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O Carnaval

22 fev

Cordão do Boitatá

O carnaval é vivido, muito bem vivido, mas não consigo, depois que ele passa, não pensar no quanto a vida toda não podia ser vivida mais assim. Como voltar às vestes quase mortuárias que uma sociedade do trabalho européia impôs a um país tropical como o Brasil? Como voltar ao não poder conhecer e beijar uma pessoa pela primeira vez em qualquer lugar da cidade e em qualquer hora do dia? Como voltar ao não falar com quem é desconhecido no cotidiano? Como voltar a rotina de trocar um tanto de trabalho por um pouco de dinheiro e com sorte um pouco de prestígio? Como voltar a qualquer situação na qual a música, a dança e o humor não ocupem a maior parte do dia?

O carnaval não é muitas coisas, o carnaval não é a panacéia, tampouco é uma catarse que legitima por alívio as mazelas e opressões do resto do ano. O carnaval não anula – nem temporariamente – as classes, o carnaval não anula o racismo, o carnaval certamente não anula o machismo. O carnaval não é o samba, o carnaval não é o axé, o carnaval não é o frevo, o carnaval não são as fantasias, o carnaval não é a pegação, o carnaval não é um lugar, o carnaval definitivamente não é os desfiles de escolas de samba.

O carnaval não é o que as televisões mostram, pois por gênese e evolução a televisão no Brasil não consegue fazer outra coisa que não reafirmar o poder, seja ao falar trânsito matinal ou da expansão do universo, a transmissão do carnaval está inclusa nesse vício de ser da mídia brasileira. O carnaval não é a festa da carne, o carnaval não é o feriado, o carnaval não é a cerveja nem a cachaça, o carnaval não é a música. O carnaval não tem dois lados, o carnaval não tem três lados, o carnaval não tem sequer uma infinidade de lados, tampouco é fractal, o carnaval não é descritível de forma cartesiana, mas nem por isso ele não deixa de trazer algumas certezas.

O carnaval é a promessa que as relações entre as pessoas podem ser diferentes.

É o brincar com os desconhecidos ao redor; é a senhora negra e humilde sozinha na mesa ao lado com uma porção de frango a passarinho que nome aqui já não tem mais, que para por um momento para nos explicar porque os jurados não vão entender as três camadas de significado que ela vê no desfile da Unidos da Tijuca; é o sujeito com forte sotaque do sul que olha minha fantasia e brinca “- Exagerou!”; é o olhar triste da menina que diz sem palavras que quer me beijar, mas não pode no momento. É beber um pouco de confete a cada gole e não achar ruim. É a fantasia coletiva combinada com os chegados. É o humor transbordando largamente sobre as cinzas do cotidiano. É um hoje se livrando das eternas promessas, deveres e desafios que o amanhã sempre traz, é o se ver livre do tempo pela duração de um pouquinho do mesmo. O carnaval são todas as pracinhas centrais de todas as cidades do Brasil se iluminado com risos e cores, e as cores dos risos iluminam mais e são mais belas que as das fantasias.

De muitas outras maneiras o carnaval é uma daquelas coisas para as quais a linguagem humana ainda não se encontra evoluída o suficiente para colocar em estruturas de palavras, talvez nunca esteja. O carnaval é também todas aquelas entrelinhas que não se deve esmagar com palavras*

O carnaval também é – e devemos fazer com que deixe de ser – o senhor idoso catando latinhas; a menina, uma criança mesmo, vendendo balas e tiarinhas piscantes; todos os trogloditas que arrancam beijos a força; aqueles representantes que o usam para se promover; aquelas poucas marcas de bebida que impõem seu oligopólio. O carnaval são as mãos em sangue dos músicos tocando por amor, mas também as mãos em sangue de músicos tocando por pouquíssimos rendimentos. O carnaval é isso tudo apenas devido aos tempos burros, brutos e primitivos nos quais vivemos, nada disso está inscrito em sua alma. Sim, o carnaval tem alma, mais que alma o carnaval tem almas, e elas se parecem com a descoberta do corpo como fonte de prazer, com a primeira feita em que se sente uma paixão, com o rir até chorar com os amigos, e com a sensação de se ver um filho brincar com um brinquedo pela primeira vez.

