Tag Archives: tradição

O Carnaval

22 fev

Cordão do Boitatá

O carnaval é vivido, muito bem vivido, mas não consigo, depois que ele passa, não pensar no quanto a vida toda não podia ser vivida mais assim. Como voltar às vestes quase mortuárias que uma sociedade do trabalho européia impôs a um país tropical como o Brasil? Como voltar ao não poder conhecer e beijar uma pessoa pela primeira vez em qualquer lugar da cidade e em qualquer hora do dia? Como voltar ao não falar com quem é desconhecido no cotidiano? Como voltar a rotina de trocar um tanto de trabalho por um pouco de dinheiro e com sorte um pouco de prestígio? Como voltar a qualquer situação na qual a música, a dança e o humor não ocupem a maior parte do dia?

O carnaval não é muitas coisas, o carnaval não é a panacéia, tampouco é uma catarse que legitima por alívio as mazelas e opressões do resto do ano. O carnaval não anula – nem temporariamente – as classes, o carnaval não anula o racismo, o carnaval certamente não anula o machismo. O carnaval não é o samba, o carnaval não é o axé, o carnaval não é o frevo, o carnaval não são as fantasias, o carnaval não é a pegação, o carnaval não é um lugar, o carnaval definitivamente não é os desfiles de escolas de samba.

O carnaval não é o que as televisões mostram, pois por gênese e evolução a televisão no Brasil não consegue fazer outra coisa que não reafirmar o poder, seja ao falar trânsito matinal ou da expansão do universo, a transmissão do carnaval está inclusa nesse vício de ser da mídia brasileira. O carnaval não é a festa da carne, o carnaval não é o feriado, o carnaval não é a cerveja nem a cachaça, o carnaval não é a música. O carnaval não tem dois lados, o carnaval não tem três lados, o carnaval não tem sequer uma infinidade de lados, tampouco é fractal, o carnaval não é descritível de forma cartesiana, mas nem por isso ele não deixa de trazer algumas certezas.

O carnaval é a promessa que as relações entre as pessoas podem ser diferentes.

É o brincar com os desconhecidos ao redor; é a senhora negra e humilde sozinha na mesa ao lado com uma porção de frango a passarinho que nome aqui já não tem mais, que para por um momento para nos explicar porque os jurados não vão entender as três camadas de significado que ela vê no desfile da Unidos da Tijuca; é o sujeito com forte sotaque do sul que olha minha fantasia e brinca “- Exagerou!”; é o olhar triste da menina que diz sem palavras que quer me beijar, mas não pode no momento. É beber um pouco de confete a cada gole e não achar ruim. É a fantasia coletiva combinada com os chegados. É o humor transbordando largamente sobre as cinzas do cotidiano. É um hoje se livrando das eternas promessas, deveres e desafios que o amanhã sempre traz, é o se ver livre do tempo pela duração de um pouquinho do mesmo. O carnaval são todas as pracinhas centrais de todas as cidades do Brasil se iluminado com risos e cores, e as cores dos risos iluminam mais e são mais belas que as das fantasias.

De muitas outras maneiras o carnaval é uma daquelas coisas para as quais a linguagem humana ainda não se encontra evoluída o suficiente para colocar em estruturas de palavras, talvez nunca esteja. O carnaval é também todas aquelas entrelinhas que não se deve esmagar com palavras*

O carnaval também é – e devemos fazer com que deixe de ser – o senhor idoso catando latinhas; a menina, uma criança mesmo, vendendo balas e tiarinhas piscantes; todos os trogloditas que arrancam beijos a força; aqueles representantes que o usam para se promover; aquelas poucas marcas de bebida que impõem seu oligopólio. O carnaval são as mãos em sangue dos músicos tocando por amor, mas também as mãos em sangue de músicos tocando por pouquíssimos rendimentos. O carnaval é isso tudo apenas devido aos tempos burros, brutos e primitivos nos quais vivemos, nada disso está inscrito em sua alma. Sim, o carnaval tem alma, mais que alma o carnaval tem almas, e elas se parecem com a descoberta do corpo como fonte de prazer, com a primeira feita em que se sente uma paixão, com o rir até chorar com os amigos, e com a sensação de se ver um filho brincar com um brinquedo pela primeira vez.

