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Comprender melhor a internet para aumentar o alcance da luta contra o impeachment

3 abr
 “É mais fácil entrar em Harvard do que no feed de notícias de alguém!” – Stefanie Grieser
PARA ENTENDER MELHOR COMO FUNCIONAM AS FERRAMENTAS DE REDE SOCIAL EM DIVULGAÇÃO DE PAUTAS
Filtro Bolha
    
    
Se você está assustado com o período político que o país vive e quer ajudar dentro da sua capacidade a melhorar o fluxo de discussão, peço-lhe meia hora de atenção para evitar o auto-isolamento através de filtros do próprio Facebook e outras redes sociais. Publicar melhor, driblar barreiras, atingir pessoas indecisas e usar outras ferramentas diversas
A dificuldade central aqui é furar barreiras comunicativas e demontrar como é problemático todo o processo de impeachment. Mesmo que esse acúmulo argumentativo e organizativo não barre o processo já em andamento, ele já acumula discussão para usar forças geradas anti-corrupção contra um eventual governo Temer.
Para além das redes já muito bem estabelecidas, como as Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular, há dezenas, talvez centenas, de milhares de pessoas com acesso a internet preocupadas com a democracia que buscam cotidianamente influenciar no debate público. Como boa parte dessas pessoas, talvez vocẽ que lê esse texto também, usa majoritariamente a grande rede social privada Facebook, é central parar uma meia hora para entender melhor o funcionamento dessa rede em particular.
Tudo o que você publica no Facebook ou que você pesquisa no google é filtrado a partir de grandes algoritmos, também chamados “filtros bolha”. Antes de mais nada, é bom politizar e problematizar o grande problema das bolhas que atuam no Facebook e Google.
Por favor, assistam, assistam, assistam, o curto filme de nove minutos que explica o problema. Por favor, assistam mesmo, esse breve vídeo vai mudar a forma como pensam a parte digital de sua militância pela democracia: http://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?language=pt-br
Sentiu o tamanho do drama? Pois bem, tanto o Nexo como o Estadão já deram matérias falando o como esse tipo de filtro acaba por polarizar a discussão, e que talvez este seja o momento mais polarizado de discussão da história recente do país.
As tais hashtags
Hastags, # (cerquilha ou jogo da velha), são aglutinadores de conteúdo, colocar um hashtag em um post ou comentário aumenta a probabilidade de que alguém que for procurar conteúdo semelhante se depare com seu post ou comentário.
Para achar boas hashtags, basta ir no http://hashtagify.me/ (ou outro parecido) e digitar alguma hashtag  no campo de buscas. O site mostrará as mais influentes e a partir daí selecionar uma das mais poderosas parecida com o conteúdo que quer postar.
Se quiser que pessoas a favor do impeachment vejam seus links, você pode usar uma hashtag outra, como as que estão em http://hashtagify.me/hashtag/foradilma, por exemplo a #impeachment, para tentar furar cercas algoritimicas.
Pesquisas indicam que muitas hashtags diminuem ao invés de aumentar a visibilidade de um post, sendo dois o melhor número de hashtags (a partir de três já cai o acesso). Para maiores informações leia https://www.postplanner.com/how-to-use-hashtags-on-facebook/
Se for usar o Facebook, leia alguns links que vão lhe ajudar a pensar como essa REDE FUNCIONA:    
“it’s easier to get into Harvard than into someone’s Facebook news feed!” Stefanie Grieser. Em tradução livre: “É mais fácil entrar em Harvard (Universidade de prestígio) do que no feed de notícias de alguém”! 
Parte das análises são para veículos comerciais e não pessoas físicas, mas ajudam na reflexão.
Excluindo amigos, colegas de trabalho e conhecidos do Facebook, do Twitter e do Whatsapp – Ufa! enfim me livrei destes reacionários!
Nãaaaao!!! Excluir as pessoas de quem discorda do Facebook só amplia a polarização e diminui nossa capacidade de diálogo. O mesmo vale para listas de mensagens via Whatsapp ou Telegram. Neste caso e momento, o melhor seria pedir leitura de textos intermediários, que problematizam o processo de impeachment, a corrupção na câmara, que dissociam a Lava Jato do processo de impeachment e que coloquem o que se passa no Brasil dentro de um panorama mais amplo. Em muitas vezes será preciso respirar fundo, mas com certeza apenas excluir só piora a situação.
Resumindo, a forma de operar dessas redes causa um isolamento das posições políticas, para convencer outros e ser efetivo na disputa de visões é preciso furar bolhas, e para isso a forma das publicações é importante. Há sempre o perigo da postagem recorrente e a exclusão de pessoas que pensam diferente da sua timeline acabar por diminuir sua capacidade de intervenção ao invés de aumentá-la. Em muitos momentos será necessário respirar fundo de três a dez vezes numa troca de comentários. Se isolar para fornecer e receber posts de quem já concorda com você é a pior estratégia politicamente, embora seja a mais confortadora psicologicamente.
Aplicativos de mensagem direta individuais e em grupos não possuem filtro bolha, pois são diretos de ponto a ponto, aí, ao invés de sair de grupos de família e amigos de trabalho, o mais eficiente seria paulatinamente ir colocando como contraponto lá links de meios de comunicação que conhecem, mas links específicos que auxiliam o sentido geral das linhas maiores de discussão pró democracia (coloco uma seleção de links que testei no Facebook com pessoas pró impeachment e que auxiliaram a recriar diálogo onde antes não mais havia).
Quanto maior sua virulência retórica -embora psicologicamente seja balsâmico – menor sua capacidade de diálogo com os que de fato possuem a possibilidade de mudar de percepção em relação aos processos em andamento. Sim, isso significa começar com analistas e análises mais distanciados da esquerda, muitos da própria grande mídia, reconhecida em geral como fonte válida de notícias e argumentações por estas pessoas, e progressivamente aprofundar análises outras. Análises internacionais também podem ajudar
Em geral as pessoas tem se referido genericamente com os que se manifestam pelo impeachment como “direita” e “golpistas”, acredito que é importante fazer distinções nessa grande massa e ver quem de fato não tem nenhum apreço pela democracia e defende um golpe ou a volta da ditadura (ampla minoria, segundo as pesquisas empíricas com manifestantes). Ver aqueles que trazem em si o fascismo e agridem fisicamente pessoas vestidas de vermelho, que me parecem também ser minorias, perigosas, mas minorias  E também ver o conjunto de pessoas que acreditam sinceramente na democracia, mas que avaliam que o governo Dilma e Lula são os mais corruptos da história do país e que por isso o governo deve ser deposto. Não é uma posição absurda para os que assistem cotidianamente há mais de dez anos, todos os dias o dia todo, desde o mensalão, a grande mídia focar seletivamente em algumas personagens do governo e petistas como se estes fossem os inventores e amplificadores da corrupção. 
Engarrancham-se aí uma série de tarefas diferentes:
  • mostrar a parcialidade da grande mídia,
  • a importância da democracia,
  • a separação da Lava Jato do processo do Impeachment (e no fato como este será usado como moeda de troca justamente para barrar a lava Jato),
  • o fato de que os mecanismos institucionais de combate à corrupção fortaleceram-se durante esses governos e que isso significa uma exposição maior de casos de corrupção e logo uma percepção maior de corrupção
  • mostrar quem são os deputados na comissão do impeachment e como o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não tem intenção de fazer qualquer coisa contra a corrupção e não tem condições éticas de presidir um impeachment,
  • mostrar que o esboço de projeto de governo apresentado por Temer e Serra é contrário ao projeto eleito nas urnas, o que significa golpe contra o desejo das urnas.  
Há vários materiais que podem trazer de volta colegas, amigos e familiares para uma posição no mínimo contra o golpe, mas para isso é necessário paciência e muito, mas muito, trabalho argumentativo.
Talvez seja o momento de voltar naquele grupo de Whatsapp da família e paulatinamente colocar posts mais gerais e argumentativos (do tipo, “-O que vocês acham disso?”). Ver qual o centro da argumentação da pessoa, pessoas ou grupo, se é corrupção, PT, democracia, legalidade e contra argumentar paulatinamente através de links o mais didáticos possíveis e depois aumentar a complexidade analítica aos poucos.
Outra coisa, as vezes, menos é mais,. Ter trinta curtidas em um post, todas de pessoas que já corncordam com sua posição, as vezes é menos importante do que ter dez curtidas de pessoas que estavam com posições menos atuante, indiferentes ao momento político ou favoráveis à saída da Dilma. Estamos muito acostumados a pensar quantitativamente e ter uma satisfação baseada em quantidade. Com os filtros bolha isso não necessariamente significa conseguir furar a bolha. Pensar qualitativamente as curtidas e principalmente os compartilhamentos é central para conseguir fazer a autocrítica do alcance que se está obtendo e modificar forma de escrever e de divulgar.
Onde guardar conteúdo (ou, não deixe tudo no Facebook):
Nunca publique uma coisa exclusivamente no Facebook, devido à dinâmica efêmera desta ferramenta de rede social, posteriormente é muito difícil recuperar de forma fácil posts, conteúdos diversos e links de outros lá colocados. Isso para não mencionar a hipótese por ora remota do próprio Facebook começar a censurar diretamente posts de conteúdo contrário aos poderosos seja por ordem da justiça seja por acordos comerciais. Há diversas outras formas de conservar conteúdo, deixamos aqui só duas sugestões:
Primeira, crie um blog, mesmo que não vá publicizar esse link. Uma sugestão razoável e simples, para quem não é muito da tecnologia, é o WordPress (www.wordpress.com)
Segunda, crie um PAD, um espaço para textos que permite que várias pessoas escrevam e editem textos simultaneamente. Alguns PADs que funcionam bem são: https://pad.okfn.org/ (Open Kwnoledge Foundation), e o Etherpad Open Sourced! (http://piratepad.nl/).
Tarefas no momento:
 A tarefa central em geral é paulatinamente utilizar a massificação de emissores de opinião permitida por redes distribuídas, como a internet, para fazer uma disputa de longo prazo de valores e leitura política com a grande mídia. Grande parte da disputa de opinião hoje é feita via internet, o único canal no qual a maioria dos que possuem acesso é também emissor. É o principal canal de comunicação no qual o indivíduo e os pequenos grupos são capazes de ampliar o alcance político de suas opiniões e posições, e dentro desta tem uma preocupante posição central a ferramenta de rede social privada, o Facebook. Compreender as dinâmicas dessas redes distribuídas e das ferramentas de rede social como o próprio Facebook e o Twitter me parece fundamental para ampliar a potência política dessas centenas de milhares de militantes indignados com o golpe que sofre a democracia.
