coincidentemente nenhum desses abonados indivíduos vive no Zimbábue. Esse país, que não teve a sorte de nascer em berço de ouro, produz uma riqueza equivalente a 3,5 bilhões de dólares por ano. Se a regra fosse aplicada apenas a esses dez senhores (nenhuma mulher pertence ao grupo), cada um dos 13 milhões de cidadãos do país com as piores condições para se viver poderia contar com 32 mil dólares para tentar estruturar melhor a vida daqui para frente. Se entendermos que melhor do que o distribuir o dinheiro para a população seria realizar investimentos em programas sociais, teríamos um impacto US$ 426 bilhões aplicados de uma só vez em um território acostumado a ver US$ 3,5 bilhões ao longo de um ano todo. A mistura das duas soluções também seria fabulosa.

Certamente cada um dos dez senhores mais ricos do mundo conseguiria levar uma vida digna e confortável com a parca quantia de 999 milhões de dólares tendo apenas que suportar o trauma psicológico da perda do título de bilionário para se acostumar as ser tratado como um reles milionário. Para iniciar a prática de desapego material o homem mais rico do mundo, o investidor americano Warren Buffett teria que abrir mão de 61 bilhões de dólares. Já o menos rico dos top ten, o varejista alemão Karl Albrecht, teria que se desfazer apenas de 26 bilhões de dólares e um centavo dos seus 27 bilhões acumulados.

Parece claro que existência de poucos homens muito ricos implica necessariamente na condição de que muitos mais precisem permanecer pobres. Ainda assim, se uma tragédia provocada pelos próprios seres humanos não é suficiente para convencer os abastados a assumirem outra postura perante humanidade, tentemos uma comparação com tragédias de fato naturais.

Recentemente um terremoto devastou o Haiti que já era o vigésimo quinto pior país do mundo para se viver. Os Estados-membros das Nações Unidas e parceiros internacionais prometeram US$ 5,3 bilhões para os primeiros 18 meses da reconstrução deste país, mas entregaram até hoje apenas US$ 824 milhões. Os melhores números falam em um valor total prometido para os próximos três anos de US$ 9,9 bilhões, vindos de 59 países e organizações internacionais. Se levarmos em consideração as melhores previsões, o mundo estará oferecendo ao Haiti US$ 3,3 bilhões por ano por um período menor do que o de um mandato presidencial. O Haiti antes da tragédia, com suas forças produtivas a pleno vapor, tinha um Produto Interno Bruto anual de US$ 6,4 bilhões e ainda assim possuía o vigésimo quinto pior IDH do mundo. A comunidade internacional, mesmo mobilizando a riqueza produzida por pobres e ricos (dinheiro público) não foi capaz de oferecer para a reconstrução de um país devastado e sem qualquer capacidade produtiva mais da metade do que ele produzia em plenas condições.

Uma vez que os dez homens mais ricos do mundo já estão comprometidos com o Zimbábue, apelemos para outros dez que com apenas um click seriam capazes de aportar uma quantia considerável. Apelemos para as dez pessoas que mais enriqueceram com negócios da internet, afinal elas já conseguiram juntar 82 bilhões de dólares debaixo do colchão. Se pessoas como Larry Page da Google e Mark Zuckerberg do Facebook aceitassem se tornar milionários o Haiti poderia receber a cada um dos três anos de reconstrução uma quantia 4 vezes maior do que seu PIB original, uma ajuda quase 8 vezes maior do que o mobilizado por toda a comunidade internacional.

No Brasil a boa vontade de dez bilionários em se tornar milionários somaria 66 bilhões de dólares ao orçamento público podendo tornar os investimentos em saúde pública 2,5 vezes maior em 2011.

Se as trinta pessoas aqui citadas, que sequer chegam a lotar um ônibus, aceitassem viver apenas como milionários, muito já se poderia fazer com o meio trilhão de dólares redistribuídos. Imagine o que não aconteceria ao mundo se todos os bilionários se tornassem milionários. Ora, se no capitalismo não nos é dada a oportunidade de perguntar aos bilionários se aceitam se tornar milionários, ou se perguntados, estes são incapazes de dizer: “Sim”. Então desistamos de tentar mudar apenas uma regra e mudemos todas.

Aos que ainda acreditam que é possível reverter as convicções de um bilionário:

Carta de lançamento da CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO DA BURGUESIA: Você bilionário, faça a sua parte.