Odeio, e defendo que devam ser odiadas, as frases do tipo “- Se você não fez isso você não viveu.”, ou ainda “- Se você não foi a tal lugar você não sabe o que é tal coisa.” – uma pessoa pode ser feliz sem nunca ter saído de Brasiléia, no Acre, assim como pode ter viajado o mundo todo e ser infeliz – mas apesar disso sugiro a todas as pessoas que puderem e quiserem um dia brincar o cordão do Boitatá na Praça XV no Rio. Belo, belo, beleza, parte da beleza que lutamos para trazer para o cotidiano de cada ser humano no mundo pode ser encontrada lá. É um de meus pequenos exemplos para a beleza que outros encontram cada um no lugar que esteve, e o carnaval é um sábio e generoso doador de beleza nas suas mais diversas formas.

O carnaval para mim este ano no Boitatá foi o chorar mais que de alegria, foi o chorar de beleza , pura resposta ao cordão tocando Villa-Lobos no aquece, mas foi também o chorar de tristeza ao perceber que perdia para sempre um grande amor. Até a dor mais aguda da alma o carnaval toca e confere uma beleza grave, uma beleza dolorida, que continua bela, mas é sempre dor. Encontrar e perder amores é parte constituinte e inextricável do carnaval.

A palavra “melhor” é sempre carregada do que é pessoal para quem a fala, é uma das palavras que mais se enrosca com a empáfia e a pedância nos desvãos do cotidiano, mas o carnaval acha um uso certeiro e absoluto para ela, o carnaval do Brasil é o melhor do mundo.

Como não ficar obstinadamente a pensar em como fazer com que o dia-a-dia seja um pouco mais como o carnaval? Como não ponderar sobre em qual tipo de sociedade isso, entre tantas outras coisas, seria possível e em como fazer para se chegar lá? Respostas há várias, e todas são coisa outra que não o que está posto.

Viva o carnaval, vivamos o carnaval!

 

* Essa frase é de Clarice.

Anúncios

Voto de boas festas e bom Ano Novo do Cumachama.

31 dez

Todos os anos recebemos simpáticos e anódinos votos de boas festas e bom ano novo, que se compõem basicamente da manifestação- sincera ou não – de que no ano vindouro obtenhamos sorte, amor, felicidade, saúde, dinheiro e paz – com a variante ‘muita luta’ no caso dos amigos de esquerda. Não temos absolutamente nada contra essa iniciativa esperançosa e de boa índole, e, para nos afinarmos com o coro dos possíveis contentes, resolvemos fazer nossos próprios e detalhados votos.

O Cumachama deseja a tod@s:

Sorte

Não sabemos ao certo se é boa educação ou total falta da mesma desejar sorte a alguém, não sabemos também se em algum caso na história adiantou alguma coisa, mas como é o costume, vamos lá:

Que você tenha uma jardineira ou um jardim e que o mato nesse seja de trevos de quatro folhas

Que os corpos celestes se alinhem ou desalinhem de forma que todos os charlatões falem que isso é, por algum motivo, muito bom para você.

Que todos os que dão ao signo algum significado ouçam bons augúrios por pertencerem a um determinado dozeavo.

Que a data de seu aniversário somada ao seu endereço caia quatro vezes na megasena e que você ganhe em todas essas.

Que você ganhe sempre os brindes dos pacotes de salgadinho.

Que seu time seja campeão estadual e nacional, na divisão em que estiver, e que ganhe, estranhamente, a Copa do Brasil E a Libertadores.

Que as pessoas das quais você não gosta se mudem para Porto Velho.

Que seu chefe se ausente por meses por questões familiares.

Que o PFL/DEM se mude para a Guiana.

Lembrando que, como o Cumachama lhe desejou sorte com muito mais ênfase e pormenores que qualquer outra mensagem, todos os dividendos eventuais que vierem pura e exclusivamente da sorte, como ganhar na loto ou herdar uma fortuna, deverão ter um quinto destinado a este honrado blog.

Amor e sexo

Desejamos que você encontre a pessoa ou pessoas que façam seus hormônios e receptores químicos ribombarem mais que a bateria da Peruche.

Que a moral e as leis vigentes não atrapalhem a plena realização de seus fetiches e sua sexualidade

Desejamos amor livre a todos e a liberdade de exercer esse amor onde, como e com quem quiserem.

Que seu parceiro libere finalmente aquele desejo que há tempos você tenta emplacar.

Desejamos orgasmos múltiplos e regozijos plenos a todos.

Dinheiro

Que você tenha e ganhe dinheiro, mas não muito ao ponto de você ser tentado a usá-lo com responsabilidade, ou a se sentir desobrigado a lutar pelo país, e não tão pouco a ponto de você se sentir tentado a trabalhar para crápulas como os do grupo Abril. Lembrando que o excesso de dinheiro é quase sempre suor de pobre extraído.

