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Quem quer ser um milionário?

10 mar

Mais um texto de Pedro Ekman que, não se sabe bem porque, escolheu esse blog como veículo (bicicleta no caso) de sua farta produção. Lá vai:

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Quem quer ser um milionário?

A riqueza de 10 pessoas é mais de 120 vezes maior do que a riqueza que o país com pior índice de desenvolvimento humano consegue produzir em um árduo ano de trabalho. O contraste que esse dado revela já não causa tanta indignação em uma sociedade que acha natural as diferenças produzidas pelo capitalismo, e que comemora os grandes feitos financeiros lamentando a inevitável condição miserável de alguns pobres coitados que ainda não “aprenderam” como ser bem sucedidos nas regras da selva econômica.

Pois bem, não se conformando com a naturalidade dessas diferenças e acreditando na capacidade da humanidade de ser solidária consigo mesma, os socialistas propõem a divisão igualitária da riqueza socialmente produzida. Socialistas ou não, os trabalhadores que não conseguem acumular riqueza, dado seus baixos salários e alto custo de vida, também pedem para que sejam melhor distribuídos os ganhos com a produção. Como geralmente os ricos não estão muito dispostos a abrir mão da sua riqueza, esses pedidos são feitos não em conversas do chá da tarde no clube de campo, mas em greves e protestos. Infortunadamente alguns não-ricos acabam se cansando das negociações ou até mesmo perdem a crença na solidariedade humana e partem para iniciativas individuais mais violentas de distribuição direta da riqueza, como assaltos e seqüestros.

Talvez os ricos não queiram dividir sua riqueza por terem medo de que o resto da humanidade, em um ato de crueldade e vingança, os obrigue a viver apenas com um salário mínimo. Talvez os pobres tenham que ser mais compreensivos, pois pode ser que os ricos tenham que se acostumar com a idéia aos poucos. Será que eles teriam menos medo de distribuir a riqueza se percebessem que para isso não precisam deixar de ser ricos? Como reagiriam a pergunta: Quem quer ser um milionário?

A pergunta é de fácil resposta para bilhões de seres humanos espalhados pelo globo, mas não é tão simples para os raros bilionários entre nós. Se o plano der certo, em uma bela tarde no clube de campo, o tilintar das xícaras de chá brindarão uma nova lei geral para a humanidade: “Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.”

Isso pode soar menos ofensivo para os ricos. Para se ter uma idéia das conseqüências desta nova proposta, analisemos o que aconteceria com os extremos da questão. Os dez indivíduos mais ricos do planeta acumularam a bagatela de 426 bilhões de dólares em patrimônio pessoal. Coincidentemente nenhum desses abonados indivíduos vive no Zimbábue. Esse país, que não teve a sorte de nascer em berço de ouro, produz uma riqueza equivalente a 3,5 bilhões de dólares por ano. Se a regra fosse aplicada apenas a esses dez senhores (nenhuma mulher pertence ao grupo), cada um dos 13 milhões de cidadãos do país com as piores condições para se viver poderia contar com 32 mil dólares para tentar estruturar melhor a vida daqui para frente. Se entendermos que melhor do que o distribuir o dinheiro para a população seria realizar investimentos em programas sociais, teríamos um impacto US$ 426 bilhões aplicados de uma só vez em um território acostumado a ver US$ 3,5 bilhões ao longo de um ano todo. A mistura das duas soluções também seria fabulosa.

Certamente cada um dos dez senhores mais ricos do mundo conseguiria levar uma vida digna e confortável com a parca quantia de 999 milhões de dólares tendo apenas que suportar o trauma psicológico da perda do título de bilionário para se acostumar as ser tratado como um reles milionário. Para iniciar a prática de desapego material o homem mais rico do mundo, o investidor americano Warren Buffett teria que abrir mão de 61 bilhões de dólares. Já o menos rico dos top ten, o varejista alemão Karl Albrecht, teria que se desfazer apenas de 26 bilhões de dólares e um centavo dos seus 27 bilhões acumulados.

Parece claro que existência de poucos homens muito ricos implica necessariamente na condição de que muitos mais precisem permanecer pobres. Ainda assim, se uma tragédia provocada pelos próprios seres humanos não é suficiente para convencer os abastados a assumirem outra postura perante humanidade, tentemos uma comparação com tragédias de fato naturais.

