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Comprender melhor a internet para aumentar o alcance da luta contra o impeachment

3 abr
 “É mais fácil entrar em Harvard do que no feed de notícias de alguém!” – Stefanie Grieser
PARA ENTENDER MELHOR COMO FUNCIONAM AS FERRAMENTAS DE REDE SOCIAL EM DIVULGAÇÃO DE PAUTAS
Filtro Bolha
    
    
Se você está assustado com o período político que o país vive e quer ajudar dentro da sua capacidade a melhorar o fluxo de discussão, peço-lhe meia hora de atenção para evitar o auto-isolamento através de filtros do próprio Facebook e outras redes sociais. Publicar melhor, driblar barreiras, atingir pessoas indecisas e usar outras ferramentas diversas
A dificuldade central aqui é furar barreiras comunicativas e demontrar como é problemático todo o processo de impeachment. Mesmo que esse acúmulo argumentativo e organizativo não barre o processo já em andamento, ele já acumula discussão para usar forças geradas anti-corrupção contra um eventual governo Temer.
Para além das redes já muito bem estabelecidas, como as Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular, há dezenas, talvez centenas, de milhares de pessoas com acesso a internet preocupadas com a democracia que buscam cotidianamente influenciar no debate público. Como boa parte dessas pessoas, talvez vocẽ que lê esse texto também, usa majoritariamente a grande rede social privada Facebook, é central parar uma meia hora para entender melhor o funcionamento dessa rede em particular.
Tudo o que você publica no Facebook ou que você pesquisa no google é filtrado a partir de grandes algoritmos, também chamados “filtros bolha”. Antes de mais nada, é bom politizar e problematizar o grande problema das bolhas que atuam no Facebook e Google.
Por favor, assistam, assistam, assistam, o curto filme de nove minutos que explica o problema. Por favor, assistam mesmo, esse breve vídeo vai mudar a forma como pensam a parte digital de sua militância pela democracia: http://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?language=pt-br
Sentiu o tamanho do drama? Pois bem, tanto o Nexo como o Estadão já deram matérias falando o como esse tipo de filtro acaba por polarizar a discussão, e que talvez este seja o momento mais polarizado de discussão da história recente do país.
As tais hashtags
Hastags, # (cerquilha ou jogo da velha), são aglutinadores de conteúdo, colocar um hashtag em um post ou comentário aumenta a probabilidade de que alguém que for procurar conteúdo semelhante se depare com seu post ou comentário.
Para achar boas hashtags, basta ir no http://hashtagify.me/ (ou outro parecido) e digitar alguma hashtag  no campo de buscas. O site mostrará as mais influentes e a partir daí selecionar uma das mais poderosas parecida com o conteúdo que quer postar.
Se quiser que pessoas a favor do impeachment vejam seus links, você pode usar uma hashtag outra, como as que estão em http://hashtagify.me/hashtag/foradilma, por exemplo a #impeachment, para tentar furar cercas algoritimicas.
Pesquisas indicam que muitas hashtags diminuem ao invés de aumentar a visibilidade de um post, sendo dois o melhor número de hashtags (a partir de três já cai o acesso). Para maiores informações leia https://www.postplanner.com/how-to-use-hashtags-on-facebook/
Se for usar o Facebook, leia alguns links que vão lhe ajudar a pensar como essa REDE FUNCIONA:    
“it’s easier to get into Harvard than into someone’s Facebook news feed!” Stefanie Grieser. Em tradução livre: “É mais fácil entrar em Harvard (Universidade de prestígio) do que no feed de notícias de alguém”! 
Parte das análises são para veículos comerciais e não pessoas físicas, mas ajudam na reflexão.
Excluindo amigos, colegas de trabalho e conhecidos do Facebook, do Twitter e do Whatsapp – Ufa! enfim me livrei destes reacionários!
Nãaaaao!!! Excluir as pessoas de quem discorda do Facebook só amplia a polarização e diminui nossa capacidade de diálogo. O mesmo vale para listas de mensagens via Whatsapp ou Telegram. Neste caso e momento, o melhor seria pedir leitura de textos intermediários, que problematizam o processo de impeachment, a corrupção na câmara, que dissociam a Lava Jato do processo de impeachment e que coloquem o que se passa no Brasil dentro de um panorama mais amplo. Em muitas vezes será preciso respirar fundo, mas com certeza apenas excluir só piora a situação.
Resumindo, a forma de operar dessas redes causa um isolamento das posições políticas, para convencer outros e ser efetivo na disputa de visões é preciso furar bolhas, e para isso a forma das publicações é importante. Há sempre o perigo da postagem recorrente e a exclusão de pessoas que pensam diferente da sua timeline acabar por diminuir sua capacidade de intervenção ao invés de aumentá-la. Em muitos momentos será necessário respirar fundo de três a dez vezes numa troca de comentários. Se isolar para fornecer e receber posts de quem já concorda com você é a pior estratégia politicamente, embora seja a mais confortadora psicologicamente.
Aplicativos de mensagem direta individuais e em grupos não possuem filtro bolha, pois são diretos de ponto a ponto, aí, ao invés de sair de grupos de família e amigos de trabalho, o mais eficiente seria paulatinamente ir colocando como contraponto lá links de meios de comunicação que conhecem, mas links específicos que auxiliam o sentido geral das linhas maiores de discussão pró democracia (coloco uma seleção de links que testei no Facebook com pessoas pró impeachment e que auxiliaram a recriar diálogo onde antes não mais havia).
Quanto maior sua virulência retórica -embora psicologicamente seja balsâmico – menor sua capacidade de diálogo com os que de fato possuem a possibilidade de mudar de percepção em relação aos processos em andamento. Sim, isso significa começar com analistas e análises mais distanciados da esquerda, muitos da própria grande mídia, reconhecida em geral como fonte válida de notícias e argumentações por estas pessoas, e progressivamente aprofundar análises outras. Análises internacionais também podem ajudar
Em geral as pessoas tem se referido genericamente com os que se manifestam pelo impeachment como “direita” e “golpistas”, acredito que é importante fazer distinções nessa grande massa e ver quem de fato não tem nenhum apreço pela democracia e defende um golpe ou a volta da ditadura (ampla minoria, segundo as pesquisas empíricas com manifestantes). Ver aqueles que trazem em si o fascismo e agridem fisicamente pessoas vestidas de vermelho, que me parecem também ser minorias, perigosas, mas minorias  E também ver o conjunto de pessoas que acreditam sinceramente na democracia, mas que avaliam que o governo Dilma e Lula são os mais corruptos da história do país e que por isso o governo deve ser deposto. Não é uma posição absurda para os que assistem cotidianamente há mais de dez anos, todos os dias o dia todo, desde o mensalão, a grande mídia focar seletivamente em algumas personagens do governo e petistas como se estes fossem os inventores e amplificadores da corrupção. 
Engarrancham-se aí uma série de tarefas diferentes:
  • mostrar a parcialidade da grande mídia,
  • a importância da democracia,
  • a separação da Lava Jato do processo do Impeachment (e no fato como este será usado como moeda de troca justamente para barrar a lava Jato),
  • o fato de que os mecanismos institucionais de combate à corrupção fortaleceram-se durante esses governos e que isso significa uma exposição maior de casos de corrupção e logo uma percepção maior de corrupção
  • mostrar quem são os deputados na comissão do impeachment e como o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, não tem intenção de fazer qualquer coisa contra a corrupção e não tem condições éticas de presidir um impeachment,
  • mostrar que o esboço de projeto de governo apresentado por Temer e Serra é contrário ao projeto eleito nas urnas, o que significa golpe contra o desejo das urnas.  
Há vários materiais que podem trazer de volta colegas, amigos e familiares para uma posição no mínimo contra o golpe, mas para isso é necessário paciência e muito, mas muito, trabalho argumentativo.
Talvez seja o momento de voltar naquele grupo de Whatsapp da família e paulatinamente colocar posts mais gerais e argumentativos (do tipo, “-O que vocês acham disso?”). Ver qual o centro da argumentação da pessoa, pessoas ou grupo, se é corrupção, PT, democracia, legalidade e contra argumentar paulatinamente através de links o mais didáticos possíveis e depois aumentar a complexidade analítica aos poucos.
Outra coisa, as vezes, menos é mais,. Ter trinta curtidas em um post, todas de pessoas que já corncordam com sua posição, as vezes é menos importante do que ter dez curtidas de pessoas que estavam com posições menos atuante, indiferentes ao momento político ou favoráveis à saída da Dilma. Estamos muito acostumados a pensar quantitativamente e ter uma satisfação baseada em quantidade. Com os filtros bolha isso não necessariamente significa conseguir furar a bolha. Pensar qualitativamente as curtidas e principalmente os compartilhamentos é central para conseguir fazer a autocrítica do alcance que se está obtendo e modificar forma de escrever e de divulgar.
Onde guardar conteúdo (ou, não deixe tudo no Facebook):
Nunca publique uma coisa exclusivamente no Facebook, devido à dinâmica efêmera desta ferramenta de rede social, posteriormente é muito difícil recuperar de forma fácil posts, conteúdos diversos e links de outros lá colocados. Isso para não mencionar a hipótese por ora remota do próprio Facebook começar a censurar diretamente posts de conteúdo contrário aos poderosos seja por ordem da justiça seja por acordos comerciais. Há diversas outras formas de conservar conteúdo, deixamos aqui só duas sugestões:
Primeira, crie um blog, mesmo que não vá publicizar esse link. Uma sugestão razoável e simples, para quem não é muito da tecnologia, é o WordPress (www.wordpress.com)
Segunda, crie um PAD, um espaço para textos que permite que várias pessoas escrevam e editem textos simultaneamente. Alguns PADs que funcionam bem são: https://pad.okfn.org/ (Open Kwnoledge Foundation), e o Etherpad Open Sourced! (http://piratepad.nl/).
Tarefas no momento:
 A tarefa central em geral é paulatinamente utilizar a massificação de emissores de opinião permitida por redes distribuídas, como a internet, para fazer uma disputa de longo prazo de valores e leitura política com a grande mídia. Grande parte da disputa de opinião hoje é feita via internet, o único canal no qual a maioria dos que possuem acesso é também emissor. É o principal canal de comunicação no qual o indivíduo e os pequenos grupos são capazes de ampliar o alcance político de suas opiniões e posições, e dentro desta tem uma preocupante posição central a ferramenta de rede social privada, o Facebook. Compreender as dinâmicas dessas redes distribuídas e das ferramentas de rede social como o próprio Facebook e o Twitter me parece fundamental para ampliar a potência política dessas centenas de milhares de militantes indignados com o golpe que sofre a democracia.
