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Quem quer ser um milionário?

10 mar

Mais um texto de Pedro Ekman que, não se sabe bem porque, escolheu esse blog como veículo (bicicleta no caso) de sua farta produção. Lá vai:

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Quem quer ser um milionário?

A riqueza de 10 pessoas é mais de 120 vezes maior do que a riqueza que o país com pior índice de desenvolvimento humano consegue produzir em um árduo ano de trabalho. O contraste que esse dado revela já não causa tanta indignação em uma sociedade que acha natural as diferenças produzidas pelo capitalismo, e que comemora os grandes feitos financeiros lamentando a inevitável condição miserável de alguns pobres coitados que ainda não “aprenderam” como ser bem sucedidos nas regras da selva econômica.

Pois bem, não se conformando com a naturalidade dessas diferenças e acreditando na capacidade da humanidade de ser solidária consigo mesma, os socialistas propõem a divisão igualitária da riqueza socialmente produzida. Socialistas ou não, os trabalhadores que não conseguem acumular riqueza, dado seus baixos salários e alto custo de vida, também pedem para que sejam melhor distribuídos os ganhos com a produção. Como geralmente os ricos não estão muito dispostos a abrir mão da sua riqueza, esses pedidos são feitos não em conversas do chá da tarde no clube de campo, mas em greves e protestos. Infortunadamente alguns não-ricos acabam se cansando das negociações ou até mesmo perdem a crença na solidariedade humana e partem para iniciativas individuais mais violentas de distribuição direta da riqueza, como assaltos e seqüestros.

Talvez os ricos não queiram dividir sua riqueza por terem medo de que o resto da humanidade, em um ato de crueldade e vingança, os obrigue a viver apenas com um salário mínimo. Talvez os pobres tenham que ser mais compreensivos, pois pode ser que os ricos tenham que se acostumar com a idéia aos poucos. Será que eles teriam menos medo de distribuir a riqueza se percebessem que para isso não precisam deixar de ser ricos? Como reagiriam a pergunta: Quem quer ser um milionário?

A pergunta é de fácil resposta para bilhões de seres humanos espalhados pelo globo, mas não é tão simples para os raros bilionários entre nós. Se o plano der certo, em uma bela tarde no clube de campo, o tilintar das xícaras de chá brindarão uma nova lei geral para a humanidade: “Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.”

Isso pode soar menos ofensivo para os ricos. Para se ter uma idéia das conseqüências desta nova proposta, analisemos o que aconteceria com os extremos da questão. Os dez indivíduos mais ricos do planeta acumularam a bagatela de 426 bilhões de dólares em patrimônio pessoal. Coincidentemente nenhum desses abonados indivíduos vive no Zimbábue. Esse país, que não teve a sorte de nascer em berço de ouro, produz uma riqueza equivalente a 3,5 bilhões de dólares por ano. Se a regra fosse aplicada apenas a esses dez senhores (nenhuma mulher pertence ao grupo), cada um dos 13 milhões de cidadãos do país com as piores condições para se viver poderia contar com 32 mil dólares para tentar estruturar melhor a vida daqui para frente. Se entendermos que melhor do que o distribuir o dinheiro para a população seria realizar investimentos em programas sociais, teríamos um impacto US$ 426 bilhões aplicados de uma só vez em um território acostumado a ver US$ 3,5 bilhões ao longo de um ano todo. A mistura das duas soluções também seria fabulosa.

Certamente cada um dos dez senhores mais ricos do mundo conseguiria levar uma vida digna e confortável com a parca quantia de 999 milhões de dólares tendo apenas que suportar o trauma psicológico da perda do título de bilionário para se acostumar as ser tratado como um reles milionário. Para iniciar a prática de desapego material o homem mais rico do mundo, o investidor americano Warren Buffett teria que abrir mão de 61 bilhões de dólares. Já o menos rico dos top ten, o varejista alemão Karl Albrecht, teria que se desfazer apenas de 26 bilhões de dólares e um centavo dos seus 27 bilhões acumulados.