Os argumentos centrais da posição contra o impeachment já foram listados de diferentes formas  por diferentes atores e em diferentes espaços. A questão aqui é amplificá-los. Elegemos alguns:
  • O impeachment não é justificável e significa verdadeiro golpe contra a jovem democracia brasileira. (e aqui entram os links dos juristas)
  • Mesmo se fosse justificável, essa presidência da Câmara e essa comissão eleita não tem distanciamento do caso central que usaram para gerar a percepção geral sobre corrupção neste governo -a Lava Jato- para ter uma atuação ética e republicana. 
  • Auxiliar esse impeachment significa antes, dado os que querem tirar esse governo, auxiliar a corrupção a se manter e não o contrário como a Globo e demais mídias pregam.
  • A apresentação de um projeto político para o governo, o executivo, que não foi eleito em urnas é a própria definição de golpe, e é justamente isso que Serra e Temer propuseram, sem antes apresentar o projeto à aprovação da população pela via do voto.
É um momento oportuno para aproveitar essa indignação criada seletivamente contra um partido e governo e transformar em indignação contra uma forma de funcionamento da relação dinheiropolítica. Mostrar com dados empíricos e análises diversas que não há democracia com financiamento privado de campanha e que não há democracia sem expansão dos emissores de opinião na televisão e rádio. A primeira pauta é mais fácil de emplacar no momento.
A disputa é de médio e longo prazo na formação de valores e leituras de mundo. A grande mídia tem claramente optado pela desconstrução da política e em criar uma visão econômica liberal tendo por fundo o argumento que o mercado é a melhor forma de distribuição de recursos. Daí os governos que não compartilham dessa visão seriam corruptos (como fizeram com Nestor e Cristina Kichner), ineptos (como tentam fazer com Morales e Corrêa) ou verdadeiras ditaduras (como caracterizaram o governo Chávez contra todos os dados empíricos e votações observadas por órgãos internacionais). Parte central de nossos esforços imediatos e futuros é discutir essa concentração de mídia, mecanismos de democratização da mídia e outras e melhores visões de mundo possíveis, mais igualitárias e generosas. 
Em relação aos deputados em disputa no voto do impeachment:
As motivações tradicionais com as quais se avaliam as movimentações de deputados de partidos fisiológicos e sem grande coerência programática, como o PMDB, são duas: grana e poder.
Na questão do dinheiro, grana, na posição que ocupamos é muito difícil até imaginar que tipo de benefícios em dinheiro estão sendo ofertados aos deputados em disputa, dado que grande parte das grandes empresas e organizações de empresas do Brasil se pronunciaram a favor do impeachment e, sendo o Brasil um dos países mais ricos do mundo, a quantidade de dinheiro capaz de ser mobilizada por estes atores é quase incalculável. Neste quesito temos pouca ou nenhuma capacidade de intervenção
Já na questão do poder, tanto o Governo na distribuição de cargos na máquina federal, quanto à oposição na distribuição de cargos do eventual governo Temer estão em plena movimentação. Temos neste quesito também pouca ou nenhuma ingerência. O máximo que podemos fazer aqui é afirmar que puniremos golpistas nas urnas, colocando seus nomes nos postes e realizando toda a discussão da forma mais pública possível sobre o que fizeram. Que estes não se reelegerão etc etc etc, essa é uma tática que no atual momento da opinião pública (sempre mutável, lembramos) se assemelha a um blefe. Quanto mais repercussão a discussão de que o impeachment é golpe receber, mais plausível se torna. (imaginem , por exemplo, o Lula falar para deputados do nordeste que fará campanhas contra as deles nos estados do nordeste se estes votarem no impeachment, dado o perfil do voto no Nordeste, a ameaça de não conseguir se reeleger ganha algum fôlego, mas, de novo, isto não está em nossas mãos)
Acredito que apenas grana e poder não explique totalmente o comportamento, discurso e voto dos deputados. Existem sim crenças políticas e também existe sim, e muita, vaidade. Deixar claro em que página da história um voto como esse os colocaria, e o que será ensinado para seus filhos e netos sobre eles na escola pode ter apelo a essa vaidade gigantesca. A Globo não escreveu a visão prevalente sobre o que foi a ditadura. Parece haver uma certa chantagem da parte mais partidarizada do Judiciário e grande mídia com algum controle sobre a Lava Jato no seguinte sentido: a chantagem, seria “-Ou votem pelo impeachment ou o faremos ser investigado e punido e colocaremos seu rosto nos jornais, revistas e noticiários de TV como corrupto (no fundo é usar a justiça pela política justamente contra….a justiça!)”. Passaram os últimos 10 anos tentando associar Lula com corrupção e ainda assim boa parte da população não comprou o discurso. Esse discurso inflamou incrivelmente setores das classes médias que em geral já eram contra o PT e de fato conquistou adeptos e ampliou essa visão.  Mas o povo não é bobo, e em geral sabe o quanto a Globo mente e é aliada do PSDB. Neste caso, amplificar a resposta social ao impeachment e reafimar aos políticos que assim como a Globo não controlou o discurso social sobre a ditadura, não controlará o discurso sobre este golpe e que votar a favor dele é a certeza de associar seu nome a um dos momentos menos democráticos e mais obscuros da história política nacional.
Por fim, coloco alguns links que testei e funcionaram ao menos parcialmente na criação de diálogos. Eu mesmo não sou lá um grande entusiasta do Facebook e publico lá esporadicamente -ultimamente com maior frequência – mas sem particular zelo na forma de cada publicação. Não é esta rede o centro de meu debate, mas compreendo e respeito àqueles que a usam intensivamente e para os quais parte das considerações deste post foi pensada. Não sou especialista nos tópicos listados acima, apenas alguém bastante preocupado com as consequências políticas e perda de capacidade de discussão que tem ocorrido. Caso você possua conhecimento especializado sobre algum dos tópicos acima e quiser ajudar, não hesite em me escrever que melhoro o texto. Compartilhar conhecimento é parte central da construção da democracia e de um mundo melhor
Alguns links úteis
 Como a conjuntura em movendo-se de forma muito rápida, parte dos links listados podem estar defasados. Sintam-se a vontade para criar seus próprios PADs ou para sugerir outros links nos comentários.
Geral
Análises maiores e internacionais, sobre a judicialização da política no mundo e o papel da direita nisso.
 Um análise de mais fôlego, feita pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos:
Por quê esse impeachment, da forma como está sendo feito, é golpe?
Por quê da reforma política
Manifesto de juristas consagrados, e já com mais de 7.800 assinaturas, contra o impeachment:
A cobertura internacional sobre o caso:
Análise de Glenn Greenwald, prẽmio Pulitzer de jornalismo, sobre o golpe em andamento no Brasil:
Seletividade da justiça
 16 pontos para pensar mais sobre a seletividade da justiça brasileira, de TV Poeira:
O caso Banestado, de 2,4 bilhões de reais e a anulação da punição dos réus:
O Documentário sobre Furnas:
Impeachment -Quem são os parlamentares que vão julgar Dilma?
 A inacreditável ficha corrida do impeachment. Absolutamente inacreditável:
Qual o projeto que o golpe vem construir?
O problema da alternativa Temer:
 Análise de Ivan Valente sobre a alternativa de empossar Michel Temer no lugar de Dilma:
Cunha reclama de Temer ter levado 5 milhões o que atrasaria a propina de outros envolvidos:
O que o programa proposto pelo PMDB em conjunto com o PSDB, “Uma ponte para o futuro” significa:
O que acontece em caso de impeachment?
A emenda pode sair pior ainda, com Cunha sendo esporadicamente ou durante longos períodos presidente do Brasil. Eis um vídeo bom e didático sobre a questão:
 Corrupção 
Há movimentos mais sérios e que trabalham faz algum tempo a questão, ligado à CNBB, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral é um deles:http://www.mcce.org.br/
Não, o PT não inventou a corrupção, e não há dados empíricos que ela tenha aumentado durante os governos Lula e Dilma, na verdade a melhor hipótese é que o aparelhamento da Polícia Federal, a autonomia e o não amordaçamento da Procuradoria Geral da República – como aconteceu durante a gestão FHC (http://jornalggn.com.br/noticia/relembrando-a-atuacao-do-procurador-geral-geraldo-brindeiro) quando Geraldo Brindeiro arquivou todos os grandes escândalos – geraram uma sensação de maior corrupção, pois os casos passaram a ser investigados e expostos. A legislação anticorrupção avançou também, com leis que punem não apenas os corruptos, mas também os corruptores, como a Lei Anticorrupção de 2013 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12846.htm) e a modificação no mecanismo de delação premiada. O orçamento da Polícia Federal praticamente triplicou no governo Lula e Dilma, aumentando de 1,5 bilhões em 2002 para 4,3 bilhões em 2013. Ainda assim, o UO usando somente o investimento conseguiu computar isso como redução! (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/veja-o-orcamento-da-policia-federal/)
Por exemplo, a caso Odebrecht, tão em voga no momento, funcionava desde o governo Sarney: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/03/26/esquema-de-propina-da-odebrecht-funcionava-desde-governo-sarney.htm
Em tempo: nem Lula nem Dilma aparecem na lista de mais de 300 políticos que teriam recebido dinheiro de forma legal e ilegal da Odebrecht.
Um dos Bispos da CNBB -Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, realizou uma fala que aborda diversos pontos, desde seletividade da mídia até corrupção:
 Caso SABESB e Trensalão.
Calendário do impeachment
 Calendário provável
É bom ir pensando ações ao longo desse período.
Sérgio Moro
A direita também faz guerra de informação e busca explicar ponto por ponto cada exemplo nosso. Aqui está um exemplo: http://spotniks.com/7-mentiras-que-voce-provavelmente-ja-ouviu-sobre-o-juiz-sergio-moro/
Até o UOL começa a fazer matérias questionando Moro.
Eduardo Cunha
 O presidente da Câmara no processo de impeachment é investigado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro STF. Metiu na CPI da Petobrás ao afirmar que não possuia contas na Suiça. Curiosamente sumiu das manchetes da Rede Globo de Televisão. A sua ficha corrida é simplesmente impressionante:
Grande Mídia
Muito Além do cidadão Kane. Um pouco da história da Globo:
    