Os argumentos centrais da posição contra o impeachment já foram listados de diferentes formas  por diferentes atores e em diferentes espaços. A questão aqui é amplificá-los. Elegemos alguns:
  • O impeachment não é justificável e significa verdadeiro golpe contra a jovem democracia brasileira. (e aqui entram os links dos juristas)
  • Mesmo se fosse justificável, essa presidência da Câmara e essa comissão eleita não tem distanciamento do caso central que usaram para gerar a percepção geral sobre corrupção neste governo -a Lava Jato- para ter uma atuação ética e republicana. 
  • Auxiliar esse impeachment significa antes, dado os que querem tirar esse governo, auxiliar a corrupção a se manter e não o contrário como a Globo e demais mídias pregam.
  • A apresentação de um projeto político para o governo, o executivo, que não foi eleito em urnas é a própria definição de golpe, e é justamente isso que Serra e Temer propuseram, sem antes apresentar o projeto à aprovação da população pela via do voto.
É um momento oportuno para aproveitar essa indignação criada seletivamente contra um partido e governo e transformar em indignação contra uma forma de funcionamento da relação dinheiropolítica. Mostrar com dados empíricos e análises diversas que não há democracia com financiamento privado de campanha e que não há democracia sem expansão dos emissores de opinião na televisão e rádio. A primeira pauta é mais fácil de emplacar no momento.
A disputa é de médio e longo prazo na formação de valores e leituras de mundo. A grande mídia tem claramente optado pela desconstrução da política e em criar uma visão econômica liberal tendo por fundo o argumento que o mercado é a melhor forma de distribuição de recursos. Daí os governos que não compartilham dessa visão seriam corruptos (como fizeram com Nestor e Cristina Kichner), ineptos (como tentam fazer com Morales e Corrêa) ou verdadeiras ditaduras (como caracterizaram o governo Chávez contra todos os dados empíricos e votações observadas por órgãos internacionais). Parte central de nossos esforços imediatos e futuros é discutir essa concentração de mídia, mecanismos de democratização da mídia e outras e melhores visões de mundo possíveis, mais igualitárias e generosas. 
Em relação aos deputados em disputa no voto do impeachment:
As motivações tradicionais com as quais se avaliam as movimentações de deputados de partidos fisiológicos e sem grande coerência programática, como o PMDB, são duas: grana e poder.
Na questão do dinheiro, grana, na posição que ocupamos é muito difícil até imaginar que tipo de benefícios em dinheiro estão sendo ofertados aos deputados em disputa, dado que grande parte das grandes empresas e organizações de empresas do Brasil se pronunciaram a favor do impeachment e, sendo o Brasil um dos países mais ricos do mundo, a quantidade de dinheiro capaz de ser mobilizada por estes atores é quase incalculável. Neste quesito temos pouca ou nenhuma capacidade de intervenção
Já na questão do poder, tanto o Governo na distribuição de cargos na máquina federal, quanto à oposição na distribuição de cargos do eventual governo Temer estão em plena movimentação. Temos neste quesito também pouca ou nenhuma ingerência. O máximo que podemos fazer aqui é afirmar que puniremos golpistas nas urnas, colocando seus nomes nos postes e realizando toda a discussão da forma mais pública possível sobre o que fizeram. Que estes não se reelegerão etc etc etc, essa é uma tática que no atual momento da opinião pública (sempre mutável, lembramos) se assemelha a um blefe. Quanto mais repercussão a discussão de que o impeachment é golpe receber, mais plausível se torna. (imaginem , por exemplo, o Lula falar para deputados do nordeste que fará campanhas contra as deles nos estados do nordeste se estes votarem no impeachment, dado o perfil do voto no Nordeste, a ameaça de não conseguir se reeleger ganha algum fôlego, mas, de novo, isto não está em nossas mãos)
Acredito que apenas grana e poder não explique totalmente o comportamento, discurso e voto dos deputados. Existem sim crenças políticas e também existe sim, e muita, vaidade. Deixar claro em que página da história um voto como esse os colocaria, e o que será ensinado para seus filhos e netos sobre eles na escola pode ter apelo a essa vaidade gigantesca. A Globo não escreveu a visão prevalente sobre o que foi a ditadura. Parece haver uma certa chantagem da parte mais partidarizada do Judiciário e grande mídia com algum controle sobre a Lava Jato no seguinte sentido: a chantagem, seria “-Ou votem pelo impeachment ou o faremos ser investigado e punido e colocaremos seu rosto nos jornais, revistas e noticiários de TV como corrupto (no fundo é usar a justiça pela política justamente contra….a justiça!)”. Passaram os últimos 10 anos tentando associar Lula com corrupção e ainda assim boa parte da população não comprou o discurso. Esse discurso inflamou incrivelmente setores das classes médias que em geral já eram contra o PT e de fato conquistou adeptos e ampliou essa visão.  Mas o povo não é bobo, e em geral sabe o quanto a Globo mente e é aliada do PSDB. Neste caso, amplificar a resposta social ao impeachment e reafimar aos políticos que assim como a Globo não controlou o discurso social sobre a ditadura, não controlará o discurso sobre este golpe e que votar a favor dele é a certeza de associar seu nome a um dos momentos menos democráticos e mais obscuros da história política nacional.
Por fim, coloco alguns links que testei e funcionaram ao menos parcialmente na criação de diálogos. Eu mesmo não sou lá um grande entusiasta do Facebook e publico lá esporadicamente -ultimamente com maior frequência – mas sem particular zelo na forma de cada publicação. Não é esta rede o centro de meu debate, mas compreendo e respeito àqueles que a usam intensivamente e para os quais parte das considerações deste post foi pensada. Não sou especialista nos tópicos listados acima, apenas alguém bastante preocupado com as consequências políticas e perda de capacidade de discussão que tem ocorrido. Caso você possua conhecimento especializado sobre algum dos tópicos acima e quiser ajudar, não hesite em me escrever que melhoro o texto. Compartilhar conhecimento é parte central da construção da democracia e de um mundo melhor
Alguns links úteis
 Como a conjuntura em movendo-se de forma muito rápida, parte dos links listados podem estar defasados. Sintam-se a vontade para criar seus próprios PADs ou para sugerir outros links nos comentários.
Geral
Análises maiores e internacionais, sobre a judicialização da política no mundo e o papel da direita nisso.
 Um análise de mais fôlego, feita pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos:
Por quê esse impeachment, da forma como está sendo feito, é golpe?
Por quê da reforma política
Manifesto de juristas consagrados, e já com mais de 7.800 assinaturas, contra o impeachment:
A cobertura internacional sobre o caso:
Análise de Glenn Greenwald, prẽmio Pulitzer de jornalismo, sobre o golpe em andamento no Brasil:
Seletividade da justiça
 16 pontos para pensar mais sobre a seletividade da justiça brasileira, de TV Poeira:
O caso Banestado, de 2,4 bilhões de reais e a anulação da punição dos réus:
O Documentário sobre Furnas:
Impeachment -Quem são os parlamentares que vão julgar Dilma?
 A inacreditável ficha corrida do impeachment. Absolutamente inacreditável:
Qual o projeto que o golpe vem construir?
O problema da alternativa Temer:
 Análise de Ivan Valente sobre a alternativa de empossar Michel Temer no lugar de Dilma:
Cunha reclama de Temer ter levado 5 milhões o que atrasaria a propina de outros envolvidos:
O que o programa proposto pelo PMDB em conjunto com o PSDB, “Uma ponte para o futuro” significa:
O que acontece em caso de impeachment?
A emenda pode sair pior ainda, com Cunha sendo esporadicamente ou durante longos períodos presidente do Brasil. Eis um vídeo bom e didático sobre a questão:
 Corrupção 
Há movimentos mais sérios e que trabalham faz algum tempo a questão, ligado à CNBB, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral é um deles:http://www.mcce.org.br/
Não, o PT não inventou a corrupção, e não há dados empíricos que ela tenha aumentado durante os governos Lula e Dilma, na verdade a melhor hipótese é que o aparelhamento da Polícia Federal, a autonomia e o não amordaçamento da Procuradoria Geral da República – como aconteceu durante a gestão FHC (http://jornalggn.com.br/noticia/relembrando-a-atuacao-do-procurador-geral-geraldo-brindeiro) quando Geraldo Brindeiro arquivou todos os grandes escândalos – geraram uma sensação de maior corrupção, pois os casos passaram a ser investigados e expostos. A legislação anticorrupção avançou também, com leis que punem não apenas os corruptos, mas também os corruptores, como a Lei Anticorrupção de 2013 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12846.htm) e a modificação no mecanismo de delação premiada. O orçamento da Polícia Federal praticamente triplicou no governo Lula e Dilma, aumentando de 1,5 bilhões em 2002 para 4,3 bilhões em 2013. Ainda assim, o UO usando somente o investimento conseguiu computar isso como redução! (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/veja-o-orcamento-da-policia-federal/)
Por exemplo, a caso Odebrecht, tão em voga no momento, funcionava desde o governo Sarney: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/03/26/esquema-de-propina-da-odebrecht-funcionava-desde-governo-sarney.htm
Em tempo: nem Lula nem Dilma aparecem na lista de mais de 300 políticos que teriam recebido dinheiro de forma legal e ilegal da Odebrecht.
Um dos Bispos da CNBB -Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, realizou uma fala que aborda diversos pontos, desde seletividade da mídia até corrupção:
 Caso SABESB e Trensalão.
Calendário do impeachment
 Calendário provável
É bom ir pensando ações ao longo desse período.
Sérgio Moro
A direita também faz guerra de informação e busca explicar ponto por ponto cada exemplo nosso. Aqui está um exemplo: http://spotniks.com/7-mentiras-que-voce-provavelmente-ja-ouviu-sobre-o-juiz-sergio-moro/
Até o UOL começa a fazer matérias questionando Moro.
Eduardo Cunha
 O presidente da Câmara no processo de impeachment é investigado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro STF. Metiu na CPI da Petobrás ao afirmar que não possuia contas na Suiça. Curiosamente sumiu das manchetes da Rede Globo de Televisão. A sua ficha corrida é simplesmente impressionante:
Grande Mídia
Muito Além do cidadão Kane. Um pouco da história da Globo:
    