Parece claro que existência de poucos homens muito ricos implica necessariamente na condição de que muitos mais precisem permanecer pobres. Ainda assim, se uma tragédia provocada pelos próprios seres humanos não é suficiente para convencer os abastados a assumirem outra postura perante humanidade, tentemos uma comparação com tragédias de fato naturais.

Recentemente um terremoto devastou o Haiti que já era o vigésimo quinto pior país do mundo para se viver. Os Estados-membros das Nações Unidas e parceiros internacionais prometeram US$ 5,3 bilhões para os primeiros 18 meses da reconstrução deste país, mas entregaram até hoje apenas US$ 824 milhões. Os melhores números falam em um valor total prometido para os próximos três anos de US$ 9,9 bilhões, vindos de 59 países e organizações internacionais. Se levarmos em consideração as melhores previsões, o mundo estará oferecendo ao Haiti US$ 3,3 bilhões por ano por um período menor do que o de um mandato presidencial. O Haiti antes da tragédia, com suas forças produtivas a pleno vapor, tinha um Produto Interno Bruto anual de US$ 6,4 bilhões e ainda assim possuía o vigésimo quinto pior IDH do mundo. A comunidade internacional, mesmo mobilizando a riqueza produzida por pobres e ricos (dinheiro público) não foi capaz de oferecer para a reconstrução de um país devastado e sem qualquer capacidade produtiva mais da metade do que ele produzia em plenas condições.

Uma vez que os dez homens mais ricos do mundo já estão comprometidos com o Zimbábue, apelemos para outros dez que com apenas um click seriam capazes de aportar uma quantia considerável. Apelemos para as dez pessoas que mais enriqueceram com negócios da internet, afinal elas já conseguiram juntar 82 bilhões de dólares debaixo do colchão. Se pessoas como Larry Page da Google e Mark Zuckerberg do Facebook aceitassem se tornar milionários o Haiti poderia receber a cada um dos três anos de reconstrução uma quantia 4 vezes maior do que seu PIB original, uma ajuda quase 8 vezes maior do que o mobilizado por toda a comunidade internacional.

No Brasil a boa vontade de dez bilionários em se tornar milionários somaria 66 bilhões de dólares ao orçamento público podendo tornar os investimentos em saúde pública 2,5 vezes maior em 2011.

Se as trinta pessoas aqui citadas, que sequer chegam a lotar um ônibus, aceitassem viver apenas como milionários, muito já se poderia fazer com o meio trilhão de dólares redistribuídos. Imagine o que não aconteceria ao mundo se todos os bilionários se tornassem milionários. Ora, se no capitalismo não nos é dada a oportunidade de perguntar aos bilionários se aceitam se tornar milionários, ou se perguntados, estes são incapazes de dizer: “Sim”. Então desistamos de tentar mudar apenas uma regra e mudemos todas.

Aos que ainda acreditam que é possível reverter as convicções de um bilionário:

Carta de lançamento da CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO DA BURGUESIA: Você bilionário, faça a sua parte.