Saúde

Que você tenha uma saúde boa, mas não perfeita, para que possa pegar uma gripe e passar uma semaninha lendo bons romances ao invés de trabalhar. Que a doença não venha, mas que se vier que seja uma leve que afaste do trabalho mas não das capacidades mentais, como conjuntivite ou catapora.

Que a saúde boa seja não só a sua, mas a de todos, observada antes pelo prisma da prevenção do que da assistência. Que o governo do seu estado não privatize 25% das vagas do SUS.

Trabalho

Que seu trabalho seja pouco e bom. Que seja menor em quantidade e maior em qualidade.

Que seja útil não só ao seu sustento, mas a diminuição das mazelas do mundo.

Que seja não apenas bem remunerado como gratificante e bem sucedido.

Liberdade

Que você seja livre dentro das amarras do cotidiano.

Que a internet seja livre e que a Lei Azeredo não passe.

Desejamos a todas as comunidades uma rádio livre.

Desejamos a todos uma imprensa livre de oligopólios e que permita liberdade de expressão de fato, feito que só pode ser obtido através da regulação.

Desejamos a todos software livre.

Paz

Aí é mais difícil, não haverá paz de verdade enquanto existir esse sistema de desigualdade, mas que você, citando a banda carioca, saiba qual a paz que você não quer conservar para tentar ser feliz.

Felicidade

Que você seja feliz não como o final de uma comédia romântica estadunidense, mas como uma criança que se apaixonou pela leitura e encontra uma biblioteca, e que um dia toda a humanidade possa o ser também.

Festas

Que as festas sejam boas, muito boas, e que ninguém tenha as fotos mais comprometedoras para colocar no facebook, flickr ou similares.

Esses são os votos do Cumachama.

————————//———————————-

Começar neste ano ano que puxava para o medíocre a escrever um blog trouxe diversas alegrias, sempre que aquele comichão beliscava no fundo do cérebro, a vontade de palpitar e escrever, era só ceder ao desejo e ver no que dava, a maior parte não deu em nada, mas mesmo assim, foi bom, não foi?.

Agradecemos a todos que escreveram, leram, palpitaram, repassaram, twitaram, feicebucaram ou tiveram qualquer relação com nosso cantinho Cumachama. Ano que vem tem mais infâmias, críticas grosseiras, textos rasos, textos longos e obscuros, questões mal resolvidas, somente no seu, no nosso, no Cumachama.

Amplexos e ósculos

Guilherme – Dezembro 2010

 

 

 

Quem não quer um Gran Torino?

7 jun

No último sábado, assisti ao filme “Gran Torino”. Trata-se de mais um exemplo da primorosa capacidade de Clint Eastwood como diretor. Outros bons exemplos que tive o prazer de conferir foram “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby) e “Cartas de Iwo Jima” (Letters from Iwo Jima). Esses três filmes, esteticamente, são um deleite para olhos, ouvidos e mente. Os diálogos, sem desperdício de palavras, mostram um diretor que privilegia a busca rigorosa pela objetividade. Não há espaço para o sentimentalismo piegas e os personagens duros e ásperos têm espaço garantido. Sempre é possível argumentar que Eastwood está a interpretar a si mesmo em todos os filmes dos quais participa. Também notei a presença de sua personalidade em uma meia dúzia de esforçados japoneses preocupados com a invasão do exército norte-americano em Iwo Jima. Não acho que seja uma boa crítica. Esteja interpretando a si mesmo ou não, o sujeito é sempre impecável. E, convenhamos, há muitos atores que nunca conseguirão construir uma boa interpretação de si mesmos.

Mas algo chamou minha atenção no texto de “Gran Torino” – algo que me fez repensar os outros filmes do outrora pistoleiro solitário. Há um grande apego pelas imagens de uma certa tradição. Homens austéros, a valorização da palavra dada, as relações de vizinhança, o cumprimento do dever, a educação ou reeducação de jovens perdidos. Parece que Eastwood gosta de burilar a imagem de uma América perdida. Talvez de um mundo perdido. Isso provoca um efeito importante em seus filmes: se a estética é sempre atraente, há que se questionar, de forma mais profunda, as narrativas. Acho que são filmes datados. A boxeadora de sobrenome irlandês e bons princípios – fidelidade e honra – não existe há muito tempo. Don King deu fim a esse tipo de personagem do mundo do boxe nos idos dos anos 1980. O “vovô” que habita o bairro tomado por imigrantes também é figura de museu. Atualmente, ele seria um republicano raivoso ou integrante do Tea Party, já teria vendido seu Gran Torino, cor hortelã, por um bom preço e, muito provavelmente, estaria tomando sol no sul da Flórida, junto de outros aposentados. No caso dos japoneses, a imagem que se cristaliza do exército imperial de Hirohito é uma beleza: à exceção de alguns gatos pingados de péssimo caráter e de certos excessos do regime, a imagem forte é a da dignidade do soldado japonês. Por extensão, a dignidade do Japão na Segunda Guerra Mundial. Recomendo ao leitor que faça uma rápida pesquisa sobre as atrocidades do exército japonês para com o exército e a população civil da China. Essas imagens do “bom guerreiro japonês” não se sustentam.