Odeio, e defendo que devam ser odiadas, as frases do tipo “- Se você não fez isso você não viveu.”, ou ainda “- Se você não foi a tal lugar você não sabe o que é tal coisa.” – uma pessoa pode ser feliz sem nunca ter saído de Brasiléia, no Acre, assim como pode ter viajado o mundo todo e ser infeliz – mas apesar disso sugiro a todas as pessoas que puderem e quiserem um dia brincar o cordão do Boitatá na Praça XV no Rio. Belo, belo, beleza, parte da beleza que lutamos para trazer para o cotidiano de cada ser humano no mundo pode ser encontrada lá. É um de meus pequenos exemplos para a beleza que outros encontram cada um no lugar que esteve, e o carnaval é um sábio e generoso doador de beleza nas suas mais diversas formas.

O carnaval para mim este ano no Boitatá foi o chorar mais que de alegria, foi o chorar de beleza , pura resposta ao cordão tocando Villa-Lobos no aquece, mas foi também o chorar de tristeza ao perceber que perdia para sempre um grande amor. Até a dor mais aguda da alma o carnaval toca e confere uma beleza grave, uma beleza dolorida, que continua bela, mas é sempre dor. Encontrar e perder amores é parte constituinte e inextricável do carnaval.

A palavra “melhor” é sempre carregada do que é pessoal para quem a fala, é uma das palavras que mais se enrosca com a empáfia e a pedância nos desvãos do cotidiano, mas o carnaval acha um uso certeiro e absoluto para ela, o carnaval do Brasil é o melhor do mundo.

Como não ficar obstinadamente a pensar em como fazer com que o dia-a-dia seja um pouco mais como o carnaval? Como não ponderar sobre em qual tipo de sociedade isso, entre tantas outras coisas, seria possível e em como fazer para se chegar lá? Respostas há várias, e todas são coisa outra que não o que está posto.

Viva o carnaval, vivamos o carnaval!

 

* Essa frase é de Clarice.

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Da utilidade da antropologia

30 set

Os leitores do Cumachama devem saber que minha formação acadêmica foi orientada para antropologia. Neste Departamento da Universidade de São Paulo, vinculado ao curso de Ciências Sociais, fiz meu mestrado. Este tratava de intolerância religiosa no Brasil e das trocas simbólicas que se estabelecem entre Umbanda e Igreja Universal do Reino de Deus. Assim, durante três anos, vivi entre templos e terreiros; pastores e pais-de-santo; descarregos. De forma ampla, além das agruras do campo, a experiência de tornar-me antropólogo foi, por diversas vezes, áspera. Entre a incapacidade de explicar aos meus parentes o que fazia, profissionalmente, da minha vida, e a impossibilidade de fornecer uma resposta direta aos amigos ultra-esquerdistas sobre a “utilidade disso para revolução”, muitos foram os dissabores.

Além das dificuldades de explicações a terceiros, foi particularmente penoso o processo de justificativa dessa escolha acadêmica a mim mesmo. Afinal, se a antropologia é uma ciência (?) fundada na compreensão da diferença, da cultura do outro e do modo de vida alheio, como intervir? Qual sua capacidade de atuação prática nas misérias do mundo? Volto ao meu mestrado. Por mais que tenha me esforçado para criticar a atuação perversa da IURD e seus representantes na demonização dos cultos afro-brasileiros, fui obrigado a ceder diante de certas limitações próprias ao exercício antropológico. O entendimento da cultura e das representações do outro enseja um grande esforço de contextualização e de valorização do que, em princípio, parece estapafúrdio. O antropólogo que deseja compreender manifestações fascistas, por exemplo, se dispõe a um exercício de convivência e entendimento dos valores de determinados grupos fascistas que é tanto mais doloroso quanto maior for sua discordância para com esses tais valores. Ainda pior: quanto maior a discordância, mais rico pode ser o resultado da análise. Não se trata, obviamente, de justificar um sistema de práticas e pensamentos que lavra no ódio. Tampouco de elaborar uma etnografia que termine com algo como “respeitem o sagrado direito fascista de espancar ciganos e gays”. O exercício de entendimento, porém, traz suas limitações práticas ao – neste caso, necessário – ativismo. Fica difícil entrevistar uma pessoa enquanto você a esmurra.

