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O Videoteipe é burro

8 maio

E não só ele, o áudio que o acompanha também. Nelson Rodrigues, com completa razão, afirmava que o videotape era burro, mas por outros motivos, mais sábios e profundos. E se no que nos diz respeito o videoteipe não é burro, ao menos se pode  afirmar com muita tranqüilidade que o videoteipe na transmissão de televisão de futebol brasileira está muito burro.

É apenas senso comum, já difundido e assimilado, que nenhum sistema de inteligência ou segurança pode ser mais inteligente que o mais burro de seus operadores. Do mesmo modo nenhum sistema de transmissão de jogos de futebol pode ser mais inteligente do que o diretor de imagens designado para o jogo, do que a equipe de cobertura ou do que as diretrizes da emissora que o transmite.

Nas transmissões de jogos de hoje, a seleção de imagens que serão passadas novamente, seja imediatamente, seja no intervalo, se baseia numa visão ranheta do futebol, no qual a violência, independentemente de onde ocorra, prevalece sobre a arte sempre que esta se realizar longe do gol adversário. Sinal dos tempos talvez. O que sei é que já vi mais vezes a pancadaria gerada pro aquela brincadeira do Edilson do que uma matada de bola do Romário, num passe de 40 metros, tirando o zagueiro já na matada (Por que dominar uma bola virou “matá-la”?), também andei procurando uma jogada do Zidane no qual ele mata a bola de costas para o lado do ataque, ainda no ar vira, dá uma petecada na bola e sai jogando pro lado certo antes de tornar ao chão, não acho,  é mais fácil até encontrar para rever a violência do que belas jogadas.

Chutes a gol bisonhos, que tem até divertidas narrações específicas, e faltas violentas são repetidos ad nauseam, enquanto matadas de bola que beiram o primor e dribles que poderiam estar expostos em qualquer bienal se encaminham, resignados, para o ostracismo (uma pequena cidade em Minas Gerais). Quanto mais violenta uma falta, mais vezes esta será repetida. Talvez seja um repetição do mesmo raciocínio que leva a televisão a passar tantas vezes “Rambo” e tão poucas “O Carteiro e o Poeta”, talvez tenha um pouco do sangue que tinge os jornais enquanto as boas notícias são aninhadas no miolo dos cadernos, e com chamada discreta, talvez não tenha nada a ver. Vivemos mesmo em um mundo no qual a violência vende mais do que a arte?

Outra moda das transmissões de TV é filmar o técnico a cada sete minutos e passar cinco segundos da imagem dele esbravejando ou parado. Acabam afirmando, mesmo que subliminarmente, que se ele está gritando, então está ajudando o time, se ele está parado, então é apático. Exceção feita aos casos no qual o jogo já está ganho para alguma equipe. Além de não acrescentar dados ao telespectador, essa prática de filmar o técnico traz julgamentos errôneos sobre a competência do técnico cuja eficácia a simples menção do nome Feola* já desmente.

Quanto ao impedimento, o mesmo excesso se repete, se o lance foi óbvio, uma repetição bastaria, já se o bandeirinha errou num lance incrivelmente difícil, o time prejudicado foi “garfado”, e lá vai o lance repetido doze vezes (duas seriam mais do que suficientes), por fim, se o erro foi crasso, fica fácil de ver e uma repetição também daria conta do recado. A única solução humana para os erros em lances extremamente difíceis de impedimento seria contratar para bandeirinha somente pessoas estrábicas, e com o estrabismo divergente – a única condição humana através do qual é perfeitamente possível observar o passe e a linha de impedimento ao mesmo tempo.

Outro momento sensacional de nossas transmissões é quando a imagem, o jogo que está passando na tela e a análise tem tantas semelhanças quanto uma mitocôndria e a convenção de Genebra, ou seja, nenhuma. Sempre que o time supostamente mais fraco está ganhando ou arrancando um empate absolutamente improvável é demérito do time maior, jamais qualidade da equipe que cumpre o papel da zebra. Mesmo que as imagens mostrem exatamente o contrário, que a equipe grande está jogando um jogo normal e que o time pequeno esteja arrasando, se superando. Isso quando a equipe de transmissão não se propõe a fazer uma análise do sentido geral do jogo aos quatro minutos do primeiro tempo:

Cenas que gostaríamos de ouvir:

– E aí João, dá para afirmar que o Ibitira está mais consistente?

­Momento no qual a única análise decente seria:

– Não dá para saber José, o jogo acabou de começar.

Outra mania consolidada nas transmissões de futebol é dar emoção através da narração a um jogo que pelas imagens que vemos não a tem. Se o jogo está chato, está chato, não deveria ser um pecado apontar isso na transmissão.