Como funciona o oligopólio da mídia no Brasil, 11 famílias comandam 80% dos meios de comunicação.  O vídeo “Levante sua Voz” é central para quem quiser enviar uma breve explicação sobre a forma de operar da mídia brasileira:
Capacidade gigantesca de sumir com investigações da pauta pública quando interessa, como é o caso da Operação Zelotes:
Os 242 casos engavetados por Brindeiro durante a gestão FHC e a própria afimração de FHC a respeito da compra de votos na reeleição. Como a grande mídia teria noticiado se fosse o PT? http://www.vermelho.org.br/noticia/251814-1
    
Como somem a análise das 8667 brasileiros que tem conta na Suiça, em grande parte não declaradas à receita? No maior caso de sonegação já apurado?
Funcionamento atual da internet e redes em geral 
 Cada vez mais posições à direita e um longo conservadorismo se imiscuem e ganham força na internet. Compreender o fenômeno é chave para a disputa de valores de longo prazo:
Para uma análise boa do ascenso da luta contra o golpe e pela democracia nas redes, sugiro a leitura da análise do excelente pesquisador da UFES Fábio Malini:
Uma análise do dia 13 de março, o das grandes manifestações da direita, mostra que as redes tem mais cores do quer fazer crer a grande mídia:
   
Dados sociais do Brasil de 2003 para cá:
É sempre bom lembrar quais os avanços, mesmo que insuficientes, aconteceram de 2003 para cá:
As ligações internacionais:
Para quem acha no mínimo curioso uma só operação atacar o projeto de submarino nuclear, as grandes construtoras, a principal empresa de petróleo que realizou a maior descoberta de reservas do século XXI, e o partido político que buscou assegurar exploração exclusivamente nacional sobre as mesmas… Pode parecer teoria da conspiração, mas quanto mais se lê, mais parece fazer sentido:
Curiosamente não só Brasil, mas outros países sofrearam ataques semelhantes:
A nova guerra híbrida:
Quem são os irmãos Koch e o quem tem feito em diversos países
Guilherme Flynn Paciornik,  3 de abril de 2016
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Utopia e Crise

2 ago

Segundo texto da trilogia de Rodrigo Linharez aqui no Cumachama.

Utopia e crise
Afirmar que “o capitalismo faz isso ou quer aquilo” pode ser, de um ponto de vista, muito simplório. Será que atribuir-lhe essa unidade não tem algo de forçado? Afinal, em sua formação histórica, este tipo de economia tem mostrado que é tudo, menos monolítico e repetitivo. Estou de acordo com isso, em parte.

