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Comprender melhor a internet para aumentar o alcance da luta contra o impeachment

3 abr
 “É mais fácil entrar em Harvard do que no feed de notícias de alguém!” – Stefanie Grieser
PARA ENTENDER MELHOR COMO FUNCIONAM AS FERRAMENTAS DE REDE SOCIAL EM DIVULGAÇÃO DE PAUTAS
Filtro Bolha
    
    
Se você está assustado com o período político que o país vive e quer ajudar dentro da sua capacidade a melhorar o fluxo de discussão, peço-lhe meia hora de atenção para evitar o auto-isolamento através de filtros do próprio Facebook e outras redes sociais. Publicar melhor, driblar barreiras, atingir pessoas indecisas e usar outras ferramentas diversas
A dificuldade central aqui é furar barreiras comunicativas e demontrar como é problemático todo o processo de impeachment. Mesmo que esse acúmulo argumentativo e organizativo não barre o processo já em andamento, ele já acumula discussão para usar forças geradas anti-corrupção contra um eventual governo Temer.
Para além das redes já muito bem estabelecidas, como as Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular, há dezenas, talvez centenas, de milhares de pessoas com acesso a internet preocupadas com a democracia que buscam cotidianamente influenciar no debate público. Como boa parte dessas pessoas, talvez vocẽ que lê esse texto também, usa majoritariamente a grande rede social privada Facebook, é central parar uma meia hora para entender melhor o funcionamento dessa rede em particular.
Tudo o que você publica no Facebook ou que você pesquisa no google é filtrado a partir de grandes algoritmos, também chamados “filtros bolha”. Antes de mais nada, é bom politizar e problematizar o grande problema das bolhas que atuam no Facebook e Google.
Por favor, assistam, assistam, assistam, o curto filme de nove minutos que explica o problema. Por favor, assistam mesmo, esse breve vídeo vai mudar a forma como pensam a parte digital de sua militância pela democracia: http://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?language=pt-br
Sentiu o tamanho do drama? Pois bem, tanto o Nexo como o Estadão já deram matérias falando o como esse tipo de filtro acaba por polarizar a discussão, e que talvez este seja o momento mais polarizado de discussão da história recente do país.
As tais hashtags
Hastags, # (cerquilha ou jogo da velha), são aglutinadores de conteúdo, colocar um hashtag em um post ou comentário aumenta a probabilidade de que alguém que for procurar conteúdo semelhante se depare com seu post ou comentário.
Para achar boas hashtags, basta ir no http://hashtagify.me/ (ou outro parecido) e digitar alguma hashtag  no campo de buscas. O site mostrará as mais influentes e a partir daí selecionar uma das mais poderosas parecida com o conteúdo que quer postar.
Se quiser que pessoas a favor do impeachment vejam seus links, você pode usar uma hashtag outra, como as que estão em http://hashtagify.me/hashtag/foradilma, por exemplo a #impeachment, para tentar furar cercas algoritimicas.
Pesquisas indicam que muitas hashtags diminuem ao invés de aumentar a visibilidade de um post, sendo dois o melhor número de hashtags (a partir de três já cai o acesso). Para maiores informações leia https://www.postplanner.com/how-to-use-hashtags-on-facebook/
Se for usar o Facebook, leia alguns links que vão lhe ajudar a pensar como essa REDE FUNCIONA:    
“it’s easier to get into Harvard than into someone’s Facebook news feed!” Stefanie Grieser. Em tradução livre: “É mais fácil entrar em Harvard (Universidade de prestígio) do que no feed de notícias de alguém”! 
Parte das análises são para veículos comerciais e não pessoas físicas, mas ajudam na reflexão.
Excluindo amigos, colegas de trabalho e conhecidos do Facebook, do Twitter e do Whatsapp – Ufa! enfim me livrei destes reacionários!
Nãaaaao!!! Excluir as pessoas de quem discorda do Facebook só amplia a polarização e diminui nossa capacidade de diálogo. O mesmo vale para listas de mensagens via Whatsapp ou Telegram. Neste caso e momento, o melhor seria pedir leitura de textos intermediários, que problematizam o processo de impeachment, a corrupção na câmara, que dissociam a Lava Jato do processo de impeachment e que coloquem o que se passa no Brasil dentro de um panorama mais amplo. Em muitas vezes será preciso respirar fundo, mas com certeza apenas excluir só piora a situação.
Resumindo, a forma de operar dessas redes causa um isolamento das posições políticas, para convencer outros e ser efetivo na disputa de visões é preciso furar bolhas, e para isso a forma das publicações é importante. Há sempre o perigo da postagem recorrente e a exclusão de pessoas que pensam diferente da sua timeline acabar por diminuir sua capacidade de intervenção ao invés de aumentá-la. Em muitos momentos será necessário respirar fundo de três a dez vezes numa troca de comentários. Se isolar para fornecer e receber posts de quem já concorda com você é a pior estratégia politicamente, embora seja a mais confortadora psicologicamente.
Aplicativos de mensagem direta individuais e em grupos não possuem filtro bolha, pois são diretos de ponto a ponto, aí, ao invés de sair de grupos de família e amigos de trabalho, o mais eficiente seria paulatinamente ir colocando como contraponto lá links de meios de comunicação que conhecem, mas links específicos que auxiliam o sentido geral das linhas maiores de discussão pró democracia (coloco uma seleção de links que testei no Facebook com pessoas pró impeachment e que auxiliaram a recriar diálogo onde antes não mais havia).
Quanto maior sua virulência retórica -embora psicologicamente seja balsâmico – menor sua capacidade de diálogo com os que de fato possuem a possibilidade de mudar de percepção em relação aos processos em andamento. Sim, isso significa começar com analistas e análises mais distanciados da esquerda, muitos da própria grande mídia, reconhecida em geral como fonte válida de notícias e argumentações por estas pessoas, e progressivamente aprofundar análises outras. Análises internacionais também podem ajudar
Em geral as pessoas tem se referido genericamente com os que se manifestam pelo impeachment como “direita” e “golpistas”, acredito que é importante fazer distinções nessa grande massa e ver quem de fato não tem nenhum apreço pela democracia e defende um golpe ou a volta da ditadura (ampla minoria, segundo as pesquisas empíricas com manifestantes). Ver aqueles que trazem em si o fascismo e agridem fisicamente pessoas vestidas de vermelho, que me parecem também ser minorias, perigosas, mas minorias  E também ver o conjunto de pessoas que acreditam sinceramente na democracia, mas que avaliam que o governo Dilma e Lula são os mais corruptos da história do país e que por isso o governo deve ser deposto. Não é uma posição absurda para os que assistem cotidianamente há mais de dez anos, todos os dias o dia todo, desde o mensalão, a grande mídia focar seletivamente em algumas personagens do governo e petistas como se estes fossem os inventores e amplificadores da corrupção. 
Engarrancham-se aí uma série de tarefas diferentes:
  • mostrar a parcialidade da grande mídia,
  • a importância da democracia,
  • a separação da Lava Jato do processo do Impeachment (e no fato como este será usado como moeda de troca justamente para barrar a lava Jato),
  • o fato de que os mecanismos institucionais de combate à corrupção fortaleceram-se durante esses governos e que isso significa uma exposição maior de casos de corrupção e logo uma percepção maior de corrupção
  • mostrar quem são os deputados na comissão do impeachment e como o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não tem intenção de fazer qualquer coisa contra a corrupção e não tem condições éticas de presidir um impeachment,
  • mostrar que o esboço de projeto de governo apresentado por Temer e Serra é contrário ao projeto eleito nas urnas, o que significa golpe contra o desejo das urnas.  
Há vários materiais que podem trazer de volta colegas, amigos e familiares para uma posição no mínimo contra o golpe, mas para isso é necessário paciência e muito, mas muito, trabalho argumentativo.
Talvez seja o momento de voltar naquele grupo de Whatsapp da família e paulatinamente colocar posts mais gerais e argumentativos (do tipo, “-O que vocês acham disso?”). Ver qual o centro da argumentação da pessoa, pessoas ou grupo, se é corrupção, PT, democracia, legalidade e contra argumentar paulatinamente através de links o mais didáticos possíveis e depois aumentar a complexidade analítica aos poucos.
Outra coisa, as vezes, menos é mais,. Ter trinta curtidas em um post, todas de pessoas que já corncordam com sua posição, as vezes é menos importante do que ter dez curtidas de pessoas que estavam com posições menos atuante, indiferentes ao momento político ou favoráveis à saída da Dilma. Estamos muito acostumados a pensar quantitativamente e ter uma satisfação baseada em quantidade. Com os filtros bolha isso não necessariamente significa conseguir furar a bolha. Pensar qualitativamente as curtidas e principalmente os compartilhamentos é central para conseguir fazer a autocrítica do alcance que se está obtendo e modificar forma de escrever e de divulgar.
Onde guardar conteúdo (ou, não deixe tudo no Facebook):
Nunca publique uma coisa exclusivamente no Facebook, devido à dinâmica efêmera desta ferramenta de rede social, posteriormente é muito difícil recuperar de forma fácil posts, conteúdos diversos e links de outros lá colocados. Isso para não mencionar a hipótese por ora remota do próprio Facebook começar a censurar diretamente posts de conteúdo contrário aos poderosos seja por ordem da justiça seja por acordos comerciais. Há diversas outras formas de conservar conteúdo, deixamos aqui só duas sugestões:
Primeira, crie um blog, mesmo que não vá publicizar esse link. Uma sugestão razoável e simples, para quem não é muito da tecnologia, é o WordPress (www.wordpress.com)
Segunda, crie um PAD, um espaço para textos que permite que várias pessoas escrevam e editem textos simultaneamente. Alguns PADs que funcionam bem são: https://pad.okfn.org/ (Open Kwnoledge Foundation), e o Etherpad Open Sourced! (http://piratepad.nl/).
Tarefas no momento:
 A tarefa central em geral é paulatinamente utilizar a massificação de emissores de opinião permitida por redes distribuídas, como a internet, para fazer uma disputa de longo prazo de valores e leitura política com a grande mídia. Grande parte da disputa de opinião hoje é feita via internet, o único canal no qual a maioria dos que possuem acesso é também emissor. É o principal canal de comunicação no qual o indivíduo e os pequenos grupos são capazes de ampliar o alcance político de suas opiniões e posições, e dentro desta tem uma preocupante posição central a ferramenta de rede social privada, o Facebook. Compreender as dinâmicas dessas redes distribuídas e das ferramentas de rede social como o próprio Facebook e o Twitter me parece fundamental para ampliar a potência política dessas centenas de milhares de militantes indignados com o golpe que sofre a democracia.