“Caros Warren Buffett (EUA – US$ 62,0 bilhões), Carlos Slim (MÉXICO – US$ 60,0 bilhões), Bill Gates (EUA – US$ 58,0 bilhões), Lakshmi Mittal (ÍNDIA – US$ 45,0 bilhões), Mukesh Ambani (ÍNDIA – US$ 43,0 bilhões), Anil Ambani (ÍNDIA – US$ 42,0 bilhões), Ingvar Kamprad (SUÉCIA – US$ 31,0 bilhões), K. P. Sing (ÍNDIA – US$ 30,0 bilhões), Oleg Deripaska (RÚSSIA – US$ 28,0 bilhões), Karl Albrecht (ALEMANHA – US$ 27,0 bilhões), Larry Page (GOOGLE US$ 17,5 bilhões), Sergey Brin (GOOGLE – US$ 17,5 bilhões), Jeff Bezos (AMAZON – US$ 12,3 bilhões), Eric Schmidt (GOOGLE – US$ 6,3 bilhões), Masayoshi Son (SOFTBANK – US$ 5,9 bilhões), Pierre Omidyar (EBAY – US$ 5,2 bilhões), Hiroshi Mikitani (RAKUTEN – US$ 4,8 bilhões), Charles Schwab (CHARLES SCHWAB BANK – US$ 4,7 bilhões), Mark Zuckerberg (FACEBOOK – US$ 4,0 bilhões), Ma Huateng (TECENT – US$ 3,8 bilhões), Eike Batista (BRASIL – US$ 27,0 bilhões), Jorge Paulo Lemann (BRASIL – US$ 11,5 bilhões), Joseph Safra (BRASIL – US$ 10 bilhões), Dorothea Steinbruch (BRASIL – US$ 5,5 bilhões), Marcel Herrmann Telles (BRASIL – US$ 5,1 bilhões), Carlos Albero Sicupira (BRASIL – US$ 4,5 bilhões), Aloysio de Andrade Faria (BRASIL – US$ 4,2 bilhões), Abilio dos Santos Diniz (BRASIL – US$ 3 bilhões), Antonio Ermírio de Morais (BRASIL – US$ 3 bilhões) e Moise Safra (BRASIL – US$ 2,3 bilhões) vimos por meio desta solicitar uma reunião para firmarmos o pacto QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

No referido pacto os signatários se comprometem em cumprir e honrar o texto:

Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.

Seguros de que essa iniciativa marcará vossos nomes na mais significativa página da história da humanidade e certos de um retorno positivo, aguardamos a indicação de um clube de campo da vossa preferência para firmamos o referido documento.

Sem mais,

Não-bilionários do mundo.

São Paulo, 10 de março de 2011”

Pedro Ekman é socialista.

São Paulo 10 de março de 2011

A porta dos fundos da história

23 jan

Cleveland Williams, em luta contra Muhammad Ali (14 de novembro de 1966). Caindo no esquecimento, em muitos sentidos.

 

Todo sujeito que possui grande apreço pela auto-sabotagem ou gosta de lutas de boxe tem, invariavelmente, grande simpatia pelo perdedor. Nesse sentido, meu caso é exemplar. Pois consigo destruir minhas entrevistas de emprego em segundos e sou capaz de passar dias assistindo a antigas lutas de boxe na internet. A inspiração para este texto veio de uma semana particularmente difícil quanto à busca de trabalho e da oportunidade que tive de rever os minutos finais de “Touro Indomável” – a impecável cinebiografia de Jake LaMotta, o “Touro do Bronx”, realizada por Martin Scorsese em 1980. O próprio LaMotta, aliás, seria inspiração para dezenas de textos sobre os possíveis significados da derrota.

Isso posto, ao perdedor cabe, sempre, a porta dos fundos da história. Quando esta existe. Em muitos casos, acho que esses discípulos de Jó simplesmente se desintegram no ar e nunca mais são vistos. Como prometi que, em 2011, seria um sujeito determinado a conquistar grandes realizações, achei muito adequado que meu primeiro texto do ano fosse totalmente contrário a tal decisão. Uma de minhas grandes tradições pessoais diz respeito à implementação do exato contraditório de tudo aquilo que prometo na virada do ano. Sempre faço promessas arrazoadas e que me seriam úteis se cumpridas. Mas quem disse que vou me render tão facilmente ao sucesso?

Meu primeiro homenageado é Cleveland “Big Cat” Williams. Um grande boxeador norte-americano dos anos 1960 e 70. Tão bom que tinha seu talento reconhecido pelo próprio Muhammad Ali. Abordado por um oficial de polícia num bloqueio de trânsito, foi baleado no abdome, aparentemente sem razão alguma. Quase morreu e teve um grande número de sequelas: problemas nos rins, perda considerável do intestino delgado e danos nos nervos que afetaram sua perna esquerda abaixo do joelho, causando atrofia. Dedicou todo ano de 1965 à recuperação da saúde. Poderia ser o fim trágico da carreira de qualquer outro boxeador. Mas esse não era o caso desse rapaz forte e de apurada técnica na distribuição de sopapos. Mostrando que não estava inválido para o esporte, com uma boa volta aos ringues, foi escalado para uma luta pelo título dos pesados contra o próprio Ali. Este, famoso por suas fanfarronices, declarou: “Cleveland é um lutador muito bom, que respeito. Por isso vou derrubá-lo no terceiro round”. O cenário era perfeito para criação de uma nova lenda em um cenário que as adora. A luta durou exatos três rounds. Cleveland foi soberbamente massacrado por Ali e mal conseguiu dar um soco. Nocauteado, garantiu sua entrada no rol das grandes figuras desimportantes da história.