Nós nos acostumamos hoje a falar sempre em “os capitais” – o industrial, o financeiro, a fração industrial cujos interesses estão ligados mais ao mercado interno, a outra fração que é mais afim com as dinâmicas globais… Ganhamos muito com esse tipo de análise, muito mesmo – também concordo com isso. Só que eu acho que existem coisas mais íntimas que devem ser arrancadas à força do empírico – que ele deve ser colocado contra a parede e deve ser obrigado a desmentí-las ou a confessá-las. Ou, para usar de uma metáfora menos violenta e mais polida, deveríamos submetê-lo, o empírico, a uma escuta psicanalítica cuidadosa, convidando-o a deitar-se em nosso divã e prestando atenção aos sinais que, normalmente, passariam despercebidos. E, pra isso, é necessário dirigir-se a “ele” assim mesmo, no pronome pessoal, na terceira pessoa do singular.

Devemos continuar a pensar em tendências em curso, em projetos e em conflitos em curso, claro, mas é preciso – inclusive para que o desdobrar dessas tendências e desses projetos seja menos confuso pra nós – devemos também pensar em “vontade”, em utopias não realizadas. E qual a utopia desse tipo de economia, qual o seu impossível desejado, qual a sua vontade? Que é esta coisa a respeito da qual é tão difícil ouvir falar de modo direto e unívoco (como são também, muitas vezes, as nossas próprias vontades)?

A utopia desse tipo de economia, me parece, é o deserto sob o céu teológico (uma distopia portanto). Um mundo sem gente, sem ritmos climáticos e sem ritmos biológicos. Mas é um vazio que está contido e é circundado pelo movimento abstrato do valor mercantil, que aprendeu a fecundar-se a si próprio, a crescer e reproduzir sem interferência externa alguma. É um pouco pior que o sadismo divino do Velho Testamento. Enviou-se o dilúvio mas, neste caso, nenhum Noé foi chamado.

Existe uma anedota clássica. O sujeito passa todo o seu tempo sonhando com o dia em que sua esposa vai abandoná-lo, ou com dia em que ela morrerá – porque assim ele poderá, finalmente, dedicar-se com exclusividade aos carinhos e afetos da mulher que é a sua amante. Quando isso acontece, quando ele se vê livre dos embaraços com a antiga esposa, descobre porém que não quer mais estar com a sua antiga amante. Que não a deseja como imaginava desejar.

Se você perguntar, ainda hoje, a um teórico crítico (mas, digamos, um tanto ortodoxo): qual é, afinal, a vontade mais selvagem, a utopia máxima do tipo de economia em que vivemos? Como são as feições da mulher que este sistema ama? Ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho. Pode ser que você faça essa pergunta a um teórico mais apimentado – e ele responderá: um mundo povoado de fábricas e movido pela exploração regular do trabalho que, no entanto, só sobrevive graças à superexploração, graças à exploração espoliativa que é praticada principalmente em sua beirada, mas também, eventualmente, no seu próprio núcleo.

Algo mudou. Bastou o capitalismo realmente conseguir povoar o mundo com fábricas e universalizar a exploração (morreu a esposa, eis a amante!) – e, subitamente, percebemos que a vontade do sistema não é aquilo que achávamos que fosse – ou aquilo que, talvez, “ele” mesmo achava que fosse. Não é a amante. A distopia do capitalismo tardio não é uma coisa nem outra – é simplesmente o nada. O seu movimento é niilista: uma circularidade descarnada e sem atritos, uma autorreferência perfeita, uma tautologia elementar. Uma forma vazia. Isso os neoliberais nos demonstraram, cuidadosamente, ao promoverem a desregulamentação dos mercados e a globalização das finanças.

Mas, uma coisa é perguntar qual é a vontade da economia, outra é perguntar a respeito de sua realização, do tornar-se mundo dessa vontade. Conciliações são necessárias: a exploração não acaba e o discurso da desindustrialização (a economia industrial teria sido deslocada por uma economia de serviços), em grande medida, só pretende tornar mais confuso o fato de que a indústria, em busca de lucros de exploração mais substanciosos, se redistribui geograficamente e reorganiza os seus fluxos. Infelizmente. E nem tanto pra nós, como para o proprio capital – que desejaria mesmo evadir-se logo dessas concretudes sujas e elevar-se de uma vez em essência etérea e pura.

Agora, quanto desta crise econômica não seria explicado (e bem explicado) pela tentativa programática da realização da utopia destrutiva de uma economia que se quer autorreferencial e tautológica?

Devemos enforcar os banqueiros?

20 jul

Esse é o primeiro de uma série de três textos de Rodrigo Linharez, mestre em Geografia pela USP.

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Pode ser que esta minha impressão tenha algo de abusivo (já que tenho no temperamento uma espécie de desvio, uma espécie de má-formação essencial: uma contínua atração pelo caráter trágico, pelos dilemas e impasses das coisas), mas eu sinto muita falta de análises sistêmicas da crise econômica. Especialmente entre os que protestam – o pessoal dos movimentos “occupy” mundo afora – me parece, a análise mais corriqueira que fazem da crise tem muito de uma espécie de atualização do ódio medieval ao “usurário”.

Claro. Se os banqueiros e operadores da grande finança fossem submetidos a um pente fino, assim de primeira, é possivel imaginar que pouca coisa sobraria. Mas acho também que a grande dificuldade de uma limpa como essa seria definir, afinal, o que é criminoso e o que não é – e isso em um contexto em que o seu interlocutor/acusado será, muito provavelmente, um físico cujo pós-doutorado no MIT investiga, em mais de 500 laudas, um aspecto importantíssimo, mas também muito complicado e muito sutil, de determinada função matemática aplicada aos negócios com o câmbio. Um gênio do Mal jogando em casa. Bem, a lógica crime/encarceiramento, o modo como opera e como define as exclusões, como sabemos todos, é seletiva: embaixo ela funciona muito mais do que em cima…

Enfim… E esse tipo de coisa, apesar de não ser desimportante, serve demais ao diversionismo – até os Republicanos, nos Estados Unidos, fazem o discurso emocional de “cadeia para o banqueiro criminoso” e “que eles paguem o que devem e não o povo”. A questão mesmo – o lugar onde ela é capaz de se definir – é na política econômica e na capacidade de fazer política econômica.

E a questão mesmo – quando passamos da política econômica para a crítica da economia política – é que o capitalismo odeia propriedades concretas. Odeia qualitativos e despreza valores-de-uso. (E qualquer um que possua um jogo de jantar herdado dos bisavós ou tataravós – que, infelizmente, não é o meu caso – pode compará-lo com um exemplar contemporâneo e chegar a essa mesma conclusão.) O sonho deste tipo de economia, que está posto como lógica e como projeto, ainda que absurdo e impossível (mas deixemos para outra oportunidade um debate mais detido sobre a vocação suicida do capital) é extrair diretamente mais-valor do valor – e isso sem ter de se sujar, na produção, com graxa e óleo queimado! Pois é! Do que podemos inferir algo muito divertido, muitíssimo mesmo: no capitalismo o trabalho é explorado a contragosto.

Sim, seu desprezo pelos valores-de-uso é, inclusive, desprezo pela força-de-trabalho como valor-de-uso. Em sua esquisita filantropia, o capitalismo preferiria não ter de explorar. Isso é realmente muito doido… Idealmente (idealmente, quero dizer, segundo a lógica que se desdobra) o sistema deveria reproduzir-se sem ter de se imiscuir nessa complexidade toda de relações trabalhistas – e isso porque, nesta sua lógica fantástica, move-se através de categorias que desprezam concretudes, que funcionam para livrar-se delas, purgar-se delas, e que, no paroxismo, funcionariam com perfeição, deslizariam sem atrito… Só que em um mundo sem gente! (e sem ritmos climáticos, biológicos, etc., etc…)
E qual é o personagem que, no ciclo produtivo, mais se identifica com esse não-mundo que o capitalismo sonha em criar?