Os argumentos centrais da posição contra o impeachment já foram listados de diferentes formas  por diferentes atores e em diferentes espaços. A questão aqui é amplificá-los. Elegemos alguns:
  • O impeachment não é justificável e significa verdadeiro golpe contra a jovem democracia brasileira. (e aqui entram os links dos juristas)
  • Mesmo se fosse justificável, essa presidência da Câmara e essa comissão eleita não tem distanciamento do caso central que usaram para gerar a percepção geral sobre corrupção neste governo -a Lava Jato- para ter uma atuação ética e republicana. 
  • Auxiliar esse impeachment significa antes, dado os que querem tirar esse governo, auxiliar a corrupção a se manter e não o contrário como a Globo e demais mídias pregam.
  • A apresentação de um projeto político para o governo, o executivo, que não foi eleito em urnas é a própria definição de golpe, e é justamente isso que Serra e Temer propuseram, sem antes apresentar o projeto à aprovação da população pela via do voto.
É um momento oportuno para aproveitar essa indignação criada seletivamente contra um partido e governo e transformar em indignação contra uma forma de funcionamento da relação dinheiropolítica. Mostrar com dados empíricos e análises diversas que não há democracia com financiamento privado de campanha e que não há democracia sem expansão dos emissores de opinião na televisão e rádio. A primeira pauta é mais fácil de emplacar no momento.
A disputa é de médio e longo prazo na formação de valores e leituras de mundo. A grande mídia tem claramente optado pela desconstrução da política e em criar uma visão econômica liberal tendo por fundo o argumento que o mercado é a melhor forma de distribuição de recursos. Daí os governos que não compartilham dessa visão seriam corruptos (como fizeram com Nestor e Cristina Kichner), ineptos (como tentam fazer com Morales e Corrêa) ou verdadeiras ditaduras (como caracterizaram o governo Chávez contra todos os dados empíricos e votações observadas por órgãos internacionais). Parte central de nossos esforços imediatos e futuros é discutir essa concentração de mídia, mecanismos de democratização da mídia e outras e melhores visões de mundo possíveis, mais igualitárias e generosas. 
Em relação aos deputados em disputa no voto do impeachment:
As motivações tradicionais com as quais se avaliam as movimentações de deputados de partidos fisiológicos e sem grande coerência programática, como o PMDB, são duas: grana e poder.
Na questão do dinheiro, grana, na posição que ocupamos é muito difícil até imaginar que tipo de benefícios em dinheiro estão sendo ofertados aos deputados em disputa, dado que grande parte das grandes empresas e organizações de empresas do Brasil se pronunciaram a favor do impeachment e, sendo o Brasil um dos países mais ricos do mundo, a quantidade de dinheiro capaz de ser mobilizada por estes atores é quase incalculável. Neste quesito temos pouca ou nenhuma capacidade de intervenção
Já na questão do poder, tanto o Governo na distribuição de cargos na máquina federal, quanto à oposição na distribuição de cargos do eventual governo Temer estão em plena movimentação. Temos neste quesito também pouca ou nenhuma ingerência. O máximo que podemos fazer aqui é afirmar que puniremos golpistas nas urnas, colocando seus nomes nos postes e realizando toda a discussão da forma mais pública possível sobre o que fizeram. Que estes não se reelegerão etc etc etc, essa é uma tática que no atual momento da opinião pública (sempre mutável, lembramos) se assemelha a um blefe. Quanto mais repercussão a discussão de que o impeachment é golpe receber, mais plausível se torna. (imaginem , por exemplo, o Lula falar para deputados do nordeste que fará campanhas contra as deles nos estados do nordeste se estes votarem no impeachment, dado o perfil do voto no Nordeste, a ameaça de não conseguir se reeleger ganha algum fôlego, mas, de novo, isto não está em nossas mãos)
Acredito que apenas grana e poder não explique totalmente o comportamento, discurso e voto dos deputados. Existem sim crenças políticas e também existe sim, e muita, vaidade. Deixar claro em que página da história um voto como esse os colocaria, e o que será ensinado para seus filhos e netos sobre eles na escola pode ter apelo a essa vaidade gigantesca. A Globo não escreveu a visão prevalente sobre o que foi a ditadura. Parece haver uma certa chantagem da parte mais partidarizada do Judiciário e grande mídia com algum controle sobre a Lava Jato no seguinte sentido: a chantagem, seria “-Ou votem pelo impeachment ou o faremos ser investigado e punido e colocaremos seu rosto nos jornais, revistas e noticiários de TV como corrupto (no fundo é usar a justiça pela política justamente contra….a justiça!)”. Passaram os últimos 10 anos tentando associar Lula com corrupção e ainda assim boa parte da população não comprou o discurso. Esse discurso inflamou incrivelmente setores das classes médias que em geral já eram contra o PT e de fato conquistou adeptos e ampliou essa visão.  Mas o povo não é bobo, e em geral sabe o quanto a Globo mente e é aliada do PSDB. Neste caso, amplificar a resposta social ao impeachment e reafimar aos políticos que assim como a Globo não controlou o discurso social sobre a ditadura, não controlará o discurso sobre este golpe e que votar a favor dele é a certeza de associar seu nome a um dos momentos menos democráticos e mais obscuros da história política nacional.
Por fim, coloco alguns links que testei e funcionaram ao menos parcialmente na criação de diálogos. Eu mesmo não sou lá um grande entusiasta do Facebook e publico lá esporadicamente -ultimamente com maior frequência – mas sem particular zelo na forma de cada publicação. Não é esta rede o centro de meu debate, mas compreendo e respeito àqueles que a usam intensivamente e para os quais parte das considerações deste post foi pensada. Não sou especialista nos tópicos listados acima, apenas alguém bastante preocupado com as consequências políticas e perda de capacidade de discussão que tem ocorrido. Caso você possua conhecimento especializado sobre algum dos tópicos acima e quiser ajudar, não hesite em me escrever que melhoro o texto. Compartilhar conhecimento é parte central da construção da democracia e de um mundo melhor
Alguns links úteis
 Como a conjuntura em movendo-se de forma muito rápida, parte dos links listados podem estar defasados. Sintam-se a vontade para criar seus próprios PADs ou para sugerir outros links nos comentários.
Geral
Análises maiores e internacionais, sobre a judicialização da política no mundo e o papel da direita nisso.
 Um análise de mais fôlego, feita pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos:
Por quê esse impeachment, da forma como está sendo feito, é golpe?
Por quê da reforma política
Manifesto de juristas consagrados, e já com mais de 7.800 assinaturas, contra o impeachment:
A cobertura internacional sobre o caso:
Análise de Glenn Greenwald, prẽmio Pulitzer de jornalismo, sobre o golpe em andamento no Brasil:
Seletividade da justiça
 16 pontos para pensar mais sobre a seletividade da justiça brasileira, de TV Poeira:
O caso Banestado, de 2,4 bilhões de reais e a anulação da punição dos réus:
O Documentário sobre Furnas:
Impeachment -Quem são os parlamentares que vão julgar Dilma?
 A inacreditável ficha corrida do impeachment. Absolutamente inacreditável:
Qual o projeto que o golpe vem construir?
O problema da alternativa Temer:
 Análise de Ivan Valente sobre a alternativa de empossar Michel Temer no lugar de Dilma:
Cunha reclama de Temer ter levado 5 milhões o que atrasaria a propina de outros envolvidos:
O que o programa proposto pelo PMDB em conjunto com o PSDB, “Uma ponte para o futuro” significa:
O que acontece em caso de impeachment?
A emenda pode sair pior ainda, com Cunha sendo esporadicamente ou durante longos períodos presidente do Brasil. Eis um vídeo bom e didático sobre a questão:
 Corrupção 
Há movimentos mais sérios e que trabalham faz algum tempo a questão, ligado à CNBB, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral é um deles:http://www.mcce.org.br/
Não, o PT não inventou a corrupção, e não há dados empíricos que ela tenha aumentado durante os governos Lula e Dilma, na verdade a melhor hipótese é que o aparelhamento da Polícia Federal, a autonomia e o não amordaçamento da Procuradoria Geral da República – como aconteceu durante a gestão FHC (http://jornalggn.com.br/noticia/relembrando-a-atuacao-do-procurador-geral-geraldo-brindeiro) quando Geraldo Brindeiro arquivou todos os grandes escândalos – geraram uma sensação de maior corrupção, pois os casos passaram a ser investigados e expostos. A legislação anticorrupção avançou também, com leis que punem não apenas os corruptos, mas também os corruptores, como a Lei Anticorrupção de 2013 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12846.htm) e a modificação no mecanismo de delação premiada. O orçamento da Polícia Federal praticamente triplicou no governo Lula e Dilma, aumentando de 1,5 bilhões em 2002 para 4,3 bilhões em 2013. Ainda assim, o UO usando somente o investimento conseguiu computar isso como redução! (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/veja-o-orcamento-da-policia-federal/)
Por exemplo, a caso Odebrecht, tão em voga no momento, funcionava desde o governo Sarney: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/03/26/esquema-de-propina-da-odebrecht-funcionava-desde-governo-sarney.htm
Em tempo: nem Lula nem Dilma aparecem na lista de mais de 300 políticos que teriam recebido dinheiro de forma legal e ilegal da Odebrecht.
Um dos Bispos da CNBB -Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, realizou uma fala que aborda diversos pontos, desde seletividade da mídia até corrupção:
 Caso SABESB e Trensalão.
Calendário do impeachment
 Calendário provável
É bom ir pensando ações ao longo desse período.
Sérgio Moro
A direita também faz guerra de informação e busca explicar ponto por ponto cada exemplo nosso. Aqui está um exemplo: http://spotniks.com/7-mentiras-que-voce-provavelmente-ja-ouviu-sobre-o-juiz-sergio-moro/
Até o UOL começa a fazer matérias questionando Moro.
Eduardo Cunha
 O presidente da Câmara no processo de impeachment é investigado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro STF. Metiu na CPI da Petobrás ao afirmar que não possuia contas na Suiça. Curiosamente sumiu das manchetes da Rede Globo de Televisão. A sua ficha corrida é simplesmente impressionante:
Grande Mídia
Muito Além do cidadão Kane. Um pouco da história da Globo:
    