Pois bem, para que serve a antropologia? Para o exercício de divertimento de uma consciência que toma contato com uma cultura que, inicialmente, parecia exótica e incompreensível? Serve para catalogar índios, populações africanas, aborígenes diversos, punks, skinheads e feministas? Tenho feito essas perguntas a mim mesmo, cotidianamente. Agora que adentrei o mercado de trabalho de forma definitiva e tenho minhas 40 horas semanais de labuta, nada consome mais meus devaneios que a constituição de um plano prático e facilmente executável de “destruição do modo de produção capitalista”. Deste e de seu projeto totalitário, já tenho compreensão mais que suficiente. Exploração do homem pelo homem, vidas vazias consumidas pelo trabalho alienado, fetiche da mercadoria em doses cavalares e, o mais triste, pessoas que abraçam seus princípios com todo ardor, dedicando o melhor de suas habilidades na aquisição de algumas toneladas de um tipo peculiar de papel pintado, que dá acesso a tabletinhos de felicidade que começam com “i” – iPad, iPhone… Para essa coisa monstruosa que adquiriu vida própria e envolve a tudo, já não cabe mais muita compreensão. Cabe, antes, a formulação de um programa consistente de aniquilação. Até porque esse espírito já tem, para conosco, um programa de idêntico objetivo, muito bem montado e em pleno processo de implementação.

Refletindo sobre tudo isso e sobre minha formação acadêmica, refletindo sobre o esforço que fiz para entender umas três linhas de Lévi-Strauss, senti que havia retornado à mesa de um bar, com algum colega meu resmungando sobre a inutilidade da antropologia para o grande projeto de emancipação da humanidade. Antropologia e socialismo? Conta outra, Antonio.

No entanto, aproveitando a tal sabedoria chinesa (que nos é muito útil quando temos a combinação de uma semana ruim com a preguiça de realizar uma análise sociológica minimamente honesta), algo de útil há de sair das desventuras cotidianas. Uma série de fatos me fez ver que há um conceito fundamental da antropologia que é de utilidade inequívoca. Aliás, o tamanho de sua utilidade só é comparável à dificuldade de defini-lo de forma razoável. Trata-se da ideia de alteridade. Que seria isso? Fazendo um exercício antropológico pelo método confuso, vejamos, antes, o que não é isso. Alteridade não é transmutar-se no outro. Não é parar de comer carne porque viveu com um grupo de vegetarianos. Não é torcer pelo Corinthians porque passou uma semana na sede da Gaviões da Fiel. Alteridade também não se resume ao para-choque de caminhão do “não faça aos outros o que não deseja que façam consigo”. Não é, portanto, o exercício de tornar-se um bom moço porque conviveu com muita gente diferente. Alteridade é a complexa experiência de conviver com o outro, tatear seus valores, lidar com a diferença e seus atritos e sair dessa experiência transformado de algum modo. De preferência, pronto a oferecer um relato do que ocorreu. Trata-se de engajar-se em uma estrutura cultural e social que não é aquela com a qual tem a familiaridade do cotidiano, tentar colocar-se no lugar do outro, representar o papel do outro, chegar o mais perto possível do outro sem nele converter-se. E, dessa experiência, formular uma leitura dos valores alheios enquanto, ao mesmo tempo, lança luz sobre seus próprios valores.

Certo. E por que, exatamente, isso é útil? A mim parece útil porque a alteridade, num exercício bem realizado, clarifica as possibilidades de diálogo entre diferentes. Torna possível o entendimento do outro, de suas dores e alegrias, daquilo que lhe é importante, das possibilidades de comunicação produtiva em lugar da troca de ofensas, pedradas e tiros. Acho, enfim, que é o necessário exercício para o estabelecimento de bases de convívio mais fraternas entre distintas culturas e instituições sociais. Outro dia, enquanto assistia a um documentário sobre o ex-presidente João Goulart, ouvi do narrador uma frase que era mais ou menos assim: “a visita de Jango à China não tinha nenhuma relação com ideais comunistas, tratava-se, antes, de uma iniciativa de fraternidade entre os povos”. Acho que essa colocação resume bem toda a ideia do texto. Meu desejo primeiro, hoje, é o de aniquilar, de forma definitiva, o capitalismo. Mas, neste particular “momento antropólogo” – que bem poderia ser um momento “antropologia de ursinho carinhoso”, desejo um pouco mais de fraternidade e convivência digna.