Talvez Clint Eastwood seja um retratista do modo de vida dos anos 1950. Está a construir relatos das relações perdidas de boa vizinhança. O leiteiro que passava todas as manhãs, o pequeno Jimmy a entregar o jornal, o jardineiro negro que é tratado de forma paternalista pelos moradores da Rua Carter e por aí vai. Momentos dos 1950 em uma estética renovada. Isso é bem possível. Quentin Tarantino resgatou a estrutura do western spaghetti e criou pequenas jóias, como os volumes 1 e 2 de “Kill Bill” e “Bastardos Inglórios” (Inglorious Basterds). Como ele não avisou ninguém sobre isso, nem todos repararam. Pode ser que eu não tenha percebido qual a proposta de Eastwood e esteja fiando um rosário de bobagens.

Acho que essa análise é necessária, porém, pois começa a me causar certa náusea esse apelo ao passado das grandes e boas tradições, do homem bom. Ora, o passado não era tão bom assim – eles linxavam negros lá pelas bandas do Mississippi – e, se havia algo de realmente bacana por lá, já se perdeu, nos dias de hoje. A relação de vizinhança, boa ou má, está esgarçada. A comunicação, cada vez mais fragmentada e superficial. Nesse sentido, algumas cenas de “Gran Torino” são emblemáticas. Você não pega seu jovem vizinho oriental, leva até o pequeno escritório de construção de seu amigo irlandês e consegue um primeiro emprego para o rapazinho. Este, na verdade, cadastra um currículo em alguma empresa de agenciamento de mão-de-obra na internet e, depois, vai trabalhar na linha de produção de alguma empresa de eletrônicos ou como operador de telemarketing ou como moto-boy. A empresa de construção do irlandês foi comprada por alguma grande incorporadora nos anos 1970. E o rapaz não vai dizer nem bom dia para o vizinho de coração gigante e cara feia interpretado pelo nosso bom e velho amigo Clint. Não sei se você se recorda, mas, alguns linhas acima, eu expliquei que ele está morando no sul da Flórida. A outra cena que chama a atenção é a da barbearia mantida por um descendente de italianos na casa dos 50 anos. Esse é o símbolo máximo do saudosismo: a velha barbearia do bairro. Amigo, essa também não existe mais. Ou porque está muito decadente para ser digna de ocupar a memória afetiva da “velha barbearia” ou porque foi comprada e virou uma loja de alguma marca de roupas. Na melhor das hipóteses, nunca será a barbearia de um sujeito de 50 anos. Será a cena triste de um cortador de cabelos de uns 85 anos que não se aposenta por pura teimosia.

Não quero parecer hipócrita. Acharia ótimo poder ir atrás do velho caminhão de sorvete em alguma rua ensolarada de uma cidadezinha indefinida dos Estados Unidos. Voltar para casa, todo lambuzado de baunilha e encontrar meu pai, na sala, fumando um cachimbo, lendo o jornal e escutando um disco do Nat King Cole. Minha mãe estaria preparando o jantar, umas cinco da tarde e, depois, todos juntos, assistiríamos a um programa de comédia, na CBS. O mundo ideal de Clint Eastwood é esse. Aparece sempre em seus filmes (ao menos os que vi). E esse “lugar da tradição” é, de fato, muito sedutor. Ainda mais quando retratado nos anos 2000. Fica aquela impressão de que os bons tempos voltaram.

Mas não, não voltaram. E isso joga uma bela camada de poeira e mofo em seus filmes. Os tempos são outros, os desafios também. Acho que a arte existe, antes de mais nada, para o deleite estético. Agora, também concordo com Antônio Cândido quando este diz que a análise de uma obra literária deve levar em conta “texto e contexto, numa unidade dialeticamente íntegra”. Então, concluo dizendo, sem tanta unidade, mas levando em conta texto e contexto, que Clint Eastwood é formalmente perfeito. Mas, dentro da fôrma, há uma certa dose de velharias e clichês passadistas.

Tunico.