Como funciona o oligopólio da mídia no Brasil, 11 famílias comandam 80% dos meios de comunicação.  O vídeo “Levante sua Voz” é central para quem quiser enviar uma breve explicação sobre a forma de operar da mídia brasileira:
Capacidade gigantesca de sumir com investigações da pauta pública quando interessa, como é o caso da Operação Zelotes:
Os 242 casos engavetados por Brindeiro durante a gestão FHC e a própria afimração de FHC a respeito da compra de votos na reeleição. Como a grande mídia teria noticiado se fosse o PT? http://www.vermelho.org.br/noticia/251814-1
    
Como somem a análise das 8667 brasileiros que tem conta na Suiça, em grande parte não declaradas à receita? No maior caso de sonegação já apurado?
Funcionamento atual da internet e redes em geral 
 Cada vez mais posições à direita e um longo conservadorismo se imiscuem e ganham força na internet. Compreender o fenômeno é chave para a disputa de valores de longo prazo:
Para uma análise boa do ascenso da luta contra o golpe e pela democracia nas redes, sugiro a leitura da análise do excelente pesquisador da UFES Fábio Malini:
Uma análise do dia 13 de março, o das grandes manifestações da direita, mostra que as redes tem mais cores do quer fazer crer a grande mídia:
   
Dados sociais do Brasil de 2003 para cá:
É sempre bom lembrar quais os avanços, mesmo que insuficientes, aconteceram de 2003 para cá:
As ligações internacionais:
Para quem acha no mínimo curioso uma só operação atacar o projeto de submarino nuclear, as grandes construtoras, a principal empresa de petróleo que realizou a maior descoberta de reservas do século XXI, e o partido político que buscou assegurar exploração exclusivamente nacional sobre as mesmas… Pode parecer teoria da conspiração, mas quanto mais se lê, mais parece fazer sentido:
Curiosamente não só Brasil, mas outros países sofrearam ataques semelhantes:
A nova guerra híbrida:
Quem são os irmãos Koch e o quem tem feito em diversos países
Guilherme Flynn Paciornik,  3 de abril de 2016
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Mandato Hacker

24 set

Desenho do Vitor Flynn Paciornik para o Cumachama. Para ver mais dele: http://quadrinhosbe.wordpress.com/

Por que um mandato hacker?

Porque a política precisa urgentemente ser hackeada, a brasileira em particular.

O que entendemos por hacker?

Por hacker entendemos aquele que inventa caminhos, que desvia funções, que abre, que modifica,que publiciza, que reconfigura. O termo é relacionado a tecnologias também, mas – e isso é muito importante -não só a isso.

O que seria um mandato hacker?

Seria um mandato construído e gerido de forma coletiva e com transparência, desde a definição do nome, passando pelas principais diretrizes políticas, forma de funcionamento interno, criação coletiva de leis, nomeação da assessoria, decisão do voto em cada lei apreciada no legislativo, definição das ferramentas de tecnologias de informação e comunicação usadas no processo.

Por que a política brasileira precisa ser hackeada?

Porque nas suas atuais configurações a política brasileira permite uma sobre-representação do capital financeiro, dos ricos e de seus interesses, bem como um distanciamento dos representantes de seus representados. Ela não possui mecanismos de controle sobre o financiamento privado de campanha -que depois é cobrado e de forma cara durante o mandato; e tampouco de mecanismos que obriguem os legisladores a contar com a participação de seus eleitores ao longo do mandato. Esses dois fatores, entre tantos outros, permitem tanto em um caso uma política voltada para interesses que representam apenas uma parcela pequena da sociedade; como em outros uma opacidade do processo político e uma cultura política de não participação popular.

Como funcionaria na prática?

Há diversas formas de se hackear a política, a que propomos aqui não se trata unicamente de um formato mais aberto (o que aliás compreende também conteúdo), mas também de um conteúdo de esquerda, progressista e voltado para transformação social, que buscará fornecer representação para movimentos sociais que contam com lutas e com acúmulos de discussão muito ricos, mas que não conseguem necessariamente eleger representantes sozinhos.

A proposta aqui delineada não parte do nada, ao contrário, busca valorizar essas experiências e acúmulos de lutas já existentes como, por exemplo, os movimentos de democratização da comunicação, de cultura digital, de lutas no território, de educação, de saúde, de gênero, de orientação sexual, de raça, e de teto entre outros.

(Este texto foi pensado usando como exemplo, e proposta, um cargo de vereador na cidade de São Paulo)

O nome que estaria nos materiais de campanha já seria um nome fantasia escolhido coletivamente, como, por exemplo, “mandato hacker”. Tornar o nome do mandato não associável diretamente com uma pessoa física é importante por dois motivos, o primeiro para assinalar que é um projeto coletivo, o segundo para combater o personalismo na política, que é mais um dos mecanismos que permitem insulamento burocrático e diferenças de poder decisório entre a pessoa que leva o nome do mandato e os que construíram coletivamente a candidatura.

Antes das eleições…

A construção do Programa, e das principais diretrizes seria coletiva e em plenárias e plataformas online construídas para essa finalidade, lembrando que serão convidados a usar o mandato movimentos sociais que já possuem pautas e bandeiras, e que estas já possuem acúmulo histórico, sendo excelentes pontos de partida.

A definição das ferramentas digitais também deve ser coletiva anterior à eleição, será um gabinete com muita telinhas de Linux, mas só isso não resolve, a decisão de cada programa digital a ser coletivamente usado é uma decisão política, que tanto abre como fecha possibilidades. Este será um mandato claramente aberto a experimentações nesta área. Há que se definir programas para armazenamento de arquivo, desenvolvimento do site, construção coletiva de agenda, streaming em software livre de atividades do mandato, georreferenciamento de informações, cruzamento de bancos de dados, linguagens de programação a serem ensinadas aos próprios integrantes do mandato. Uso de software livre não é um “algo mais” do mandato, é um princípio, bem como é princípio a sua disseminação pelas lutas de movimentos sociais e populares da cidade.

Convite a movimentos sociais que tenham enraizamento na cidade e possível afinidade com uma proposta mais aberta. A proposta inclui formalizar antes da eleição que terão uma assessoria e um espaço para divulgar, formar mais pessoas e desenvolver ferramentas livres sobre suas pautas. Citaremos alguns aqui como exemplo, lembrando que já são escolhas políticas claras os convites a serem feitos: na questão digital, a Laboratório de Cultura Digital; na questão de democratização da comunicação o Intervozes; na questão do desenvolvimento de tecnologias para trabalho de base no território a Casa dos Meninos, na questão da educação a chapa de oposição ao sindicato municipal de professores e quem está participando da construção do Plano Municipal de Educação; movimento de ciclistas, ao menos um de moradia, de direitos LGBTT, de combate ao racismo, do movimento de mulheres, na questão urbana além de teto seria algo a pensar convidar alguma associação com acúmulo na questão como o Pólis ou a Rede Nossa São Paulo.

A contrapartida única exigida, e que não é simples, é aceitar que ao menos no exercício do mandato e do voto sobre a área na qual atua, este ator político se submeta aos processos decisórios coletivos definidos antes do mandato, à transparência nas discussões relativas à questão no mandato e ao uso e formação em software livre.

No caso específica da cidade de São Paulo, há cerca de 19 vagas de assessoria (pois no nosso caso o próprio nome que seria o do mandato conta apenas como assessoria), que poderiam ser preenchidas com mais ou menos 12 convites a movimentos e os demais postos destinados à abertura tecnológica e política: pessoas para assegurar a criação, discussão e formação em ferramentas digitais abertas, bem como assegurar a transparência e transmissão de cada atividade do mandato. Talvez seja necessário uma ou duas pessoas para constantemente explicar os trâmites legislativos ao conjunto do mandato e a transformar a discussão coletiva de leis em um formato legal (sendo que uma vez elaborado um texto no formato legal este também seria mais uma vez submetido ao espaço de discussão coletiva).

A definição coletiva das formas de funcionamento do mandato

Esse é um assunto espinhoso, pois pode-se adotar tanto um modelo de assembleia única e votação online de todos os participantes do mandato, como um modelo de especialidades no qual cada área decide coletivamente os votos naquele assunto em particular. Ambas as formas têm seus prós e contras e precisam ser discutidas, pode-se também criar um modelo misto, no qual se defina de antemão quais questões são tão centrais a uma cidade e ao mandato que devem necessariamente ser decididas por todos, e quais as áreas devem tocar.

O financiamento claro, deve ser coletivo através de espaços online bem como arrecadação de formas presenciais, negar absolutamente a participação empresas e, o que poderia ser diferente, é ser feita já para áreas, pautas e ações específicas dentro do mandato (por exemplo, para financiar debates específicos sobre pontos ou publicizar debates específico sobre alguns pontos)

Quem vota pelo mandato?

Uma ideia é imediatamente após a eleição entrar na justiça solicitando que o voto seja exercido não apenas por uma pessoa, mas sim pelas 19 ou vinte pessoas que serão profissionalizadas no mandato, e deixar claro (e escrever em cartório?) quem são essas pessoas e que elas só podem exercer esse voto através dos mecanismos coletivos definidos anteriormente pelos que construírem essa proposta. Para além do nome que vá até a câmara apertar o botão, a ideia central é que exista antes da campanha um cadastro digital das pessoas que construíram a campanha e que estão aptas a participar da votação por áreas, bem como mecanismos de inclusão pelas áreas de pessoas que efetivamente estiverem participando ao longo do mandato.

Política não é apenas o exercício do desejo e da subjetividade, mas também responsabilidade e decisão coletiva, podendo as áreas pedir para que as pessoas que desejam participar da decisão coletiva em uma área a realização de breves atividades de formação sobre o assunto e participação em espaços coletivos de debate para que se tornem aptas a decidir e votar internamente em determinada questão.

Ao longo….

Formação política

As pessoas que construirão o mandato possuem diversas trajetórias de vida e experiência política, a ideia é construir plataformas online de aprendizagem (como, por exemplo, a criada em tecnologia open source chamada Moodle) nas quais cada um e cada grupo possa socializar seu acúmulo com os demais. Nestas podem estar desde textos básicos, vídeos, áudios, até exercícios simples para averiguar aprendizagem. Cada conteúdo pode ser dividido em blocos internos à plataforma com complexidade crescente, sendo o primeiro bloco básico e com sínteses das pautas e motivos destas, uma seleção de textos breves sobre cada assunto e vídeos explicativos (por exemplo, o “Levante sua Voz” no caso da pauta de democratização da comunicação)

Repositório digital comum e Reunião Digital

Nos quais se colocaria tanto o calendário de atividades do mandato como os vídeos, áudios, agenda de contatos e relatorias de reuniões das quais o mandato participou, de forma que o acumulo de discussão políticas e de contatos não fique estritamente preso em pessoas e que a saída de pessoas do mandato não signifique necessariamente a perda total de acúmulo sobre uma questão. ( O movimento Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo já possui uma ferramenta desenvolvida chamada Reunião Digital que é bastante interessante).

Base Comum de Conhecimento Cidadão

Esta ideia vem também da Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo, seria uma banco de dados georreferenciado e em software livre (um mapa do território) contando com todas as informações de bancos de dados públicos; a ideia por trás é tornar os dados públicos inteligíveis para o cidadão aproximando a escala destes de sua área de vivência, e assim construir uma ferramenta que o embase e empodere nas suas lutas por transformações locais.