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Acho que muitos de meus amigos ultra-esquerdistas não vão compreender nada do que foi dito neste texto. Isso é perfeitamente compreensível. Eles estavam fazendo a revolução socialista enquanto eu estava na aula ou na biblioteca.

Em causa própria

20 dez

O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem.

Guy Debord, A sociedade do Espetáculo. Capítulo I, tese 34. 1967.

 

A inspiração para este texto veio de uma frase que ouvi recentemente. Estava eu tomando um café, numa birosca do centro, quando vi um casal que parecia realizar uma daquelas discussões de relacionamento que, pelos semblantes dos envolvidos, temos certeza de que não terminará muito bem. O ponto final veio de uma frase do rapaz: “olha, Luciana, além de tudo, você tem uma série de características das quais eu fujo”. A moça pareceu um pouco espantada mas, no final das contas, despediram-se e cada um foi para seu lado. Ainda não foi dessa vez que pude presenciar uma autêntica briga amorosa num boteco da General Jardim, com direito a gritos, facadas, impropérios diversos e uma enorme poça de sangue. A cada dia que passa, convenço-me mais de que, de fato, os amores não acontecem, todos, nos anos 1930, numa viela perdida na fronteira quádrupla entre Madureira, Vila Isabel, Bixiga e o centro velho de São Paulo.

Por caminhos um tanto sinuosos, o fim bem-comportado dos jovens do parágrafo anterior me fez refletir sobre o mundo do trabalho. A frase do rapaz, sobre possíveis características indesejadas, somada aos olhos tristonhos da moça, me fez pensar sobre os motivos do rompimento. Ela não tinha tantas qualidades quanto ele gostaria: talvez não fosse muito sensual ou não tivesse uma formação intelectual muito sólida. Além disso, aquele olhar tristonho era bem típico daquelas figuras que cultivam chateações renitentes e irresolúveis: nada está bom, nunca, não é, Luciana? Gosta de sofrer e joga toda sua amargura nas costas dos outros. Poxa vida, moça! Com um pouco de esforço e dedicação, você conseguirá ter suas cotas de sucesso, realizações e alegrias. Cinema, beijos, sexo, mãos dadas, jantares e até mesmo um namoro. Deixe de ver o mundo por esse filtro cinza que não fica bem nem em filmes europeus de culto à depressão.

Acho interessantes essas recomendações. O sentimento pequeno-burguês aparece para fazer uma visita aos relacionamentos afetivos. Com um tanto de esforço e dedicação, qualquer um pode ser grande. Você começa vendendo pentes na feira, trabalha duro, umas 12 horas por dia, e vai juntando um dinheirinho. Depois aluga uma lojinha e, junto dos pentes, oferece umas miudezas: cortadores de unha, tesouras, linhas, agulhas, escovas, uns cremes vagabundos, toucas, incensos e um “muito obrigado, volte sempre”. Trabalhando em sua lojinha, 12 horas por dia, você vai conseguir juntar mais dinheiro e abrir uma loja maior, com produtos mais confiáveis. Procurando bem, o cliente vai achar até um “creme Nivea” e vai perceber, maravilhado, que o “Bazar do Odair” comprou uniformes para todos os funcionários. Nesse ritmo de 12 horas diárias, passados uns 20 anos, o Odair vai aparecer no caderno de Negócios do Estadão, como grande empresário do setor de varejo, e vai se apresentar como Silva Júnior, pois “Odair” é nome de quem não foi muito longe na vida. O repórter, malandro, vai fazer uma piada sobre isso e concluir que, qualquer que seja o nome do fulano, essa é mais uma história de sucesso empresarial. Deus ajuda quem cedo madruga e é empreendedor – com uma mãozinha do Sebrae.