No capítulo ranhetice, que é todo um mundo de visão sobre o futebol como uma coisa séria, há um único comentarista na Bandeirantes que é tão ranheta que faz todo mundo voltar para a Globo, que é justamente de onde estava se fugindo. Outra invenção moderna é o comentarista ranheta de arbitragem, o que é completamente diferente do jeito mesmo que involuntariamente divertidão , com o qual Mário Viana, por exemplo, comentava.  A regra é clara, mas os lances não, como a primeira só pode ser aplicada sobre os segundos, a frase fica absolutamente sem sentido ao invés de ficar com o sentido absoluto que pretendia.

Cenas que gostaríamos de ouvir:

-E aí Peçanha, o árbitro foi bem?

-Não sei Bigode, estava olhando os jogadores.

No universo ranheta bom é ser “guerreiro”, “lutador”, tem que levar o jogo a sério, tem que levar o adversário a sério. Nesse lugar triste, o universo ranheta, é justo dar um pontapé num jogador que está “abusando” de “jogadas de efeito”, como dribles bonitos debaixo das pernas, chapéus e dos toques de calcanhar. Um neurocirurgião tem de ser sério, um jogador de futebol tem de jogar futebol, e isto não tem nada a ver com ser sério. Quando você sinceramente começa a achar que vinte e dois marmanjos de shortinho tentando chutar uma bola num retângulo é uma coisa séria, está na hora de você parar e repensar uma série de coisas.

No universo ranheta, concentração é lei.

Ao contrário de outros profissionais bem remunerados, para os quais o que vale é o que realiza no seu horário de trabalho, no universo ranheta o que um jogador faz nas suas horas de lazer deve ser discutido e muito. O critério para um ranheta nunca é apenas o campo. Êta lugar ranzinza.

Há também um outro capítulo a parte na transmissão televisiva atual, que é o das platitudes, também conhecidas como banalidades, obviedades, senso comum, comentários sem originalidade. Só a transmissão das finais dos estaduais daria para encher um livro com falas como “jogar em casa é uma vantagem”, ou, para um time que acabou de ter um jogador expulso ou tomar o terceiro gol, “-Agora ficou mais difícil para o Pirapora!”,  ou quando está zero a zero, “O jogo está indefinido”, isso entre toda uma coleção de “Quem não faz toma”, “tem que ocupar o meio de campo”, “um gol agora é importante” etc, são vazios que preenchem lacunas. Nesse capítulo, a cena que mais gostaríamos de ouvir é:

– Um gol agora muda a história do jogo, Janir!

-Dããã Célio.

Enfim, assistir essas transmissões é um grande desafio para os ouvidos, para a inteligência e para a alma. Será que teremos que esperar o advento de um mundo mais justo para ver futebol com algum bom humor, inteligência e arte? Não, não precisamos, Milton Leite está aí para provar que é possível, mesmos nestes tempos, transmitir futebol como a bela e divertida brincadeira que é.

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*  Vicente Italo Feola – técnico do Brasil em 1958 e 1966, era acusado pela mídia de dormir no banco de reservas.

Este texto é dedicado a meu amigo Porpetta, que sofre de flamenguismo agudo.

Guilherme Flynn – Maio de 2011

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Nossa Seleção

7 jun

E este é o princípio de tudo isso: a seleção é nossa, de todos e de cada um dos brasileiros que nela se reconhecem, ou, ao menos, deveria ser, De quem é a seleção brasileira hoje?

Que nós, que somos brasileiros e gostamos de futebol, nos sentimos representados por ela não há dúvidas, Temos um orgulho tremendo de saber jogar e de muitas vezes ganhar nesta brincadeira tão bela chamada futebol.

Se Maquiavel afirmava ser melhor ser temido do que amado, esta é uma escolha que nossa seleção não precisa fazer. Ela é temida e amada. Temida pelos oponentes em campo e amada por qualquer um que goste de futebol. Na Europa, África, Ásia e Oriente Médio usar uma camiseta da canarinho não indica  mais sequer que você é brasileiro, apenas que gosta de futebol, tantas são as pessoas encontradas envergando uma.

É fato também que sofremos por ela, que esperamos quatro anos por cada copa e que desejamos que, quanto esta chegar, os melhores sejam levados e que o time apresente um futebol bonito e ofensivo, perdendo ou ganhando, de preferência ganhando. Sofremos com o gol do Ghiggia, com os pênaltis perdidos pelo Sócrates e pelo Zico, com o gol do Henry, com os do Zidane. A seleção enfim nos representa pelo mundo afora, e nos causa alegrias, grandes alegrias, êxtases, sustos, tristezas e misérias. Agora, quem representa a seleção?

Pessoas fazendo milhões de dólares explorando uma concessão não clara e aparentemente irrevogável de usar os talentos superiores no jogo de pé na bola, que as pessoas nascidas em nosso país aparentam ter. O pior de tudo é que esses dirigentes odeiam futebol, ou aparentam odiar, pois contratam, sem prestar contas a absolutamente ninguém, cada tipo que faria melhor papel treinando o time da Lazio do que a seleção de um país conhecido justamente por jogar bem é bonito o ludopédio.