Claro, temos o trabalhador. Proletarização e despojamento são sinônimos. Mas este tem ao menos a esperança (ou o consolo) de que a negação que o produz também deposita nele, ao mesmo tempo, uma positividade (ou, ao menos a possibilidade de uma positividade – que é a sua capacidade potencial de recriar o mundo em novas formas). E a este não-ser resta ainda a concretude do valor-de-uso de sua força-de-trabalho.

O capitalismo cria o proletariado, mas faz o que faz com a mão no coração. Preferiria não o fazer porque gostaria de se reproduzir através de dinâmicas teológicas puras e mandar o resto ao diabo. Preferiria fazer pior. E isso é algo que somente há pouco tempo começamos realmente a vislumbrar, já que parte desse desejo secreto – traduzido pelo radicalismo neoliberal – tornou-se mundo e um dos tipos sociais que ele mais generalizou é algo que, mais uma vez, aproxima-se do paroxismo, do despojamento total: os mortos-vivos da sobrevivência no desemprego, os zumbis das exceções e das exclusões definidas pela lei, pela política e pela guerra (os detidos em penitenciárias, em campos de refugiados…).

Mas qual é mesmo o personagem que, pelo papel que desempenha no ciclo produtivo, mais se aproxima do movimento niilista da economia – e que, portanto, mais assemelha-se a um não-ser?

Uma dica: um estudo feito nas finanças em Wall Street conclui que, dos que sobrevivem à concorrência encarniçada que os grandes executivos jogam entre si – os poucos escolhidos entre os muitos que são chamados – dos que sobrevivem, são mais prováveis aqueles que são também os mais bem sucedidos na luta que movem contra si mesmos, contra a sua própria saúde: os que estão mais aptos a lidar com seguidas noites de insônia, com crises severas de ansiedade e de abatimento, os que estão mais aptos a suportar jornadas de 14 horas diárias (sem finais de semana) e em que é muito difícil separar, minimamente, domesticidade e trabalho… Enfim, um rosário de autoflagelação a ser debulhado segundo a segundo, minuto a minuto, sem interrupções e sem tempo pra acabar, com confiança cega e resignação animal. (Ah, está bem, tem também, nisso tudo, uns intervalinhos de consumo conspícuo no Caribe, que ninguém é de ferro…)

O fetiche máximo do capital – extrair mais-valor do valor em um circuito sem desvios – já tem a sua encarnação em forma humana (será mesmo humana?), mesmo que sua realização completa seja uma impossibilidade. Mas e se a garotada do “occupy” se deliciasse um pouco menos com fantasias de forca e de guilhotina e – recusando o seu próprio delírio de vingança – passasse à dissecação fria e cuidadosa (e que, afinal, tem também o seu quinhão de prazer) destes outros delírios, não tão visíveis, não tão palpáveis, que nos espremem cotidianamente, despojando-nos de sentidos e de finalidades? E se tratássemos de superar a figura de carne-e-osso do grande financista (e isso ele também já trata de fazer por si mesmo, mas com o uso constante de anfetaminas) na direção de seu desnudamento e de seu desmonte em lógica geral e sistemática? E se tratássemos de combater essa loucura da lógica tentando fazer com que o seu impossível continue a ser impossível – desentulhando, ao mesmo tempo, todo um horizonte de outros projetos?

Enforcar banqueiros simplesmente… Bastaria? Seria isso o suficiente para destruir também aquilo que os anima?

Rodrigo Linharez , São Paulo. 2012

Zapatistas – Uma litografia

13 dez

Na linha de originais do Cumachama, abaixo vai uma litografia feita pelo meu irmão Vitor Flynn Paciornik, e dois detalhes da mesma.

Zapatistas. 2010.

litografia.29 x 46 cm.

Vitor Flynn Paciornik, São Paulo, 1983.

[Abaixo,detalhes de zapatistas]

E mais um detalhe:

(não fui bem sucedido em tirar esse frame rosa)

Dezembro 2010.

As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação e os Movimentos de Reivindicação e Protesto – Introdução

13 dez

Abaixo vai a introdução do projeto de mestrado em sociologia com o qual acabo de ser aprovado na Unicamp, o título do projeto é o acima colocado. A introdução é meio ingênua e  ao mesmo tempo pretensiosa, juro que no corpo do projeto as coisas ganham um pouco mais de concretude. Fica aqui publicado de qualquer forma para comemorar essa efeméride que me deixou muito feliz.

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Em 1988, o sociólogo Eder Sader escreveu uma obra que se tornaria clássica nos estudos sobre movimentos sociais no Brasil. Trata-se de Quando novos personagens entraram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980). Desde então, houve mudanças tanto na cena quanto nos personagens. Nos últimos anos de regime ditatorial foi possível presenciar a organização e atuação de movimentos sociais que demandavam as mais diversas pautas. Entre essas, ganharam destaque as reivindicações por moradia e o movimento contra a carestia (aumento do custo de vida). Esses movimentos tinham um comportamento marcado pela cobrança de políticas públicas voltadas aos extratos mais pobres da população e de fiscalização da execução das mesmas (Gutierres, 2006).

Caso burilemos um pouco mais a metáfora dramatúrgica do título de Sader, poderíamos dizer que ninguém se lembrou de escrever para o Brasil uma versão de Seis personagens à procura de um autor de Pirandello. Os personagens ainda existem, mas os enredos que davam significado às suas meta-narrativas estão em constante discussão e atualização, a organização dos atos da peça mudou, a relação entre o patrocinador e os personagens também, a forma como os expectadores podem apreciá-la, os principais figurinos e o papel de cada personagem mudaram com o aparecimento e crescimento exponencial das Organizações Não-Governamentais. Estas possuem formas de atuação e de discussão política bem diversas dos movimentos sociais da década de 1980 (idem). De que forma e por quais vias o campo dos conflitos e demandas sociais é ou não afetado ou reconfigurado pelas possibilidades abertas pelas novas Tecnologias da Informação e Comunicação, doravante TICs, como o domínio e manipulação a nível local das informações públicas, o acesso do conjunto da sociedade à  informações em tempo real através de outros meios de comunicação, e o baixo custo de reprodução e difusão de discussões? Quais outros atores sociais entram em cena nesse campo social e de que modo isso afeta a dinâmica desses movimentos e práticas sociais? Enfim, se for verdade que se alteram as cenas e personagens, será que as possibilidades abertas pelo uso das TICs poderão contribuir para que em breve seja possível escrever um “Quando e como novos personagens entrarão no centro da nova cena”?

Guilherme Flynn Paciornik – Dezembro 2010

Contra o Voto Nulo, pelo voto no PT nas eleições desse domingo.

28 out

Ao ler as análises recentemente divulgadas sobre o governo Lula, é muito difícil encontrar uma que aborde suas contradições de forma serena, que não carregue nas tintas para demonstrar que foi, ou absolutamente fantástico ou uma traição enorme de classe. Que avalie elementos tanto de melhora como de continuidade por uma perspectiva progressista, de esquerda. Esse é um esboço solto agora para me posicionar a favor do voto na candidata do PT, Dilma, nesse domingo.

Em qual Brasil o PT se elegeu?

O primeiro elemento para uma análise deste governo é a ressalva que chegar ao governo federal não é o mesmo que chegar ao poder, é chegar a parte do poder, contando com a mesma situação de riqueza, mídia, infraestrutura pública, entre outras, que FHC deixou. Com uma composição do congresso formada num tipo de eleição na qual há pouco ou nenhum controle da influência do poder econômico sobre a mesma. A base do governo ampliou-se no começo do mandato devido a um tipo consolidado de relação do legislativo com o executivo em busca de acesso a processos licitatórios, recursos diversos, pastas e à aprovação de emendas parlamentares, em um mecanismo viciado que em pouco se alterou. Não se muda um país por decreto, ou você tem as armas e mídia– como a Ditadura, ou você tem o congresso e a mídia – como o governo do PSDB, ou tem a mobilização do povo e dos movimentos sociais – como o PT teria tido se optasse por um caminho de confronto. O PT escolheu por um caminho de baixo confronto e mobilização, e de garantia de aprovação de projetos no congresso através de concessões em pastas e em programas.