Como funciona o oligopólio da mídia no Brasil, 11 famílias comandam 80% dos meios de comunicação.  O vídeo “Levante sua Voz” é central para quem quiser enviar uma breve explicação sobre a forma de operar da mídia brasileira:
Capacidade gigantesca de sumir com investigações da pauta pública quando interessa, como é o caso da Operação Zelotes:
Os 242 casos engavetados por Brindeiro durante a gestão FHC e a própria afimração de FHC a respeito da compra de votos na reeleição. Como a grande mídia teria noticiado se fosse o PT? http://www.vermelho.org.br/noticia/251814-1
    
Como somem a análise das 8667 brasileiros que tem conta na Suiça, em grande parte não declaradas à receita? No maior caso de sonegação já apurado?
Funcionamento atual da internet e redes em geral 
 Cada vez mais posições à direita e um longo conservadorismo se imiscuem e ganham força na internet. Compreender o fenômeno é chave para a disputa de valores de longo prazo:
Para uma análise boa do ascenso da luta contra o golpe e pela democracia nas redes, sugiro a leitura da análise do excelente pesquisador da UFES Fábio Malini:
Uma análise do dia 13 de março, o das grandes manifestações da direita, mostra que as redes tem mais cores do quer fazer crer a grande mídia:
   
Dados sociais do Brasil de 2003 para cá:
É sempre bom lembrar quais os avanços, mesmo que insuficientes, aconteceram de 2003 para cá:
As ligações internacionais:
Para quem acha no mínimo curioso uma só operação atacar o projeto de submarino nuclear, as grandes construtoras, a principal empresa de petróleo que realizou a maior descoberta de reservas do século XXI, e o partido político que buscou assegurar exploração exclusivamente nacional sobre as mesmas… Pode parecer teoria da conspiração, mas quanto mais se lê, mais parece fazer sentido:
Curiosamente não só Brasil, mas outros países sofrearam ataques semelhantes:
A nova guerra híbrida:
Quem são os irmãos Koch e o quem tem feito em diversos países
Guilherme Flynn Paciornik,  3 de abril de 2016

Mandato Hacker

24 set

Desenho do Vitor Flynn Paciornik para o Cumachama. Para ver mais dele: http://quadrinhosbe.wordpress.com/

Por que um mandato hacker?

Porque a política precisa urgentemente ser hackeada, a brasileira em particular.

O que entendemos por hacker?

Por hacker entendemos aquele que inventa caminhos, que desvia funções, que abre, que modifica,que publiciza, que reconfigura. O termo é relacionado a tecnologias também, mas – e isso é muito importante -não só a isso.

O que seria um mandato hacker?

Seria um mandato construído e gerido de forma coletiva e com transparência, desde a definição do nome, passando pelas principais diretrizes políticas, forma de funcionamento interno, criação coletiva de leis, nomeação da assessoria, decisão do voto em cada lei apreciada no legislativo, definição das ferramentas de tecnologias de informação e comunicação usadas no processo.

Por que a política brasileira precisa ser hackeada?

Porque nas suas atuais configurações a política brasileira permite uma sobre-representação do capital financeiro, dos ricos e de seus interesses, bem como um distanciamento dos representantes de seus representados. Ela não possui mecanismos de controle sobre o financiamento privado de campanha -que depois é cobrado e de forma cara durante o mandato; e tampouco de mecanismos que obriguem os legisladores a contar com a participação de seus eleitores ao longo do mandato. Esses dois fatores, entre tantos outros, permitem tanto em um caso uma política voltada para interesses que representam apenas uma parcela pequena da sociedade; como em outros uma opacidade do processo político e uma cultura política de não participação popular.