No capitalismo flexível, esse mito pequeno-burguês aparece renovado. Você não precisa mais abrir uma lojinha e depois uma loja e depois uma lojona e depois comprar um montão de lojas. Provavelmente, lá pela terceira loja você será obrigado a abrir o capital da empresa ou pensar num modelo de franquias… Além disso, nos dias atuais, o mundo corporativo possui outras opções. O sujeito abre uma empresa/pessoa jurídica de um homem só – pois carteira de trabalho assinada é tema de ficção científica – e passa a prestar serviços para um grande conglomerado que produz sabe-se lá o que, em cidades bem miseráveis do interior da Tailândia. Ano após ano, trabalhando 12 horas por dia, vestindo a camisa da empresa e batendo as mais improváveis metas, chegará ao posto de vice-presidente-de-novos-mercados-e-gestão-de-mídias-inovadoras. Aparecerá no caderno de Negócios do Estadão como um sujeito que começou digitando formulários na empresa e, graças à muita dedicação e espírito proativo, tornou-se um executivo reconhecido por sua competência.

Os dois exemplos citados acima renderiam ótimas histórias de superação pessoal. Eu ainda vou criar uma série chamada “Rocky, um Empreendedor”. Acho que a Globo reprisaria à exaustão.

Nosso modo de produção valoriza muito a cultura da vitória, do sucesso e da realização. Creio não ser interessante que as grandes massas exploradas de trabalhadores percebam a situação na qual se encontram. Esse modelo deve permanecer envolto em grossas camadas de fetiche – inapreensível, em suas consequências, para essas massas. A exclusão, a desigualdade, a violência, a pobreza e a miséria, nenhum deles deve ter origem social/sistêmica, o modo de produção deve ser considerado justo e a vitória, seja ela qual for, deve depender exclusivamente do esforço pessoal de cada indivíduo. Em alguns lugares o direito à “busca da felicidade” está garantido na constituição. E, ora, se você tem o direito à busca da felicidade e não consegue encontrá-la, é responsável direto por tal fracasso.

No capitalismo, seja ele fordista ou flexível, o que é o fracasso? O fracasso resulta de uma combinação de fatores: pouco esforço, decisões erradas, ausência de iniciativa, falta de criatividade, recusa ao sacrifício e/ou incompetência. Todos esses elementos repousam sobre uma base moral: o Estado não lhe negou direitos e a sociedade não é desigual, foi você que dormiu demais – porque ficou na farra –, perdeu o horário e agora vai para o inferno (ou o fracasso, que é a mesma coisa).

Acho interessante notar como as pessoas não compreendem uma série de fatos óbvios. Que vencedores geram perdedores e que, em muitos casos, nem todo esforço do universo vai resultar em sucesso. A mobilidade social não é tão ampla, não é garantida constitucionalmente e não está escrito em lugar algum que será sempre ascendente. Uma oscilação mais dramática desse ser chamado Mercado, um furacão, um plano econômico exótico ou uma doença que não é coberta pelo plano de saúde e bau-bau, fio. Num Estado de Bem-Estar Social (e ele merece as maiúsculas), as chances são melhores. Num país que faz de tudo para rejeitar a universalização da saúde, bem piores. Mas não há garantias em ambos. O modo de produção capitalista é como aquele sargento do exército americano que sempre aparece nos filmes da sessão da tarde. Não importa qual a sua resposta, ela sempre estará errada.

Fiquei a pensar em Luciana e no fora que levou, por ter uma série de características das quais o sujeito foge. Também pensei nas propagandas de cerveja, na novela das oito, nos filmes da sessão da tarde, na Revista Capricho, na Playboy, nos casais que vão ao Shopping Center e no programa da Hebe. Todos alegres, contentes, de bem com a vida, buscando realizações, querendo crescer na vida, em ambientes que a tristeza não adentra e em situações em que o sucesso sempre está presente. Rapazes sorridentes com moças bonitas. Não há um alcoólatra, um depressivo, um sujeito tristonho, ninguém tem “síndrome do pânico”, não há uma pessoa com um dedo faltando, uma perna torna ou que seja vesgo. Não há suor nem secreções diversas, todos acabaram de sair do banho. Um mundo de pessoas que se cuidam, tem uma alimentação balanceada, não consomem cigarros e que, vez por outra, provam um ou dois copos de um ótimo tinto francês. Sejam bons livros ou obras de auto-ajuda, todos acabaram de ler alguma coisa muito interessante. Um mundo de gente branca, bem cuidada, heterossexual. Todos com uma vida amorosa bem estruturada, com parceiros da melhor qualidade. Famílias felizes, namoros alegres, sempre um passeio no parque, numa tarde de domingo.