Desde a “Carta aos Brasileiros” em 2002, todos sabiam que temas como estatização do sistema financeiro e re-estatização das empresas públicas que foram privatizadas estavam fora de questão, socialização de meios de produção então… nem o mais crédulo petista sonharia. Sabia-se, sem clareza acerca das nuances, que o governo Lula seria o que foi, um governo de coalizão com setores progressistas e com parte da direita arrivista, sem grandes mudanças de política econômica, mas com uma ênfase diferente e um maior investimento na política social.

É fato que comparado com governo de Fernando Henrique o governo de Lula foi sensacional, mas essa é uma comparação muito ruim, pois o governo FHC foi péssimo (não vou sequer entrar nisso, pois não é a essa comparação que esse texto se direciona), a questão é que o governo Lula foi amplamente insuficiente em relação à somatória de projetos que o construíram historicamente e às expectativas de mudanças estruturais ao menos em áreas estratégicas.

Talvez o maior problema em relação ao governo Lula é que era um governo que queríamos defender bravamente nas ruas, e não, resignadamente, ressaltando o horror que é o projeto do adversário PSDB, nos blogs. Mesmo com essa somatória de poréns, esse governo tem avanços importantíssimos, que ficarão na história, e essa eleição que se aproxima não deixa espaço se posicionar pelo voto nulo.

Sem a intenção de realizar uma análise detalhada e profunda separei como síntese cinco grandes problemas e três maravilhas do governo Lula

Cinco áreas com problemas

Reforma Agrária

Em fato quase não houve, apenas um tímido número de assentados semelhante ao de FHC, porém com uma política de apoio ao assentado e um conjunto de programas acessórios muito melhor, como o Programa de Aquisição de Alimentos PAA, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária PRONERA, e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, entre outros.

Continuamos com um latifúndio gigantesco, que emprega pouco e paga mal, e que gera pouquíssima distribuição de renda. O Imposto sobre Propriedade Territorial Rural ITR continua incrivelmente baixo, a terra continua nas mãos de pouquíssimos, milhões de trabalhadores rurais continuam sem possuir terra e continuam migrando para centros urbanos. A função social da terra continua a ser um dispositivo pouco aplicado. Pior, continuamos tendo famílias e crianças subnutridas – muitas delas ao mesmo tempo obesas, o que não é contraditório – devido à ausência de diversidade nutricional, de abastecimento e de preço dos produtos em diversas regiões. Continuamos tendo trabalhadores escravos e em situação análoga à escravidão.

Política Econômica

Aparte a discussão do que efetivamente envolve a política econômica. O centro da política econômica do governo Lula se guiou por uma combinação da política neoliberal, a exemplo da política monetária (taxa de juros ainda altas), fiscal (superávits ainda maiores e sem grande aumento de impostos para os muito ricos), cambial (com manutenção do câmbio flutuante), taxas de inflação semelhantes; com traços de soberania nacional na política redistributiva, e no tipo de aquisição e pagamento da dívida pública, com menos rolagem, maior atrelamento à moeda que emitimos e prazos mais razoáveis.

O Banco Central, que não passou a ter legalmente autonomia, ficou com um representante legítimo do capital financeiro, Henrique Meirelles,  um ex-presidente do Bank of Boston,  que em 2002 foi eleito pelo PSDB. A taxa de juros – o preço do dinheiro – baixou significativamente, mas continua entre as maiores do mundo, e continua sendo um mistério muito mal explicado o porquê do Brasil ter de manter, 16 anos após o fim da superinflação, uma taxa tão elevada de juros.

Dificulta o fato de que um dos maiores fatores de regressividade (o pobre paga proporcionalmente mais do que o rico), o ICMS, ser de controle dos Estados, mesmo assim políticas de progressividade de arrecadação utilizadas no mundo inteiro, como imposto sobre grandes fortunas, aumento do Imposto de Renda sobre o Lucro Líquido, e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e criação de faixas maiores do Imposto de Renda de Pessoa Física, foram, para dizer o mínimo, tímidas.

Não houve uma auditoria da dívida pública interna e da dívida pública externa, embora esta última tenha sido bastante reduzida e renegociada em termos menos submissos e rastejantes do que os do governo FHC.

Educação

O principal problema continua sendo o total do PIB aplicado em educação, como dizia Paulo Freire – educação não se avalia por discurso, se avalia por investimento. Não se colocou em questão a retirada dos vetos de FHC sobre o Plano Nacional de Educação PNE, que dispõem sobre o aumento progressivo do orçamento da educação para 10% do PIB em dez anos. Atualmente o Brasil investe pouco mais de 4% de seu PIB na área.

Não erradicamos o analfabetismo, que está em 9,7% da população e o analfabetismo funcional, que ainda atinge incríveis 20,3% da população brasileira (para comparação, o analfabetismo na argentina é de 2,4%, e o do Uruguai 2,1% segundo o PNUD). Estamos longe da proposta do PNE da sociedade civil de zerar até 2007 o número de jovens fora do ensino médio. O ensino de Jovens e Adultos (mais conhecido como supletivo) é outro ponto que avançou pouco.

O número de universidades federais criadas, 14, é, literalmente, infinitas vezes maior do que o de FHC: zero, porém ainda insuficiente para o déficit de vagas no ensino superior no Brasil, país no qual somente cerca de 10% dos jovens em idade apropriada hoje frequentam o ensino superior.

O PROUNI, um programa de escala, possui o revés de se basear em um mecanismo de transferência de dinheiro público para a iniciativa educacional privada, sem nenhuma garantia de qualidade, e que poderia ser concebido como transitório enquanto se providenciam as vagas públicas, porém não possui atualmente esse caráter declaradamente transitório. Entretanto é deveras difícil criticar o programa para os 747.000 jovens carentes que dele se beneficiaram.

Houve uma efetiva recomposição e valorização do salário dos professores de universidades federais, que em muitos casos passaram a receber mais que professores de universidades estaduais de renome, e um aumento nos valores das bolsas de pesquisa. Outra política importante foi a de fixar um piso mínimo do magistério, impedindo municípios de pagar somente o salário mínimo.

Comunicações

Um desastre, cujo efeito é sentido todo dia quando se liga uma televisão ou se abre um jornal de grande circulação. Com a entrada de Hélio Costa, ex-funcionário da Globo, como ministro em 2005, o governo passou de pouco efetivo para praticamente retrógrado, continuando a política do governo anterior de fechamento de rádios comunitárias. A simples regulamentação dos artigos 22o e 221 da Constituição de 1988, que versam sobre a produção e programação de conteúdo de rádio e televisão; e sobre propriedade dos meios de comunicação colocaria o país num cenário mais democrático em relação ao direito de comunicação. Não aconteceu. Talvez o grande erro do governo tenha sido o modelo de televisão digital aprovado, no qual perdeu a oportunidade de ampliar, diversificar e democratizar os produtores e emissores de conteúdo televisivo.

Apesar destas e outras o governo lula criou em 2007 a Empresa Brasil de Comunicação, e através dela a televisão pública nacional, prevista na Constituição de 1988, a TV Brasil, com conteúdo de qualidade, embora ainda sem grande impacto social mensurável em termos de audiência e repercussão.

Disputa simbólica

Um dos maiores problemas que permearam o conjunto do governo Lula foi o de atuar mais através de modelos representativos do que de modelos participativos, o que auxilia a manter a falta de politização da sociedade, e logo níveis baixos de participação política, de apenas fazer por e não fazer com. O governo acabou por formar uma classe média que pode provavelmente se revelar mais disposta a manter o que conquistou do que a lutar para que todos sejam incluídos. Foi um governo de baixa mobilização social apesar do número considerável de conferências construídas, das municipais para as nacionais, de construção complexa e militante, que envolveram os que já discutiam cada área e conseguiram trazer novos participantes em diversos casos.