Dunga, Lazaroni, Parreira e Zagallo estavam apenas sendo Dunga, Lazaroni, Parreira, Zagalo, não são e não saberiam ser de outra forma É contraproducente, para não dizer ilógico, esperar deles qualquer outra coisa. A verdadeira questão é outra: quem está no poder de escolher justamente estes indivíduos entre tantos outros?

Nunca é demais lembrar que, em 1994, quando o meio de campo que jogou mesmo foi Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho, talvez o pior e mais defensivo meio de campo brasileiro de todos os tempos, quem de fato fez a diferença e nos trouxe o caneco, foi um baixinho que o técnico não queria convocar, e que o convocou somente porque houve o perigo sério de pela primeira vez não irmos para a Copa. O tal baixinho era um gênio do futebol! Foi este mesmo treinador que conseguiu a proeza de, pela primeira vez na história das classificatórias para a Copa do Mundo, o Brasil perder para a Bolívia, por dois a zero.

O técnico atual conseguiu ficar conhecido por inaugurar, como jogador, uma era de futebol feio e defensivo, por enviar passes que os colegas teriam mais facilidade de dominar se estivessem utilizando colete a prova de balas e, eventualmente, baterias antiaéreas. Jamais tendo treinado sequer o Madureira, fez sua estréia como técnico profissional treinando justamente a seleção que é a maior campeã de todos os tempos.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF, antes CBD, é eleita pelas federações estaduais de futebol, que por sua vez também não possuem os atributos de serem consideradas entidades transparentes e democráticas. O atual presidente da CBF está no cargo há mais de quinze anos, no sítio de internet da entidade, (aliás é um sítio .com, comercial, e não .org, de entidade sem fins lucrativos) não se encontram as contas da entidade, não há dados claros sobre suas eleições e, mais indicativo de seu atual caráter, conta com a faixa superior indicando diversos sítios do grupo de comunicação Globo, como O Globo em geral e o da parte de esportes do mesmo.

Essa mistura que cerceia a CBF e diversas outras entidades, entre ser, para fins de análise, pública na representação do País perante sua população e as populações dos demais países, e de ser eminentemente privada na sua falta de transparência e nos seus meios de obtenção de fundos e de fazer negócios, faz com que a seleção brasileira possua um caráter duplo. Nós sofremos e nos sentimos representados por ela, e é exatamente por nós sofrermos e nos sentirmos representados por ela que ela adquire todo seu entrelaçamento com a imagem do País, e é exatamente por ela se entrelaçar com a imagem do País e de seu futebol que ela é tão vendável e lucrativa. Porém e, como dizia Plínio Marcos, sempre tem um porém, essa é uma rua de mão única: nada ocorre no sentido inverso pois nós, singelos torcedores, que somos os que no fundo atribuem a legitimidade que a seleção brasileira possui, não temos absolutamente nenhuma ingerência efetiva em seus rumos e suas escolhas. O seu caráter duplo é de ser pública na representação e privada na gestão e obtenção de lucros. Ainda em tempo: quanto ganha o presidente da CBF?

Se como propõe Saramago, temos o direito e o dever de pensar numa democracia que vá além desta, temos de criar novas formas trazer efetivamente para o público o que dele extrai sua legitimidade, de pensar em mecanismos de trazer para o público as decisões sobre nosso futebol, que nos representa. Em primeiro lugar eleições diretas para a presidência e conselho da CBF, que se tornará uma autarquia pública, por que não?

Já que estamos falando de mudar de forma drástica as estruturas de ação e representação do futebol brasileiro, por que não sonhar ainda além – uma vez que começamos é difícil parar: por que não fazer eleições diretas para o técnico da seleção? Imaginem só… você vai até o órgão público mais perto de sua casa com o RG ou CPF  e pode escolher não entre Dunga, Parreira ou Zagallo, mas entre Dorival Jr, Felipão, Candinho, Luxemburgo, ou qualquer um que se dispuser a concorrer. Pela primeira vez em nossa ludopédica história, se a vitória ou tragédia vier na Copa, seremos nós mesmos os responsáveis diretos por ela.

Já que estamos sonhando, por que não eleger os 23 convocados também. Alguns mais bairristas votariam na própria escalação de seus times, mas esse efeito seria facilmente apagado pela grande maioria que, dotada de algum bom senso, saberia que mesmo que você torça pelo Flamengo, por exemplo, não significa que você tenha de sugerir o zagueiro David para ir para a copa do mundo

Por fim, agora já beirando o delírio, se os meios eletrônicos ampliam as possibilidades humanas, devem ampliar também as da democracia, por que não durante amistosos, a princípio como teste, não se alterar o time também ouvindo a torcida brasileira através de votação eletrônica em tempo real?

O problema atual do futebol do Brasil não é nem nunca foi o Dunga. É de quem possibilitou que ele esteja lá. Ou ainda em poesia:

O Dunga é esconsolável consolatrix consoadíssimo
mas a CBF car(o,a) colega esta não consola nunca de núncaras*.

Ou consola?

*Drummond, desculpa não, perdão.

Guilherme 07 de Junho