“Caros Warren Buffett (EUA – US$ 62,0 bilhões), Carlos Slim (MÉXICO – US$ 60,0 bilhões), Bill Gates (EUA – US$ 58,0 bilhões), Lakshmi Mittal (ÍNDIA – US$ 45,0 bilhões), Mukesh Ambani (ÍNDIA – US$ 43,0 bilhões), Anil Ambani (ÍNDIA – US$ 42,0 bilhões), Ingvar Kamprad (SUÉCIA – US$ 31,0 bilhões), K. P. Sing (ÍNDIA – US$ 30,0 bilhões), Oleg Deripaska (RÚSSIA – US$ 28,0 bilhões), Karl Albrecht (ALEMANHA – US$ 27,0 bilhões), Larry Page (GOOGLE US$ 17,5 bilhões), Sergey Brin (GOOGLE – US$ 17,5 bilhões), Jeff Bezos (AMAZON – US$ 12,3 bilhões), Eric Schmidt (GOOGLE – US$ 6,3 bilhões), Masayoshi Son (SOFTBANK – US$ 5,9 bilhões), Pierre Omidyar (EBAY – US$ 5,2 bilhões), Hiroshi Mikitani (RAKUTEN – US$ 4,8 bilhões), Charles Schwab (CHARLES SCHWAB BANK – US$ 4,7 bilhões), Mark Zuckerberg (FACEBOOK – US$ 4,0 bilhões), Ma Huateng (TECENT – US$ 3,8 bilhões), Eike Batista (BRASIL – US$ 27,0 bilhões), Jorge Paulo Lemann (BRASIL – US$ 11,5 bilhões), Joseph Safra (BRASIL – US$ 10 bilhões), Dorothea Steinbruch (BRASIL – US$ 5,5 bilhões), Marcel Herrmann Telles (BRASIL – US$ 5,1 bilhões), Carlos Albero Sicupira (BRASIL – US$ 4,5 bilhões), Aloysio de Andrade Faria (BRASIL – US$ 4,2 bilhões), Abilio dos Santos Diniz (BRASIL – US$ 3 bilhões), Antonio Ermírio de Morais (BRASIL – US$ 3 bilhões) e Moise Safra (BRASIL – US$ 2,3 bilhões) vimos por meio desta solicitar uma reunião para firmarmos o pacto QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

No referido pacto os signatários se comprometem em cumprir e honrar o texto:

Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.

Seguros de que essa iniciativa marcará vossos nomes na mais significativa página da história da humanidade e certos de um retorno positivo, aguardamos a indicação de um clube de campo da vossa preferência para firmamos o referido documento.

Sem mais,

Não-bilionários do mundo.

São Paulo, 10 de março de 2011”

Pedro Ekman é socialista.

São Paulo 10 de março de 2011

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10 falsos motivos para se votar em Dilma

21 set

É com prazer – e grande orgulho pela escolha de nosso blog como primeiro local – que publicamos o texto inédito de Pedro Ekman. Nestes tempos de mídia esquizofrênica, é fundamental restabelecer a capacidade de se criticar pela esquerda o governo, e manter vivos projetos alternativos e socialistas (Guilherme)

10 falsos motivos para se votar em Dilma

por Pedro Ekman

21 de setembro de 2010

Em 25 de julho de 2010 o cineasta Jorge Furtado escreveu um texto que circulou na internet analisando dez falsos motivos para não se votar em Dilma nessas eleições. Sempre considerei Jorge Furtado um dos mais importantes cineastas brasileiros o tendo como uma das principais referências em meus caminhos pelo áudio visual.

A influência é tamanha, que minha primeira realização de curta metragem, o vídeo Levante sua voz produzido pelo Intervozes é uma homenagem direta ao histórico Ilha das Flores deste incrível cineasta gaúcho.

Sempre respeitei Jorge Furtado pela sua obra e agora ainda mais pela postura ativa no cenário político brasileiro, postura essa tão rara na categoria dita “artística”. A despolitização nunca foi uma característica de seu trabalho e fico satisfeito em saber que isso também não se restringe ao set de filmagem.

É por esse respeito e admiração que me dou o direito de discordar publicamente dos argumentos centrais levantados por ele a cerca da candidatura Dilma nestas eleições.

Para isso achei que, melhor do que escrever um texto em contraposição, seria comentar suas respostas como em um diálogo entre colegas.

1. Alternância no poder é bom.

Jorge Furtado:

Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder.

Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.