Um governo que não se propôs a discutir os pontos chaves do que realmente está em jogo na humanidade, de formar seres humanos capazes de decidir seu próprio destino, de pensar o Brasil na América Latina e no mundo, de criar bases para a superação de um sistema baseado na exploração do ser humano pelo ser humano.

Ao fim e ao cabo, o Brasil continua nas mãos dos mesmos donos quando se fala sobre terra, continua nas mãos dos mesmos donos quando se fala em mídia, os grandes barões da indústria ainda são os mesmos. A renda do capital cresceu mais do que a do trabalho, mas, apesar de tudo isso, algo mudou e essa mudança foi para melhor. Abaixo tratarei do que mudou.

Conquistas e políticas progressistas do governo Lula

Redução da miséria e pobreza

Tirar 24 milhões de pessoas da situação de miséria e elevar 31 milhões de pessoas à classe média, esse é o grande e incontestável feito do governo, um feito sem par tanto em números absolutos como em percentuais na história do país. Através de um programa de distribuição de renda diretamente as família e ainda por cima vinculado à permanência das crianças na escola, o Bolsa-Família possui atualmente mais de 12 milhões de famílias beneficiárias, apesar de ser em princípio uma política focalizada e não universal, é muito difícil criticar o programa tanto em concepção como em qualidade de execução (possui um cadastro incrivelmente preciso e articulado com outros órgãos) quando se leva em conta a correlação de forças e o tipo de governo no qual foi implantado.

Multidão de lutadores e programas bem desenhados

Outra característica desse governo foi a presença diferencial de dezenas de milhares, muitas dezenas de milhares, de funcionários públicos aguerridos cumprindo papel mais que profissional, militante, na concepção e implantação de programas e políticas públicos de alta qualidade, que não adquiriram a escala e repercussão necessária em parte devido ao desenho do orçamento como um todo, e em parte devido à má qualidade da cobertura da mídia sobre os mesmos.  Mas que mesmo assim beneficiaram, somados, milhões de brasileiros. São exemplos desse tipo de programa o Brasil Sorridente, o Mais Educação, o PAA, o PRONAF, o PRONERA, os Pontos de Cultura, o Portal do Software Livre, o PRONASCI, o Mais Educação, o Cultura Digital, o Arca das Letras (com mais de seis mil minibibliotecas organizadas em comunidades rurais), o Memórias Reveladas, e diversos programas de nutrição, de saúde indígena, de saúde da mulher, de combate ao racismo, entre tantos outros.  Ainda que todos tolhidos no orçamento pelo temível ministério do Planejamento, que contingencia preventivamente e depois vai liberando os recursos.

Outros programas, maiores, como o Territórios da Cidadania, o Luz para Todos e o Minha Casa, Minha Vida, conseguiram alguns resultados impressionantes em áreas nas quais a política anterior foi de devastação.

Os resultados de todo esse conjunto de políticas micro e macro são impressionantes também quando se fala em queda da taxa de desemprego, a menor desde 2002,  segundo o IBGE e o DIEESE, assim como quando se fala de crescimento do porcentual da população com acesso a internet banda larga, entre outros fatores.

Resistência à crise internacional

É fato de que a resistência a crise econômica internacional foi fruto de uma diminuição da dependência e da vulnerabilidade externa, somados ao cenário de crescimento do consumo interno gerado pela distribuição de renda e ainda aliados a intervenção rápida e precisa do governo central através da liberação massiva de crédito através dos bancos públicos. Em um passado recente crises muito menores nos atingiram muito mais fortemente. Mesmo sem uma grande transformação do centro da política econômica, um número considerável de fatores diferentes do último governo somados à rapidez na resposta em termos de política econômica possibilitaram que essa grande crise, que atingiu fortemente os EUA, a União Européia e diversos países do mundo em desenvolvimento, nos atingisse com muito menos força.

Política Externa

No governo Lula, políticas internacionais intensamente discutidas pela esquerda durante o governo anterior foram executadas, como o desaparecimento de pauta da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA, a anistia pelo Brasil das dívidas externas de países muito pobres, a solidariedade a Cuba, Bolívia e Venezuela, a cooperação sul-sul, o envio de pessoal de saúde para Angola e Moçambique e não alinhamento direto com os EUA, a OTAN e o G-7 entre outras. Houve algumas quebras de patentes de fármacos, mas ainda longe do suficiente para reconfigurar parte do orçamento da saúde. Houve também uma firme posição contra o golpe de Honduras com a concessão da embaixada brasileira como sede provisória para o presidente eleito.

Nesse ponto, embora exista uma inúmera quantidade de poréns na política externa, os internacionalistas têm, e muito, a perder com um governo PSDB, especialmente no que diz respeito à América Latina.

Por que, dadas todas essas contradições, votar no PT nesse segundo turno?

Só o dado sobre diminuição de miséria, os 24 milhões, aliado ao fato de que o adversário do PT nessas eleições é o PSDB, com toda sua carga privatista e concentradora de riqueza, deveria ser suficiente para diferenciar projetos e optar por votar no PT no segundo turno dessa eleição, porém há muitos que não se sensibilizam com um capitalismo de vertente social-democrata como um avanço em relação ao capitalismo dependente e subordinado do PSDB. A esses digo que as reformas burguesas auxiliam a construir um cenário de reformas mais profundas, ou seja, o governo do PT reaproxima o nesses dias tão distante horizonte revolucionário.     Incita-nos a pautar propositivamente as insuficiências do governo e as irracionalidades do sistema capitalista em si.

Um possível governo PSDB reativa, é verdade, parte da luta social, porém não reconfigura necessariamente a esquerda, apostar nisso é apostar numa teoria do quanto pior melhor, é voltar a lutar contra retrocessos, privatização, sucateamento, o não renascimento da Telebrás, é perder a chance de uma pauta propositiva por uma reativa.

Lutamos ao lado de gente que está nesse governo e que o defende e lutaremos a seu lado muitas vezes mais.            O desafio de construir novas sínteses teóricas assim como suas práticas correlatas num período pós queda do Muro de Berlim, e após a grande onda do neoliberalismo, permanece colocado aos que defendem a substituição do capitalismo por um sistema mais justo no caso da vitória de qualquer um dos candidatos. A diferença é realizar essa monumental tarefa com aliados dentro do governo e com milhões de miseráveis a menos no país.

Guilherme Flynn – Outubro de 2010

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Para ampliar o alcance, tentei limpar esse texto de palavras e grupos de palavras conceitualmente muito carregadas, como bloco histórico, organicidade etc. Assim como da discussão mais de fundo sobre as diferenças de concepção do que é política econômica, a função social da educação, etc. Não sei se consegui. Como o texto aborda o conjunto enorme de fatores em poucas páginas, sei que ele está incrivelmente raso em diversos itens e com imprecisões e até falhas em outros. Se as falhas forem grosseiras me avisem que corrijo. É que não dava para não se posicionar e as eleições estão aí. PNDH-3, PAC, Saúde, Cidades, Meio Ambiente e tantas outras coisas ficam para uma próxima.

*Os dados desse texto foram selecionados nas seguintes fontes: Ministérios, Presidência, IPEA, INEP, IBGE, DIEESE, OCDE, UNESCO e PNUD.

Socialismo no horizonte. Não no retrovisor.

29 set

Não, não concordo com a campanha imunda de desconstrução da candidatura de Dilma Rousseff, promovida pela grande mídia.

Isso posto, devo dizer que vejo com certo espanto comentários vindos das fileiras petistas acerca da participação de Plínio de Arruda Sampaio nos debates entre candidatos à presidência da república. Afirmam que, ao criticar o governo Lula e a candidata Dilma, Plínio ajuda a direita (o PSDB de Serra e o PV de Marina) a realizar o seu trabalho sujo, de ataques reacionários.