Como funcionaria na prática?

Há diversas formas de se hackear a política, a que propomos aqui não se trata unicamente de um formato mais aberto (o que aliás compreende também conteúdo), mas também de um conteúdo de esquerda, progressista e voltado para transformação social, que buscará fornecer representação para movimentos sociais que contam com lutas e com acúmulos de discussão muito ricos, mas que não conseguem necessariamente eleger representantes sozinhos.

A proposta aqui delineada não parte do nada, ao contrário, busca valorizar essas experiências e acúmulos de lutas já existentes como, por exemplo, os movimentos de democratização da comunicação, de cultura digital, de lutas no território, de educação, de saúde, de gênero, de orientação sexual, de raça, e de teto entre outros.

(Este texto foi pensado usando como exemplo, e proposta, um cargo de vereador na cidade de São Paulo)

O nome que estaria nos materiais de campanha já seria um nome fantasia escolhido coletivamente, como, por exemplo, “mandato hacker”. Tornar o nome do mandato não associável diretamente com uma pessoa física é importante por dois motivos, o primeiro para assinalar que é um projeto coletivo, o segundo para combater o personalismo na política, que é mais um dos mecanismos que permitem insulamento burocrático e diferenças de poder decisório entre a pessoa que leva o nome do mandato e os que construíram coletivamente a candidatura.

Antes das eleições…

A construção do Programa, e das principais diretrizes seria coletiva e em plenárias e plataformas online construídas para essa finalidade, lembrando que serão convidados a usar o mandato movimentos sociais que já possuem pautas e bandeiras, e que estas já possuem acúmulo histórico, sendo excelentes pontos de partida.

A definição das ferramentas digitais também deve ser coletiva anterior à eleição, será um gabinete com muita telinhas de Linux, mas só isso não resolve, a decisão de cada programa digital a ser coletivamente usado é uma decisão política, que tanto abre como fecha possibilidades. Este será um mandato claramente aberto a experimentações nesta área. Há que se definir programas para armazenamento de arquivo, desenvolvimento do site, construção coletiva de agenda, streaming em software livre de atividades do mandato, georreferenciamento de informações, cruzamento de bancos de dados, linguagens de programação a serem ensinadas aos próprios integrantes do mandato. Uso de software livre não é um “algo mais” do mandato, é um princípio, bem como é princípio a sua disseminação pelas lutas de movimentos sociais e populares da cidade.

Convite a movimentos sociais que tenham enraizamento na cidade e possível afinidade com uma proposta mais aberta. A proposta inclui formalizar antes da eleição que terão uma assessoria e um espaço para divulgar, formar mais pessoas e desenvolver ferramentas livres sobre suas pautas. Citaremos alguns aqui como exemplo, lembrando que já são escolhas políticas claras os convites a serem feitos: na questão digital, a Laboratório de Cultura Digital; na questão de democratização da comunicação o Intervozes; na questão do desenvolvimento de tecnologias para trabalho de base no território a Casa dos Meninos, na questão da educação a chapa de oposição ao sindicato municipal de professores e quem está participando da construção do Plano Municipal de Educação; movimento de ciclistas, ao menos um de moradia, de direitos LGBTT, de combate ao racismo, do movimento de mulheres, na questão urbana além de teto seria algo a pensar convidar alguma associação com acúmulo na questão como o Pólis ou a Rede Nossa São Paulo.

A contrapartida única exigida, e que não é simples, é aceitar que ao menos no exercício do mandato e do voto sobre a área na qual atua, este ator político se submeta aos processos decisórios coletivos definidos antes do mandato, à transparência nas discussões relativas à questão no mandato e ao uso e formação em software livre.

No caso específica da cidade de São Paulo, há cerca de 19 vagas de assessoria (pois no nosso caso o próprio nome que seria o do mandato conta apenas como assessoria), que poderiam ser preenchidas com mais ou menos 12 convites a movimentos e os demais postos destinados à abertura tecnológica e política: pessoas para assegurar a criação, discussão e formação em ferramentas digitais abertas, bem como assegurar a transparência e transmissão de cada atividade do mandato. Talvez seja necessário uma ou duas pessoas para constantemente explicar os trâmites legislativos ao conjunto do mandato e a transformar a discussão coletiva de leis em um formato legal (sendo que uma vez elaborado um texto no formato legal este também seria mais uma vez submetido ao espaço de discussão coletiva).

A definição coletiva das formas de funcionamento do mandato

Esse é um assunto espinhoso, pois pode-se adotar tanto um modelo de assembleia única e votação online de todos os participantes do mandato, como um modelo de especialidades no qual cada área decide coletivamente os votos naquele assunto em particular. Ambas as formas têm seus prós e contras e precisam ser discutidas, pode-se também criar um modelo misto, no qual se defina de antemão quais questões são tão centrais a uma cidade e ao mandato que devem necessariamente ser decididas por todos, e quais as áreas devem tocar.

O financiamento claro, deve ser coletivo através de espaços online bem como arrecadação de formas presenciais, negar absolutamente a participação empresas e, o que poderia ser diferente, é ser feita já para áreas, pautas e ações específicas dentro do mandato (por exemplo, para financiar debates específicos sobre pontos ou publicizar debates específico sobre alguns pontos)

Quem vota pelo mandato?

Uma ideia é imediatamente após a eleição entrar na justiça solicitando que o voto seja exercido não apenas por uma pessoa, mas sim pelas 19 ou vinte pessoas que serão profissionalizadas no mandato, e deixar claro (e escrever em cartório?) quem são essas pessoas e que elas só podem exercer esse voto através dos mecanismos coletivos definidos anteriormente pelos que construírem essa proposta. Para além do nome que vá até a câmara apertar o botão, a ideia central é que exista antes da campanha um cadastro digital das pessoas que construíram a campanha e que estão aptas a participar da votação por áreas, bem como mecanismos de inclusão pelas áreas de pessoas que efetivamente estiverem participando ao longo do mandato.

Política não é apenas o exercício do desejo e da subjetividade, mas também responsabilidade e decisão coletiva, podendo as áreas pedir para que as pessoas que desejam participar da decisão coletiva em uma área a realização de breves atividades de formação sobre o assunto e participação em espaços coletivos de debate para que se tornem aptas a decidir e votar internamente em determinada questão.

Ao longo….

Formação política

As pessoas que construirão o mandato possuem diversas trajetórias de vida e experiência política, a ideia é construir plataformas online de aprendizagem (como, por exemplo, a criada em tecnologia open source chamada Moodle) nas quais cada um e cada grupo possa socializar seu acúmulo com os demais. Nestas podem estar desde textos básicos, vídeos, áudios, até exercícios simples para averiguar aprendizagem. Cada conteúdo pode ser dividido em blocos internos à plataforma com complexidade crescente, sendo o primeiro bloco básico e com sínteses das pautas e motivos destas, uma seleção de textos breves sobre cada assunto e vídeos explicativos (por exemplo, o “Levante sua Voz” no caso da pauta de democratização da comunicação)

Repositório digital comum e Reunião Digital

Nos quais se colocaria tanto o calendário de atividades do mandato como os vídeos, áudios, agenda de contatos e relatorias de reuniões das quais o mandato participou, de forma que o acumulo de discussão políticas e de contatos não fique estritamente preso em pessoas e que a saída de pessoas do mandato não signifique necessariamente a perda total de acúmulo sobre uma questão. ( O movimento Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo já possui uma ferramenta desenvolvida chamada Reunião Digital que é bastante interessante).

Base Comum de Conhecimento Cidadão

Esta ideia vem também da Casa dos Meninos na zona sul de São Paulo, seria uma banco de dados georreferenciado e em software livre (um mapa do território) contando com todas as informações de bancos de dados públicos; a ideia por trás é tornar os dados públicos inteligíveis para o cidadão aproximando a escala destes de sua área de vivência, e assim construir uma ferramenta que o embase e empodere nas suas lutas por transformações locais.