O meu ponto, neste texto, é o seguinte: esse cenário afetivo asséptico, sempre presente em filmes, propagandas e programas duvidosos é a encarnação do sentimento pequeno-burguês no campo afetivo. Assim, com um tanto de esforço, cuidado e dedicação, acordando cedo, vendendo pentes e trabalhando 12 horas por dia, qualquer um pode ter o seu grande amor, caminhar de mãos dadas na praça e viver feliz para sempre. O tristonho, o fracassado, o infeliz e o tal do “loser” são, todos eles, personagens que se negam, de forma sistemática, a enfrentar seus problemas, gostam de sofrer e recusam o caminho árduo, porém seguro, que leva ao final feliz. Sabe qual o problema da Luciana?A Luciana não quer ser feliz. A Luciana quer chafurdar na tristeza. A Luciana não quer empreender o necessário esforço pessoal que garante o sucesso na busca pela felicidade. Todos sabemos que a felicidade depende exclusivamente do empenho pessoal, não é mesmo?

O homem que progride pelo próprio esforço pode progredir no mundo dos negócios, no campo afetivo e onde mais desejar. Deus ajuda quem cedo madruga e, trabalhando firme, não há como fracassar. O namoro desfeito é a derrota daquele que não se dedicou de modo suficiente à busca do final feliz.

O sentimento pequeno-burguês que impregna a maneira pela qual enxergamos o modo de produção parece impregnar, também, nosso modo de entender o campo afetivo. Procure um bom parceiro, uma pessoa que queira evoluir, transformar-se. Procure a melhor pessoa possível na gôndola desse mercadão humano. Muito cuidado com o bêbado, o amargurado e o feio. Procure, finalmente, aquele ser que quer empreender afetivamente. E muito cuidado com aqueles que dão trabalho. Não dê ouvidos ao tímido, ao ranzinza, ao rancoroso, ao amargurado, ao feio, ao chato, ao demasiado pacato, àquele que quer passar férias em Itajubá, que almoça no boteco da esquina, que se satisfaz com pouco, que não se veste tão bem, que fica feliz com três livros, quatro discos e uma bicicleta. Você merece, sempre, o melhor: aquele que quer mais, deseja ir mais longe, tem a fibra de um boxeador, é inteligente como Einstein, tem o gosto musical de um Mahler, vende tão bem quanto o Abílio Diniz, recebe trozentos mil reais por mês, possui um plano de carreira bem estruturado… Encontrando esse ser, você terá sido vitorioso em sua busca pela felicidade, terá rejeitado o fracasso e poderá se orgulhar de uma vitória afetiva obtida à custa de muito esforço e muita dedicação pessoal.

Neste instante, sinto vontade de dizer ao moço da Luciana o seguinte: nem todos ficarão ricos e nem todos encontrarão esse grande amor. Porque a pessoa que descrevi acima não existe. O modo de produção é injusto e muitos ficarão para trás, sempre. No campo afetivo, esse conjunto de imagens bizarras de uma pseudo-felicidade nos impede, cotidianamente, de encontrar a pessoa que nos trará alguma satisfação. Pessoa ou pessoas, pois ainda não tenho opinião formada sobre a poligamia. Compramos um modelo mentiroso que diz que o acúmulo de esforço resulta em riqueza. E agora abraçamos um outro modelo, igualmente mentiroso, que diz que a combinação da boa escolha com muito esforço também resultará em amor de conto de fadas. Mas podem acreditar: quase ninguém vai sair desta rico e ninguém vai encontrar uma porcaria de um príncipe num alazão branco.

Está bastante claro que este é o texto de um “nerd” que tem, por hábito, ruminar aborrecimentos. Também pode-se concluir que ele está desempregado e sem um único centavo no banco. Não se trata, porém, de uma recusa das responsabilidades individuais – minhas ou de quem lê este texto. Acredito que escolhas são possíveis, pode-se acertar mais ou menos. Em última análise, cabe, a cada um, decidir se quer o picadinho ou a calabresa. Não me venha culpar o sistema caso você tenha matado seu canário de estimação num acesso de fúria porque não passou de fase num jogo de computador. Mas é de espantar que ninguém repare no fato de que os muitos modelos e estruturas que regem nossas vidas nos impõem um sem-número de restrições. Que estão e estamos nos colocando em caixas cada vez menores e mais apertadas. Que nem todo esforço individual é capaz de dar conta de certas situações. Que nem todos ficarão ricos. Que quase todos tem um olho caído, uma amargura secreta, um pé torto, algumas dezenas de dias ruins e que todos acordam com mau hálito. Ainda ontem, fiquei a me perguntar sobre o que poderia ser útil na busca pelo socialismo. Acho que um bom passo seria encontrar um modo infalível de assassinar o espírito empreendedor pequeno-burguês. Agora também acho que, matando-o, poderíamos encontrar um pouco mais de alegria na vivência de nossa afetividade.