Recentemente um terremoto devastou o Haiti que já era o vigésimo quinto pior país do mundo para se viver. Os Estados-membros das Nações Unidas e parceiros internacionais prometeram US$ 5,3 bilhões para os primeiros 18 meses da reconstrução deste país, mas entregaram até hoje apenas US$ 824 milhões. Os melhores números falam em um valor total prometido para os próximos três anos de US$ 9,9 bilhões, vindos de 59 países e organizações internacionais. Se levarmos em consideração as melhores previsões, o mundo estará oferecendo ao Haiti US$ 3,3 bilhões por ano por um período menor do que o de um mandato presidencial. O Haiti antes da tragédia, com suas forças produtivas a pleno vapor, tinha um Produto Interno Bruto anual de US$ 6,4 bilhões e ainda assim possuía o vigésimo quinto pior IDH do mundo. A comunidade internacional, mesmo mobilizando a riqueza produzida por pobres e ricos (dinheiro público) não foi capaz de oferecer para a reconstrução de um país devastado e sem qualquer capacidade produtiva mais da metade do que ele produzia em plenas condições.

Uma vez que os dez homens mais ricos do mundo já estão comprometidos com o Zimbábue, apelemos para outros dez que com apenas um click seriam capazes de aportar uma quantia considerável. Apelemos para as dez pessoas que mais enriqueceram com negócios da internet, afinal elas já conseguiram juntar 82 bilhões de dólares debaixo do colchão. Se pessoas como Larry Page da Google e Mark Zuckerberg do Facebook aceitassem se tornar milionários o Haiti poderia receber a cada um dos três anos de reconstrução uma quantia 4 vezes maior do que seu PIB original, uma ajuda quase 8 vezes maior do que o mobilizado por toda a comunidade internacional.

No Brasil a boa vontade de dez bilionários em se tornar milionários somaria 66 bilhões de dólares ao orçamento público podendo tornar os investimentos em saúde pública 2,5 vezes maior em 2011.

Se as trinta pessoas aqui citadas, que sequer chegam a lotar um ônibus, aceitassem viver apenas como milionários, muito já se poderia fazer com o meio trilhão de dólares redistribuídos. Imagine o que não aconteceria ao mundo se todos os bilionários se tornassem milionários. Ora, se no capitalismo não nos é dada a oportunidade de perguntar aos bilionários se aceitam se tornar milionários, ou se perguntados, estes são incapazes de dizer: “Sim”. Então desistamos de tentar mudar apenas uma regra e mudemos todas.

Aos que ainda acreditam que é possível reverter as convicções de um bilionário:

Carta de lançamento da CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO DA BURGUESIA: Você bilionário, faça a sua parte.

“Caros Warren Buffett (EUA – US$ 62,0 bilhões), Carlos Slim (MÉXICO – US$ 60,0 bilhões), Bill Gates (EUA – US$ 58,0 bilhões), Lakshmi Mittal (ÍNDIA – US$ 45,0 bilhões), Mukesh Ambani (ÍNDIA – US$ 43,0 bilhões), Anil Ambani (ÍNDIA – US$ 42,0 bilhões), Ingvar Kamprad (SUÉCIA – US$ 31,0 bilhões), K. P. Sing (ÍNDIA – US$ 30,0 bilhões), Oleg Deripaska (RÚSSIA – US$ 28,0 bilhões), Karl Albrecht (ALEMANHA – US$ 27,0 bilhões), Larry Page (GOOGLE US$ 17,5 bilhões), Sergey Brin (GOOGLE – US$ 17,5 bilhões), Jeff Bezos (AMAZON – US$ 12,3 bilhões), Eric Schmidt (GOOGLE – US$ 6,3 bilhões), Masayoshi Son (SOFTBANK – US$ 5,9 bilhões), Pierre Omidyar (EBAY – US$ 5,2 bilhões), Hiroshi Mikitani (RAKUTEN – US$ 4,8 bilhões), Charles Schwab (CHARLES SCHWAB BANK – US$ 4,7 bilhões), Mark Zuckerberg (FACEBOOK – US$ 4,0 bilhões), Ma Huateng (TECENT – US$ 3,8 bilhões), Eike Batista (BRASIL – US$ 27,0 bilhões), Jorge Paulo Lemann (BRASIL – US$ 11,5 bilhões), Joseph Safra (BRASIL – US$ 10 bilhões), Dorothea Steinbruch (BRASIL – US$ 5,5 bilhões), Marcel Herrmann Telles (BRASIL – US$ 5,1 bilhões), Carlos Albero Sicupira (BRASIL – US$ 4,5 bilhões), Aloysio de Andrade Faria (BRASIL – US$ 4,2 bilhões), Abilio dos Santos Diniz (BRASIL – US$ 3 bilhões), Antonio Ermírio de Morais (BRASIL – US$ 3 bilhões) e Moise Safra (BRASIL – US$ 2,3 bilhões) vimos por meio desta solicitar uma reunião para firmarmos o pacto QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

No referido pacto os signatários se comprometem em cumprir e honrar o texto:

Fica proibida a acumulação de fortunas bilionárias. Cada centavo que ultrapasse a quantia de US$ 999.999.999,99 deve ser imediatamente revertida para quem ainda não possui tal quantia, na ordem do mais pobre para o mais rico.