Construção colaborativa de leis através de espaços de escrita coletiva e ferramentas de escrita coletiva online (como os “pads”)

Alguns outros pontos centrais:

Remuneração igual entre os participantes do projeto profissionalizados no mandato.

Indicação pública da assessoria.

Construção de ferramentas tanto de transparência como de exercício do mandato em software livre e a consequente abertura destas para uso de outros e modificações.

Transmissão em streaming (usando software livre, claro) de plenárias e reuniões do mandato.

A parte chata

Mecanismos de Segurança

Aqui não se fala sobre segurança digital, sendo o mandato e as discussões transparentes, a ubiquidade dos repositórios digitais (backup) deve dar conta desse problema, mas sim sobre proteção contra abusos e empoderamento pessoais internos ao mandato. A construção da confiança política entre as pessoas e entre grupos políticos é o horizonte, mas esta é uma construção que demanda tempo, convívio e a formação de novas culturas políticas. Neste sentido é importante criar alguns mecanismos de segurança coletivamente discutidos, como o registro em cartório do modo de funcionamento do mandato de modo a evitar que pessoas ou grupos usurpem a representação ou passem a falar em nome do mandato.

Legenda

Este é um ponto sensível. Por qual partido lançar uma candidatura como essa? Por um partido com postura de esquerda e que compreenda a proposta. A relação política e financeira com o partido deve ser discutida coletivamente e ficar muito clara para todos, compreendendo que dentro da iniciativa haverá pessoas e ideias de mais de um partido, bem como sem partido. Deve estar compreendido por ambos que são duas formas coletivas diferentes de organização. No acordo inicial deve estar permitido à esse mandato se abster ou se ausentar em votações nas quais não exista acordo. Em último caso, temos o Avaaz e toda a internet para ajudar a fundar outra solução política no caso de nada mais dar certo (uau! Agora foi longe).

Um mandato hacker é uma experiência pluripartidária, não pretende combater ou substituir partidos, apenas criar modelos de outras políticas, modelos que inclusive podem vir a ser adotados por outros partidos

Espaços fechados

Política não se faz no vazio, existe em cada cidade brasileira forças e partidos extremamente conservadores, talvez venha a ser necessária em cada área ao menos uma reunião não transmitida em streaming para se discutir formas de se organizar e elaborar táticas contra essas resistências; caso o coletivo decida, pode-se prescindir desses espaços e abrir absolutamente tudo.

Após o mandato

Não deu certo? Não se reelegeu? Não tem problema, fica a experiência, todo o acúmulo político acessível em repositórios digitais e todas as ferramentas criadas e desenvolvidas abertas para quem quiser usar em outros locais e modificar (os chamados “forks” na cultura digital).

Essa ideia aqui apresentada não resolve os problemas da política, ela não é já a política distribuída, ela tem um quê de ingênua, mas também tem a vontade de despertar potências, tem a vontade de criar aprendizado e diálogo entre culturas políticas distintas que existem no Brasil e que podem trocar, e muito, suas próprias discussões e potências

Enfim, está plantada uma semente. Esta é uma versão beta, há dois anos para se preparar. Quem quer ser vereador?

Enquanto isso … na Sala da justiça….. o Ônibus Hacker

27 jul
Busão Hacker no FISL 13

Busão Hacker no FISL 13

Este textinho é um presente para um camarada meu que me pôs em contato com essa experiência massa  do Ônibus Hacker, Pedro Belasco.

Versão Beta

Sempre me espantei com os super-heróis americanos, tinham tantos poderes… e sempre os usavam para que o capitalismo voltasse a normalidade. Na cidade ou no mundo, Homem-Aranha ou Super-Homem, Batman ou Quarteto Fantástico. Todas as forças, armas e poderes para que o acúmulo de mais valia não seja ameaçado por bandidos malvados. Para a que o grande desperdício estadunidense continuasse intocado. Sempre confundiram democracia com o american way, o que além de errado, é feio, bobo e narigudo.

Estava mais que na hora de surgirem novos super-heróis tupiniquins, só que agora digitais, para se juntar aos que já lutam por um mundo justo de fato, nas trincheiras da educação, da luta por terra, por saúde. Por dignidade e distribuição de recursos, mas também contra todas as opressões que grassam o cotidiano: machismo, racismo, homofobia, entre tantas outras…

Mas são heróis diferentes, o uso central de seus superpoderes é dar superpoderes para todo mundo. Fazer com que o cidadão comum se aproprie do conjunto de aparelhos e informações que já o rodeiam e passe a usá-los de forma não escrava.

Os heróis digitais não vivem sem seus objetos, computadores, celulares, painéis de led, roteadores. Estes são o anel de poder do lanterna verde deles, a armadura do Homem de Ferro, a varinha de Harry, sem seus apetrechos são apenas pacatos cidadãos. Carregam no bolso ou nas costas a possibilidade de se comunicar com o mundo de forma diferente. Têm o poder de reconfigurar dados públicos de forma inteligível para as pessoas, de criar rádios e TVs livres, de criar coisas novas a partir de arduíno, de montar aparelhos diversos. De abrir redes e ideias.

Seu poderes são os das redes e das ondas; redes de pessoas e máquinas, ondas eletromagnéticas.

Não sabem se a melhor forma de salvar Gotham City é com Ubuntu, RedHat ou Debian – e isso gera discussões longas e divertidas – mas sabem que não é com Windows e OS.

Certo dia alguns decidiram levar essa vida de caracol mais a sério, a conchinha não seria mais uma mochila, mas sim um ônibus inteiro. Como se diz em Sampa: um busão. Acharam um site de financiamento coletivo, crowdsourcing, e em pouco tempo as ruas e redes do Brasil contavam com uma nova Sala da Justiça, mas esta ambulante, e tentando fazer justiça de fato.

Têm suas manias e línguas estranhas: Interface gráfica é para mugglers, é para noobs, legal mesmo é mexer na tela de comando, no prompt. A língua é truncada, sempre se está entre termos como kernell, VU, apt get, sudo, Tux, Puffy, BSD, TCP, entre inúmeros outros.

Quem são estes novos heróis? Tem de todos tipos, formas, cores e gêneros, homens e mulheres, meninos e meninas, de todo o Brasil

Um jovem padawan ainda, um pequeno gafanhoto, e com o super-poder de imprimir coisas em 3D! De transferir parte do que era o metier e a diferença da grande indústria para a casa de cada um. Perdeu uma peça? Não ligue para a empresa ou fornecedor ou assistência, imprima outra.

Outro herói cria rádios livres com a mesma facilidade com a qual as pessoas normais abrem documentos de word. Um tem o poder de libertar pessoas de dependência de propriedade alheia através de aplicativos multimídia livres. Outro crias redes de compartilhamento aberto em quase tempo nenhum. Uma outra ainda tem o poder criar redes em torno do Busão que o energizam, atraem pessoas para ele e, tão importante quanto, mantém o busão rodando.

Têm também seus arqui-inimigos, os que colocam a cidade e o mundo sempre em risco. O malvado Super Bill Portões e suas janelas do mal, o falecido Malévolo Esteves Trabalhos, que continua escravizando o mundo através de seus fiéis acólitos os Maçãs do Inferno.Além destes dois seres das trevas os inimigos são todos aqueles que querem fechar o mundo e a possibilidade de transformação aberta pelas novas tecnologias. Sejam estes governos, patrões, grande mídia ou qualquer um que queira transformar em propriedade aquilo que pode ser de todos.

A luta só está só iniciando. Mas já dá para saber que o bicho vai pegar mesmo quando os antigos heróis – movimentos e pessoas que querem a transformação deste sistema-mundo gerador de miséria e desigualdade – se apropriarem também deste superpoderes em sua luta. Aguardem, está só começando…

O Videoteipe é burro

8 maio

E não só ele, o áudio que o acompanha também. Nelson Rodrigues, com completa razão, afirmava que o videotape era burro, mas por outros motivos, mais sábios e profundos. E se no que nos diz respeito o videoteipe não é burro, ao menos se pode  afirmar com muita tranqüilidade que o videoteipe na transmissão de televisão de futebol brasileira está muito burro.