O futebol possui não uma porta, mas gigantesco portal dos fundos. Há o famoso caso de Ditão, parrudo beque do Corínthians nos anos 1960. O defensor, paradoxalmente famoso entre os esquecidos, adquiriu o carimbo dos obscuros num lance que não faz justiça a suas notórias capacidades como zagueiro trombador. Depois de “parar” tantos atacantes de forma enérgica e determinada, foi numa disputa besta de bola, com o craque Tostão, que despontou para os rodapés das enciclopédias de futebol. Deu um chutão numa bola dividida e esta acabou por acertar a face do franzino mineiro. Véspera da Copa de 1970, o jogador cruzeirense ganhou um descolamento de retina e virou dúvida para convocação. Tudo acabou bem e o México viu Tostão em sua plenitude. Ditão, por sua vez, jaz na seção “Que fim levou?”, no portal do Milton Neves.

Ainda no futebol, há o episódio, que invento agora, de “Seu Fanucci”. Mais precisamente Vincenzo Fanucci de Oliveira, de pai calabrês e mãe portuguesa de Lisboa. Juntando tradições, era proprietário da Padaria Ibéria – cheia de azulejos com a Cruz de Malta – e palmeirense doente. Viu jogar, de Julinho Botelho a Ademir da Guia, todos os grandes craques que passaram pela Academia de Futebol. Depois disso, entre 1977 e 1992, não viu nenhum – pois eles não existiam mais pelas bandas do Parque Antártica. Xingou a mãe, a tia, todos os avós, a esposa e os filhos do Mirandinha, quando este era a risível esperança do Palestra. De tanta tristeza, foi descuidando da padaria. Azulejos gastos no chão, balcão sujo, infiltrações nas paredes, o trinco do banheiro que emperrava sempre… Em 1993, porém, Seu Fanucci voltou a sorrir. Com dinheiro de uma multinacional do leite, o clube montou um verdadeiro esquadrão. E, claro, em seu estabelecimento só entrava leite Parmalat. Contava os jogos para o título. A confiança era tanta – e tantas eram as promessas para San Gennaro – que nem se assustou muito com a derrota para o Corínthians no primeiro jogo das finais. Arrumou um ingresso de arquibancada para o segundo, com um fiel cliente italiano. Organizou a padaria, fechou o caixa, colocou uma camisa verde e, pronto para o jogo, resolveu passar pelo banheiro. Aí ficou evidente que trincos de banheiro não discriminam clientes e proprietários. Travou. Fanucci gritou, esmurrou, chutou a porta, fez o diabo. Implorou pela intervenção de São Genésio e depois xingou o santo. Nada. Encontraram o gordo uns cinco dias depois, esparramado no chão do banheiro. O legista ficou impressionado – nunca vira um infarto daquela magnitude. Ninguém publicou nada a respeito no jornal e a família vendeu a Padaria Ibéria. A plaquinha de mármore com seu nome, mal fixada no túmulo, foi roubada. Ouvi apenas uma única referência a esse personagem, após sua morte. Quando alguém apontou para a loja de materiais elétricos e disse que ali, antigamente, funcionava o mercadinho do Seu Patucci.

O último personagem deste texto é uma criança que conheci, quando também criança, no bairro da Aclimação. Eu morava na rua Mesquita e encontrava o menino todos os dias. Lembro-me dele porque tinha uma camisetinha de goleiro – não lembro o time – que usava bastante. Brincamos muitas e muitas vezes. Gostava de desenhar em paredes, desmontar relógios e tinha um pastor alemão lindo. Sua casinha, nos fundos de outra casa, era muito simpática. Tinha uma sala que, naquele tempo, era enorme. Creio que se a visse hoje acharia minúscula. Recordo de sua tristeza quando seu cachorro morreu e, também, que seu pai o levava ao Parque do Piqueri. Além do pai, tinha uma mãe e uma irmã que saía engatinhando por tudo que era canto. Em seu quarto, eu adorava invejar o lustre, com motivos infantis, que pendia do teto. Nele, uma lâmpada amarela pequenininha. Como se fosse hoje, ouço o menino dizendo: “papai colocou para eu não sentir medo do escuro”. Rememoro, enfim, o pai desse menino colocando-o para dormir e lendo histórias sobre outro menino, que não crescia nunca, de uma terra muito distante. Uma criança alegre. Mudou-se para o interior de São Paulo com a família e não mais o vi. Acho que merece citação neste texto pois desconfio, em meu íntimo, que ninguém, nunca mais, viu o menino.

Esta é minha homenagem a todos que não lembramos, que foram ignorados pela história, que caminham na obscuridade, que ganharam notoriedade na irrelevância ou aqueles que, embora não se enquadrem exatamente nesses casos, tentamos, todos os dias, apagar de nossas memórias. Parafraseando meu bom amigo Mateus, largo é o caminho do esquecimento, estreito o da (boa) lembrança.