Construção colaborativa de leis através de espaços de escrita coletiva e ferramentas de escrita coletiva online (como os “pads”)

Alguns outros pontos centrais:

Remuneração igual entre os participantes do projeto profissionalizados no mandato.

Indicação pública da assessoria.

Construção de ferramentas tanto de transparência como de exercício do mandato em software livre e a consequente abertura destas para uso de outros e modificações.

Transmissão em streaming (usando software livre, claro) de plenárias e reuniões do mandato.

A parte chata

Mecanismos de Segurança

Aqui não se fala sobre segurança digital, sendo o mandato e as discussões transparentes, a ubiquidade dos repositórios digitais (backup) deve dar conta desse problema, mas sim sobre proteção contra abusos e empoderamento pessoais internos ao mandato. A construção da confiança política entre as pessoas e entre grupos políticos é o horizonte, mas esta é uma construção que demanda tempo, convívio e a formação de novas culturas políticas. Neste sentido é importante criar alguns mecanismos de segurança coletivamente discutidos, como o registro em cartório do modo de funcionamento do mandato de modo a evitar que pessoas ou grupos usurpem a representação ou passem a falar em nome do mandato.

Legenda

Este é um ponto sensível. Por qual partido lançar uma candidatura como essa? Por um partido com postura de esquerda e que compreenda a proposta. A relação política e financeira com o partido deve ser discutida coletivamente e ficar muito clara para todos, compreendendo que dentro da iniciativa haverá pessoas e ideias de mais de um partido, bem como sem partido. Deve estar compreendido por ambos que são duas formas coletivas diferentes de organização. No acordo inicial deve estar permitido à esse mandato se abster ou se ausentar em votações nas quais não exista acordo. Em último caso, temos o Avaaz e toda a internet para ajudar a fundar outra solução política no caso de nada mais dar certo (uau! Agora foi longe).

Um mandato hacker é uma experiência pluripartidária, não pretende combater ou substituir partidos, apenas criar modelos de outras políticas, modelos que inclusive podem vir a ser adotados por outros partidos

Espaços fechados

Política não se faz no vazio, existe em cada cidade brasileira forças e partidos extremamente conservadores, talvez venha a ser necessária em cada área ao menos uma reunião não transmitida em streaming para se discutir formas de se organizar e elaborar táticas contra essas resistências; caso o coletivo decida, pode-se prescindir desses espaços e abrir absolutamente tudo.

Após o mandato

Não deu certo? Não se reelegeu? Não tem problema, fica a experiência, todo o acúmulo político acessível em repositórios digitais e todas as ferramentas criadas e desenvolvidas abertas para quem quiser usar em outros locais e modificar (os chamados “forks” na cultura digital).

Essa ideia aqui apresentada não resolve os problemas da política, ela não é já a política distribuída, ela tem um quê de ingênua, mas também tem a vontade de despertar potências, tem a vontade de criar aprendizado e diálogo entre culturas políticas distintas que existem no Brasil e que podem trocar, e muito, suas próprias discussões e potências

Enfim, está plantada uma semente. Esta é uma versão beta, há dois anos para se preparar. Quem quer ser vereador?

WikiLeaks: O reverso do panóptico de Foucault?

15 dez

 

Hail to the Chief!

As possibilidades abertas pelas novas tecnologias das informações e comunicações (internet, celular entre outras) para a transformação social constituem todo um universo cuja superfície apenas começamos a arranhar (1). Toda a comoção, discussão e ação geradas pelos vazamentos realizados pela WikiLeaks são apenas um exemplo de um tipo de transformação que já está em curso.

O panóptico de Foucault é na verdade uma releitura mais ampla e teórica do concreto panóptico de Bentham, um mecanismo imaginado e projetado por este jurista inglês do século XVIII, no qual em uma prisão, escola ou hospício, uma torre central observa um círculo de celas bem iluminadas dispostas abaixo e ao redor dessa torre, de forma que os detentos/pacientes/estudantes não tenham como saber em que momento estão sendo observados, e se autocensurarem o tempo todo, evitando comportamentos proibidos e agindo todo de forma considerada apropriada. Para Foucault esse panóptico é uma metáfora geral da dinâmica do poder na sociedade disciplinar (a nossa), a auto-regulação opressiva seria a base desse poder.

O que alguns teóricos da relação entre internet e política estão propondo é se não haveria um começo de inversão dessa metáfora, se as TICs não poderiam potencialmente invertê-la permitindo que a sociedade civil e seus diversos movimentos passassem a também observar as elites. A primeira versão encontrada dessa idéia de possibilidade de inversão do mecanismo do panóptico vem de James Snider, comentado posteriormente por Bruce Bimber e Kelly Garrett (2).

Já Umberto Eco, em texto recente sobre os vazamentos do WikiLeaks, analisou o fato comparando-o com uma mutação do mecanismo do Big Brother, que “acontece agora, que mesmo as catacumbas dos segredos do poder não escapam ao controle de um pirata informático, a relação de controle deixa de ser unidirecional e torna-se circular.” de fato, agora não apenas “-The Big Brother is watching you!”, mas também ”- You are watching the Big Brothers!”

Idéia central é que as empresas e os governos podem passar a se comportar como se estivessem sendo observados, independentemente de essa observação estar sendo efetivamente realizada ou não. O todo-olhar se desloca do poder central, que sempre o exerceu, para incontáveis anônimos, e esta mudança pode reconfigurar em parte o próprio poder.

Além de reafirmar o que já é uma máxima, que nenhum sistema de segurança pode ser mais inteligente do que o mais estúpido de seus operadores, a internet pode ter a capacidade de transformar essa máxima no sentido de que nenhum governo, empresa ou instituição de qualquer tipo pode ser mais corrupta ou mais sigilosa do que o mais ético de seus operadores. Surge aqui, e para ficar, a figura dos whistleblowers -“ tocadores de apito”- que “apitam” ao ver algo errado ou que avaliam que deveria ser de conhecimento público na empresa, governo ou organização na qual trabalha, aliando-se a sites que se dispõem a tornar esse tipo de informação pública . Mudanças na segurança utilizada na transmissão original seja inquebrável, do tipo PGP (3), não acabam de forma alguma com a possibilidade pois o vazamento está nos operadores e não no sistema. Basta um funcionário com acesso que esteja muito descontente, que avalie que eticamente é fundamental dar publicidade aos conteúdos dos documentos ou que enseje obter lucro ou posições através do vazamento. Para efeitos práticos os três casos propiciam o mesmo resultado.

O importante a se destacar sobre o processo que ganhou notoriedade com toda esta discussão sobre o WikiLeaks, é que este não se deterá em qualquer hipótese de veredicto que colocarem sobre a cabeça de Julian Assange. Independentemente da importância de Assange, que defenderemos por princípio – seja este considerado um libertário revolucionário ou uma espécie de versão moderna de um liberal do século XIX- há todo um processo de transformação da relação das pessoas com os poderes estabelecidos que continuará. Nesse sentido tanto faz que se faça uma hagiografia de Assange à semelhança do bom nazareno que certa vez anunciou “- O que hoje é segredo um dia será gritado dos telhados”, ou que o considerem um pirata horrível que coloca em risco a segurança não só dos EUA mas do mundo como um todo.

A chave analítica extremamente personalista da imprensa é insuficiente para compreender este processo, sabemos que Assange é um militante, importante, da liberdade de acesso ao conhecimento e informação, porém sabemos também que tal e qual ele existem milhares de outros prontos para assumirem as mesmas práticas de ampla divulgação de segredos estatais e empresariais. A continuidade do processo está por hora assegurada.

Grande parte do conteúdo recentemente divulgado de atividades desenvolvidas pelo corpo diplomático estadunidense era amplamente esperado e imaginado, o que acontece é que entre a suspeição e a confirmação (os estadunidenses não negaram serem os produtores de tais documentos) vai uma distância que muita vez impede a concretização da ação política contrária. O que se destaca nos telegramas e e-mails dos americanos, mais do que o tipo geral de informação transmitida, é o tipo de informação específica sobre líderes e a forma dos detalhes e do fraseamento.  Não é que o rei esteja nu, é que há detalhes de suas vestes íntimas que são inesperados.

Existe também uma falsa visão dos que avaliam ser possível resolver esta questão de vazamento simplesmente melhorando os mecanismos de segurança. É praticamente impossível achar uma forma de segurança de arquivos que destrua completamente a possibilidade de vazamentos.

Além dos vazamentos já conhecidos, a vontade de saber que o WikiLeaks despertou pode levar a muitas outras divulgações com consequências políticas importantes, se estes dados serão vazados por funcionários que não têm autorização para tanto, ou obtidos por hackers militantes da liberdade da informação – não há como se saber com certeza – isso não influencia em muito o resultado final.  Processos políticos que geram ou geraram suspeição generalizada são por excelência alvos inatos. Exemplos destes são contas em paraísos fiscais como as Ilhas Cayman e similiares, onde lideres políticos em ofício, principalmente – mas não só – do mundo em desenvolvimento, tenham contas não declaradas de valores inexplicáveis. Assim como outros processos sob forte suspeita como os do HD de Dantas, os documentos internos da CBF, a relação de certos governos com empresas estrangeiras como a Alstom, entre tantos outros exemplos.

Para os que insistem em negar as possibilidades de transformação política gerada pela internet, um exemplo de retrospecção (4) que poderia simplesmente mudar a história do século passado. Se os crimes de Stalin, dos expurgos, massacres e perseguições aos progroms tivessem acontecido numa época de internet, dificilmente o tamanho de seu sigilo e sua abrangência teria permanecido desconhecido até o Relatório de Kruschev em 1956 (5), que gerou defecções em partidos comunistas do mundo inteiro.

As elites e governos comportarem-se como se estivessem sendo observadas pode ter consequências diversas: no que tange à corrupção os casos podem diminuir muito, ampliando a verba remanescente para investimentos efetivos em políticas públicas, na parte das empresas essa diminuição da corrupção pode também aumentar a arrecadação pública; no que diz respeito à ação internacional, a dificuldade de se manter o sigilo pode permitir maior transparência para estas políticas e menos ações que seriam consideradas pela opinião pública como “moralmente questionáveis”; e no que concerne aos mecanismos decisórios, a dificuldade de se tomar decisões que não sejam publicamente escrutinadas pode tender a aumentar os mecanismos de democracia direta.

Se esse é de fato um processo que vai levar a mudanças na forma de se exercer o poder, o que interessa saber são as possibilidades desse processo no longo prazo, até porque – se ele é um processo em disputa – cabe não só analisar teoricamente essas possibilidades, mas também desenhar ações políticas que influam e acelerem o processo.