Pedro Ekman:

Concordo com o argumento e discordo da conclusão. O poder nunca de fato mudou de mãos no Brasil. O governo Lula alterou algumas características laterais da gestão pública sem no entanto modificar qualquer característica central na constituição histórica do poder no Brasil. O gestor do Estado mudou, mas o poder ficou onde estava. As mesmas imposições feitas pela oligarquia, pelos meios de comunicação, pelo capital financeiro e produtivo ao governo neoliberal tucano foram mantidas no governo petista. Algumas coisas tiveram que mudar para que o central permanecesse onde estava. Isso aconteceu justamente pela opção de não enfrentamento do poder por parte da esquerda brasileira que chegou ao governo. Diferentemente do que ocorre na Venezuela e na Bolívia onde a opção foi de enfrentamento do poder estabelecido e onde de fato o poder começa a se deslocar do seu lugar histórico para outros espaços.

2. Não há mais diferença entre direita e esquerda.

Jorge Furtado:

Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do Estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de esquerdistas, como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da direita do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Borhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Borhausen, José Sarney é Che Guevara.

Pedro Ekman:

Concordo novamente com o argumento e uma vez mais discordo da conclusão. Justamente por ser um conceito relativo temos que ter atenção a esta questão. Dilma está a esquerda de Serra, mas em relação a um projeto de transformação real de poder está a direita. Explico: Dilma e Serra estão disputando quem pode gerir melhor o poder onde ele está, um mais a direita e outra mais a esquerda. Deste modo, o PT e Dilma são muito mais eficientes para gerir o poder pois distensionam os conflitos sociais respeitando os limites impostos pelo poder para que a origem concreta dos conflitos se mantenha. Serra recoloca o conflito na ordem do dia por não ser o representante histórico dos movimentos sociais e por aprofundar os elementos de desigualdade que dão origem aos conflitos sócio-ambientais. Desta maneira, o PT não se transformou em um partido de direita, mas sim, no melhor partido para a manutenção da ordem existente. O faz ao abandonar seus objetivos históricos de transformação da ordem, o que explica por que inimigos históricos como Sarney e Collor estão lado a lado do melhor instrumento para a manutenção da ordem e do poder.

3. Dilma não é simpática.

Jorge Furtado:

Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito simpatia depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.

Pedro Ekman:

Concordo plenamente.

4. Dilma não tem experiência.

Jorge Furtado:

Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.

Pedro Ekman:

Concordo e acho uma das grandes vitórias da eleição de Lula foi a derrocada do argumento tecnocrático forjado pelos tucanos. Eleger um operário foi um marco para o processo político brasileiro colocando pela primeira vez na história de forma clara que as escolhas que fazemos na vida são políticas e não técnicas.

5. Dilma foi terrorista.

Jorge Furtado:

Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações terroristas. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.

Pedro Ekman:

Concordo plenamente, a tentativa de inversão histórica chega a ser revoltante.

6. As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano.

Jorge Furtado:

Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate quem começou o que torna-se irrelevante.

Pedro Ekman:

Essa frase é geralmente empregada pelos tucanos para fazer referência a política econômica do governo Lula a qualificando como “boa” e como cópia. De fato neste ponto há uma continuidade, e na minha opinião é um dos pontos trágicos da transformação do projeto petista. O Lula foi mais hábil que o PSDB nas políticas compensatórias e com isso atingiu uma popularidade recorde em um país onde o principal receio da população é não ter o que comer. Considero que isso é de fato um mérito, pois não ter o que comer é algo muito grave. Temos que observar que a desigualdade não diminuiu por que apesar de mais gente ficar menos pobres os poucos ricos ficaram muito mais ricos –  a diminuição da desigualdade é talvez o principal mito da era Lula. Trato justamente da estrutura de manutenção do poder que comentei anteriormente. Você pode fazer quantos bolsa-família quiser, contanto que não altere a estrutura de concentração de riqueza existente. Não obstante, 36% do orçamento brasileiro continua a ser pago aos Bancos que cobram ilegalmente juros sobre juros de uma dívida interna impagável e menos de 7% são gastos com a saúde e a educação pública. Essa “austeridade fiscal” inventada pelos tucanos não é uma escolha técnica, é uma escolha política. A continuidade desta ordem também foi uma escolha política do novo governo, foi a escolha de não enfrentar esse modelo por mais que se entendesse que isso é necessário.