Em causa própria

20 dez

O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem.

Guy Debord, A sociedade do Espetáculo. Capítulo I, tese 34. 1967.

 

A inspiração para este texto veio de uma frase que ouvi recentemente. Estava eu tomando um café, numa birosca do centro, quando vi um casal que parecia realizar uma daquelas discussões de relacionamento que, pelos semblantes dos envolvidos, temos certeza de que não terminará muito bem. O ponto final veio de uma frase do rapaz: “olha, Luciana, além de tudo, você tem uma série de características das quais eu fujo”. A moça pareceu um pouco espantada mas, no final das contas, despediram-se e cada um foi para seu lado. Ainda não foi dessa vez que pude presenciar uma autêntica briga amorosa num boteco da General Jardim, com direito a gritos, facadas, impropérios diversos e uma enorme poça de sangue. A cada dia que passa, convenço-me mais de que, de fato, os amores não acontecem, todos, nos anos 1930, numa viela perdida na fronteira quádrupla entre Madureira, Vila Isabel, Bixiga e o centro velho de São Paulo.

Por caminhos um tanto sinuosos, o fim bem-comportado dos jovens do parágrafo anterior me fez refletir sobre o mundo do trabalho. A frase do rapaz, sobre possíveis características indesejadas, somada aos olhos tristonhos da moça, me fez pensar sobre os motivos do rompimento. Ela não tinha tantas qualidades quanto ele gostaria: talvez não fosse muito sensual ou não tivesse uma formação intelectual muito sólida. Além disso, aquele olhar tristonho era bem típico daquelas figuras que cultivam chateações renitentes e irresolúveis: nada está bom, nunca, não é, Luciana? Gosta de sofrer e joga toda sua amargura nas costas dos outros. Poxa vida, moça! Com um pouco de esforço e dedicação, você conseguirá ter suas cotas de sucesso, realizações e alegrias. Cinema, beijos, sexo, mãos dadas, jantares e até mesmo um namoro. Deixe de ver o mundo por esse filtro cinza que não fica bem nem em filmes europeus de culto à depressão.

Acho interessantes essas recomendações. O sentimento pequeno-burguês aparece para fazer uma visita aos relacionamentos afetivos. Com um tanto de esforço e dedicação, qualquer um pode ser grande. Você começa vendendo pentes na feira, trabalha duro, umas 12 horas por dia, e vai juntando um dinheirinho. Depois aluga uma lojinha e, junto dos pentes, oferece umas miudezas: cortadores de unha, tesouras, linhas, agulhas, escovas, uns cremes vagabundos, toucas, incensos e um “muito obrigado, volte sempre”. Trabalhando em sua lojinha, 12 horas por dia, você vai conseguir juntar mais dinheiro e abrir uma loja maior, com produtos mais confiáveis. Procurando bem, o cliente vai achar até um “creme Nivea” e vai perceber, maravilhado, que o “Bazar do Odair” comprou uniformes para todos os funcionários. Nesse ritmo de 12 horas diárias, passados uns 20 anos, o Odair vai aparecer no caderno de Negócios do Estadão, como grande empresário do setor de varejo, e vai se apresentar como Silva Júnior, pois “Odair” é nome de quem não foi muito longe na vida. O repórter, malandro, vai fazer uma piada sobre isso e concluir que, qualquer que seja o nome do fulano, essa é mais uma história de sucesso empresarial. Deus ajuda quem cedo madruga e é empreendedor – com uma mãozinha do Sebrae.

No capitalismo flexível, esse mito pequeno-burguês aparece renovado. Você não precisa mais abrir uma lojinha e depois uma loja e depois uma lojona e depois comprar um montão de lojas. Provavelmente, lá pela terceira loja você será obrigado a abrir o capital da empresa ou pensar num modelo de franquias… Além disso, nos dias atuais, o mundo corporativo possui outras opções. O sujeito abre uma empresa/pessoa jurídica de um homem só – pois carteira de trabalho assinada é tema de ficção científica – e passa a prestar serviços para um grande conglomerado que produz sabe-se lá o que, em cidades bem miseráveis do interior da Tailândia. Ano após ano, trabalhando 12 horas por dia, vestindo a camisa da empresa e batendo as mais improváveis metas, chegará ao posto de vice-presidente-de-novos-mercados-e-gestão-de-mídias-inovadoras. Aparecerá no caderno de Negócios do Estadão como um sujeito que começou digitando formulários na empresa e, graças à muita dedicação e espírito proativo, tornou-se um executivo reconhecido por sua competência.

Os dois exemplos citados acima renderiam ótimas histórias de superação pessoal. Eu ainda vou criar uma série chamada “Rocky, um Empreendedor”. Acho que a Globo reprisaria à exaustão.