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Este texto é um primeiro esboço sobre o assunto, críticas e sugestões serão muito bem vindas.

1-Não apenas pela existência da possibilidade da comunicação de todos com todos e da epifania iluminista de estarem os melhores produtos do fazer humano, da ciência e das artes ao alcance de todos, mas também por motivos econômicos e político-organizacionais.

2-Kelly Garrett  – “Protest in an Informational Society: A review of literature on social movements and new ICTs”. 2006. O artigo de Bruce Bimber , de 1998- “The Internet and Political Mobilization – Research Note on the 1996 Election Season” , não pôde ser consultado, porque, apesar de estar a disposição na Social Science and Computer Review – revista dentro do sistema SAGE Journals Online – esta me oferece como possibilidade o seguinte mecanismo: “Pay per Article – You may access this article (from the computer you are currently using) for 1 day for US$25.00”. Ou seja, um artigo de nove páginas, por um dia e ao custo de 25 dólares!

3-Literalmente Pretty Good Privacy, código baseado em chave aberta, decodificá-lo trata-se da fatoração de dois números primos muito grandes, os quais os principais mainframes do mundo reunidos poderiam realizar, mas demorariam uma quantidade considerável de milênios para fazê-lo.

4-Retrospecção – Termo do filósofo Bergson, afirma sobre a tendência a “relegar as realidades atuais para o passado, para um estado de possibilidade ou virtualidade”

5- Diz-se que Marighela chorou de raiva e indignação ao ouvir o relatório pela primeira vez.

Guilherme Flynn Paciornik – Dezembro 2010

 

Contra o Voto Nulo, pelo voto no PT nas eleições desse domingo.

28 out

Ao ler as análises recentemente divulgadas sobre o governo Lula, é muito difícil encontrar uma que aborde suas contradições de forma serena, que não carregue nas tintas para demonstrar que foi, ou absolutamente fantástico ou uma traição enorme de classe. Que avalie elementos tanto de melhora como de continuidade por uma perspectiva progressista, de esquerda. Esse é um esboço solto agora para me posicionar a favor do voto na candidata do PT, Dilma, nesse domingo.

Em qual Brasil o PT se elegeu?

O primeiro elemento para uma análise deste governo é a ressalva que chegar ao governo federal não é o mesmo que chegar ao poder, é chegar a parte do poder, contando com a mesma situação de riqueza, mídia, infraestrutura pública, entre outras, que FHC deixou. Com uma composição do congresso formada num tipo de eleição na qual há pouco ou nenhum controle da influência do poder econômico sobre a mesma. A base do governo ampliou-se no começo do mandato devido a um tipo consolidado de relação do legislativo com o executivo em busca de acesso a processos licitatórios, recursos diversos, pastas e à aprovação de emendas parlamentares, em um mecanismo viciado que em pouco se alterou. Não se muda um país por decreto, ou você tem as armas e mídia– como a Ditadura, ou você tem o congresso e a mídia – como o governo do PSDB, ou tem a mobilização do povo e dos movimentos sociais – como o PT teria tido se optasse por um caminho de confronto. O PT escolheu por um caminho de baixo confronto e mobilização, e de garantia de aprovação de projetos no congresso através de concessões em pastas e em programas.

Desde a “Carta aos Brasileiros” em 2002, todos sabiam que temas como estatização do sistema financeiro e re-estatização das empresas públicas que foram privatizadas estavam fora de questão, socialização de meios de produção então… nem o mais crédulo petista sonharia. Sabia-se, sem clareza acerca das nuances, que o governo Lula seria o que foi, um governo de coalizão com setores progressistas e com parte da direita arrivista, sem grandes mudanças de política econômica, mas com uma ênfase diferente e um maior investimento na política social.

É fato que comparado com governo de Fernando Henrique o governo de Lula foi sensacional, mas essa é uma comparação muito ruim, pois o governo FHC foi péssimo (não vou sequer entrar nisso, pois não é a essa comparação que esse texto se direciona), a questão é que o governo Lula foi amplamente insuficiente em relação à somatória de projetos que o construíram historicamente e às expectativas de mudanças estruturais ao menos em áreas estratégicas.

Talvez o maior problema em relação ao governo Lula é que era um governo que queríamos defender bravamente nas ruas, e não, resignadamente, ressaltando o horror que é o projeto do adversário PSDB, nos blogs. Mesmo com essa somatória de poréns, esse governo tem avanços importantíssimos, que ficarão na história, e essa eleição que se aproxima não deixa espaço se posicionar pelo voto nulo.

Sem a intenção de realizar uma análise detalhada e profunda separei como síntese cinco grandes problemas e três maravilhas do governo Lula

Cinco áreas com problemas

Reforma Agrária

Em fato quase não houve, apenas um tímido número de assentados semelhante ao de FHC, porém com uma política de apoio ao assentado e um conjunto de programas acessórios muito melhor, como o Programa de Aquisição de Alimentos PAA, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária PRONERA, e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, entre outros.

Continuamos com um latifúndio gigantesco, que emprega pouco e paga mal, e que gera pouquíssima distribuição de renda. O Imposto sobre Propriedade Territorial Rural ITR continua incrivelmente baixo, a terra continua nas mãos de pouquíssimos, milhões de trabalhadores rurais continuam sem possuir terra e continuam migrando para centros urbanos. A função social da terra continua a ser um dispositivo pouco aplicado. Pior, continuamos tendo famílias e crianças subnutridas – muitas delas ao mesmo tempo obesas, o que não é contraditório – devido à ausência de diversidade nutricional, de abastecimento e de preço dos produtos em diversas regiões. Continuamos tendo trabalhadores escravos e em situação análoga à escravidão.

Política Econômica

Aparte a discussão do que efetivamente envolve a política econômica. O centro da política econômica do governo Lula se guiou por uma combinação da política neoliberal, a exemplo da política monetária (taxa de juros ainda altas), fiscal (superávits ainda maiores e sem grande aumento de impostos para os muito ricos), cambial (com manutenção do câmbio flutuante), taxas de inflação semelhantes; com traços de soberania nacional na política redistributiva, e no tipo de aquisição e pagamento da dívida pública, com menos rolagem, maior atrelamento à moeda que emitimos e prazos mais razoáveis.

O Banco Central, que não passou a ter legalmente autonomia, ficou com um representante legítimo do capital financeiro, Henrique Meirelles,  um ex-presidente do Bank of Boston,  que em 2002 foi eleito pelo PSDB. A taxa de juros – o preço do dinheiro – baixou significativamente, mas continua entre as maiores do mundo, e continua sendo um mistério muito mal explicado o porquê do Brasil ter de manter, 16 anos após o fim da superinflação, uma taxa tão elevada de juros.

Dificulta o fato de que um dos maiores fatores de regressividade (o pobre paga proporcionalmente mais do que o rico), o ICMS, ser de controle dos Estados, mesmo assim políticas de progressividade de arrecadação utilizadas no mundo inteiro, como imposto sobre grandes fortunas, aumento do Imposto de Renda sobre o Lucro Líquido, e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e criação de faixas maiores do Imposto de Renda de Pessoa Física, foram, para dizer o mínimo, tímidas.

Não houve uma auditoria da dívida pública interna e da dívida pública externa, embora esta última tenha sido bastante reduzida e renegociada em termos menos submissos e rastejantes do que os do governo FHC.

Educação

O principal problema continua sendo o total do PIB aplicado em educação, como dizia Paulo Freire – educação não se avalia por discurso, se avalia por investimento. Não se colocou em questão a retirada dos vetos de FHC sobre o Plano Nacional de Educação PNE, que dispõem sobre o aumento progressivo do orçamento da educação para 10% do PIB em dez anos. Atualmente o Brasil investe pouco mais de 4% de seu PIB na área.

Não erradicamos o analfabetismo, que está em 9,7% da população e o analfabetismo funcional, que ainda atinge incríveis 20,3% da população brasileira (para comparação, o analfabetismo na argentina é de 2,4%, e o do Uruguai 2,1% segundo o PNUD). Estamos longe da proposta do PNE da sociedade civil de zerar até 2007 o número de jovens fora do ensino médio. O ensino de Jovens e Adultos (mais conhecido como supletivo) é outro ponto que avançou pouco.

O número de universidades federais criadas, 14, é, literalmente, infinitas vezes maior do que o de FHC: zero, porém ainda insuficiente para o déficit de vagas no ensino superior no Brasil, país no qual somente cerca de 10% dos jovens em idade apropriada hoje frequentam o ensino superior.

O PROUNI, um programa de escala, possui o revés de se basear em um mecanismo de transferência de dinheiro público para a iniciativa educacional privada, sem nenhuma garantia de qualidade, e que poderia ser concebido como transitório enquanto se providenciam as vagas públicas, porém não possui atualmente esse caráter declaradamente transitório. Entretanto é deveras difícil criticar o programa para os 747.000 jovens carentes que dele se beneficiaram.

Houve uma efetiva recomposição e valorização do salário dos professores de universidades federais, que em muitos casos passaram a receber mais que professores de universidades estaduais de renome, e um aumento nos valores das bolsas de pesquisa. Outra política importante foi a de fixar um piso mínimo do magistério, impedindo municípios de pagar somente o salário mínimo.

Comunicações

Um desastre, cujo efeito é sentido todo dia quando se liga uma televisão ou se abre um jornal de grande circulação. Com a entrada de Hélio Costa, ex-funcionário da Globo, como ministro em 2005, o governo passou de pouco efetivo para praticamente retrógrado, continuando a política do governo anterior de fechamento de rádios comunitárias. A simples regulamentação dos artigos 22o e 221 da Constituição de 1988, que versam sobre a produção e programação de conteúdo de rádio e televisão; e sobre propriedade dos meios de comunicação colocaria o país num cenário mais democrático em relação ao direito de comunicação. Não aconteceu. Talvez o grande erro do governo tenha sido o modelo de televisão digital aprovado, no qual perdeu a oportunidade de ampliar, diversificar e democratizar os produtores e emissores de conteúdo televisivo.

Apesar destas e outras o governo lula criou em 2007 a Empresa Brasil de Comunicação, e através dela a televisão pública nacional, prevista na Constituição de 1988, a TV Brasil, com conteúdo de qualidade, embora ainda sem grande impacto social mensurável em termos de audiência e repercussão.