7. Serra vai moralizar a política.

Jorge Furtado:

Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista “ no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC “ foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela Operação Sanguessuga. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com engavetador da república, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de mensalão foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no mensalão do DEM. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao

contrário.

Pedro Ekman:

Inconsistente não, falso mesmo. Serra, PSDB e DEM foram os primeiros a ingressar no jogo da governabilidade a qualquer custo e agora como oposição se reivindicam os defensores da ética. Entretanto, o argumento de que o governo Dilma tem mais condições de combater a corrupção também é um argumento falso. Quando era oposição, a bandeira de ética na política também foi usada eleitoralmente pelo PT, e quando este se viu refém da governabilidade e da manutenção da ordem não reagiu aos esquemas necessários para a continuidade do poder, simplesmente aderiu a eles. O combate a corrupção não é algo que se estabelece por uma parâmetro moral, como se houvesse a liga dos justos contra a liga dos corruptíveis, o combate a corrupção passa necessariamente pela decisão política de não se adaptar às imposições da ordem, algo que está longe de acontecer em um possível governo Dilma. Tem um personagem central nessa história toda que ainda não apareceu no enredo que é o PMDB. O PMDB – faça chuva, faça sol – está no governo de plantão e costuma ser pivô nas negociações extra institucionais. No governo Dilma/Temer isso tende a se aprofundar e não a se resolver.

8. O PT apóia as FARC.

Jorge Furtado:

Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos

povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?

Pedro Ekman:

Concordo. A caracterização como autoritário ou democrático de governos de diferentes regimes políticos se faz conforme a conveniência. Ninguém chama o presidente Chinês de ditador pois a China se tornou uma potência capitalista e um dos maiores mercados do mundo. Já o presidente Venezuelano é considerado um ditador tendo realizados mais consultas populares do que qualquer outro país nos últimos anos. O ex-presidente de Honduras foi deposto por tentar mudar a constituição pelo voto popular e o atual presidente golpista é tido como democrático. As eleições presidenciais norte americanas são indiretas e nenhum meio de comunicação critica as invasões de nações autônomas feitas em nome da democracia por esse país de sistema eleitoral duvidoso.

9. O PT censura a imprensa.

Jorge Furtado:

Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram a posição oposicionista (sic) deste país. Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.

Pedro Ekman:

Concordo em gênero, número e grau. Em nome da liberdade de expressão a mídia faz uma blindagem contra toda e qualquer regulamentação democrática das comunicações no Brasil. Apenas 11 famílias controlam a maior parte da informação que circula no país e essa autocrítica me parece impossível para essas famílias. A sociedade tem que intervir ativamente para mudar o cenário de concentração de algo que se define como um direito humano e não como um bem de consumo. Nesse sentido, o programa de governo de Dilma apresentava pontos extremamente avançados como o controle da propriedade cruzada dos meios de comunicação, algo presente até mesmo nos EUA. Entretanto, em nome da estabilidade do governo e do poder esse e outros itens que caminhavam no mesmo sentido foram retirados do programa de governo ao primeiro sinal desacordo dos meios de comunicação privados.

10. Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra.

Jorge Furtado:

Isso é verdade. É mais um bom motivo para votar nela e não nele.

Pedro Ekman:

É verdade, mas pior é o fato da visibilidade de um projeto alternativo à manutenção do poder sequer ser cogitada como informação relevante pela “técnica” jornalística. Concordo que os 10 motivos levantados são falsos motivos para não se votar em Dilma, tampouco considero que representem qualquer motivo para se votar nesta candidatura. Pelos motivos relacionados voto Plínio presidente, voto no PSOL na construção de uma alternativa política à essa ordem injusta e ao poder historicamente estabelecido.