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Despeço-me com uma canção de um sujeito tuberculoso, mirrado, feio de doer, sem queixo, que não empreendeu em nada, não ficou rico, não deu uma boa vida à esposa, terminou sem sua grande paixão, que tomava porres homéricos e que morreu aos 26 anos. Quase sem qualidades, tinha uma certa habilidade como compositor. Fez uns 300 sambas. Definitivamente, um péssimo partido. Daqueles a que você recorre só quando acabou de ganhar um belíssimo par de chifres. Mas fique tranquilo, o rapaz é muito generoso.

 

As caixas de Antonio

16 nov

A impressão que tenho é a seguinte: ao longo de minha vida, tratei de me enfiar em caixas cada vez menores. Quando criança, vivia em uma caixa de papelão daquelas que servem para acomodar geladeiras. Hoje, sinto-me preso em uma caixinha do tamanho de um cubo mágico. Mal consigo mexer os dedos.

Eu tenho medo, medo de tudo. Acho que serei agredido de forma bárbara. Uma discussão banal sobre futebol resultará em meu completo espancamento. Tenho medo dos desconhecidos. Dos meus amigos, das minhas amigas e dos meus parentes. Acho que todos, absolutamente todos, aproveitarão a primeira oportunidade – ou o primeiro pretexto – para me esmurrar. Aqueles murros espetaculares, típicos de filmes cheios de porrada. Meu nariz vai se estraçalhar e vai jorrar sangue para todos os lados. Também tenho medo de assaltos, medo dos desconhecidos na rua, medo dos bandidos e muito medo da polícia. Sempre carreguei comigo a certeza de que terminaria meus dias preso. Por um crime que não cometi. Mas também carrego a certeza de que minhas culpas neuróticas conseguirão produzir evidências irrefutáveis, em minha consciência, de que sou culpado. Culpado, de forma inapelável, daquilo que não cometi. Tenho medo das minhas declarações de imposto de renda. Nunca soneguei um centavo de coisa alguma. Mas tenho certeza, mais uma vez absoluta, de que restará provado que sou culpado da sonegação dos centavos que não soneguei. Tenho medo de todas as mulheres, esse conceito que anda por nossas ruas e que nunca consegui compreender muito bem de que trata e como funciona. Verdadeiro pavor do asilo em que irei morar, num momento qualquer em que a idade ou meu cérebro virão a me incapacitar de vez. Medo de voltar a beber e de nunca mais beber. Quando chego à rua, espero pelo desastre que irá ocorrer e, quando retorno à minha casa, sinto-me frustrado pelo fato do desastre não haver ocorrido. Tenho medo de meus amigos. Acho que vou apanhar de uns, ser desprezado por outros e ridicularizado pelos terceiros. Medo da esquizofrenia, da malária, da filariose, do mal de chagas, da esquistossomose, da cisticercose, de diversos tipos de câncer, de todas aquelas doenças sexualmente transmissíveis que podemos adquirir caso não joguemos nosso parceiro em água fervente antes do sexo.

Eles irão me encontrar. Cedo ou tarde. E, quando esse momento chegar, vai ser horrível. Dolorido. Vão quebrar meus ossos e me submeter a torturas horrendas. Tudo isso vai ficar impresso na minha memória e, caso o desastre, a polícia, os amigos ou os inimigos não façam sua parte, o hospício o fará.