É apenas senso comum, já difundido e assimilado, que nenhum sistema de inteligência ou segurança pode ser mais inteligente que o mais burro de seus operadores. Do mesmo modo nenhum sistema de transmissão de jogos de futebol pode ser mais inteligente do que o diretor de imagens designado para o jogo, do que a equipe de cobertura ou do que as diretrizes da emissora que o transmite.

Nas transmissões de jogos de hoje, a seleção de imagens que serão passadas novamente, seja imediatamente, seja no intervalo, se baseia numa visão ranheta do futebol, no qual a violência, independentemente de onde ocorra, prevalece sobre a arte sempre que esta se realizar longe do gol adversário. Sinal dos tempos talvez. O que sei é que já vi mais vezes a pancadaria gerada pro aquela brincadeira do Edilson do que uma matada de bola do Romário, num passe de 40 metros, tirando o zagueiro já na matada (Por que dominar uma bola virou “matá-la”?), também andei procurando uma jogada do Zidane no qual ele mata a bola de costas para o lado do ataque, ainda no ar vira, dá uma petecada na bola e sai jogando pro lado certo antes de tornar ao chão, não acho,  é mais fácil até encontrar para rever a violência do que belas jogadas.

Chutes a gol bisonhos, que tem até divertidas narrações específicas, e faltas violentas são repetidos ad nauseam, enquanto matadas de bola que beiram o primor e dribles que poderiam estar expostos em qualquer bienal se encaminham, resignados, para o ostracismo (uma pequena cidade em Minas Gerais). Quanto mais violenta uma falta, mais vezes esta será repetida. Talvez seja um repetição do mesmo raciocínio que leva a televisão a passar tantas vezes “Rambo” e tão poucas “O Carteiro e o Poeta”, talvez tenha um pouco do sangue que tinge os jornais enquanto as boas notícias são aninhadas no miolo dos cadernos, e com chamada discreta, talvez não tenha nada a ver. Vivemos mesmo em um mundo no qual a violência vende mais do que a arte?

Outra moda das transmissões de TV é filmar o técnico a cada sete minutos e passar cinco segundos da imagem dele esbravejando ou parado. Acabam afirmando, mesmo que subliminarmente, que se ele está gritando, então está ajudando o time, se ele está parado, então é apático. Exceção feita aos casos no qual o jogo já está ganho para alguma equipe. Além de não acrescentar dados ao telespectador, essa prática de filmar o técnico traz julgamentos errôneos sobre a competência do técnico cuja eficácia a simples menção do nome Feola* já desmente.

Quanto ao impedimento, o mesmo excesso se repete, se o lance foi óbvio, uma repetição bastaria, já se o bandeirinha errou num lance incrivelmente difícil, o time prejudicado foi “garfado”, e lá vai o lance repetido doze vezes (duas seriam mais do que suficientes), por fim, se o erro foi crasso, fica fácil de ver e uma repetição também daria conta do recado. A única solução humana para os erros em lances extremamente difíceis de impedimento seria contratar para bandeirinha somente pessoas estrábicas, e com o estrabismo divergente – a única condição humana através do qual é perfeitamente possível observar o passe e a linha de impedimento ao mesmo tempo.

Outro momento sensacional de nossas transmissões é quando a imagem, o jogo que está passando na tela e a análise tem tantas semelhanças quanto uma mitocôndria e a convenção de Genebra, ou seja, nenhuma. Sempre que o time supostamente mais fraco está ganhando ou arrancando um empate absolutamente improvável é demérito do time maior, jamais qualidade da equipe que cumpre o papel da zebra. Mesmo que as imagens mostrem exatamente o contrário, que a equipe grande está jogando um jogo normal e que o time pequeno esteja arrasando, se superando. Isso quando a equipe de transmissão não se propõe a fazer uma análise do sentido geral do jogo aos quatro minutos do primeiro tempo:

Cenas que gostaríamos de ouvir:

– E aí João, dá para afirmar que o Ibitira está mais consistente?

­Momento no qual a única análise decente seria:

– Não dá para saber José, o jogo acabou de começar.

Outra mania consolidada nas transmissões de futebol é dar emoção através da narração a um jogo que pelas imagens que vemos não a tem. Se o jogo está chato, está chato, não deveria ser um pecado apontar isso na transmissão.

No capítulo ranhetice, que é todo um mundo de visão sobre o futebol como uma coisa séria, há um único comentarista na Bandeirantes que é tão ranheta que faz todo mundo voltar para a Globo, que é justamente de onde estava se fugindo. Outra invenção moderna é o comentarista ranheta de arbitragem, o que é completamente diferente do jeito mesmo que involuntariamente divertidão , com o qual Mário Viana, por exemplo, comentava.  A regra é clara, mas os lances não, como a primeira só pode ser aplicada sobre os segundos, a frase fica absolutamente sem sentido ao invés de ficar com o sentido absoluto que pretendia.

Cenas que gostaríamos de ouvir:

-E aí Peçanha, o árbitro foi bem?

-Não sei Bigode, estava olhando os jogadores.

No universo ranheta bom é ser “guerreiro”, “lutador”, tem que levar o jogo a sério, tem que levar o adversário a sério. Nesse lugar triste, o universo ranheta, é justo dar um pontapé num jogador que está “abusando” de “jogadas de efeito”, como dribles bonitos debaixo das pernas, chapéus e dos toques de calcanhar. Um neurocirurgião tem de ser sério, um jogador de futebol tem de jogar futebol, e isto não tem nada a ver com ser sério. Quando você sinceramente começa a achar que vinte e dois marmanjos de shortinho tentando chutar uma bola num retângulo é uma coisa séria, está na hora de você parar e repensar uma série de coisas.

No universo ranheta, concentração é lei.

Ao contrário de outros profissionais bem remunerados, para os quais o que vale é o que realiza no seu horário de trabalho, no universo ranheta o que um jogador faz nas suas horas de lazer deve ser discutido e muito. O critério para um ranheta nunca é apenas o campo. Êta lugar ranzinza.

Há também um outro capítulo a parte na transmissão televisiva atual, que é o das platitudes, também conhecidas como banalidades, obviedades, senso comum, comentários sem originalidade. Só a transmissão das finais dos estaduais daria para encher um livro com falas como “jogar em casa é uma vantagem”, ou, para um time que acabou de ter um jogador expulso ou tomar o terceiro gol, “-Agora ficou mais difícil para o Pirapora!”,  ou quando está zero a zero, “O jogo está indefinido”, isso entre toda uma coleção de “Quem não faz toma”, “tem que ocupar o meio de campo”, “um gol agora é importante” etc, são vazios que preenchem lacunas. Nesse capítulo, a cena que mais gostaríamos de ouvir é:

– Um gol agora muda a história do jogo, Janir!

-Dããã Célio.

Enfim, assistir essas transmissões é um grande desafio para os ouvidos, para a inteligência e para a alma. Será que teremos que esperar o advento de um mundo mais justo para ver futebol com algum bom humor, inteligência e arte? Não, não precisamos, Milton Leite está aí para provar que é possível, mesmos nestes tempos, transmitir futebol como a bela e divertida brincadeira que é.

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*  Vicente Italo Feola – técnico do Brasil em 1958 e 1966, era acusado pela mídia de dormir no banco de reservas.

Este texto é dedicado a meu amigo Porpetta, que sofre de flamenguismo agudo.

Guilherme Flynn – Maio de 2011

Voto de boas festas e bom Ano Novo do Cumachama.

31 dez

Todos os anos recebemos simpáticos e anódinos votos de boas festas e bom ano novo, que se compõem basicamente da manifestação- sincera ou não – de que no ano vindouro obtenhamos sorte, amor, felicidade, saúde, dinheiro e paz – com a variante ‘muita luta’ no caso dos amigos de esquerda. Não temos absolutamente nada contra essa iniciativa esperançosa e de boa índole, e, para nos afinarmos com o coro dos possíveis contentes, resolvemos fazer nossos próprios e detalhados votos.