Nosso modo de produção valoriza muito a cultura da vitória, do sucesso e da realização. Creio não ser interessante que as grandes massas exploradas de trabalhadores percebam a situação na qual se encontram. Esse modelo deve permanecer envolto em grossas camadas de fetiche – inapreensível, em suas consequências, para essas massas. A exclusão, a desigualdade, a violência, a pobreza e a miséria, nenhum deles deve ter origem social/sistêmica, o modo de produção deve ser considerado justo e a vitória, seja ela qual for, deve depender exclusivamente do esforço pessoal de cada indivíduo. Em alguns lugares o direito à “busca da felicidade” está garantido na constituição. E, ora, se você tem o direito à busca da felicidade e não consegue encontrá-la, é responsável direto por tal fracasso.

No capitalismo, seja ele fordista ou flexível, o que é o fracasso? O fracasso resulta de uma combinação de fatores: pouco esforço, decisões erradas, ausência de iniciativa, falta de criatividade, recusa ao sacrifício e/ou incompetência. Todos esses elementos repousam sobre uma base moral: o Estado não lhe negou direitos e a sociedade não é desigual, foi você que dormiu demais – porque ficou na farra –, perdeu o horário e agora vai para o inferno (ou o fracasso, que é a mesma coisa).

Acho interessante notar como as pessoas não compreendem uma série de fatos óbvios. Que vencedores geram perdedores e que, em muitos casos, nem todo esforço do universo vai resultar em sucesso. A mobilidade social não é tão ampla, não é garantida constitucionalmente e não está escrito em lugar algum que será sempre ascendente. Uma oscilação mais dramática desse ser chamado Mercado, um furacão, um plano econômico exótico ou uma doença que não é coberta pelo plano de saúde e bau-bau, fio. Num Estado de Bem-Estar Social (e ele merece as maiúsculas), as chances são melhores. Num país que faz de tudo para rejeitar a universalização da saúde, bem piores. Mas não há garantias em ambos. O modo de produção capitalista é como aquele sargento do exército americano que sempre aparece nos filmes da sessão da tarde. Não importa qual a sua resposta, ela sempre estará errada.

Fiquei a pensar em Luciana e no fora que levou, por ter uma série de características das quais o sujeito foge. Também pensei nas propagandas de cerveja, na novela das oito, nos filmes da sessão da tarde, na Revista Capricho, na Playboy, nos casais que vão ao Shopping Center e no programa da Hebe. Todos alegres, contentes, de bem com a vida, buscando realizações, querendo crescer na vida, em ambientes que a tristeza não adentra e em situações em que o sucesso sempre está presente. Rapazes sorridentes com moças bonitas. Não há um alcoólatra, um depressivo, um sujeito tristonho, ninguém tem “síndrome do pânico”, não há uma pessoa com um dedo faltando, uma perna torna ou que seja vesgo. Não há suor nem secreções diversas, todos acabaram de sair do banho. Um mundo de pessoas que se cuidam, tem uma alimentação balanceada, não consomem cigarros e que, vez por outra, provam um ou dois copos de um ótimo tinto francês. Sejam bons livros ou obras de auto-ajuda, todos acabaram de ler alguma coisa muito interessante. Um mundo de gente branca, bem cuidada, heterossexual. Todos com uma vida amorosa bem estruturada, com parceiros da melhor qualidade. Famílias felizes, namoros alegres, sempre um passeio no parque, numa tarde de domingo.

O meu ponto, neste texto, é o seguinte: esse cenário afetivo asséptico, sempre presente em filmes, propagandas e programas duvidosos é a encarnação do sentimento pequeno-burguês no campo afetivo. Assim, com um tanto de esforço, cuidado e dedicação, acordando cedo, vendendo pentes e trabalhando 12 horas por dia, qualquer um pode ter o seu grande amor, caminhar de mãos dadas na praça e viver feliz para sempre. O tristonho, o fracassado, o infeliz e o tal do “loser” são, todos eles, personagens que se negam, de forma sistemática, a enfrentar seus problemas, gostam de sofrer e recusam o caminho árduo, porém seguro, que leva ao final feliz. Sabe qual o problema da Luciana?A Luciana não quer ser feliz. A Luciana quer chafurdar na tristeza. A Luciana não quer empreender o necessário esforço pessoal que garante o sucesso na busca pela felicidade. Todos sabemos que a felicidade depende exclusivamente do empenho pessoal, não é mesmo?

O homem que progride pelo próprio esforço pode progredir no mundo dos negócios, no campo afetivo e onde mais desejar. Deus ajuda quem cedo madruga e, trabalhando firme, não há como fracassar. O namoro desfeito é a derrota daquele que não se dedicou de modo suficiente à busca do final feliz.