Seguros de que essa iniciativa marcará vossos nomes na mais significativa página da história da humanidade e certos de um retorno positivo, aguardamos a indicação de um clube de campo da vossa preferência para firmamos o referido documento.

Sem mais,

Não-bilionários do mundo.

São Paulo, 10 de março de 2011”

Pedro Ekman é socialista.

São Paulo 10 de março de 2011

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Socialismo no horizonte. Não no retrovisor.

29 set

Não, não concordo com a campanha imunda de desconstrução da candidatura de Dilma Rousseff, promovida pela grande mídia.

Isso posto, devo dizer que vejo com certo espanto comentários vindos das fileiras petistas acerca da participação de Plínio de Arruda Sampaio nos debates entre candidatos à presidência da república. Afirmam que, ao criticar o governo Lula e a candidata Dilma, Plínio ajuda a direita (o PSDB de Serra e o PV de Marina) a realizar o seu trabalho sujo, de ataques reacionários.

Avaliação injusta. A burguesia brasileira possui comportamento primitivo extremo, a ponto de não saber o que é melhor para si mesma. Apega-se a um símbolo mofado, o Lula barbudo e socialista de 1989, para vomitar discurso reacionário. O Partido dos Trabalhadores e Lula honram, para além de qualquer dúvida, todos os compromissos assumidos com o grande capital. Os juros permanecem elevados, a reforma agrária não foi feita, nossa carga tributária continua cruelmente regressiva, o Sistema Único de Saúde não é prestigiado como deveria e pouco se avançou, inclusive, em pautas injustamente qualificadas de “laterais” – como a regulamentação da união civil homoafetiva e a descriminalização da interrupção da gravidez.

Ora, é inegável que tivemos avanços. Quem tem fome, tem pressa. Perdoem-me a frase feita, mas, disso, não há dúvida. Os programas de distribuição de renda patrocinados pelo governo contribuíram para mitigar quadros de extrema pobreza, nos bolsões mais miseráveis do país. Além disso, numa abordagem estritamente liberal, o estímulo ao consumo, com o protagonismo das tais classes C, D e E, é um motor virtuoso para o crescimento do Brasil. Mais consumo, mais produção, mais empregos, aumento da massa salarial e melhora da qualidade de vida. Isso foi obtido no governo Lula, sem dúvida – ainda que numa escala limitada. A miséria ainda persiste, as favelas estão aí, o desafio do saneamento básico não foi vencido. Trata-se, enfim, do meio de caminho no processo civilizatório de nosso capitalismo. Não tenho dúvida de que mais um mandato do Partido dos Trabalhadores no governo federal fará algum bem ao país.

Os sucessivos escândalos de corrupção devem ser postos em seu devido lugar. Houve um equívoco fundamental do PT quando este resolveu se escorar exclusivamente na bandeira da “ética na política”, colocando de lado seus ideais de esquerda e as necessárias reformas estruturais. Perdoem-me a expressão mas, muitas vezes, governar é “enfiar a mão na merda”. Não, não defendo a corrupção. Acredito no seu combate incansável. Mas tal combate deve ser realizado juntamente de um projeto mais amplo de reforma social, rumo ao socialismo. A onda vermelha, que levou Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo nas eleições municipais do ano 2000, tinha pouco de vermelha – e socialista – e muito de branca – a pureza do militante paladino da moralidade pública. Governar curvado ao capitalismo, em especial neste nosso modelo ainda pouco civilizado, é sujeitar-se ao risco cotidiano das ofertas de corrupção. As regras do jogo impõem e o PT, seja através de militantes isolados, seja através de sua cúpula, decidiu jogar de acordo com as regras. O fisiologismo, o rebaixamento programático, a partilha de cargos, a compra de apoios e o “presidencialismo de coalização” (Paciornik, S. D.) contribuíram, decisivamente, para que o PT abraçasse a mesmice do jogo político-eleitoral – inclusive no tocante à corrupção.