Avaliação injusta. A burguesia brasileira possui comportamento primitivo extremo, a ponto de não saber o que é melhor para si mesma. Apega-se a um símbolo mofado, o Lula barbudo e socialista de 1989, para vomitar discurso reacionário. O Partido dos Trabalhadores e Lula honram, para além de qualquer dúvida, todos os compromissos assumidos com o grande capital. Os juros permanecem elevados, a reforma agrária não foi feita, nossa carga tributária continua cruelmente regressiva, o Sistema Único de Saúde não é prestigiado como deveria e pouco se avançou, inclusive, em pautas injustamente qualificadas de “laterais” – como a regulamentação da união civil homoafetiva e a descriminalização da interrupção da gravidez.

Ora, é inegável que tivemos avanços. Quem tem fome, tem pressa. Perdoem-me a frase feita, mas, disso, não há dúvida. Os programas de distribuição de renda patrocinados pelo governo contribuíram para mitigar quadros de extrema pobreza, nos bolsões mais miseráveis do país. Além disso, numa abordagem estritamente liberal, o estímulo ao consumo, com o protagonismo das tais classes C, D e E, é um motor virtuoso para o crescimento do Brasil. Mais consumo, mais produção, mais empregos, aumento da massa salarial e melhora da qualidade de vida. Isso foi obtido no governo Lula, sem dúvida – ainda que numa escala limitada. A miséria ainda persiste, as favelas estão aí, o desafio do saneamento básico não foi vencido. Trata-se, enfim, do meio de caminho no processo civilizatório de nosso capitalismo. Não tenho dúvida de que mais um mandato do Partido dos Trabalhadores no governo federal fará algum bem ao país.

Os sucessivos escândalos de corrupção devem ser postos em seu devido lugar. Houve um equívoco fundamental do PT quando este resolveu se escorar exclusivamente na bandeira da “ética na política”, colocando de lado seus ideais de esquerda e as necessárias reformas estruturais. Perdoem-me a expressão mas, muitas vezes, governar é “enfiar a mão na merda”. Não, não defendo a corrupção. Acredito no seu combate incansável. Mas tal combate deve ser realizado juntamente de um projeto mais amplo de reforma social, rumo ao socialismo. A onda vermelha, que levou Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo nas eleições municipais do ano 2000, tinha pouco de vermelha – e socialista – e muito de branca – a pureza do militante paladino da moralidade pública. Governar curvado ao capitalismo, em especial neste nosso modelo ainda pouco civilizado, é sujeitar-se ao risco cotidiano das ofertas de corrupção. As regras do jogo impõem e o PT, seja através de militantes isolados, seja através de sua cúpula, decidiu jogar de acordo com as regras. O fisiologismo, o rebaixamento programático, a partilha de cargos, a compra de apoios e o “presidencialismo de coalização” (Paciornik, S. D.) contribuíram, decisivamente, para que o PT abraçasse a mesmice do jogo político-eleitoral – inclusive no tocante à corrupção.

Todos esses fatos vêm de longa data e não são exclusivos do PT. O governo Fernando Henrique Cardoso também teve um longo rosário de casos de corrupção. Contou, porém, com a conivência de Geraldo Brindeiro – “engavetador-geral da União” –, com uma Polícia Federal pouco atuante e, o mais importante, a docilidade da mídia. As famílias Frias, Civita, Mesquita e Marinho não demonstraram, para com o “príncipe da sociologia”, a mesma disposição investigativa que possuem para com o “sapo barbudo”. Escândalo por escândalo, outros fatos me impressionam ainda mais. O “Partido da ‘Social-Democracia’ Brasileira”, por exemplo, foi protagonista do maior projeto de desmonte do estado brasileiro em todos os tempos. E o “Partido da Frente Liberal (vulgo Democratas)” possui quadros que fizeram parte da Aliança Renovadora Nacional – partido de suporte à ditadura militar. Essa última crítica, aliás, é até amena: procure pelas propostas de Ricardo Salles (25.200) na internet. Veja o que a “nova” direita promete, na figura desse candidato à Assembléia Legislativa de São Paulo. Você vai descobrir que alguns integrantes da ARENA talvez até tivessem certo traquejo democrático…

Voltando ao ponto: as ataques a Plínio de Arruda Sampaio e ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) são absolutamente injustos. Não fazemos o trabalho sujo da direita. Estamos interessados, antes, no trabalho que cabe à esquerda socialista: criticar a falta de avanços estruturais e reformas verdadeiramente transformadoras nesses 8 anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Não vamos à televisão criticar o fortalecimento da Petrobrás, a defesa de Cuba, a gestão de José Gomes Temporão no Ministério da Saúde (ainda que seja passível de críticas) ou o Plano Nacional de Direitos Humanos.

Quando criticamos os escândalos palacianos, cobramos coerência de um partido que construiu bandeiras de luta em torno da ética na política. Além disso, nossas cobranças e críticas, referenciadas em nosso programa de atuação política, dizem respeito a uma série de ideais e projetos muito caros à esquerda socialista brasileira:

  • A realização de uma reforma agrária radical,
  • O investimento de 10% do PIB em educação (sempre pública),
  • Distribuição de renda que não se restrinja às muitas bolsas distribuídas pelo governo federal,
  • O estabelecimento de um sistema tributário fortemente progressivo, com taxação de grandes fortunas,
  • Grandes investimentos em ciência e tecnologia – para que superemos, de vez, o pacto colonial,
  • O combate à especulação imobiliária, com a adoção de IPTU fortemente progressivo,
  • Auditoria da dívida pública,
  • Fortes investimentos no Sistema Único de Saúde,
  • Investimentos massivos em saneamento básico,
  • Regulamentação da união civil homoafetiva,
  • Descriminalização do aborto,
  • Fim da perseguição aos movimentos sociais,
  • E por aí vai.

Defendemos um conjunto de reformas radicais. Essas reformas são o primeiro passo para que, pela via democrática, com ampla participação popular, possamos iniciar uma trajetória decisiva rumo ao socialismo. Isso deve ficar muito claro: o PSOL tem a construção do socialismo como meta. Não se trata de bandeira fora de moda nem de ideal relegado a um “passado de luta”. Quando criticamos a administração Lula e o Partido dos Trabalhadores, o fazemos porque não acreditamos na bandeira de um capitalismo de ar mais respirável. O capitalismo lavra na desigualdade, na concentração de renda, na exclusão, no preconceito, na destruição do meio-ambiente e, de forma geral, no medo. Um maior acesso a bens de consumo, embora desejável, não significa um único passo rumo ao socialismo.

Por essas e por outras, eu voto assim:

  • Presidente: Plínio de Arruda Sampaio, PSOL, 50;
  • Governador: Paulo Búfalo, PSOL, 50;
  • Senador: Marcelo Henrique, PSOL, 500;
  • Deputado Federal: Ivan Valente, PSOL, 5050;
  • Deputado Estadual: Eduardo Amaral, PSOL, 50740.

Tunico.
P.S.: Como puderam notar, eu não falo da candidatura Marina Silva. Sempre que penso nessa coisa de Partido Verde, me lembro de uma propaganda ótima, de uma instituição de caridade. Um mendigo, puxando uma carrocinha, parava numa calçada e começava a vestir uma fantasia de cachorro. Fantasia vestida, começava a pedir esmolas. E terminava com o locutor dizendo: “porque ajudar os animaizinhos é mais fácil, né?” Como eu acho muito óbvio que fica difícil preservar um jacarandá quando não se tem disposição de ajudar um menino de rua, vou me abster de considerar a existência política da Marina.

A defesa efetiva do meio-ambiente é pauta cara ao socialismo, não um elemento para “agregar valor à marca”. Defendemos as florestas tropicais, os mananciais, o cerrado, a caatinga e todas aquelas outras coisas “chatas” que vêm junto com eles: as populações locais.