O sentimento pequeno-burguês que impregna a maneira pela qual enxergamos o modo de produção parece impregnar, também, nosso modo de entender o campo afetivo. Procure um bom parceiro, uma pessoa que queira evoluir, transformar-se. Procure a melhor pessoa possível na gôndola desse mercadão humano. Muito cuidado com o bêbado, o amargurado e o feio. Procure, finalmente, aquele ser que quer empreender afetivamente. E muito cuidado com aqueles que dão trabalho. Não dê ouvidos ao tímido, ao ranzinza, ao rancoroso, ao amargurado, ao feio, ao chato, ao demasiado pacato, àquele que quer passar férias em Itajubá, que almoça no boteco da esquina, que se satisfaz com pouco, que não se veste tão bem, que fica feliz com três livros, quatro discos e uma bicicleta. Você merece, sempre, o melhor: aquele que quer mais, deseja ir mais longe, tem a fibra de um boxeador, é inteligente como Einstein, tem o gosto musical de um Mahler, vende tão bem quanto o Abílio Diniz, recebe trozentos mil reais por mês, possui um plano de carreira bem estruturado… Encontrando esse ser, você terá sido vitorioso em sua busca pela felicidade, terá rejeitado o fracasso e poderá se orgulhar de uma vitória afetiva obtida à custa de muito esforço e muita dedicação pessoal.

Neste instante, sinto vontade de dizer ao moço da Luciana o seguinte: nem todos ficarão ricos e nem todos encontrarão esse grande amor. Porque a pessoa que descrevi acima não existe. O modo de produção é injusto e muitos ficarão para trás, sempre. No campo afetivo, esse conjunto de imagens bizarras de uma pseudo-felicidade nos impede, cotidianamente, de encontrar a pessoa que nos trará alguma satisfação. Pessoa ou pessoas, pois ainda não tenho opinião formada sobre a poligamia. Compramos um modelo mentiroso que diz que o acúmulo de esforço resulta em riqueza. E agora abraçamos um outro modelo, igualmente mentiroso, que diz que a combinação da boa escolha com muito esforço também resultará em amor de conto de fadas. Mas podem acreditar: quase ninguém vai sair desta rico e ninguém vai encontrar uma porcaria de um príncipe num alazão branco.

Está bastante claro que este é o texto de um “nerd” que tem, por hábito, ruminar aborrecimentos. Também pode-se concluir que ele está desempregado e sem um único centavo no banco. Não se trata, porém, de uma recusa das responsabilidades individuais – minhas ou de quem lê este texto. Acredito que escolhas são possíveis, pode-se acertar mais ou menos. Em última análise, cabe, a cada um, decidir se quer o picadinho ou a calabresa. Não me venha culpar o sistema caso você tenha matado seu canário de estimação num acesso de fúria porque não passou de fase num jogo de computador. Mas é de espantar que ninguém repare no fato de que os muitos modelos e estruturas que regem nossas vidas nos impõem um sem-número de restrições. Que estão e estamos nos colocando em caixas cada vez menores e mais apertadas. Que nem todo esforço individual é capaz de dar conta de certas situações. Que nem todos ficarão ricos. Que quase todos tem um olho caído, uma amargura secreta, um pé torto, algumas dezenas de dias ruins e que todos acordam com mau hálito. Ainda ontem, fiquei a me perguntar sobre o que poderia ser útil na busca pelo socialismo. Acho que um bom passo seria encontrar um modo infalível de assassinar o espírito empreendedor pequeno-burguês. Agora também acho que, matando-o, poderíamos encontrar um pouco mais de alegria na vivência de nossa afetividade.

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Despeço-me com uma canção de um sujeito tuberculoso, mirrado, feio de doer, sem queixo, que não empreendeu em nada, não ficou rico, não deu uma boa vida à esposa, terminou sem sua grande paixão, que tomava porres homéricos e que morreu aos 26 anos. Quase sem qualidades, tinha uma certa habilidade como compositor. Fez uns 300 sambas. Definitivamente, um péssimo partido. Daqueles a que você recorre só quando acabou de ganhar um belíssimo par de chifres. Mas fique tranquilo, o rapaz é muito generoso.

 

As caixas de Antonio

16 nov

A impressão que tenho é a seguinte: ao longo de minha vida, tratei de me enfiar em caixas cada vez menores. Quando criança, vivia em uma caixa de papelão daquelas que servem para acomodar geladeiras. Hoje, sinto-me preso em uma caixinha do tamanho de um cubo mágico. Mal consigo mexer os dedos.