O Cumachama deseja a tod@s:

Sorte

Não sabemos ao certo se é boa educação ou total falta da mesma desejar sorte a alguém, não sabemos também se em algum caso na história adiantou alguma coisa, mas como é o costume, vamos lá:

Que você tenha uma jardineira ou um jardim e que o mato nesse seja de trevos de quatro folhas

Que os corpos celestes se alinhem ou desalinhem de forma que todos os charlatões falem que isso é, por algum motivo, muito bom para você.

Que todos os que dão ao signo algum significado ouçam bons augúrios por pertencerem a um determinado dozeavo.

Que a data de seu aniversário somada ao seu endereço caia quatro vezes na megasena e que você ganhe em todas essas.

Que você ganhe sempre os brindes dos pacotes de salgadinho.

Que seu time seja campeão estadual e nacional, na divisão em que estiver, e que ganhe, estranhamente, a Copa do Brasil E a Libertadores.

Que as pessoas das quais você não gosta se mudem para Porto Velho.

Que seu chefe se ausente por meses por questões familiares.

Que o PFL/DEM se mude para a Guiana.

Lembrando que, como o Cumachama lhe desejou sorte com muito mais ênfase e pormenores que qualquer outra mensagem, todos os dividendos eventuais que vierem pura e exclusivamente da sorte, como ganhar na loto ou herdar uma fortuna, deverão ter um quinto destinado a este honrado blog.

Amor e sexo

Desejamos que você encontre a pessoa ou pessoas que façam seus hormônios e receptores químicos ribombarem mais que a bateria da Peruche.

Que a moral e as leis vigentes não atrapalhem a plena realização de seus fetiches e sua sexualidade

Desejamos amor livre a todos e a liberdade de exercer esse amor onde, como e com quem quiserem.

Que seu parceiro libere finalmente aquele desejo que há tempos você tenta emplacar.

Desejamos orgasmos múltiplos e regozijos plenos a todos.

Dinheiro

Que você tenha e ganhe dinheiro, mas não muito ao ponto de você ser tentado a usá-lo com responsabilidade, ou a se sentir desobrigado a lutar pelo país, e não tão pouco a ponto de você se sentir tentado a trabalhar para crápulas como os do grupo Abril. Lembrando que o excesso de dinheiro é quase sempre suor de pobre extraído.

Saúde

Que você tenha uma saúde boa, mas não perfeita, para que possa pegar uma gripe e passar uma semaninha lendo bons romances ao invés de trabalhar. Que a doença não venha, mas que se vier que seja uma leve que afaste do trabalho mas não das capacidades mentais, como conjuntivite ou catapora.

Que a saúde boa seja não só a sua, mas a de todos, observada antes pelo prisma da prevenção do que da assistência. Que o governo do seu estado não privatize 25% das vagas do SUS.

Trabalho

Que seu trabalho seja pouco e bom. Que seja menor em quantidade e maior em qualidade.

Que seja útil não só ao seu sustento, mas a diminuição das mazelas do mundo.

Que seja não apenas bem remunerado como gratificante e bem sucedido.

Liberdade

Que você seja livre dentro das amarras do cotidiano.

Que a internet seja livre e que a Lei Azeredo não passe.

Desejamos a todas as comunidades uma rádio livre.

Desejamos a todos uma imprensa livre de oligopólios e que permita liberdade de expressão de fato, feito que só pode ser obtido através da regulação.

Desejamos a todos software livre.

Paz

Aí é mais difícil, não haverá paz de verdade enquanto existir esse sistema de desigualdade, mas que você, citando a banda carioca, saiba qual a paz que você não quer conservar para tentar ser feliz.

Felicidade

Que você seja feliz não como o final de uma comédia romântica estadunidense, mas como uma criança que se apaixonou pela leitura e encontra uma biblioteca, e que um dia toda a humanidade possa o ser também.

Festas

Que as festas sejam boas, muito boas, e que ninguém tenha as fotos mais comprometedoras para colocar no facebook, flickr ou similares.

Esses são os votos do Cumachama.

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Começar neste ano ano que puxava para o medíocre a escrever um blog trouxe diversas alegrias, sempre que aquele comichão beliscava no fundo do cérebro, a vontade de palpitar e escrever, era só ceder ao desejo e ver no que dava, a maior parte não deu em nada, mas mesmo assim, foi bom, não foi?.

Agradecemos a todos que escreveram, leram, palpitaram, repassaram, twitaram, feicebucaram ou tiveram qualquer relação com nosso cantinho Cumachama. Ano que vem tem mais infâmias, críticas grosseiras, textos rasos, textos longos e obscuros, questões mal resolvidas, somente no seu, no nosso, no Cumachama.

Amplexos e ósculos

Guilherme – Dezembro 2010

 

 

 

WikiLeaks: O reverso do panóptico de Foucault?

15 dez

 

Hail to the Chief!

As possibilidades abertas pelas novas tecnologias das informações e comunicações (internet, celular entre outras) para a transformação social constituem todo um universo cuja superfície apenas começamos a arranhar (1). Toda a comoção, discussão e ação geradas pelos vazamentos realizados pela WikiLeaks são apenas um exemplo de um tipo de transformação que já está em curso.

O panóptico de Foucault é na verdade uma releitura mais ampla e teórica do concreto panóptico de Bentham, um mecanismo imaginado e projetado por este jurista inglês do século XVIII, no qual em uma prisão, escola ou hospício, uma torre central observa um círculo de celas bem iluminadas dispostas abaixo e ao redor dessa torre, de forma que os detentos/pacientes/estudantes não tenham como saber em que momento estão sendo observados, e se autocensurarem o tempo todo, evitando comportamentos proibidos e agindo todo de forma considerada apropriada. Para Foucault esse panóptico é uma metáfora geral da dinâmica do poder na sociedade disciplinar (a nossa), a auto-regulação opressiva seria a base desse poder.

O que alguns teóricos da relação entre internet e política estão propondo é se não haveria um começo de inversão dessa metáfora, se as TICs não poderiam potencialmente invertê-la permitindo que a sociedade civil e seus diversos movimentos passassem a também observar as elites. A primeira versão encontrada dessa idéia de possibilidade de inversão do mecanismo do panóptico vem de James Snider, comentado posteriormente por Bruce Bimber e Kelly Garrett (2).

Já Umberto Eco, em texto recente sobre os vazamentos do WikiLeaks, analisou o fato comparando-o com uma mutação do mecanismo do Big Brother, que “acontece agora, que mesmo as catacumbas dos segredos do poder não escapam ao controle de um pirata informático, a relação de controle deixa de ser unidirecional e torna-se circular.” de fato, agora não apenas “-The Big Brother is watching you!”, mas também ”- You are watching the Big Brothers!”

Idéia central é que as empresas e os governos podem passar a se comportar como se estivessem sendo observados, independentemente de essa observação estar sendo efetivamente realizada ou não. O todo-olhar se desloca do poder central, que sempre o exerceu, para incontáveis anônimos, e esta mudança pode reconfigurar em parte o próprio poder.

Além de reafirmar o que já é uma máxima, que nenhum sistema de segurança pode ser mais inteligente do que o mais estúpido de seus operadores, a internet pode ter a capacidade de transformar essa máxima no sentido de que nenhum governo, empresa ou instituição de qualquer tipo pode ser mais corrupta ou mais sigilosa do que o mais ético de seus operadores. Surge aqui, e para ficar, a figura dos whistleblowers -“ tocadores de apito”- que “apitam” ao ver algo errado ou que avaliam que deveria ser de conhecimento público na empresa, governo ou organização na qual trabalha, aliando-se a sites que se dispõem a tornar esse tipo de informação pública . Mudanças na segurança utilizada na transmissão original seja inquebrável, do tipo PGP (3), não acabam de forma alguma com a possibilidade pois o vazamento está nos operadores e não no sistema. Basta um funcionário com acesso que esteja muito descontente, que avalie que eticamente é fundamental dar publicidade aos conteúdos dos documentos ou que enseje obter lucro ou posições através do vazamento. Para efeitos práticos os três casos propiciam o mesmo resultado.