Todos esses fatos vêm de longa data e não são exclusivos do PT. O governo Fernando Henrique Cardoso também teve um longo rosário de casos de corrupção. Contou, porém, com a conivência de Geraldo Brindeiro – “engavetador-geral da União” –, com uma Polícia Federal pouco atuante e, o mais importante, a docilidade da mídia. As famílias Frias, Civita, Mesquita e Marinho não demonstraram, para com o “príncipe da sociologia”, a mesma disposição investigativa que possuem para com o “sapo barbudo”. Escândalo por escândalo, outros fatos me impressionam ainda mais. O “Partido da ‘Social-Democracia’ Brasileira”, por exemplo, foi protagonista do maior projeto de desmonte do estado brasileiro em todos os tempos. E o “Partido da Frente Liberal (vulgo Democratas)” possui quadros que fizeram parte da Aliança Renovadora Nacional – partido de suporte à ditadura militar. Essa última crítica, aliás, é até amena: procure pelas propostas de Ricardo Salles (25.200) na internet. Veja o que a “nova” direita promete, na figura desse candidato à Assembléia Legislativa de São Paulo. Você vai descobrir que alguns integrantes da ARENA talvez até tivessem certo traquejo democrático…

Voltando ao ponto: as ataques a Plínio de Arruda Sampaio e ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) são absolutamente injustos. Não fazemos o trabalho sujo da direita. Estamos interessados, antes, no trabalho que cabe à esquerda socialista: criticar a falta de avanços estruturais e reformas verdadeiramente transformadoras nesses 8 anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Não vamos à televisão criticar o fortalecimento da Petrobrás, a defesa de Cuba, a gestão de José Gomes Temporão no Ministério da Saúde (ainda que seja passível de críticas) ou o Plano Nacional de Direitos Humanos.

Quando criticamos os escândalos palacianos, cobramos coerência de um partido que construiu bandeiras de luta em torno da ética na política. Além disso, nossas cobranças e críticas, referenciadas em nosso programa de atuação política, dizem respeito a uma série de ideais e projetos muito caros à esquerda socialista brasileira:

  • A realização de uma reforma agrária radical,
  • O investimento de 10% do PIB em educação (sempre pública),
  • Distribuição de renda que não se restrinja às muitas bolsas distribuídas pelo governo federal,
  • O estabelecimento de um sistema tributário fortemente progressivo, com taxação de grandes fortunas,
  • Grandes investimentos em ciência e tecnologia – para que superemos, de vez, o pacto colonial,
  • O combate à especulação imobiliária, com a adoção de IPTU fortemente progressivo,
  • Auditoria da dívida pública,
  • Fortes investimentos no Sistema Único de Saúde,
  • Investimentos massivos em saneamento básico,
  • Regulamentação da união civil homoafetiva,
  • Descriminalização do aborto,
  • Fim da perseguição aos movimentos sociais,
  • E por aí vai.

Defendemos um conjunto de reformas radicais. Essas reformas são o primeiro passo para que, pela via democrática, com ampla participação popular, possamos iniciar uma trajetória decisiva rumo ao socialismo. Isso deve ficar muito claro: o PSOL tem a construção do socialismo como meta. Não se trata de bandeira fora de moda nem de ideal relegado a um “passado de luta”. Quando criticamos a administração Lula e o Partido dos Trabalhadores, o fazemos porque não acreditamos na bandeira de um capitalismo de ar mais respirável. O capitalismo lavra na desigualdade, na concentração de renda, na exclusão, no preconceito, na destruição do meio-ambiente e, de forma geral, no medo. Um maior acesso a bens de consumo, embora desejável, não significa um único passo rumo ao socialismo.

Por essas e por outras, eu voto assim:

  • Presidente: Plínio de Arruda Sampaio, PSOL, 50;
  • Governador: Paulo Búfalo, PSOL, 50;
  • Senador: Marcelo Henrique, PSOL, 500;
  • Deputado Federal: Ivan Valente, PSOL, 5050;
  • Deputado Estadual: Eduardo Amaral, PSOL, 50740.

Tunico.
P.S.: Como puderam notar, eu não falo da candidatura Marina Silva. Sempre que penso nessa coisa de Partido Verde, me lembro de uma propaganda ótima, de uma instituição de caridade. Um mendigo, puxando uma carrocinha, parava numa calçada e começava a vestir uma fantasia de cachorro. Fantasia vestida, começava a pedir esmolas. E terminava com o locutor dizendo: “porque ajudar os animaizinhos é mais fácil, né?” Como eu acho muito óbvio que fica difícil preservar um jacarandá quando não se tem disposição de ajudar um menino de rua, vou me abster de considerar a existência política da Marina.

A defesa efetiva do meio-ambiente é pauta cara ao socialismo, não um elemento para “agregar valor à marca”. Defendemos as florestas tropicais, os mananciais, o cerrado, a caatinga e todas aquelas outras coisas “chatas” que vêm junto com eles: as populações locais.