Disputa simbólica

Um dos maiores problemas que permearam o conjunto do governo Lula foi o de atuar mais através de modelos representativos do que de modelos participativos, o que auxilia a manter a falta de politização da sociedade, e logo níveis baixos de participação política, de apenas fazer por e não fazer com. O governo acabou por formar uma classe média que pode provavelmente se revelar mais disposta a manter o que conquistou do que a lutar para que todos sejam incluídos. Foi um governo de baixa mobilização social apesar do número considerável de conferências construídas, das municipais para as nacionais, de construção complexa e militante, que envolveram os que já discutiam cada área e conseguiram trazer novos participantes em diversos casos.

Um governo que não se propôs a discutir os pontos chaves do que realmente está em jogo na humanidade, de formar seres humanos capazes de decidir seu próprio destino, de pensar o Brasil na América Latina e no mundo, de criar bases para a superação de um sistema baseado na exploração do ser humano pelo ser humano.

Ao fim e ao cabo, o Brasil continua nas mãos dos mesmos donos quando se fala sobre terra, continua nas mãos dos mesmos donos quando se fala em mídia, os grandes barões da indústria ainda são os mesmos. A renda do capital cresceu mais do que a do trabalho, mas, apesar de tudo isso, algo mudou e essa mudança foi para melhor. Abaixo tratarei do que mudou.

Conquistas e políticas progressistas do governo Lula

Redução da miséria e pobreza

Tirar 24 milhões de pessoas da situação de miséria e elevar 31 milhões de pessoas à classe média, esse é o grande e incontestável feito do governo, um feito sem par tanto em números absolutos como em percentuais na história do país. Através de um programa de distribuição de renda diretamente as família e ainda por cima vinculado à permanência das crianças na escola, o Bolsa-Família possui atualmente mais de 12 milhões de famílias beneficiárias, apesar de ser em princípio uma política focalizada e não universal, é muito difícil criticar o programa tanto em concepção como em qualidade de execução (possui um cadastro incrivelmente preciso e articulado com outros órgãos) quando se leva em conta a correlação de forças e o tipo de governo no qual foi implantado.

Multidão de lutadores e programas bem desenhados

Outra característica desse governo foi a presença diferencial de dezenas de milhares, muitas dezenas de milhares, de funcionários públicos aguerridos cumprindo papel mais que profissional, militante, na concepção e implantação de programas e políticas públicos de alta qualidade, que não adquiriram a escala e repercussão necessária em parte devido ao desenho do orçamento como um todo, e em parte devido à má qualidade da cobertura da mídia sobre os mesmos.  Mas que mesmo assim beneficiaram, somados, milhões de brasileiros. São exemplos desse tipo de programa o Brasil Sorridente, o Mais Educação, o PAA, o PRONAF, o PRONERA, os Pontos de Cultura, o Portal do Software Livre, o PRONASCI, o Mais Educação, o Cultura Digital, o Arca das Letras (com mais de seis mil minibibliotecas organizadas em comunidades rurais), o Memórias Reveladas, e diversos programas de nutrição, de saúde indígena, de saúde da mulher, de combate ao racismo, entre tantos outros.  Ainda que todos tolhidos no orçamento pelo temível ministério do Planejamento, que contingencia preventivamente e depois vai liberando os recursos.

Outros programas, maiores, como o Territórios da Cidadania, o Luz para Todos e o Minha Casa, Minha Vida, conseguiram alguns resultados impressionantes em áreas nas quais a política anterior foi de devastação.

Os resultados de todo esse conjunto de políticas micro e macro são impressionantes também quando se fala em queda da taxa de desemprego, a menor desde 2002,  segundo o IBGE e o DIEESE, assim como quando se fala de crescimento do porcentual da população com acesso a internet banda larga, entre outros fatores.

Resistência à crise internacional

É fato de que a resistência a crise econômica internacional foi fruto de uma diminuição da dependência e da vulnerabilidade externa, somados ao cenário de crescimento do consumo interno gerado pela distribuição de renda e ainda aliados a intervenção rápida e precisa do governo central através da liberação massiva de crédito através dos bancos públicos. Em um passado recente crises muito menores nos atingiram muito mais fortemente. Mesmo sem uma grande transformação do centro da política econômica, um número considerável de fatores diferentes do último governo somados à rapidez na resposta em termos de política econômica possibilitaram que essa grande crise, que atingiu fortemente os EUA, a União Européia e diversos países do mundo em desenvolvimento, nos atingisse com muito menos força.

Política Externa

No governo Lula, políticas internacionais intensamente discutidas pela esquerda durante o governo anterior foram executadas, como o desaparecimento de pauta da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA, a anistia pelo Brasil das dívidas externas de países muito pobres, a solidariedade a Cuba, Bolívia e Venezuela, a cooperação sul-sul, o envio de pessoal de saúde para Angola e Moçambique e não alinhamento direto com os EUA, a OTAN e o G-7 entre outras. Houve algumas quebras de patentes de fármacos, mas ainda longe do suficiente para reconfigurar parte do orçamento da saúde. Houve também uma firme posição contra o golpe de Honduras com a concessão da embaixada brasileira como sede provisória para o presidente eleito.

Nesse ponto, embora exista uma inúmera quantidade de poréns na política externa, os internacionalistas têm, e muito, a perder com um governo PSDB, especialmente no que diz respeito à América Latina.

Por que, dadas todas essas contradições, votar no PT nesse segundo turno?

Só o dado sobre diminuição de miséria, os 24 milhões, aliado ao fato de que o adversário do PT nessas eleições é o PSDB, com toda sua carga privatista e concentradora de riqueza, deveria ser suficiente para diferenciar projetos e optar por votar no PT no segundo turno dessa eleição, porém há muitos que não se sensibilizam com um capitalismo de vertente social-democrata como um avanço em relação ao capitalismo dependente e subordinado do PSDB. A esses digo que as reformas burguesas auxiliam a construir um cenário de reformas mais profundas, ou seja, o governo do PT reaproxima o nesses dias tão distante horizonte revolucionário.     Incita-nos a pautar propositivamente as insuficiências do governo e as irracionalidades do sistema capitalista em si.

Um possível governo PSDB reativa, é verdade, parte da luta social, porém não reconfigura necessariamente a esquerda, apostar nisso é apostar numa teoria do quanto pior melhor, é voltar a lutar contra retrocessos, privatização, sucateamento, o não renascimento da Telebrás, é perder a chance de uma pauta propositiva por uma reativa.

Lutamos ao lado de gente que está nesse governo e que o defende e lutaremos a seu lado muitas vezes mais.            O desafio de construir novas sínteses teóricas assim como suas práticas correlatas num período pós queda do Muro de Berlim, e após a grande onda do neoliberalismo, permanece colocado aos que defendem a substituição do capitalismo por um sistema mais justo no caso da vitória de qualquer um dos candidatos. A diferença é realizar essa monumental tarefa com aliados dentro do governo e com milhões de miseráveis a menos no país.

Guilherme Flynn – Outubro de 2010

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Para ampliar o alcance, tentei limpar esse texto de palavras e grupos de palavras conceitualmente muito carregadas, como bloco histórico, organicidade etc. Assim como da discussão mais de fundo sobre as diferenças de concepção do que é política econômica, a função social da educação, etc. Não sei se consegui. Como o texto aborda o conjunto enorme de fatores em poucas páginas, sei que ele está incrivelmente raso em diversos itens e com imprecisões e até falhas em outros. Se as falhas forem grosseiras me avisem que corrijo. É que não dava para não se posicionar e as eleições estão aí. PNDH-3, PAC, Saúde, Cidades, Meio Ambiente e tantas outras coisas ficam para uma próxima.

*Os dados desse texto foram selecionados nas seguintes fontes: Ministérios, Presidência, IPEA, INEP, IBGE, DIEESE, OCDE, UNESCO e PNUD.

10 falsos motivos para se votar em Dilma

21 set

É com prazer – e grande orgulho pela escolha de nosso blog como primeiro local – que publicamos o texto inédito de Pedro Ekman. Nestes tempos de mídia esquizofrênica, é fundamental restabelecer a capacidade de se criticar pela esquerda o governo, e manter vivos projetos alternativos e socialistas (Guilherme)

10 falsos motivos para se votar em Dilma

por Pedro Ekman

21 de setembro de 2010

Em 25 de julho de 2010 o cineasta Jorge Furtado escreveu um texto que circulou na internet analisando dez falsos motivos para não se votar em Dilma nessas eleições. Sempre considerei Jorge Furtado um dos mais importantes cineastas brasileiros o tendo como uma das principais referências em meus caminhos pelo áudio visual.

A influência é tamanha, que minha primeira realização de curta metragem, o vídeo Levante sua voz produzido pelo Intervozes é uma homenagem direta ao histórico Ilha das Flores deste incrível cineasta gaúcho.

Sempre respeitei Jorge Furtado pela sua obra e agora ainda mais pela postura ativa no cenário político brasileiro, postura essa tão rara na categoria dita “artística”. A despolitização nunca foi uma característica de seu trabalho e fico satisfeito em saber que isso também não se restringe ao set de filmagem.

É por esse respeito e admiração que me dou o direito de discordar publicamente dos argumentos centrais levantados por ele a cerca da candidatura Dilma nestas eleições.

Para isso achei que, melhor do que escrever um texto em contraposição, seria comentar suas respostas como em um diálogo entre colegas.

1. Alternância no poder é bom.

Jorge Furtado:

Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder.

Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.

Pedro Ekman:

Concordo com o argumento e discordo da conclusão. O poder nunca de fato mudou de mãos no Brasil. O governo Lula alterou algumas características laterais da gestão pública sem no entanto modificar qualquer característica central na constituição histórica do poder no Brasil. O gestor do Estado mudou, mas o poder ficou onde estava. As mesmas imposições feitas pela oligarquia, pelos meios de comunicação, pelo capital financeiro e produtivo ao governo neoliberal tucano foram mantidas no governo petista. Algumas coisas tiveram que mudar para que o central permanecesse onde estava. Isso aconteceu justamente pela opção de não enfrentamento do poder por parte da esquerda brasileira que chegou ao governo. Diferentemente do que ocorre na Venezuela e na Bolívia onde a opção foi de enfrentamento do poder estabelecido e onde de fato o poder começa a se deslocar do seu lugar histórico para outros espaços.

2. Não há mais diferença entre direita e esquerda.

Jorge Furtado:

Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do Estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de esquerdistas, como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da direita do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Borhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Borhausen, José Sarney é Che Guevara.