O importante a se destacar sobre o processo que ganhou notoriedade com toda esta discussão sobre o WikiLeaks, é que este não se deterá em qualquer hipótese de veredicto que colocarem sobre a cabeça de Julian Assange. Independentemente da importância de Assange, que defenderemos por princípio – seja este considerado um libertário revolucionário ou uma espécie de versão moderna de um liberal do século XIX- há todo um processo de transformação da relação das pessoas com os poderes estabelecidos que continuará. Nesse sentido tanto faz que se faça uma hagiografia de Assange à semelhança do bom nazareno que certa vez anunciou “- O que hoje é segredo um dia será gritado dos telhados”, ou que o considerem um pirata horrível que coloca em risco a segurança não só dos EUA mas do mundo como um todo.

A chave analítica extremamente personalista da imprensa é insuficiente para compreender este processo, sabemos que Assange é um militante, importante, da liberdade de acesso ao conhecimento e informação, porém sabemos também que tal e qual ele existem milhares de outros prontos para assumirem as mesmas práticas de ampla divulgação de segredos estatais e empresariais. A continuidade do processo está por hora assegurada.

Grande parte do conteúdo recentemente divulgado de atividades desenvolvidas pelo corpo diplomático estadunidense era amplamente esperado e imaginado, o que acontece é que entre a suspeição e a confirmação (os estadunidenses não negaram serem os produtores de tais documentos) vai uma distância que muita vez impede a concretização da ação política contrária. O que se destaca nos telegramas e e-mails dos americanos, mais do que o tipo geral de informação transmitida, é o tipo de informação específica sobre líderes e a forma dos detalhes e do fraseamento.  Não é que o rei esteja nu, é que há detalhes de suas vestes íntimas que são inesperados.

Existe também uma falsa visão dos que avaliam ser possível resolver esta questão de vazamento simplesmente melhorando os mecanismos de segurança. É praticamente impossível achar uma forma de segurança de arquivos que destrua completamente a possibilidade de vazamentos.

Além dos vazamentos já conhecidos, a vontade de saber que o WikiLeaks despertou pode levar a muitas outras divulgações com consequências políticas importantes, se estes dados serão vazados por funcionários que não têm autorização para tanto, ou obtidos por hackers militantes da liberdade da informação – não há como se saber com certeza – isso não influencia em muito o resultado final.  Processos políticos que geram ou geraram suspeição generalizada são por excelência alvos inatos. Exemplos destes são contas em paraísos fiscais como as Ilhas Cayman e similiares, onde lideres políticos em ofício, principalmente – mas não só – do mundo em desenvolvimento, tenham contas não declaradas de valores inexplicáveis. Assim como outros processos sob forte suspeita como os do HD de Dantas, os documentos internos da CBF, a relação de certos governos com empresas estrangeiras como a Alstom, entre tantos outros exemplos.

Para os que insistem em negar as possibilidades de transformação política gerada pela internet, um exemplo de retrospecção (4) que poderia simplesmente mudar a história do século passado. Se os crimes de Stalin, dos expurgos, massacres e perseguições aos progroms tivessem acontecido numa época de internet, dificilmente o tamanho de seu sigilo e sua abrangência teria permanecido desconhecido até o Relatório de Kruschev em 1956 (5), que gerou defecções em partidos comunistas do mundo inteiro.

As elites e governos comportarem-se como se estivessem sendo observadas pode ter consequências diversas: no que tange à corrupção os casos podem diminuir muito, ampliando a verba remanescente para investimentos efetivos em políticas públicas, na parte das empresas essa diminuição da corrupção pode também aumentar a arrecadação pública; no que diz respeito à ação internacional, a dificuldade de se manter o sigilo pode permitir maior transparência para estas políticas e menos ações que seriam consideradas pela opinião pública como “moralmente questionáveis”; e no que concerne aos mecanismos decisórios, a dificuldade de se tomar decisões que não sejam publicamente escrutinadas pode tender a aumentar os mecanismos de democracia direta.

Se esse é de fato um processo que vai levar a mudanças na forma de se exercer o poder, o que interessa saber são as possibilidades desse processo no longo prazo, até porque – se ele é um processo em disputa – cabe não só analisar teoricamente essas possibilidades, mas também desenhar ações políticas que influam e acelerem o processo.

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Este texto é um primeiro esboço sobre o assunto, críticas e sugestões serão muito bem vindas.

1-Não apenas pela existência da possibilidade da comunicação de todos com todos e da epifania iluminista de estarem os melhores produtos do fazer humano, da ciência e das artes ao alcance de todos, mas também por motivos econômicos e político-organizacionais.

2-Kelly Garrett  – “Protest in an Informational Society: A review of literature on social movements and new ICTs”. 2006. O artigo de Bruce Bimber , de 1998- “The Internet and Political Mobilization – Research Note on the 1996 Election Season” , não pôde ser consultado, porque, apesar de estar a disposição na Social Science and Computer Review – revista dentro do sistema SAGE Journals Online – esta me oferece como possibilidade o seguinte mecanismo: “Pay per Article – You may access this article (from the computer you are currently using) for 1 day for US$25.00”. Ou seja, um artigo de nove páginas, por um dia e ao custo de 25 dólares!

3-Literalmente Pretty Good Privacy, código baseado em chave aberta, decodificá-lo trata-se da fatoração de dois números primos muito grandes, os quais os principais mainframes do mundo reunidos poderiam realizar, mas demorariam uma quantidade considerável de milênios para fazê-lo.

4-Retrospecção – Termo do filósofo Bergson, afirma sobre a tendência a “relegar as realidades atuais para o passado, para um estado de possibilidade ou virtualidade”

5- Diz-se que Marighela chorou de raiva e indignação ao ouvir o relatório pela primeira vez.

Guilherme Flynn Paciornik – Dezembro 2010

 

As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação e os Movimentos de Reivindicação e Protesto – Introdução

13 dez

Abaixo vai a introdução do projeto de mestrado em sociologia com o qual acabo de ser aprovado na Unicamp, o título do projeto é o acima colocado. A introdução é meio ingênua e  ao mesmo tempo pretensiosa, juro que no corpo do projeto as coisas ganham um pouco mais de concretude. Fica aqui publicado de qualquer forma para comemorar essa efeméride que me deixou muito feliz.

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Em 1988, o sociólogo Eder Sader escreveu uma obra que se tornaria clássica nos estudos sobre movimentos sociais no Brasil. Trata-se de Quando novos personagens entraram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980). Desde então, houve mudanças tanto na cena quanto nos personagens. Nos últimos anos de regime ditatorial foi possível presenciar a organização e atuação de movimentos sociais que demandavam as mais diversas pautas. Entre essas, ganharam destaque as reivindicações por moradia e o movimento contra a carestia (aumento do custo de vida). Esses movimentos tinham um comportamento marcado pela cobrança de políticas públicas voltadas aos extratos mais pobres da população e de fiscalização da execução das mesmas (Gutierres, 2006).

Caso burilemos um pouco mais a metáfora dramatúrgica do título de Sader, poderíamos dizer que ninguém se lembrou de escrever para o Brasil uma versão de Seis personagens à procura de um autor de Pirandello. Os personagens ainda existem, mas os enredos que davam significado às suas meta-narrativas estão em constante discussão e atualização, a organização dos atos da peça mudou, a relação entre o patrocinador e os personagens também, a forma como os expectadores podem apreciá-la, os principais figurinos e o papel de cada personagem mudaram com o aparecimento e crescimento exponencial das Organizações Não-Governamentais. Estas possuem formas de atuação e de discussão política bem diversas dos movimentos sociais da década de 1980 (idem). De que forma e por quais vias o campo dos conflitos e demandas sociais é ou não afetado ou reconfigurado pelas possibilidades abertas pelas novas Tecnologias da Informação e Comunicação, doravante TICs, como o domínio e manipulação a nível local das informações públicas, o acesso do conjunto da sociedade à  informações em tempo real através de outros meios de comunicação, e o baixo custo de reprodução e difusão de discussões? Quais outros atores sociais entram em cena nesse campo social e de que modo isso afeta a dinâmica desses movimentos e práticas sociais? Enfim, se for verdade que se alteram as cenas e personagens, será que as possibilidades abertas pelo uso das TICs poderão contribuir para que em breve seja possível escrever um “Quando e como novos personagens entrarão no centro da nova cena”?

Guilherme Flynn Paciornik – Dezembro 2010