Eu tenho medo, medo de tudo. Acho que serei agredido de forma bárbara. Uma discussão banal sobre futebol resultará em meu completo espancamento. Tenho medo dos desconhecidos. Dos meus amigos, das minhas amigas e dos meus parentes. Acho que todos, absolutamente todos, aproveitarão a primeira oportunidade – ou o primeiro pretexto – para me esmurrar. Aqueles murros espetaculares, típicos de filmes cheios de porrada. Meu nariz vai se estraçalhar e vai jorrar sangue para todos os lados. Também tenho medo de assaltos, medo dos desconhecidos na rua, medo dos bandidos e muito medo da polícia. Sempre carreguei comigo a certeza de que terminaria meus dias preso. Por um crime que não cometi. Mas também carrego a certeza de que minhas culpas neuróticas conseguirão produzir evidências irrefutáveis, em minha consciência, de que sou culpado. Culpado, de forma inapelável, daquilo que não cometi. Tenho medo das minhas declarações de imposto de renda. Nunca soneguei um centavo de coisa alguma. Mas tenho certeza, mais uma vez absoluta, de que restará provado que sou culpado da sonegação dos centavos que não soneguei. Tenho medo de todas as mulheres, esse conceito que anda por nossas ruas e que nunca consegui compreender muito bem de que trata e como funciona. Verdadeiro pavor do asilo em que irei morar, num momento qualquer em que a idade ou meu cérebro virão a me incapacitar de vez. Medo de voltar a beber e de nunca mais beber. Quando chego à rua, espero pelo desastre que irá ocorrer e, quando retorno à minha casa, sinto-me frustrado pelo fato do desastre não haver ocorrido. Tenho medo de meus amigos. Acho que vou apanhar de uns, ser desprezado por outros e ridicularizado pelos terceiros. Medo da esquizofrenia, da malária, da filariose, do mal de chagas, da esquistossomose, da cisticercose, de diversos tipos de câncer, de todas aquelas doenças sexualmente transmissíveis que podemos adquirir caso não joguemos nosso parceiro em água fervente antes do sexo.

Eles irão me encontrar. Cedo ou tarde. E, quando esse momento chegar, vai ser horrível. Dolorido. Vão quebrar meus ossos e me submeter a torturas horrendas. Tudo isso vai ficar impresso na minha memória e, caso o desastre, a polícia, os amigos ou os inimigos não façam sua parte, o hospício o fará.

O avião vai cair, o barco afundar, o carro bater, o ônibus capotar. A comida vai estar estragada. A entrevista de emprego será um desastre. A entrevista de emprego não vai acontecer. O emprego não acontecerá. Nada acontecerá. Porque a caixa é pequena. A próxima será menor. E ainda terei outras, todas menores que as anteriores. E essas caixas vão diminuir infinitas vezes. Desafiando todos os conceitos da Física. Esta me ensinou a ter medo da nanotecnologia e das ondas de rádio e do meu celular. Todos eles serão responsáveis pelo meu câncer. Quando entrar no hospital, para tratá-lo, serei preso. Por que? Não sei. Não sei porque o avião vai cair e não sei porque ônibus capotam. Só sei que tem alguma coisa quebrada na minha cabeça. Essa coisa atrapalha tudo. Ela me convenceu, ainda muito pequeno, de que as caixas são nossas amigas. São confortáveis, nos abrigam em momentos difíceis. Não sei de onde veio essa bobagem. Odeio caixas e acho que nem deveríamos reciclá-las. Devemos enviar as caixas todas para Júpiter.

O problema, Antonio, é que você sempre arruma um jeito de ficar confortável em suas caixas. Não importa quão diminutas sejam. Você tem um dom, rapaz. E ele ainda vai acabar com você. Uma pena. Seria mais divertido ver você morrer afogado em álcool.

Contra a antropologia Pollyanna

24 jun

E a Vai-Vai, a “Saudosa Maloca”, o barracão que no morro é bangalô, Geraldo Filme, o samba da Barra Funda, da Casa Verde? A afetividade é possível também na grande pobreza.

As palavras acima foram escritas pela leitora “Yano Mamma”, em comentário ao meu texto “Vila das Ameixas”. Nele, resolvi falar da impessoalidade de nossas metrópoles, com destaque para caminhada de São Paulo rumo a um futuro como “cidade Blade Runner”. Achei a crítica pouco razoável pois, antes de tratar da ausência de afetividade em situações de grande pobreza em cenário urbano, quis tratar, de forma mais geral, da ausência de vínculos entre pessoas e caixotes empresariais de aço e vidro. O sujeito não se identifica com a favela, certo. Porém, no plano simbólico, fico ainda mais impressionado com bairros urbanizados, em que há água, luz e esgoto e os mostrengos da arquitetura corporativa ficam a intimidar aqueles que ousam passar por suas calçadas. O capitão da indústria morreu e foi substituído pelo “vice-presidente de novas mídias corporativas”. O Edifício Itália definha e, em seu lugar, no imaginário do paulistano, as torres “Center Business New World” ganham importância.