Pedro Ekman:

Concordo novamente com o argumento e uma vez mais discordo da conclusão. Justamente por ser um conceito relativo temos que ter atenção a esta questão. Dilma está a esquerda de Serra, mas em relação a um projeto de transformação real de poder está a direita. Explico: Dilma e Serra estão disputando quem pode gerir melhor o poder onde ele está, um mais a direita e outra mais a esquerda. Deste modo, o PT e Dilma são muito mais eficientes para gerir o poder pois distensionam os conflitos sociais respeitando os limites impostos pelo poder para que a origem concreta dos conflitos se mantenha. Serra recoloca o conflito na ordem do dia por não ser o representante histórico dos movimentos sociais e por aprofundar os elementos de desigualdade que dão origem aos conflitos sócio-ambientais. Desta maneira, o PT não se transformou em um partido de direita, mas sim, no melhor partido para a manutenção da ordem existente. O faz ao abandonar seus objetivos históricos de transformação da ordem, o que explica por que inimigos históricos como Sarney e Collor estão lado a lado do melhor instrumento para a manutenção da ordem e do poder.

3. Dilma não é simpática.

Jorge Furtado:

Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito simpatia depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.

Pedro Ekman:

Concordo plenamente.

4. Dilma não tem experiência.

Jorge Furtado:

Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.

Pedro Ekman:

Concordo e acho uma das grandes vitórias da eleição de Lula foi a derrocada do argumento tecnocrático forjado pelos tucanos. Eleger um operário foi um marco para o processo político brasileiro colocando pela primeira vez na história de forma clara que as escolhas que fazemos na vida são políticas e não técnicas.

5. Dilma foi terrorista.

Jorge Furtado:

Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações terroristas. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.

Pedro Ekman:

Concordo plenamente, a tentativa de inversão histórica chega a ser revoltante.

6. As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano.

Jorge Furtado:

Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate quem começou o que torna-se irrelevante.

Pedro Ekman:

Essa frase é geralmente empregada pelos tucanos para fazer referência a política econômica do governo Lula a qualificando como “boa” e como cópia. De fato neste ponto há uma continuidade, e na minha opinião é um dos pontos trágicos da transformação do projeto petista. O Lula foi mais hábil que o PSDB nas políticas compensatórias e com isso atingiu uma popularidade recorde em um país onde o principal receio da população é não ter o que comer. Considero que isso é de fato um mérito, pois não ter o que comer é algo muito grave. Temos que observar que a desigualdade não diminuiu por que apesar de mais gente ficar menos pobres os poucos ricos ficaram muito mais ricos –  a diminuição da desigualdade é talvez o principal mito da era Lula. Trato justamente da estrutura de manutenção do poder que comentei anteriormente. Você pode fazer quantos bolsa-família quiser, contanto que não altere a estrutura de concentração de riqueza existente. Não obstante, 36% do orçamento brasileiro continua a ser pago aos Bancos que cobram ilegalmente juros sobre juros de uma dívida interna impagável e menos de 7% são gastos com a saúde e a educação pública. Essa “austeridade fiscal” inventada pelos tucanos não é uma escolha técnica, é uma escolha política. A continuidade desta ordem também foi uma escolha política do novo governo, foi a escolha de não enfrentar esse modelo por mais que se entendesse que isso é necessário.

7. Serra vai moralizar a política.

Jorge Furtado:

Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista “ no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC “ foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela Operação Sanguessuga. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com engavetador da república, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de mensalão foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no mensalão do DEM. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao

contrário.

Pedro Ekman:

Inconsistente não, falso mesmo. Serra, PSDB e DEM foram os primeiros a ingressar no jogo da governabilidade a qualquer custo e agora como oposição se reivindicam os defensores da ética. Entretanto, o argumento de que o governo Dilma tem mais condições de combater a corrupção também é um argumento falso. Quando era oposição, a bandeira de ética na política também foi usada eleitoralmente pelo PT, e quando este se viu refém da governabilidade e da manutenção da ordem não reagiu aos esquemas necessários para a continuidade do poder, simplesmente aderiu a eles. O combate a corrupção não é algo que se estabelece por uma parâmetro moral, como se houvesse a liga dos justos contra a liga dos corruptíveis, o combate a corrupção passa necessariamente pela decisão política de não se adaptar às imposições da ordem, algo que está longe de acontecer em um possível governo Dilma. Tem um personagem central nessa história toda que ainda não apareceu no enredo que é o PMDB. O PMDB – faça chuva, faça sol – está no governo de plantão e costuma ser pivô nas negociações extra institucionais. No governo Dilma/Temer isso tende a se aprofundar e não a se resolver.

8. O PT apóia as FARC.

Jorge Furtado:

Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos

povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?

Pedro Ekman:

Concordo. A caracterização como autoritário ou democrático de governos de diferentes regimes políticos se faz conforme a conveniência. Ninguém chama o presidente Chinês de ditador pois a China se tornou uma potência capitalista e um dos maiores mercados do mundo. Já o presidente Venezuelano é considerado um ditador tendo realizados mais consultas populares do que qualquer outro país nos últimos anos. O ex-presidente de Honduras foi deposto por tentar mudar a constituição pelo voto popular e o atual presidente golpista é tido como democrático. As eleições presidenciais norte americanas são indiretas e nenhum meio de comunicação critica as invasões de nações autônomas feitas em nome da democracia por esse país de sistema eleitoral duvidoso.

9. O PT censura a imprensa.

Jorge Furtado:

Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram a posição oposicionista (sic) deste país. Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.

Pedro Ekman:

Concordo em gênero, número e grau. Em nome da liberdade de expressão a mídia faz uma blindagem contra toda e qualquer regulamentação democrática das comunicações no Brasil. Apenas 11 famílias controlam a maior parte da informação que circula no país e essa autocrítica me parece impossível para essas famílias. A sociedade tem que intervir ativamente para mudar o cenário de concentração de algo que se define como um direito humano e não como um bem de consumo. Nesse sentido, o programa de governo de Dilma apresentava pontos extremamente avançados como o controle da propriedade cruzada dos meios de comunicação, algo presente até mesmo nos EUA. Entretanto, em nome da estabilidade do governo e do poder esse e outros itens que caminhavam no mesmo sentido foram retirados do programa de governo ao primeiro sinal desacordo dos meios de comunicação privados.

10. Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra.

Jorge Furtado:

Isso é verdade. É mais um bom motivo para votar nela e não nele.

Pedro Ekman:

É verdade, mas pior é o fato da visibilidade de um projeto alternativo à manutenção do poder sequer ser cogitada como informação relevante pela “técnica” jornalística. Concordo que os 10 motivos levantados são falsos motivos para não se votar em Dilma, tampouco considero que representem qualquer motivo para se votar nesta candidatura. Pelos motivos relacionados voto Plínio presidente, voto no PSOL na construção de uma alternativa política à essa ordem injusta e ao poder historicamente estabelecido.

Nossa Seleção – Postado de novo

25 jul

Muito felizes e honrados com a citação, por parte do craque Sócrates, de um texto de nosso blog em sua coluna. Decidimos, Tunico e Guilherme, postar novamente na íntegra o texto citado.

Lá vai:

E este é o princípio de tudo isso: a seleção é nossa, de todos e de cada um dos brasileiros que nela se reconhecem, ou, ao menos, deveria ser, De quem é a seleção brasileira hoje?

Que nós, que somos brasileiros e gostamos de futebol, nos sentimos representados por ela não há dúvidas, Temos um orgulho tremendo de saber jogar e de muitas vezes ganhar nesta brincadeira tão bela chamada futebol.

Se Maquiavel afirmava ser melhor ser temido do que amado, esta é uma escolha que nossa seleção não precisa fazer. Ela é temida e amada. Temida pelos oponentes em campo e amada por qualquer um que goste de futebol. Na Europa, África, Ásia e Oriente Médio usar uma camiseta da canarinho não indica mais sequer que você é brasileiro, apenas que gosta de futebol, tantas são as pessoas encontradas envergando uma.

É fato também que sofremos por ela, que esperamos quatro anos por cada copa e que desejamos que, quanto esta chegar, os melhores sejam levados e que o time apresente um futebol bonito e ofensivo, perdendo ou ganhando, de preferência ganhando. Sofremos com o gol do Ghiggia, com os pênaltis perdidos pelo Sócrates e pelo Zico, com o gol do Henry, com os do Zidane. A seleção enfim nos representa pelo mundo afora, e nos causa alegrias, grandes alegrias, êxtases, sustos, tristezas e misérias. Agora, quem representa a seleção?

Pessoas fazendo milhões de dólares explorando uma concessão não clara e aparentemente irrevogável de usar os talentos superiores no jogo de pé na bola, que as pessoas nascidas em nosso país aparentam ter. O pior de tudo é que esses dirigentes odeiam futebol, ou aparentam odiar, pois contratam, sem prestar contas a absolutamente ninguém, cada tipo que faria melhor papel treinando o time da Lazio do que a seleção de um país conhecido justamente por jogar bem e bonito o ludopédio.

Dunga, Lazaroni, Parreira e Zagallo estavam apenas sendo Dunga, Lazaroni, Parreira, Zagalo, não são e não saberiam ser de outra forma É contraproducente, para não dizer ilógico, esperar deles qualquer outra coisa. A verdadeira questão é outra: quem está no poder de escolher justamente estes indivíduos entre tantos outros?

Nunca é demais lembrar que, em 1994, quando o meio de campo que jogou mesmo foi Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho, talvez o pior e mais defensivo meio de campo brasileiro de todos os tempos, quem de fato fez a diferença e nos trouxe o caneco, foi um baixinho que o técnico não queria convocar, e que o convocou somente porque houve o perigo sério de pela primeira vez não irmos para a Copa. O tal baixinho era um gênio do futebol! Foi este mesmo treinador que conseguiu a proeza de, pela primeira vez na história das classificatórias para a Copa do Mundo, o Brasil perder para a Bolívia, por dois a zero.

O técnico atual conseguiu ficar conhecido por inaugurar, como jogador, uma era de futebol feio e defensivo, por enviar passes que os colegas teriam mais facilidade de dominar se estivessem utilizando colete a prova de balas e, eventualmente, baterias antiaéreas. Jamais tendo treinado sequer o Madureira, fez sua estréia como técnico profissional treinando justamente a seleção que é a maior campeã de todos os tempos.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF, antes CBD, é eleita pelas federações estaduais de futebol, que por sua vez também não possuem os atributos de serem consideradas entidades transparentes e democráticas. O atual presidente da CBF está no cargo há mais de quinze anos, no sítio de internet da entidade, (aliás é um sítio .com, comercial, e não .org, de entidade sem fins lucrativos) não se encontram as contas da entidade, não há dados claros sobre suas eleições e, mais indicativo de seu atual caráter, conta com a faixa superior indicando diversos sítios do grupo de comunicação Globo, como O Globo em geral e o da parte de esportes do mesmo.