O avião vai cair, o barco afundar, o carro bater, o ônibus capotar. A comida vai estar estragada. A entrevista de emprego será um desastre. A entrevista de emprego não vai acontecer. O emprego não acontecerá. Nada acontecerá. Porque a caixa é pequena. A próxima será menor. E ainda terei outras, todas menores que as anteriores. E essas caixas vão diminuir infinitas vezes. Desafiando todos os conceitos da Física. Esta me ensinou a ter medo da nanotecnologia e das ondas de rádio e do meu celular. Todos eles serão responsáveis pelo meu câncer. Quando entrar no hospital, para tratá-lo, serei preso. Por que? Não sei. Não sei porque o avião vai cair e não sei porque ônibus capotam. Só sei que tem alguma coisa quebrada na minha cabeça. Essa coisa atrapalha tudo. Ela me convenceu, ainda muito pequeno, de que as caixas são nossas amigas. São confortáveis, nos abrigam em momentos difíceis. Não sei de onde veio essa bobagem. Odeio caixas e acho que nem deveríamos reciclá-las. Devemos enviar as caixas todas para Júpiter.

O problema, Antonio, é que você sempre arruma um jeito de ficar confortável em suas caixas. Não importa quão diminutas sejam. Você tem um dom, rapaz. E ele ainda vai acabar com você. Uma pena. Seria mais divertido ver você morrer afogado em álcool.

Frívolas

31 maio

A idéia de escrever um blog sempre me pareceu uma frivolidade para desocupados. Continua a parecer, aliás. No entanto, pretendo realizar um doutorado que aborde ciência, tecnologia e ética, de uma perspectiva antropológica. Um bom começo, então, seria escrever (em) um blog. Para tomar contato com essa tal de “cultura digital”, que faz tanto sucesso. Assim, aqui vou eu.

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Uma vez, numa sessão com meu primeiro psicólogo, disse: “escuta, na internet tem de tudo! Tudo! Um monte de pornografia diferente. Com tanta mulher pelada, nunca mais vou conseguir estudar! A internet é a casa do diabo!” Nessa época, eu estava a escrever meu mestrado. O sujeito devolveu, placidamente: “ou a casa de Deus. Por que não?” Fiquei intrigado com aquilo. Mas não pretendo me aprofundar nessa questão. Achei que seria apenas uma boa anedota para começar este texto.

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Algumas coisas chamaram minha atenção no dia de hoje. Em primeiro lugar, mais uma aberração do Estado de Israel. De fato, uma flotilha que carrega umas toneladas de arroz e aspirina pode representar o risco final de rearmamento e insurgência entre os muros da Faixa de Gaza. Ainda mais razoável que temer tal risco é a disposição em matar 9 civis em águas internacionais. Fico lembrando daqueles personagens de desenho animado – que o Guilherme imita tão bem – dizendo: “uahahá! Eu sou mal!”

O episódio todo é grotesco. A flotilha humanitária não representava nenhum risco, o uso de força foi absolutamente desproporcional e o episódio serve apenas para reforçar a imagem de intolerância e falta de disposição para o diálogo que acompanha o Estado de Israel há tempos.

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Você percebe que tem problemas para estabelecer prioridades quando fica tão chateado com um incidente de grandes proporções políticas e diplomáticas (veja acima) quanto com as trapalhadas de seu time de futebol. No final da última semana (22-29/5), o Palmeiras contratou Candinho, ex-técnico que comandou o time da Portuguesa de Desportos por uns 200 anos, para exercer a função de “gerente de futebol”. Sem ironias, parecia uma boa contratação. Conhecido por seu equilíbro e sobriedade, Candinho parece figura bem mais razoável que os bravateiros de plantão de nosso futebol. Além disso, seria um salto de qualidade dos mais importantes: considerando que o “grande” Galeano é nosso “supervisor de futebol”, Candinho, por comparação, seria uma combinação de Einstein e Buda na estrutura de poder palmeirense.

Ouvi na CBN, no começo da tarde de hoje, que Candinho não viria mais. O Palmeiras disse que as partes não chegaram a um acordo financeiro. O ex-técnico nega: pessoas do clube, que não nutrem grandes simpatias por Candinho, vetaram sua contratação. Vejam bem: meu time não consegue contratar um gerente de futebol!

Como diria o velho almirante batavo: é de lascar, Vincent!  [Ele diria isso em holandês, tá?]

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Finalmente, quero me casar com alguma mulher cruel e sádica. Tem alguma aí?

Tunico.