Mas por que voltar a esse tema? Por duas razões. Em primeiro lugar, sinto certo desconforto, como antropólogo, diante dessa situação. Recordo-me de uma definição do trabalho dos intelectuais, que ouvi quando ainda estava no curso de graduação em Ciências Sociais: “ocupam-se da reflexão desinteressada do mundo”. Não me lembro quem citou, qual autor escreveu e, para ser sincero, nem sei se essa memória é muito confiável… Antes de parar de beber, eu bebi muito, sabem? De repente, isso é coisa de algum neurônio com sequelas da cachaça. Acho, porém, que tal definição faz certo sentido quando pensamos na antropologia. Armados com todo tipo de relativismo, deslumbramento e fé nas estruturas elementares de alguma coisa, vamos a campo dispostos a encontrar magníficas formas de sociabilidade. Quer elas existam entre moradores de um lixão, praticantes do futebol de várzea, devotos de uma determinada religião ou frequentadores de certo clube noturno. O que chama a atenção, entretanto, é o fato de, muitas vezes, acharmos que tais práticas culturais e usos simbólicos do espaço urbano se desenvolvam no limbo. Sim, claro, há todo esforço de descrição e contextualização. Mas peço que mostrem um antropólogo a falar sobre capitalismo, cadeias produtivas, exploração, concentração de capital, má distribuição de renda… Esse deveria ser o contexto amplo, fundamental em toda etnografia. Ao que parece, porém, o esforço estruturalista – capitaneado por esse grande tótem chamado Lévi-Strauss -, foi muito eficaz, ao asfixiar o debate político na antropologia, através da estética. De que me vale o sistema de parentesco, aliança e reciprocidade, que me explica tudo, se a necessária verve crítica, diante desse tudo desolador, está ausente?

Uma no cravo, outra na ferradura: é fundamental fazer a crítica da crítica. Sempre defendi o esforço dos antropólogos em entender as micro-relações, as pequenas afetividades, a construção artesanal dos símbolos e o entendimento do mundo, também, pela interação cotidiana entre pessoas e grupos culturais. Lembro-me de, certa feita, ter realizado uma defesa assaz romântica de minhas etnografias dos tempos de graduação e mestrado. A um amigo bastante marxista, expliquei que achava – e acho – relevante entender as práticas culturais de todos. Mas, ainda mais importante, é entender as práticas daqueles que são excluídos. Que não aparecem na Globo nem na Record e que fazemos questão de ignorar: nas ruas, estádios, terreiros, clubes noturnos e paradas. Acho que o antropólogo se dispõe a ver aquilo que ninguém dá muita atenção e, por conta disso, enxerga o humano onde os outros vêem apenas um sujeito esquisito, de turbante branco na cabeça, ou um amontoado de andrajos de odor duvidoso.

Entre a metrópole impessoal, as pequenas afetividades e os dilemas da antropologia, temos o segundo motivo para escrita deste texto. Esta semana, recebi um e-mail muitíssimo grosseiro, por parte do “Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico”, o famoso CNPq. Diziam que o meu currículo eletrônico, presente na base de dados Lattes, poderia ser apagado. Motivo: divergências entre as informações fornecidas ao CNPq e aquelas constantes em meu cadastro de pessoa física, junto à Receita Federal. Pois bem, lá fui eu, rumo ao Ministério da Fazenda, na avenida Prestes Maia 733. O dia estava cinza, gelado e caía uma chuva fina muito fria. Passei pelo Vale do Anhangabaú, Praça do Correio e caminhei pela Prestes Maia, já nos arredores do bairro da Luz. O lugar é horroroso: sujo, mal-cuidado, enfumaçado, mal-cheiroso, perigoso e, em cada quarteirão, há uma enfiada de prédios a louvar o que há de pior na arquitetura e na conservação de fachadas. Ainda bem que estava do lado certo da calçada – o ímpar. Pois, em certos trechos, é impossível atravessar a Prestes Maia. Uma avenida bem larga, cercada por viadutos, passagens subterrâneas, muretas, mais viadutos e o diabo. Nesse cenário tenebroso, enquanto atravessava uma rua, vi uma mãe coreana, com um carrinho de bebê e seu filhinho. Menino gordinho, simpático e amarelo (não, não é uma questão de preconceito: apenas tive a impressão de que a criança não tomava sol há meses). Eu sorri para o pequeno coreano, que me olhou indiferente, e recebi um sorriso de sua mãe. Aí pensei naquele lugar horrível para se passear com uma criança e fiquei imaginando onde esse moleque haverá de brincar, quando puder chutar uma bola. Provavelmente, uma bola virtual, no sofá de sua casa.

Então, Yano Mamma, a questão é a seguinte: pode haver afetividade na pobreza e ainda há afetividade em meio à crescente impessoalidade de nossa metrópole. As pessoas formam grupos culturais, redes de sociabilidade e trocam sentimentos e impressões mesmo em cenário tão adverso. Acho isso fantástico. Mas, sendo coerente às minhas críticas a essa “antropologia de ursinho carinhoso”, é fundamental fazer uma reflexão crítica. Décadas de crescimento excludente, autoritário e higienista serviram para formar uma cidade hostil a seus habitantes. Os miseráveis, as caixas-fortes e a feiúra urbana não resultam do acaso: resultam, antes, de nosso turbo-capitalismo, que é formado por relações sociais para lá de cruéis, e que vive encastelado em seu centro expandido, torcendo para que os moradores do Jardim Ângela fiquem por lá mesmo.

Já é tempo de repolitizar a antropologia.

Tonico.