Essa mistura que cerceia a CBF e diversas outras entidades, entre ser, para fins de análise, pública na representação do País perante sua população e as populações dos demais países, e de ser eminentemente privada na sua falta de transparência e nos seus meios de obtenção de fundos e de fazer negócios, faz com que a seleção brasileira possua um caráter duplo. Nós sofremos e nos sentimos representados por ela, e é exatamente por nós sofrermos e nos sentirmos representados por ela que ela adquire todo seu entrelaçamento com a imagem do País, e é exatamente por ela se entrelaçar com a imagem do País e de seu futebol que ela é tão vendável e lucrativa. Porém e, como dizia Plínio Marcos, sempre tem um porém, essa é uma rua de mão única: nada ocorre no sentido inverso pois nós, singelos torcedores, que somos os que no fundo atribuem a legitimidade que a seleção brasileira possui, não temos absolutamente nenhuma ingerência efetiva em seus rumos e suas escolhas. O seu caráter duplo é de ser pública na representação e privada na gestão e obtenção de lucros. Ainda em tempo: quanto ganha o presidente da CBF?

Se como propõe Saramago, temos o direito e o dever de pensar numa democracia que vá além desta, temos de criar novas formas trazer efetivamente para o público o que dele extrai sua legitimidade, de pensar em mecanismos de trazer para o público as decisões sobre nosso futebol, que nos representa. Em primeiro lugar eleições diretas para a presidência e conselho da CBF, que se tornará uma autarquia pública, por que não?

Já que estamos falando de mudar de forma drástica as estruturas de ação e representação do futebol brasileiro, por que não sonhar ainda além – uma vez que começamos é difícil parar: por que não fazer eleições diretas para o técnico da seleção? Imaginem só… você vai até o órgão público mais perto de sua casa com o RG ou CPF e pode escolher não entre Dunga, Parreira ou Zagallo, mas entre Dorival Jr, Felipão, Candinho, Luxemburgo, ou qualquer um que se dispuser a concorrer. Pela primeira vez em nossa ludopédica história, se a vitória ou tragédia vier na Copa, seremos nós mesmos os responsáveis diretos por ela.

Já que estamos sonhando, por que não eleger os 23 convocados também. Alguns mais bairristas votariam na própria escalação de seus times, mas esse efeito seria facilmente apagado pela grande maioria que, dotada de algum bom senso, saberia que mesmo que você torça pelo Flamengo, por exemplo, não significa que você tenha de sugerir o zagueiro David para ir para a copa do mundo

Por fim, agora já beirando o delírio, se os meios eletrônicos ampliam as possibilidades humanas, devem ampliar também as da democracia, por que não durante amistosos, a princípio como teste, não se alterar o time também ouvindo a torcida brasileira através de votação eletrônica em tempo real?

O problema atual do futebol do Brasil não é nem nunca foi o Dunga. É de quem possibilitou que ele esteja lá. Ou ainda em poesia:

O Dunga é esconsolável consolatrix consoadíssimo
mas a CBF car(o,a) colega esta não consola nunca de núncaras*.

Ou consola?

*Drummond, desculpa não, perdão.

Guilherme Flynn Paciornik 07 de Junho

Vila das Ameixas

14 jun

Na última sexta-feira, 11 de junho, jantei com meu bom amigo Guilherme. Uma maravilha de refeição: eu pedi um Big Mac com Chicken McNuggets, um suco de laranja, um Cheddar McMelt e uma tortinha de banana (eles ao menos poderiam colocar esses nomes em português…). Aquela delícia que deve ser o terror de todos os nutricionistas do planeta. Já posso imaginar minhas artérias gritando: “cooooáááguuuulooooo!”

Futuras enfermidades cardiovasculares à parte, até chegarmos ao paraíso dos arcos dourados, fizemos um belo passeio pelo Itaim Bibi. O Guilherme mora por lá há quase 30 anos e, durante o trajeto, ficou a me explicar algumas transformações na paisagem do bairro. “Ali era uma casa”. “Esse prédio é novo”. “Olha só, aquelas construções ali serão prédios de escritórios”. Lá pelas tantas, enquanto ele enfrentava seu Quarteirão com Queijo, soltou uma muito boa: “estamos caminhando para uma cidade Blade Runner”. Uma referência aos cenários do filme “Blade Runner, o Caçador de Andróides” de Ridley Scott (1982). Para quem não se lembra, a Los Angeles de 2019 é uma megalópole formada por prédios gigantescos, atmosfera enfumaçada, tons de cinza e preto e uma certa sujeira difusa. Quanto a este último item, explico: não há montanhas de lixo nas esquinas, como em São Paulo (procure Kassab na wikipédia), mas tudo parece sujo, mal cuidado, feio e decadente.

São Paulo é uma “cidade Blade Runner”? Não sei ao certo a resposta. De chofre, diria que ainda não. Lembro-me de uma entrevista, sobre o filme, em que Harrison Ford, ator principal, comentava as discussões que manteve com Ridley Scott, durante as filmagens, sobre o roteiro. O ator falava da necessidade de maior identificação do público com os personagens. Estruturalmente, queria aproveitar essa questão. A pergunta é a seguinte: qual a identificação do paulistano com a cidade de São Paulo? Ele se sente feliz? Essa é a cidade que gostaria de ter?

Faço tais perguntas pelo seguinte: historicamente, a cidade de São Paulo – e o Brasil como um todo – cresceu a partir de um modelo excludente, autoritário, anti-democrático e concentrador. Não há mecanismos para ouvir, de forma eficiente, os anseios dos munícipes. Também não se vê disposição para distribuir o desenvolvimento e a produção de valor entre os diferentes bairros e regiões da cidade. Nós, moradores do centro expandido, somos muito mal acostumados. Eu não sou exceção. No entanto, seja por minha escolha de formação (sou antropólogo), seja por questões profissionais (os muitos bicos do desemprego), pude tomar contato, aqui e ali, com essa cidade da exclusão. Paraisópolis, Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Jardim Ângela e Real Parque foram alguns locais que pude visitar e, em alguns casos, fazer amigos. Considerando a quantidade de pessoas que vivem nesses locais, podemos dizer, sem risco de errar, que a verdadeira São Paulo é uma imensa favela, com ares congoleses. Esse amontoado de moradias insalubres cerca nosso “centro expandido”, uma cidadela formada por enormes edifícios que se convertem em caixas fortes de aço e vidro. Há “naves espaciais” na Avenida Luís Carlos Berrini e na Marginal do Rio Pinheiros, caixotes pelo Itaim Bibi, torres residenciais em Moema. Todos cercados por milícias privadas, catracas, cercas elétricas, muros, fossos, jacarés, besteiros, canhões, magos, políticas públicas, iniciativas privadas com dinheiro público, brasões empresariais e todo tipo de sortilégio destinado a manter afastada a turba.

As pessoas não se identificam com seus bairros miseráveis e desejam viver em local melhor. Muitas vezes, atuam nos limites de suas forças políticas para melhorar o espaço em que vivem. Mas como fazer o poder público ouvir? Tarefa difícil, quase impossível. Há pouco, falei de Kassab. Sua prefeitura trouxe de volta o higienismo, nos anos 2000, com bancos anti-mendigos, na região central da cidade (um pedacinho da guerra civil ao seu alcance). Quanto ao governo estadual, há que se perguntar: como dialogar com quem tem horror a pobre? Não me admira que as pessoas queiram mudar para locais melhores e que a organização popular pareça constantemente asfixiada. Basta ver o tratamento dispensado aos movimentos de moradia e de sem-teto. No Brasil, atuar contra a absurda acumulação patrimonial é o mesmo que ganhar um selo, ISO alguma coisa, de baderneiro-fora-da-lei. E ainda que se consiga, ao longo dos anos, transformar um local muito feio em bairro agradável, sempre temos a atuação extremamente eficaz do capitalismo. Gentrificação. Conceito relativamente simples que explica a desgraça habitacional de todas as metrópoles. Funciona assim:

  • Sujeito vai morar em bairro muito pobre, sem infraestrutura alguma. Falta água, luz, esgoto, transporte, hospital, escola, etc,
  • Sujeito e seus amigos criam uma associação de bairro. Organizam-se. Queimam pneus, brigam com a subprefeitura, falam com jornais, elegem um vereador,
  • Ao longo dos anos, o bairro fica mais simpático. Mais verde, hospitais, escolas, linhas de ônibus e maior oferta de serviços,
  • A Folha publica um artigo intitulado “Vila das Ameixas, o novo paraíso da Zona Sul”. O bairro torna-se alvo de especulação imobiliária. O custo de vida começa a aumentar. O preço do pão, na padaria da esquina, dispara. Famílias mais abastadas, alegando que “a Vila Mariana é uma loucura, queremos tranquilidade!”, começam a se mudar para os novíssimos prédios do bairro,
  • As famílias historicamente identificadas com a Vila das Ameixas começam a ser expulsas para locais mais afastados. Sem água, luz, esgoto, transporte público… Enfim, tudo de novo.

Viver numa cidade Blade Runner é viver em desterro em seu próprio bairro. Cercado por uma arquitetura de especulação imobiliária que não dialoga com a população e inibe a criação de qualquer vínculo afetivo entre cidade e cidadãos. O Edifício Copan é cartão postal de São Paulo, os prédios de Higienópolis são conhecidos pelo nome de quem os projetou, as casinhas do Belém pertencem às mesmas famílias há décadas e o Ipiranga continua um bairro popular. Nesses casos, a identificação e a afetividade estão bem marcadas. Não se pode esperar o mesmo do ser humano completamente desamparado que se vê obrigado a morar num barraco de uma favela de nome exótico. Também não há afetividade possível com o caixote de aço e vidro que, gigante e assustador, diz: “não queremos, não nos interessa, azar o seu”.

Esses processos estão em andamento. O bairro da Aclimação, onde passei parte de minha infância, foi destruído pela especulação imobiliária. Por lá, atualmente, só espigões. O modelo continua concentrador e autoritário. Os movimentos populares de moradia, continuam a ser caçados. As caixas fortes avançam. Enfim, já temos a estrutura da cidade Blade Runner. Ainda não somos. No entanto, com mais um tanto de terror tecnológico, a ambientação correta e uns governos tucanos e democratas, chegaremos lá.

Que porcaria.

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“- Pai, quem mora naquela casa?

– A Dona Flávia, filho. Foi ela que fez seu bolo de aniversário.

– E naquela ali, pai?

– O Seu Osvaldo, que conserta bicicletas.

– E naquele prédio grandão da esquina?

– Ah, filho, aí papai não faz a menor ideia.”

Tunico.

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P.S.: A imagem presente no início deste texto pertence ao filme “Blade Runner, o Caçador de Andróides” de Ridley Scott (1982). O filme foi produzido pelo estúdio “The Ladd Company” e distribuído pela “Warner Bros”. Essa imagem foi retirada do blog “Bibliostructures” (http://editionsballard.wordpress.com/).